quinta-feira, 22 de março de 2012

Executivo da FIERJ quer virar a mesa

Uma noite para lembrar

por José Roitberg - jornalista

Ontem, dia 21 de março de 2012 aconteceu a mais curiosa reunião do Conselho Deliberativo da FIERJ, pelo menos ao longo da minha história comunitária. Eu não gosto de falar nisso, mas é necessário qualificar a minha opinião. Fui assessor de 3 presidentes: Osias por quatro anos, Sergio por dois anos e Léa por um ano. Neste meio tempo, fui eleito Conselheiro com duas grandes votações, não continuando por opção própria. Tive a vivência de atuar profundamente em três eleições da FIERJ em duas transições de presidências e viver, o dia-a-dia dos problemas da instituição, das entidades federadas e da Comunidade, por muitas vezes não sendo possível que os problemas fossem resolvidos, algo sempre frustrante.

Mas para ontem o Executivo da FIERJ, encabeçado pela sua presidente Sarita Schaffel, solicitou ao Conselho Deliberativo a inclusão da apresentação da "Proposta de novo modelo de Governança da FIERJ." Já havíamos antecipado alguns pontos e muitos leitores achavam que estávamos "chutando" ou tentando "macular" o processo. Mas era verdade. Não toda a verdade, mas só uma pequena parte dela. Ao fazer minhas perguntas na reunião, deixei absolutamente claro que além de estar lá como Zé, pessoa física, estava lá como jornalista e iria descrever o que aconteceu na reunião para a Comunidade.

Vamos direto ao ponto e depois  começamos a explicar. A presidência da FIERJ solicitou ao Conselho Deliberativo que se dissolva, que aprove uma mudança estatutária radical rapidamente antes da eleição do dia 26 de agosto reduzindo seus membros eleitos pelo voto direto pelas pessoas simples da Comunidade Judaica de 52 para "até" 6 somente, e que entregue o Conselho Deliberativo para os presidentes de "até" 30 instituições federadas entre as 64 que existem listadas. Este é o cerne. O resto é composto por detalhes mais ou menos inadequados.

Muita ênfase foi dada para a necessidade dessa aprovação ser rápida e veloz, querendo os proponentes do Executivo que a reunião de ontem já contasse como uma das três que o prazo legal estatutário exige. Proposta corretamente não aceita pela presidente do Conselho, a sra Claudia Hochman e também não aceita pelo ex-presidente Sergio Niskier. Foi nomeada uma comissão do Conselho para estudar a proposta e apresentar suas conclusões. Só para constar o atual estatuto da FIERJ saiu do cartório com sua aprovação há cerca de 30 dias somente.

Há uma inversão completa do processo democrático. O Executivo esqueceu que ele é subordinado às decisões do Deliberativo. Deliberar e executar, parlamento e presidente.  É isso que nos garantiu desde o início dos anos 1980 uma democracia muito além da democracia geral no Brasil. O Executivo pode pedir ao Deliberativo o que ele quiser. E pode ser derrotado e rejeitado pelo voto. Ou se assim os conselheiros quiserem, sair-se vencedor. 

No momento não sou Conselheiro da FIERJ, mas sou membro nomeado (pelo Conselho, sem oposição) do Comitê Eleitoral. E quando um Executivo pede a dissolução de um Deliberativo, através de um voto de suicídio coletivo, precisa estar preparado para, ao invés disso, receber uma votação de impedimento, de impeachment daqui a 30 dias em nova reunião do Conselho. Esse é o caminho natural na política para quem pretende buscar um rumo fora da democracia: vá embora! Ou se preferir enfrente o voto de impedimento e culpe o Conselho, mas vai embora. Isso é o que eu, pessoalmente e individualmente entendo por debate democrático, por voto, por representação popular. A decisão que será tomada em meu nome e em seu nome é deles e não minha. Vou respeitar essa decisão, mas não implica respeitar o que se afigura pela frente.

Jamais um presidente da FIERJ, mesmo os fortíssimos, optou por desafiar o voto de umas 140 pessoas (eleitos, representantes de entidades, consultivos, nomeados) e imaginar que 2/3 deles o apoiariam e simplesmente iriam embora. A Sra Sarita Schaffel optou por esse erro político grave. Só que ela não se pronunciou. Ela apenas apresentou quem ia apresentar o projeto. Mesmo quando o debate foi aberto após a exposição do projeto, sua opção foi a terceirização da função de presidente para o Sr Marcel Sappir, que não é nem foi Conselheiro, não é nem foi diretor da FIERJ, é um elemento externo à estrutura política comunitária que faz parte do grupo engajado por Sami Goldstein, Diretor Coordenador de Planejamento da FIERJ.

Então, de forma muito clara: uma pessoa que não faz parte da direção Comunitária, que não faz parte da política judaica em nosso estado, pede, em nome da presidente da FIERJ que os conselheiros peguem seus chapéus e vão embora. Isso é inédito e causou perplexidade.

Mas o que mais o sr Marcel Sappir disse e deixou bem claro em sua exposição do projeto que parecia ser algo do tipo: "como ele é o que expõe isto e está absolutamente integrado ao projeto, é nossa escolha para o cargo remunerado de Diretor Executivo." Bem Marcel disse que sim, estava pedindo para o Conselho votar por sua dissolução.

Marcel disse que um dos elementos entendidos nas mais de 280 horas de trabalho no projeto era que as federadas não frequentavam o Conselho ocupando suas cadeiras individuais e permanentes por que os membros eleitos do Conselho não tinham "capacidade" para compreender as questões levantadas e as necessidades das federadas e discutir estes assuntos.

Marcel também disse que outro dos motivos que complica a ação do Conselho é o voto. Segundo ele, o voto não é uma coisa adequada nas decisões, que precisam ser por consenso. Acho que vou mandar essa frase para Hugo Cháves. E para obter consenso, segundo ele, é preciso haver menos pessoas deliberando. Ainda segundo Marcel, o novo Conselho proposto vai deliberar por consenso. Isso me assusta. Por outro lado me tranquiliza, pois ao ser derrotado o projeto, Marcel, Samy e Sarita, poderão colocar mais uma linha no conceito deles de como o voto é prejudicial na tomada de decisões. Estou aqui incluindo a Sarita porque ao terceirizar o discurso que deveria ser dela, implicitamente concorda com ele. Ou será que não concorda e por isso nada falou?

Este novo futuro improvável Conselho seria composto por uma armadilha gramatical. "Até 30 entidades federadas". Ora 10 é até 30. 5 é até 30. 1 é até 30. E se forem 4 entidades federadas, como é em São Paulo, a fórmula dos 20 % de conselheiros eleitos diretamente resulta em um redondo zero.

Segundo as palavras de Samy, ratificadas na apresentação e nas respostas aos questionamentos feitos à presidência, e respondidos por Marcel, a solução para os "problemas" da FIERJ e da Comunidade é entregar sua direção e sua tomada de decisão aos presidentes de federadas escolhidas entre eles próprios. Marcel disse que isso "não é um golpe", palavras dele.

Ainda ao iniciar sua apresentação, Marcel descreveu a presidência da FIERJ como um "regime de escravidão", palavras dele. Que o presidente tem que se dedicar integralmente e abdicar de sua vida particular e comercial. A solução para isso seria a contratação de um Diretor Executivo "e seu staff" conforme organograma mostrado na apresentação que aliviariam as tarefas de presidente que poderia ser, por exemplo, "um empresário de renome."

Ao longo dos anos eu estive com, participei de entrevistas e conversei com inúmeros políticos e integrantes de cargos públicos, prefeito, secretários municipais e estaduais, deputados, vereadores, senadores, presidentes de tribunais e juízes, gente da ONU, presidentes de entidades dirigentes e antigos presidentes de federações, aliás, todos os que estão por aí, desde o Eliezer Burlá. Cargo público político não é "escravidão!" É abnegação e serviço público. Em função, essa gente toda trabalha muito além do que se pode imaginar, 7 dias por semana, dormindo 4 ou 5 horas por noite, quando dá. Isso é o NORMAL. Isso é o que o serviço público em nível de direção e liderança EXIGE. Mas ninguém é obrigado a fazer estes trabalhos. Faz quem que. As pessoas se candidatam e são eleitas para os cargos e não julgadas e condenadas ao serviço público. Se não consegue fazer o trabalho - eu não conseguiria - saia. Vá embora. Pagar para alguém fazer o que você não consegue fazer e com o dinheiro dos outros é uma terceirização estranha. E essa "escravidão atual" possui em sua estrutura sete vice presidentes, portanto o desenho da FIERJ prevê a distribuição dessa carga "escrava" por oito pessoas.

Todos estão esquecendo que a FIERJ é a representação política dos judeus no Rio de Janeiro. Ela não é a representação em nome das entidades (cada uma faz o que quer e se expressa como quer). Os temas da FIERJ são temas abrangentes: segurança comunitária, combate ao antissemitismo, imagem positiva da Comunidade, alianças políticas em nosso benefício a todos os níveis, alianças políticas com grupos de defesa dos direitos humanos, representação oficial da Comunidade nos mais variados fóruns e eventos políticos e sociais, e por aí vai. É o estatuto.

Em 1947, quando foi criada, era a FSIRJ - Federação das Sociedades Isrealitas do RJ (capital federal). Então era e federação das entidades e não das pessoas. Em poucos anos, sua primeira reforma estatutária, a trouxe para representação da Comunidade como um todo e não apenas das entidades ou sociedades. Voltar ao início? Pode? Deve?

A FIERJ não existe para regular atividades de federadas, para se imiscuir na educação e religião, nem no funcionamento de entidades assistenciais. Na exposição de Samy e depois de Marcel pareceu claro que eles imaginam uma FIERJ como facilitadora de viabilidade econômica de projetos futuros que ainda não existem (não de projetos atuais). Dizem que a existência de um Diretor Executivo encastelado ao longo das presidências eleitas fará com que os projetos que não existem se tornem projetos permanentes.

Sinceramente não vejo falta de projetos desde que entrei na FIERJ. Vejo sim a falta quase total do apoio das federadas à FIERJ. Projetos que deveriam ser permanentes como o Cadastro Comunitário, tem a RECUSA por escrito das entidades em fornecer seus cadastros individuais para serem compartilhados entre todas elas mesmas! Na apresentação a solução que as "federadas" deram é que se contrate uma empresa que fique encarregada deste cadastro "fora da FIERJ, pois não se pode confiar na federação." A mesma história absurda da terceirização e certamente um repasse de verba para a empresa de alguém conhecido de algo que poderia ser feito como parte do trabalho dos funcionários da FIERJ, como sempre foi, aliás.

Por mais que tenha se tentado, não existe a possibilidade ideológica de criar um fórum de discussão entre as sinagogas. Elas nunca aceitaram se reunir para discutir seus problemas, suas soluções, uma agenda comum a todas. Todas tem seus projetos individuais ao longo do tempo.

Marcel disse que voltou a existir o Vaad a Chinuch, o fórum das escolas, segundo ele muito bem sucedido. O original foi criado pelo Ronaldo Gomlevsky em seu primeiro mandato, cumprindo promessa de campanha e minha mãe o dirigiu por vários anos entre a década de 1980 e 1990. Coube e a mim e à Claudia a remoção apressada de sua biblioteca para a desmobilização do imóvel retomado pelo... Shormer Hatzair... Então é gozado ouvir do Marcel que o Vaad antigo, com enorme e relevante biblioteca de temas judaicos, sala de estudos e aulas, computadores, secretária e DIRETORA EXECUTIVA, ficou melhor como está hoje, sem os custos de sede, manutenção e salários. Percebeu: o projeto que pretende estabelecer cargos e salários executivos na FIERJ usa como exemplo de sucesso a reformatação do Vaad a Chinuch que tinha esta estrutura profissional e agora, sem ela, está ótimo.

Há outra armadilha aqui. Este Diretor Executivo seria contratado "por valor de mercado", uma pessoa com experiência. Bem, não há ninguém com experiência neste tipo de função, já que ela não existe. E "valor de mercado" seria o que? Como um diretor executivo de rede de pastelarias ou diretor executivo da Globo? A escolha do nome é dos tais 30 presidentes de federadas ouro.

E nessa proposta toda, mantida a eleição direta para presidente da FIERJ quem poderia se candidatar? Hoje, democraticamente, qualquer pessoa. Todos os nossos grandes presidentes foram "quaisquer pessoas", menos o primeiro o grande cientista Fritz Feigl que a dirigiu em seus primeiros onze anos. No formato proposto, há duas alternativas básicas. Na primeira apenas alguém que tenha sido membro do Conselho (do novo) "nos dois anos anteriores", portanto, quase com certeza, um presidente de entidade. Mesmo assim ele, para ter direito a ser candidato, teria que contar com a concordância de 12 destes até 30 presidentes de entidades. A outra opção é ser "qualquer um" desde que tenha a concordância de 18 dos 30 presidentes de entidades. Assim, tudo indica que será "entre eles" apenas. Note que as outras 34 entidades existentes e as que vierem a existir estão absolutamente alijadas do processo de eleição, decisão e governança. Por uma questão de ordem, Léa foi presidente do Froein Farain e Sarita, da Wizzo.

Quem decidiu que este formato é o bom? Não se sabe. É um projeto coletivo. Mas uma coisa foi deixada muito clara por Marcel Sappir "todas as pessoas relevantes foram ouvidas", mas também, "ouvimos os últimos 3 presidentes, Léa, Sérgio e Osias, não tendo havido tempo para ouvir a todos". Esquecem-se eles que Stryjer, Naum, Cymbal, Gomlevsky e até mesmo Burlá são membros do Conselho consultivo e provavelmente se colocariam contra o projeto se tivessem sido ouvidos. Mas ainda serão, pois eles tem aquele direito horrível ao voto democrático na Assembleia de reforma estatutária e deverão exercer este direito. Não quero dizer com isso que Osias, Sérgio e Léa, são favoráveis ao projeto. Pela minha conversa lá, Sérgio e Léa não parecem ser favoráveis. Osias não estava, mas esperamos que ele se pronuncie em breve.

Sendo absolutamente franco com você que lê, quero agradecer ao Paulo Maltz, vice-presidente da FIERJ, por ter me oferecido imediatamente uma cópia do projeto completo apresentado. Achei que isso foi uma ação digna e especificamente democrática. Mas eu não vou agir como os jornalistas que eu critico, scaneando o projeto e o divulgand, apesar dele ter sido entregue a mim com esta autorização implícita, jap que sou abertamente jornalista. Essa divulgação é dever da presidência da FIERJ através de seu próprio informativo. O projeto não é sigiloso, é absolutamente público então, que se publique.

Matematicamente  temos no voto 52 conselheiros que talvez não pretendam cometer suicídio, 34 entidades votantes que serão excluídas em definitivo da tomada de decisão comunitária e certamente da consideração pelo Executivo (como efeito colateral, não espero outra coisa que não o pedido de desfiliação destas 34 entidades, caso o projeto seja aprovado, pois o projeto cria uma oposição óbvia entre quem fica e quem sai), 8 ex-presidentes da FIERJ, membros do Conselho Fiscal entre as "até" 30 entidades que permanecerão na nova estrutura, algumas que certamente não concordam com nada disso, como ficou claro ontem, na reunião do Conselho que é para ser lembrada.

O meu papel como jornalista judeu comunitário, eu fiz.

Um comentário:

Eduardo Pszczol disse...

Zé,

Li tudo com calma, em parte concordo, mas outras partes eu discordo, lendo com calma, não se fala em limitar a trinta instituições, e sim nas 30 mais representativas com critérios bem definidos.

Concordo que limitar as participações comunitárias por ser um agravante, mas será mesmo que temos participações comunitárias. Desculpe-me, mas minha visão sobre nossa comunidade é um pouco pessimista.

Contratar um profissional não vejo problema, não acredito que seja solução, nem razão por escravidão, vida política é isso mesmo, mas realmente existem cargos que devem ser remunerados e terem cobrança de resultados e governança.

Pode ser por eu ser um otimista, mas não me ponho nem a favor nem contra o projeto, só não acredito que ele um bicho de sete cabeças assim como você o descreve, pelo que eu li.
Agora, se ele for a solução para nossa comunidade agir como uma comunidade eu aprovo. Que seja duradouro, tanto para se unir em prol ou contra, mas que seja uma comunidade.

Abraços.