Mostrando postagens com marcador Historia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Historia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O que é o Naturei Karta?

O Naturei Karta é apenas um dos grupos judaicos (o mais ativo nesta questão) que se opõe ao sionismo politico. Esta oposição de alguns poucos setores hassídicos místicos é tão antiga quanto o próprio sionismo, podendo ser traçada desde as primeira décadas do século 19, quando sionistas pré-hertzilianos publicaram seus trabalhos, hoje esquecidos. Para estes setores contrários ao sionismo politico, a lógica é simples: os homens não podem criar Israel.

naturei karta 1
Natuei Karta é uma seita judaica ortodoxa mística que não aceita o sionismo político e para os quais Israel deve ser dado pelo Messias e não criado pelos homens

Para os judeus antissinistas ortodoxos, o Estado de Israel tem que dado aos homens pelo Messias e ponto final. Estes setores alegam que a criação de Israel pelos homens afasta a vinda do Messias e, portanto, Israel político deve ser destruído, para que Israel místico possa existir. E se há 50 anos atrás, o NK juntava um punhado de membros nas ruas, hoje, somam vários milhares. Ainda assim são uma pequena seita dentro do judaísmo, repudiada por toda a ortodoxia sionista.

Naturei Karta significa Guardiões da Cidade. Qual cidade? Jerusalém. O grupo inteiro vivia em Mea Shearim até os últimos meses de 1938. Na semana seguinte à 10 de novembro, quando houve a Noite dos Cristais na Alemanha, Áustria e Tchecoslováquia, a Liga das Nações ia votar a Partilha da Palestina. A demonstração de força nazista fez com que a Partilha fosse cancelada. Prevendo que a Liga iria de fato criar o Estado Judeu, o movimento NK se dividiu. Um grupo preferiu ficar em Jerusalém para o que desse e outro não admitiu ficar num futuro Israel político e se mudou para Nova Iorque.

Tivesse havido a Partilha em novembro de 1938, teríamos tido uma Segunda Guerra Mundial sem Holocausto.

Não possuindo clero central, o judaísmo permite as mais diversas interpretações, grupos e seitas. O mais lamentável em relação aos Naturei Karta é o fato deles utilizarem como propaganda a frase afimando serem “Os Verdadeiros Judeus”, determinando assim, que todos os outros são falsos, e mais além, os representantes da maldade contra Deus e contra todas as pessoas.

neturei-karta-ahmadinejad
As lideranças do Natuei Karta preferem se encontrar com líderes como Ahmadinejad e hipotecar a solidariedade deles as promessas iranianas de destruição de Israel

Os membros do Naturei Karta não admitem o conceito de Povo Judeu (Am Israel), e removem do judaísmo todos os outros judeus, o que nos dá o direito absoluto recíproco, de determinar que os membros do Naturei Karta não são judues por não compartilhares dos mesmos conceitos étnicos e culturais de todos os outros judeus.

naturei karta queima bandeira de israel
Como qualquer seita fundamentalista, as crianças do Naturei Karta aprendem a odiar Israel e os outros judeus desde que nascem. Queimar bandeiras de Israel, em Jerusalém, durante as festas de Purim, é atividade normal, correta e positiva para esta gente

São muito ativos na produção de propaganda midiática das atividades deles que terminam por ser utilizadas por todos os antissemitas e antissionistas para mostras que os verdadeiros judeus, os judeus bons são antissionistas e a favor dos inimigos de Israel.

Neturei Karta2
Os antissemitas adoram as fotos produzidas pelo Naturei Karta que afirmam ser palestinos, que os judeus não são sionistas, que os sionistas não são judeus: são racistas. Ou seja, este punhado de falsos verdeiros judeus determina que todos os outros judeus são racistas

É uma situação lamentável que deveria ser repudiada abertamente por todos os outros judeus. Mas a característica democrática judaica e do Estado de Israel é tão forte que é permitido que os Naturei Karta vivam em Jerusalém apesar deles rejeitarem a cidadania israelense, as leis do país, a justiça e até mesmo a policia de Israel.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Vitrais do Palácio dos Correios em Petrópolis

Em outubro de 1841, D. Pedro II assinou o decreto de implantação dos Correios na cidade, um dos primeiros do país. O atual Palácio dos Correios é uma obra bem posterior, construída em 1922, já bem dentro da República.

CORREIO-PETROPOLIS-CENTRO-041

Sua imponente arquitetura neoclássica domina a av... no centro de Petrópolis e não há visitante que não dê uma segunda ou terceira olhada no prédio. Mas só pelo lado de fora. Pode entrar! Deve entrar! Em 2012, para a comemoração de 90 anos foi aberta uma sala da memória do local. A arquitetura do palácio já é algo notável.

CORREIO-PETROPOLIS-CENTRO-048

O hall de entrada com seu pé-direito altíssimo abriga um busto de D. Pedro II e os pisos e lustres, todos são originais de 1922.

CORREIO-PETROPOLIS-CENTRO-049

Mas a delícia para os olhos exige que o usuário dos correios ou o turista olhem para cima e contemplem um vitral oval enorme, ocupando quase todo o teto do salão de atendimento. Melhor ver nas fotos, que tentar explicar.

CORREIO-PETROPOLIS-CENTRO-052

CORREIO-PETROPOLIS-CENTRO-055

Clique para ver o vitral bem maior. É uma peça lindíssima, com tons muito interessantes de marrom. No centro, dominando a arte, uma imagem ufanista do que poderia ser uma “dama dos correios”, em uma nau remetendo às pequenas de três velas que tanto circularam pela Baía da Guanabara, com um garotinho, sobre nítidos pacotes de encomendas. Ela brande uma longa flâmula com as cores brasileiras.

Atrás vemos alguns navios parecidos com os de 1922. No detalhe inferior, postes com linhas telegráficas e na arte superior, um avião biplano já bem superado para a data de inauguração do Palácio. O conceito é simples: mostra o transporte de cargas e correspondência pelo mar, pelo ar e as mensagens via ondas elétricas.

No retângulo superior, fora da estrutura oval, temos uma série de pequenos navios.

CORREIO-PETROPOLIS-CENTRO-056

E do lado direito de quem entra, uma deliciosa escada em espiral para o segundo andar recebe luz natural através de outro enorme vitral, até que desinteressante em sua maior parte, mas com uma cumeeira espetacular.

CORREIO-PETROPOLIS-CENTRO-058

CORREIO-PETROPOLIS-CENTRO-059

Vamos concordar que a arte desta peça é no mínimo… suspeita. O que levaria o artista, ao invés de fazer um caravela (provavelmente não sabia como era), produzir uma nau tipo fenícia, como remos laterais e três grandes velas Cruzadas? Óbvio: isto não simboliza a presença de Portugal no Brasil e é um grande curiosidade.

CORREIO-PETROPOLIS-CENTRO-051

Pode ser que muitos dos leitores estejam sendo apresentados pela primeira vez à caixas-postais do universo real, e não do espaço virtual. Caixas em madeira, com fechaduras e chaves, e sem qualquer tipo de “@”. Ainda hoje, principalmente em cidades do interior, é normal que pessoas ou empresas que não possuam endereço fixo ou não queiram comprometer seus endereços alguém caixas-postais. Antigamente era a norma e não a exceção. Imagine você como um imigrante, ora nesta pensão, ora noutra. Num quarto alugado aqui, três meses em outra cidade num emprego temporário. Seu endereço fixo para contato com a família acabava sendo uma destas caixinhas de madeira numa agência de correios.

Há outros palácios e palacetes, mansões impressionantes em Petrópolis que guardam lindos tesouros arquitetônicos desconhecidos por seus habitantes e fora das vistas dos turistas.

Esse foi só um gostinho da história de Petrópolis que as pessoas não veem. Indo a Petrópolis e passando na porta, entre, e aprecie esta edificação o quanto quiser.

E nem falamos dos vitrais da catedral... Alguns dos mais espetaculares do Brasil.

© 2016 José Roitberg – jornalista e pesquisador (texto e fotos)
Membro da ABEC – Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais.

domingo, 8 de novembro de 2015

Túmulo número 3 da Acatólicos do Caju

Nova jornada para ampliar a compreensão sobre os mais de 2.000 túmulos de judeus no Cemitério de São Francisco Xavier. Desta vez a quadra mais antiga foi totalmente fotografada. Todos os túmulos estão documentados e detalhes considerados à parte. Na foto, eu estou no centro da área destinada às crianças. Como se pode ver, ela se estende ainda por mais algumas fileiras até aqueles dois túmulos semelhantes no centro lá atrás.

Um destaque ruim desta área é a falta quase em 70% dos túmulos de qualquer identificação exceto o número da sepultura. Sabemos que existe uma lista em poder da Comunal, e que há uma intenção de identificar ou identificar pela primeira vez, todos os túmulos com problemas neste cemitério. Por exemplo, estes túmulos que se veem em cimento esverdeado, já se trata de trabalho de preservação da gestão de Jayme Salomão.

tumulo-3-0-2015

Em relação aos túmulos de crianças há algumas curiosidades. Em quase nenhum há a inscrição definindo-o como sepultura perpétua, mas não foram exumados. A maioria deles é simples indicando uma origem pobre, como o que está à minha direita na foto e o outro túmulo rente ao chão, mais para a esquerda. Mas há túmulos de crianças de famílias com posses, como este em primeiro plano, com uma coluna de mármore partida e flores caídas, uma indicação universal para todas as religiões, de morte com pouca idade. Mais atrás vemos um túmulo bem alto com urna (para a alma) e uma grande estrela de david em mármore, túmulo caro até para os padrões atuais. O anjo é de um túmulo de protestante.

Naquele período histórico os judeus preservavam muito suas culturas cemiteriais dos países de origem, então podemos afirmar, quase com certeza, de que os túmulos rente a chão são de crianças de origem árabe e os outros de europeus, mesmo que sejam sefaradim.

tumulo-3-2-2015

Nas outras fotos, temos o túmulo judaico de número geral 3 da ala de acatólicos do Caju. É um daqueles casos deve nos fazer pensar sobre a propalada "pobreza geral" dos imigrantes judeus, algo que não considero como realidade, apesar de metade de minha família ter vivido com trabalhos muito aviltantes por vários anos na Argentina, Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte e outra parte com todos os homens trabalhando como Klienteltchics no Rio de Janeiro.

tumulo-3-1-2015

O túmulo do jovem Mauricio Scharfman z'l, dá a tradução do termo 'matzeiva', que é monumento, o sentido da palavra. Nasceu em 1851 na desconhecida Berlad, na Moldávia e faleceu no Rio de Janeiro, cinco dias antes de completar 28 anos, em 1879, ainda no Império Brasileiro, ainda na época da escravidão. Ao contrário de outros túmulos judaicos destes período no Brasil, há um lado do monumento perfeitamente escrito em português e outro em yídiche, com o símbolo dos coanim. Geralmente, nesta época, são túmulos em alemão e yídishe. A arte do monumento tem elementos curiosamente góticos e pouco encontrados em túmulos judaicos.

tumulo-3-3-2015

tumulo-3-4-2015

A família Scharfman ainda existe no Brasil e assim podemos notar que estão entre os primeiros imigrantes da Europa Oriental. Humildemente peço desculpas à família e espero que considerem esta pequena matéria como um resgate de sua memória familiar em benefício da história dos judeus no Rio de Janeiro.

Quando vou ao São Francisco Xavier digo um kadish coletivo para os mais de 2.000 judeus de lá. Certamente isso ajuda.

@ 2015 José Roitberg – jornalista e pesquisador, membro da ABEC
Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Rio Antigo e História do Rio de Janeiro

Lista de comunidades no Facebook e páginas de dicadas a História do Rio de Janeiro, fotos antigas do Rio de Janeiro. É uma coleção surpreendente.

Antigamente - http://fotolog.terra.com.br/antigamente1:1479 - Lyscia Braga

As Histórias dos Monumentos do Rio - http://ashistoriasdosmonumentosdorio.blogspot.com.br/ - Vera Lucia Dias Oliveira

Augusto Malta Revival - https://www.facebook.com/augustomaltarevival - Marcello Cavalcanti

Carioca da Gema 1 - http://fotolog.terra.com.br/carioca_da_gema - Roberto Tumminelli Cardoso Fontes

Carioca da Gema 2 - http://fotolog.terra.com.br/carioca_da_gema_2 - Roberto Tumminelli Cardoso Fontes

Cascadura Caminhos do Suburbio - https://www.facebook.com/CascaduraCaminhosDoSuburbio?fref=ts - Raphael Bellem

Cidades Brasileira: Memorias sem papel - https://www.facebook.com/groups/168096043378654/?fref=ts - Olinio Coelho

Coisa Lúdica - http://fotolog.terra.com.br/cartepostale - Milu Maria

Coluna Patrimônio - http://www.rioecultura.com.br/coluna_patrimonio/coluna_patrimonio.asp?patrim_cod=99 - Leo Ladeira

Conversas Cariocas - https://www.facebook.com/ConversasCariocas - Rafael Gota 

Flavio M - http://www.flickr.com/photos/flaviorio/ - Flavio Sertã Furtado Mendonça

Copacabana Demolida - https://www.facebook.com/CopacabanaDemolida?fref=ts - Claudia Mesquita

foi um Rio que passou - http://www.rioquepassou.com.br/2013/08/30/igreja-de-sao-cristovao-1916/ - Andre Decourt

Fragmentos georreferenciados da nossa história - https://frags.wiki Halley e Ana Cristina

Fotos do Rio de Janeiro Antigo - https://www.facebook.com/pages/Fotos-do-Rio-de-Janeiro-Antigo/420285374730071?fref=ts - Luiz Gustavo

Fotopaint - http://fotolog.terra.com.br/fotopaint:774 - Luiz Francisco Moniz Figueira

História das Barcas RJ - https://www.facebook.com/barcashistoria/ - Victor Grinbaum, Atilio Flegner e José Roitberg

Itaboraí Antigo https://www.facebook.com/itaborai.antigo - Rodrigo Lucio

Jornais Antigos do Rio de Janeirohttps://www.facebook.com/jornais.rio - Tiago Bandeira e Rafael Mendes

Literatura e Rio de Janeiro - http://literaturaeriodejaneiro.blogspot.com.br/ - Ivo Korytowski

Mapas Antigos do Rio - www.facebook.com/mapasantigosdorio - Eduardo Botti

Memória de São Gonçalo - www.facebook.com/memoriasg - Luciano Campos Tardock

Memórias do Arcebispado Carioca - https://www.facebook.com/memoriasdoarcebispadocarioca - Eraldo De Souza Leão Filho

Memórias do Futebol Carioca - http://www.facebook.com/MFCarioca - Raphael Belem e Tiago Bandeira

Memorias do Suburbio Carioca - https://www.facebook.com/riosuburbio?fref=ts - Tiago Bandeira

Olhar Nictheroy - https://www.facebook.com/OlharNictheroy?fref=nf - Luiz Marcello Gomes Ribeiro

Olhos de Ver - https://www.facebook.com/pages/Olhos-de-Ver-Patrim%C3%B4nio-Hist%C3%B3rico-Rio-de-Janeiro/413946725361803?fref=ts - Leo Ladeira

Ônibus Antigos do Rio de Janeirohttps://www.facebook.com/OnibusAntigosRio - Rafael Mendes

O Rio de Janeiro Que não Vivi - https://www.facebook.com/ORioDeJaneiroQueNaoVivi?fref=ts - Bruno Chaves 

Palácio Monroe - Crônica da demolição (filme) - https://www.facebook.com/palaciomonroe/ Eduardo Ades

Panoramio - http://www.panoramio.com/user/3970987 - Raul Félix de Sousa

Papélia - https://www.facebook.com/Papelia - Stella Tuttolomondo 

Rio Antigo Social CLube - https://www.facebook.com/RioAntigoSocialClube  - Renato Fernandes

Rio, City of splendour - https://picasaweb.google.com/109916640496448521543/RioCityOfSplendour?noredirect=1 - Nickolas Nogueira

Rio Comprido - Um Bairro de Passado, Presente e  Futuro? - https://http://www.facebook.com/groups/196503143784235/ - Sheila Castello

Rio de Janeiro Desaparecido - https://www.facebook.com/riodejaneiro.desaparecido?fref=ts - Cau Barata

Rio que Foi Notícia e Virou História -https://www.facebook.com/FotosDoRioAntigoQueVirouHistoria/ - José Roitberg

RJ450 http://www.vejario.com.br/blogs/rj450/ - Rafael Sento Sé

Saiba História: http://saibahistoria.blogspot.com/ Adinalzir Pereira Lamego

Saudades do Rio - http://luizd.rio.fotoblog.uol.com.br - Luiz Darcy

S.O.S. Patrimônio - https://www.facebook.com/groups/712997072095070/ - Sheila Castello - Adua Nesi - André Ferreira - Kiki Simone Reis - Marconi Andrade

Tanguá Antigo - https://www.facebook.com/Tangua.Antigo - Rodrigo Lucio

Vale das Videiras - Petrópolis - RJ - https://www.facebook.com/valedasvideiras - Stella Tuttolomondo

Zona Sul Casas e Prédios Antigos -https://www.facebook.com/ZonaSulCasasePrediosAntigos - Rafael Bokor

terça-feira, 29 de setembro de 2015

História do Cais do Pharoux

Não costumo citar a Wiki, mas desta vez é mais simples. Apesar de ser conhecido como Cais Pharoux, seu nome inicial correto era Cais do Pharoux, do caso, do sr. Pharoux, construtor do primeiro hotel decente no Rio de Janeiro Imperial.

O EMPREENDEDOR

"Acostumados ao requinte e sofisticação próprios do Velho Mundo, a Corte Lusitana tivera de aguardar dois anos até que desembarcasse no Rio de Janeiro Louis Pharoux, o herói de Marselha, que lutara ao lado de Napoleão até que terminou por exilar-se nos trópicos para começar vida nova." (Bruno Accioly)

É bom lembrarmos que as primeiras décadas do século 19 foram consolidadoras da escravatura urbana no Rio de Janeiro e Louis Pharoux era proprietário de escravos. Ele sai do Brasil antes da difusão da fotografia.



Hotel Pharoux 2
Hotel Pharoux, 1860 - Foto de R. H. Klumb (clique para ver maior)

O HOTEL

“Quando Mr. Pharoux chegou ao Rio de Janeiro, em 1816, era ainda bem moço. Vinha de França. Muito a esse Mr. Pharoux devemos. Muito. Devemos-lhe, por exemplo, a ideia da criação do primeiro hotel, com certo aspeto de grandeza e decoro, instalado entre nós, o erguido no prédio que existia no ângulo da Rua Clapp com a Praça Quinze, e que, em 1901, mostrava, em letras colossais, sobre a fachada, este letreiro: Casa de Saúde do Dr. Cata Preta. Era um imóvel de proporções avantajadas, olhando para o mar. Logrou Mr. Pharoux, entre nós, notável simpatia e larga popularidade. Rico e cansado, muito tempo, depois, vendeu o seu hotel. E foi morrer em França, isso pelo ano de 1868.” O nome do cais deve-se a este francês. (EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro do Meu Tempo. 2ª Edição, 1º Volume. Rio de Janeiro: Conquista. 1957)

desenho-do-hotel-pharoux
Desenho Hotel Pharoux, ainda não consegui atribuir a autoria, mas é ligeiramente diferente da construção verdadeira.

Pela foto, podemos ver que no térreo havia cabines para banhistas com dísticos “banhos” em várias línguas. Uma série de anúncios comerciais de venda, desde barcos até batatas coloca como referência de localização, “em frente a casa” ou “hotel do sr. Pharoux”.

Hotel Pharoux
Adolphe D´Hastrel - Praia D. Manuel Cais Pharoux 1841 -  Litogravura Coleção Geyer/ Museu Imperial de Petrópolis, publicado na web por Renata Jardim em Fragmentos-Arqueologia Histórica no Rio de Janeiro (clique no link para conhecer o trabalho dela com mais detalhes sobre o hotel, e na foto para ver maior)

A localização do hotel, inaugurado em 1825 na Rua da Quitanda e transferido para Rua Fresca em 1838, fazia muito sentido, pois os viajantes podiam sair das longas viagens nos veleiros e ir descansar em terra firme logo ali na esquina. É uma época em que o Largo do Paço (Praça XV) era com piso de terra e lama. Defronte à este hotel e para a sua direita, havia uma praia de areia, denominada Praia Dom Manuel, cuja existência ainda é citada em documentos da capitania do portos em 1847. À esquerda havia a Praia do Peixe já tradicional entreposto de comércio de pescados.

O chafariz do Mestre Valentim, que existe até hoje (sem água) foi colocado ali, para oferecer abastecimento de água gratuito não só aos trabalhadores do cais como às próprias embarcações.

1918 RIO DE JANEIRO CAES PHAROUX
O Cais do Pharoux, área de passageiros em 1918, podendo-se ver as pequenas lanchas que faziam o transbordo. Cartão postal colorizado no original.

CAIS E ESTAÇÃO DAS BARCAS

"O primeiro cais da cidade do Rio de Janeiro foi construído em 1779 pelo vice-rei D. Luis de Vasconcelos. O chafariz denominado de Mestre Valentim, construído no século XVIII, ficava à beira d’água para fornecer aos embarcados água doce, limpa e fresca. Escadarias paralelas, ao lado do chafariz, eram os locais de embarque e desembarque. Durante o século XIX, com a grande exportação de café brasileiro, o porto do Rio de Janeiro teve que adequar-se à mudanças necessárias ao aumento da carga brasileira que ia em direção a diversos países. Várias ilhotas e enseadas, comuns na costa do Rio de Janeiro, deram lugar, no início do século XX, a um porto mais moderno. O cais tomou o nome de Pharoux depois de ter sido chamado Cais da Praça do Carmo, quando ali se instalou o Hotel Pharoux.O dono do Hotel era um francês bonapartista que para o Rio de Janeiro emigrou. Os móveis franceses, os espelhos florentinos e a alvura das suas toalhas brancas faziam o estabelecimento do francês ser diferenciado dentro de uma cidade ainda desorganizada e suja, e o nome do Hotel passou a ser a denominação do local, que conhecemos por Praça XV." (Heloisa Meirelles - FIGUEIREDO, Cláudio. SANTOS, Núbia M. e LENZI, Maria Isabel. (org.)O Porto e a Cidade: o Rio de Janeiro entre 1565 e 1910.Rio de Janeiro: Casa da Palavra Produção Editorial, 2005.)

1907-Rio-de-Janeiro-Caes-Pharoux-A-RIBEIRO
Vista do Cais do Pharoux, área de passageiros em 1907. Pode-se ver o largo arruamento no que viria a ser a Praça XV para acesso de pessoas e bagagens. A iluminação deveria deixar o lugar bucólico a noite. Foto de A. Ribeiro.

"Da fusão da Companhia das Barcas Ferry com a Empresa de Obras Públicas do Brasil, organizou-se, em 1º de outubro de 1889, a Companhia Cantareira e Viação Fluminense, que passou a explorar o abastecimento d’água de Niterói, o serviço de bondes na mesma cidade (tração animal) e a navegação a vapor entre o Rio de Janeiro e a capital fluminense. Na administração do Visconde de Moraes (1903 a 1908), realizou a Cantareira grandes melhoramentos, como a construção de novos flutuantes para facilitar o embarque e desembarque dos passageiros; substituição das velhas barcas por outras mais rápidas e mais confortáveis; construção das novas estações do Cais Pharoux e da Praça Martim Afonso; eletrificação dos bondes de Niterói, etc." (DUNLOP, Charles Julius. Rio Antigo. 3ª Tiragem. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo e Gráfica Laemmert Ltda. 1963)

1911-07-29-0030-FONFON-CAIS-PHAROUX-EM-DIA-DE-PARTIDA-PARA-A-EUROPAParentes, amigos e curiosos, lotam a praça do Cais do Pharoux, para a partida de um transatlântico para a Europa. Publicado pela Fon-Fon em 29/jul/1911 em página dupla central.

O edital para a construção do inicialmente denominado Cais do Paço foi publicada no Diário de Rio de Janeiro em 7 de julho de 1842. Este novo cais seria construído sobre toda a linha do litoral ali da região, da Praia Dom Manuel à do Peixe, passando pelo Paço. O hotel ficaria mais ou menos no meio.

gragoata-cais-do-pharouxNesta foto oda barca Gragoatá vemos a indicação Cais do Pharoux abaixo do nome da embarcação.

Numa das fotos deste post, podemos observar que a linha da barca era para o "Cais do Pharoux" e não para a Praça XV. Durante décadas este cais, praticamente todo ele uma simples calçada de granito com cerca e escadas de granito indo até a água era a porta de entrada e saída de passageiros da cidade do Rio de Janeiro. Os navios ficavam ao largo e passageiros, bagagens e cargas faziam o transbordo em pequenas embarcações. Isto foi bastante documentado e podemos ver fotos de época.

RIO-DE-JANEIRO-EMBARQUE-NO-CAES-PHAROUXUma barcaça com sacas espera para ser descarregada enquanto um barco menor recebe baús de viagem de passageiros oceânicos na área de carga do Cais do Pharoux Cartão postal.

Atualmente a única pequena parte do Cais do Pharoux restante fica à esquerda da estação das barcas que ao longo dos anos foi ocupando cada vez mais a frente de toda a Praça XV, mas na praça Marechal Âncora, à direita da estação das barcas ainda existe uma grande extensão de cais, da mesma época histórica, com as escadas, os pontos de amarração dos barcos em ferro e sem cerca, pois era uma área destinada à carga.

USO MILITAR

No relatório anual do Ministério da Guerra de 1938 dá-se conta de um serviço de transporte militar denominado "Maruja", feito por lanchas com reboques, que duas vezes por dia saía do Cais Pharoux, uma para as Fortalezas de São João e Ilha da Lage, e a outra para a Fortaleza de Santa Cruz e Forte de São Luiz. Esse serviço Maruja também era responsável pela barca de transporte de água Marechal Hermes, também fazendo duas viagens diárias. No ano anterior, transportou 24.745 toneladas de água para estas unidades militares. Foi do Cais do Pharoux que partiram com despedidas emocionadas os brasileiros voluntários e estrangeiros reservistas que foram combater por seus países, ou pelos países de seus familiares logo no início da Primeira Guerra Mundial.

1914---08---15---00026---revista-da-semana---RJ---RESERVISTAS-FRANCESES-EMBARCAM-PARA-WW1-NO-CAIS-PHAROUX
Uma foto tradicional de embarque para as famílias que podiam pagar era tirada na descida das escadas do Cais do Pharoux. Esta mostra um grupo de reservistas franceses que embarcou para o campo de batalha logo no início da Grande Guerra em agosto de 1914. Nenhum deles foi identificado na foto, em matéria ou posteriormente. Não sabemos seus nomes, nem o que fizeram, nem quais deles morreram ou voltaram ao Brasil. Publicado na Revista da Semana de 17/ago/1914.

A GRANDE AVENIDA LITORÂNEA QUE NUNCA EXISTIU

"O Governo do Marechal Hermes da Fonseca (1910-1914), sendo Ministro da Viação e Obras Públicas o Dr. Barbosa Gonçalves, pensou em dar complemento ao Cais com outro rumo: O prolongamento se faria pelo canal da Ilha das Cobras, Doca da Alfândega, Pharoux, até Ponta do Calabouço, extremidade oriental do antigo Arsenal de Guerra; o Arsenal de Marinha passaria para a Ilha das Cobras, aumentada de 60.000 m2; a Avenida do Cais emendaria, assim, com a Avenida Beira mar, em Santa Luzia, oferecendo um passeio de 12 km., desde Botafogo até a Ponta do Caju." (ROSA, Ferreira da. Rio de Janeiro em 1922-1924. Coleção Memória do Rio. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.)

O TÚNEL PARA NITERÓI QUE NUNCA EXISTIU

Ainda em 1876, o engenheiro inglês Hamilton Bucknall veio ao Rio e encantou a corte imperial com um projeto espetacular: um túnel para trens ligando o Rio a Niterói. No projeto, a entrada seria exatamente no Cais do Pharoux desembocando em Gragoatá, em Niterói.

PRAÇA MARECHAL ÂNCORA

Com as obras da derrubada da Perimetral a Praça Marechal Âncora foi transformada em um imenso estacionamento público. Esta área de carga do Cais do Pharoux ficou largada desde que desativada o que a preservou.

PRAÇA MARECHAL ÂNCORA

Nas fotos podemos ver as escadas de acesso aos barcos com os degraus completamente desgastados por décadas de utilização.

PRAÇA MARECHAL ÂNCORA

É o único ponto da cidade onde houve a intenção de preservar o ultimo piso original de paralelepípdeos com os trilhos do bonde que contornava a Marechal Câmara junto ao cais.

PRAÇA MARECHAL ÂNCORATrilhos de bonde originais entre a Marechal Âncora e a Estação das Barcas. Fotos de José Roitberg 10/ago/2013

© 2015 - José Roitberg - jornalista e pesquisador

terça-feira, 15 de setembro de 2015

1986 - RIO ATERRADOR

20-de-Abril-de-1986,-Matutina,-Rio,-página-15-PROJETO-DA-PENÍNSULA-DE-IPANEMA

Não é um projeto centenário. Tem apenas 29 anos mas podia ter modificado a Zona Sul e a relação do carioca com o mar. A matéria publicada pelo jornal O Globo em 20 de abril de 1986 iniciava assim: "Pode parecer uma ideia de algum cérebro delirante, mas o projeto existe e está em estudos".

Muitas pessoas sabem que houve projetos para aterrar a Lagoa Rodrigo de Freitas e até mesmo a Baia da Guanabara inteira e quase todos ignoram tudo que foi aterrado antes. Nossa cidade maravilhosa é aterradora (com o perdão desta formação gramatical curiosa). Só algumas: Glória, Flamengo, Botafogo, Calabouço, Beira Mar, Santos Dumond, Cais do Porto e Gamboa, Caju, Ramos, Ilha do Governador, Praia Vermelha, Urca, entorno do Lagoa, Praia de Copacabana, Lagoa do Boqueirão na Lapa, os mais diversos rios, montanhas derrubadas e removidas etc...

Pela imagem oficial do projeto percebe-se que os 700 metros da Praia do Arpoador seriam extintos e em seu lugar, seriam construídos nada menos que 10 km de praias. As Ilhas Cagarras passariam a ser montanhas urbanas emoldurando a área cultural do projeto.

O pretexto era "facilitar a navegação na entrada da baía" (se bem que ali não é entrada de nada...), mas a realidade era um projeto imobiliário gigante com conjuntos comerciais, bairros residenciais, parques, hotéis, cassinos e marinas. O projeto da Península Cidade-Jardim, lembrava o "Lago Ocean", do arquiteto Sérgio Bernardes, que deveria se localizar em frente ao Jardim de Allah, com uma marina de três andares subterrâneos, lojas, teatros, cinemas e estacionamentos. Obra vetada pela Feema.

Obviamente interessada, estava a Companhia Brasileira de Dragagem com um orçamento de 450 milhões de dólares para criar o grande banco de areia. O custo total do projeto chegaria praticamente a 1 bilhão de dólares (valor de 1986), mas os incorporadores afirmavam que o custeio viria da comercialização de 8 milhões de metros quadrados da Península, 66% da área total de 12 milhões. O desenho não faz jus à área real, duas vezes maior que a área construída de Leme, Copacabana, Arpoador, Ipanema, Leblon e Lagoa juntos!

Teríamos uma Zona Sul três vezes maior do que é, e o Rei Netuno não iria protestar por perder um pedacinho insignificante do Atlântico.

Em minha modesta opinião, os dois projetos, Península e Lago Ocean, deveriam ter sido levado adiante e teríamos uma cidade bastante diferente da atual. Só a questão dos 10 km de praias oceânicas urbanas já seria um atrativo turístico inimaginável. Quem conhece outros locais de litoral como Miami e Fort Lauderdale, sabe que se avança sobre o mar com penínsulas e condomínios, sem ter uma Feema ou ambientalistas criticando a "poluição visual das praias" como no caso de ambos projetos embargados.

por José Roitberg - jornalista e pesquisador

quinta-feira, 16 de julho de 2015

História do Cemitério Israelita da Vila Rosali

O Rio Judeu que o Povo Esqueceu

E História da Chevra Kadisha – Por José Roitberg - jornalista, pesquisador e  - Membro da ABEC

A Sociedade Religiosa Israelita Chevra Kadisha é incontestavelmente uma instituição da Comunidade Judaica que trabalha integralmente dentro do tripé do Judaísmo: Torá, Avodá e Guemilut Hassadim (Religião, Trabalho e Justiça Social).

CHEVRA KADISHA BARÃO DE IGUATEMI
Prédio atual da Chevra Kadisha - RJ, rua Barão de Iguatemi 306

Cada judeu e cada instituição judaica deveria estar inserida em pelo menos uma destas três bases. Por Torá entende-se o estudo propriamente dito das leis religiosas e da sua implementação. Avodá é o trabalho, pois os judeus precisam sustentar não apenas a si próprios, mas também auxiliar as pessoas em dificuldades. Isto se estende também às instituições dedicadas à Guemilut Hassadim, que é a justiça social, no sentido mais simples de não permitir a pobreza judaica e de redistribuição de renda.

Segundo seu estatuto, a Chevra Kadisha tem por objetivo: I - Manter e administrar seus cemitérios, a fim de proporcionar aos associados e seus familiares, a assistência ritual e religiosa judaica, no caso de falecimento, designando-lhes o local para sepultamento, em cova rasa perpétua; II - Prestigiar e auxiliar, financeiramente, as instituições judaicas de cunho beneficente, filantrópico, cultural, educacional ou religioso, com existência legal no País; III - Incentivar o estudo e estimular a prática da religião judaica.

Assim, a Chevra Kadisha faz uma enorme e dignificante trabalho ao adquirir terrenos destinados a servir de campo funerário, realizar as obras necessárias para tal destinação, manter segurança e prover os sepultamentos segundo as regras ortodoxas judaicas. Ela atua rígida e especificamente dentro dos ditames da Torá, garantindo, assim, a purificação e os sepultamentos em conformidade com as regras da ortodoxia judaica. Também é extremamente ativa na redistribuição de renda dentro da Comunidade Judaica, apoiando a educação formal (escolas); a informal (os movimentos juvenis sionistas e os grupos escoteiros, enquanto existiram); festivais de dança e filmes; os programas esportivos da Macabi; o Centro de História e Cultura Judaica (vinculada à ARI - Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro); o aperfeiçoamento de professores; os projetos educacionais mais amplos, como a Marcha da Vida (visita internacional conjunto ao campo de concentração de Aushcwitz, na Polônia); a impressão de um grande número de livros de autores judeus ao longo da história (como vários dos historiadores Egon e Frieda Wolf); todas as mídias judaicas ao longo dos tempos; ciclos de palestras; impressão de livros de orações (sidurim e machzorim) para as sinagogas; comemorações como a da Independência de Israel; Dia do Gueto; Dia do Holocausto; Dia de Jerusalém; aporte nas entidades assistenciais (como os lares de idosos e das crianças); apoio consistente aos projetos de kashrut de sinagogas; à FIERJ etc. Na MENORAH (setembro de 1974) vemos que a Chevra foi fundamental para a construção da sinagoga Beth Aron, inaugurada em 1962, em Laranjeiras.

Enfim, a Chevra Kadisha usa parte de seus recursos em manutenção, limpeza, segurança e melhoria e acréscimo de suas instalações, como a necessidade de elevar muros cada vez mais altos em perímetros enormes, bem como para patrocinar projetos comunitários integral ou parcialmente, sem jamais levar em consideração a ideologia ou a linha religiosa dos pretendentes ao apoio financeiro de seus respectivos projetos. Recebe contribuição de todos os judeus e a oferece a todas a instituições. Isso é Guemilut Hassadim, na prática e na teoria.

O nome Chevra Kadisha é oriundo do aramaico e significa ‘Sociedade Sagrada’. É a instituição responsável por um trabalho fundamental e antigo entre os judeus para a purificação ritual dos corpos, a ‘tahará’, e seu sepultamento dentro das normas em cada local e cada época. Este trabalho é considerado ‘chesed shel emet’ (traduzido livremente quer dizer ‘uma boa ação de verdade’). Atualmente a tahará é feita apenas na sede da instituição, na Rua Barão de Iguatemi, e não mais nos cemitérios, embora todos eles possuam instalações muito adequadas para esta função dignificante.


COMO TUDO COMEÇOU

Yehuda Leib Scherechevswky
Rabino Yehuda Leib Schereschevsky e seus familiares na década de 1920, foto publicada pela revista Menorah (RJ)

Em 1913, chegou ao Rio de Janeiro seu primeiro rabino ortodoxo. Chamava-se Yehuda Leib Schereschevsky. Segundo a história contada por sua neta, ficou sem comer carne até 1923, por não aceitar a kashrut (as normas alimentares de higiene judaica) que existiam por aqui. Pelo que entendemos ele foi o rabino da Sinagoga Beit Yakov (denominada Associação Beth-Jacob), fundada no início de 1916, registrada em 15 de junho de 1916 e dissolvida em 1935 (os documentos da instituição foram destruídos no desabamento da Biblioteca Bialik de 1957) e foi o rabino das primeiras tentativas do estabelecimento de um cemitério judaico ortodoxo, que resultou em Vila Rosali e na criação da Chevra Kadisha, numa luta iniciada em 1918, segundo ele, devido ao grande número de enterros de judeus, vítimas da Gripe Espanhola, no São Francisco Xavier. À diferença da sinagoga das Polacas em funcionamento desde 1906, os estatutos desta associação ortodoxa definiam em seu Capítulo 2, art 2o, parágrafo 2o que os sócios deveriam "ter um procedimento moral conforme o Decálogo" (Os 10 Mandamentos).

A imigração de judeus europeus tinha sido incrementada após o final da Primeira Guerra Mundial, tanto para fugir das economias devastadas na França, Bélgica, Alemanha, Áustria, Polônia e Romênia, quanto para fugir do comunismo que estava se consolidando na Rússia.

Os sefaraditas-árabes tinham seus próprios rabinos e eles não falavam iídiche, tal fato os mantinham dissociados da nova imigração europeia. Naquele momento havia cinco cemitérios onde os judeus podiam ser sepultados.

image
Cemitério dos Ingleses a beira mar, no Saco da Gamboa em pintura de 1840

O cemitério dos Ingleses, na Gamboa, aberto em 1820 e o mais antigo do país, onde repousam cerca de 70 judeus aqui aportados a partir de 1810, quando caiu a lei portuguesa de 300 anos a qual proibia os judeus de residirem em quaisquer ‘terras lusitanas’. O Cemitério do Catumbi, a primeira necrópole pública do Brasil, descanso final do judeu David Morethson Campista, advogado, economista, político e diplomata e Ministro da Fazenda durante o governo de Afonso Pena. O São João Batista, em Botafogo, onde gente de todas as origens está embolada (inclusive mais de 400 judeus de todas as épocas).

image
O Cemitério de São Francisco Xavier (Caju), em sua configuração original a beira mar. A quadra de acatólicos fica à direita na foto. Notar a fila dupla de palmeiras imperiais que dava a volta em toda a ponta do Cajú. Foram removidas durante a construção da Avenida Brasil que exigiu o levantamento do piso desta rua em 30 cm.

O Cemitério de São Francisco Xavier (Caju), no qual foi criada uma “Quadra dos Acatólicos” para serem sepultados protestantes, anglicanos, ateus e judeus.

image
Túmulo de Sigfried Nathan, judeu, de 1873 no Cemitério de São Francisco Xavier, foto do autor

Há cerca de 2 mil túmulos judaicos apenas nesta quadra separada, sendo o mais antigo de 1873 (do alemão Sigfried Nathan). O Caju foi também o cemitério das “polacas” até 1916. Os enterros pré-1904 foram realizados pelos parentes e amigos e pelos rabinos em atividade nas mais diversas sinagogas. Não havia uma associação funerária.

1916-10-30 - 01748 - A-NOITE---INAUGURAÇÃO-DE-INHAUMA-E-ENTERRO-DE-HELENA-GOLDASTAIN-det
Foto de inauguração do Cemitério Israelita da Inhaúma (A Noite 30/10/2906)

Em 1906 as polacas criam a ABFRI - Associação Beneficente Funerária Religiosa Israelita, legalizada em 1913, e não há registros se a ABFRI controlava todos os enterros. Notícias de jornais nos mostram que ela atuava publicamente desde 1904. Porém em 1915, recebeu a autorização da Prefeitura do então Distrito Federal para a compra do terreno anexo à área de indigentes do Cemitério Municipal de Inhaúma, solicitado desde 1911. Lá se estabelece o Cemitério Israelita de Inhaúma, primeiro apenas judaico, para seus associados e a comunidade em geral, como uma forma de negócio, sem qualquer caráter beneficente. Há 770 judeus enterrados lá. Ver matéria específica neste link Cemitério Israelita de Inhaúma - Polacas

CEMITERIO-ISRAELITA-DE-INHAUMA-23-SET-2012-01
Cemitério Israelita de Inhaúma, foto do autor (23/09/2012)

Assim, até 1920 estas eram as opções para enterros judaicos: ao lado das prostitutas e cafetões, figuras tratadas como párias em vida, ou junto de cristãos. Pelo volume dos sepultamentos, sabemos que cada um decidiu para si o que achou melhor. Até aquele momento não havia qualquer tipo de questionamento sobre validade de sepultamento pela halachá (lei judaica), ou de como seria a matzeiva (o "monumento" construído sobre o túmulo). Praticamente todos os túmulos de “polacas” e outros do período pré-1940 no Caju ou em Inhaúma contêm dizeres absolutamente corretos de acordo com as normas da ortodoxia judaica. Tanto é assim que o campo de Inhaúma possui quadras separadas por sexos, tal como se pratica em vida, no interior das sinagogas ortodoxas. Norma que a Chevra Kadisha deixaria de aplicar posteriormente.

BEIT YACOV PACA DA PORTA DE ENTRADA NO MUSEU JUDAICA OD RJ pq
Dístico original da porta de entrada da sinagoga Beth Jacob preservado no Museu Judaico do Rio de Janeiro, foto do autor

Então para os imigrantes europeus as opções existentes eram inaceitáveis e se tornava necessário um cemitério próprio. O grupo dirigente da Sinagoga Beth Jacob, a qual em 1920 se localizava no número 130 da Rua Visconde de Itaúna (segundo o “Almanak Administrativo” de 1928) em cima do botequim de José Esteves Barros, considerada a principal sinagoga ashkenazita (as outras eram o Centro Israelita, no número 143 da mesma rua, ambas na Praça Onze, e a ABFRI, estabelecida do outro lado da Praça da República, o lado árabe, no sobrado do número 54), decidiu formar uma comissão. Tentaram obter um terreno junto à prefeitura do Rio de Janeiro, que respondeu negativamente, declarando que já existia um cemitério judaico municipal, o de Inhaúma.

image
O prédio original da ABFRI, Praça da República 54 ainda existe e é o azul, hoje um anexo do Tribunal de Contas (TCE), foto do autor

Foi adquirido então, através da prefeitura de Nova Iguaçu um terreno na afastada localidade de Vila Rosali, no então distrito de São João de Meriti, e criada a Sociedade do Cemitério Israelita do Rio de Janeiro, em 1º de março de 1920 (segundo a historiadora Frieda Wolff), e imediatamente passou a operar “em terreno adquirido com autorização do Governo Federal (Correio da Manhã, 03/02/1932)”.

O que deveria ser uma solução redundou em confusão. Em 9 de julho de 1921, alguns meses depois de iniciado o funcionamento de Vila Rosali, a diretoria da Sinagoga Beth Jacob se reuniu para tratar “dos assuntos da Sociedade do Cemitério Israelita do Rio de Janeiro, da qual, a sinagoga forma parte e da qual também possui imóveis que se acham na estação São João de Merity, tendo em conta que a dita Sociedade do Cemitério Israelita não preenche seus fins, como provam os casos dos enterros da Sra. Jacob Brunstein, da Sra. Nachmam Fichbein, de dois filhos de Moisés Schoichet e de um israelita desconhecido, vindo de Kalich, enterros que foram realizados em desacordo com a religião e costumes israelitas” (Correio da Manhã, 10/07/1921 – Pag. 4). Como nenhum enterro até 1920 foi em ‘desacordo’ com a religião, é lícito depreender que havia discordância com a visão religiosa dos diretores da Beth Jacob daquele momento. E estes foram os primeiros enterros em Vila Rosali. O Moisés Schoichet citado no documento não é Moisés Singer, um dos fundadores da Sociedade do Cemitério Israelita, conhecido pelo apelido de ‘Moishe Shoichet’, que além de se dedicar ao abate ritual kosher, circuncidou mais de 25 mil meninos judeus no Brasil. Segundo o Dr. Luiz Chor, neto mais velho de Singer, havia uma placa de bronze com a lista de todos os fundadores junto à entrada original do cemitério. A placa se perdeu em algum momento desconhecido, assim como a sua ata de fundação.

A sinagoga Beth Jacob demonstrou ser especificamente autoritária nos seus comunicados e simplesmente decidiu: "1º - Dissolver a Sociedade Cemitério Israelita do Rio de Janeiro. 2º - Anular desde já todas as procurações e direitos dados aos Srs. Anno Lente, Boris Kuschnir, Moisés Oineff e Samuel Oineff, para assinar ou registrar documentos, cobrar dinheiro, ou efetuar qualquer ato em nome da Sociedade Cemitério Israelita, ou da Synagoga Beth Jacob. Assina: Simja Kupermann presidente da sinagoga. (Correio da Manhã, 10/07/1921 – Pag. 4)". O mesmo texto ainda convocou "todos os israelitas honrados" para uma assembleia a fim de fundar nova Sociedade pró-Cemitério Israelita do Rio de Janeiro. Assim, com a sociedade desfeita, foram mantidos na história os nomes dos ashkenazitas que puseram a mão na massa e iniciaram os trabalhos do Cemitério Israelita de Vila Rosali.

  padaria sterenkrank em Vila Rosali foto da RaquelÚnica foto conhecida de Abraham Szterenkranc (à esq) em sua padaria em Vila Rosali, cedida por sua filha Raquel

E por falar em massa, conhecemos outro dos fundadores: foi Abraham Szterenkranc, que se estabeleceu em Vila Rosali antes do cemitério, construindo lá uma padaria (também kosher) a menos de 200 metros do portão original do cemitério. Lá foi certamente um ponto de encontro de quem ia e vinha para os sepultamentos, enquanto se esperava o trem. Segundo nos conta Rachel Szterenkranc, como seu avô residia ali, foi ele quem fez os primeiros sepultamentos, se forjando padeiro-coveiro. O prédio da “Padaria Szterenkranc” ainda existe, bem como a antiga chaminé do forno de matzá. Foi onde se iniciou a marca Tikva, consumida no Rio de Janeiro por décadas. Posteriormente a marca foi vendida para outra família que, por sua vez, estabeleceu uma nova fábrica de matzá na Rua de Santana, fechada há poucos anos. Há matéria completa sobre este tema.

image
Entrada moderna do Cemitério Israelita da Vila Rosali, foto do autor

Mas a questão Beth Jacob e a Sociedade iria se arrastar por muito tempo. Enquanto Simja Kuppermann, provável detentor da posse do terreno, queria criar uma nova Sociedade, no dia 16, a antiga convocava uma assembleia para aprovar o estatuto da Sociedade. Quem assinou a convocação foi um quinto nome do grupo original, o Sr. Samuel Linetsky, então secretário (Correio da Manhã, 28/07/1921 – Pag. 7).

image
Vista para a direita da região da entrada original, que ficava no alinhamento do arruamento por onde estão as pessoas na foto. As quadras de túmulos menores e baixos à direita são de crianças, foto do autor

Naquela reunião entrou em ação o emblemático Jacob Schneider, líder político comunitário, ativista sionista, proprietário de várias lojas de móveis na Praça Onze e na Rua do Catete. Outra nota publicada pela Beth Jacob acusou Schneider de “impor novamente como presidente, o Sr. Anno Lent e como vice, Boris Kushnir” (Correio da Manhã, 1º/08/1921). Segundo a nota, houve uma discussão danada entre os sócios presentes, nada foi resolvido e a Beth Jacob resolveu fundar sua própria sociedade – novamente – e exigir a divisão forçada dos bens imóveis. Bem, isso nunca aconteceu. Pelo que parece, consumida pelo seu autoritarismo e conceitos religiosos próprios e radicais, quem se extinguiu em 1935 foi a Sinagoga Beth Jacob, num raro edital de convocação de assembleia para dissolução e destino dos bens (Correio da Manhã, 27/04/1935 – Pag. 13).

image
Vista para o centro, podendo se ver o mausoléu do rabino-chefe Guertzenstein, mais escuro e mais afastado o Memorial Reduto dos Mártires (do Holocausto). A construção em último plano abriga entrada, secretaria, salões para o início da cerimônia de enterro (capelas) e as salas de tahará, lavagem ritual dos corpos, hoje desativadas. Foto do autor

Em agosto de 1922 a Sociedade prosseguiu se consolidando e já chamava para assembleia de prestação de contas e eleição de diretoria. Entre 1920 e 1928 foram sepultadas 280 pessoas em Vila Rosali e as fichas destes enterros se perderam. De 1929, até hoje, há um registro completo, ordenado e digitalizado. As fichas foram preenchidas em iídiche, mas em algum momento todos os nomes foram traduzidos. Sabe-se por matéria no Jornal ‘A Noite’ (11/09/1923) que polacas e caftens ofereceram pagamentos vultosos para serem enterrados em Vila Rosali, mas o local, denominado naquele momento como ‘Cemitério Israelita do Rio de Janeiro’, sempre recusou as ofertas. Em 1923, o presidente da Sociedade era o Sr. Motel Zveiter.

image
Vista para a esquerda com alguns dos túmulos mais antigos. Após o muro branco há um estreito acesso da estação de trem à rua, complicado, inseguro e desagradável, confinado entre os muros do cemitério israelita e do municipal, foto do autor

Desde 1920, o cemitério foi estabelecido já com a definição junto à Prefeitura local de que não haveria exumações. Para Inhaúma, administrado pela Prefeitura do Distrito Federal, foram publicados vários editais de exumação por falta de pagamento renovatório dos túmulos. O Estado só entenderia que os judeus não exumam seus mortos em 1925, após várias reuniões com a ABFRI. Esta é a razão de muitos túmulos antigos no Caju contarem com a inscrição E.P.P.S. (“Está Pago Para Sempre”), ou J.P. (“Jazigo Perpétuo”) em suas lápides, ou ainda outras variações sobre o mesmo tema, como: PS - Para Sempre e SP - Sepultura Perpétua.

IMG_2465-EPP-SEMPRE
Exemplo de sepultura judaica de 1894 com a pedra picada com a mensagem de não exumação. No cemitério São Francisco Xavier (RJ), túmulo 290, foto do autor

Conforme a lembrança do Sr. Herman Glanz, a primeira sede da Sociedade do Cemitério Israelita era à Rua Visconde de Itaúna, perto da esquina da Rua de Santana, para a qual se mudou em seguida. Herman ainda se recorda de ter ido a velórios na Rua de Santana. De lá todos iam para a estação de trem de Francisco Sá – hoje demolida ao final da Rua Ceará – do Ramal da Leopoldina Railway. Antes da disseminação dos telefones entre os judeus, alguém ia até a estação e pedia pessoalmente a colocação de um vagão funerário para levar o esquife. Os familiares e demais pessoas compravam passagem em um vagão normal. A viagem levava cerca de uma hora e o desembarque era em uma elevação de terra na porta do cemitério. A única entrada do cemitério foi por ali até 1960. É costume dos cemitérios israelitas ordenar o sepultamento a partir da porta. Assim, os que ficaram próximos à entrada, hoje estão nos fundos.

image
Atual estação de trem Vila Rosali, o cemitério fica à direita e não há entrada por este lado.

Em 1925 o Ministério da Viação atendeu ao pedido da Sociedade Cemitério Israelita para os trens pararem no cemitério quando levando caixões para os enterros. Desta parada surgiu a estação Vila Rosali, inaugurada em setembro de 1929: "... que os trens da Estrada de Ferro Rio D'Ouro, quando conduzirem esquifes, façam parada em frente ao cemitério de sua propriedade" (A Noite e outros, 20/10/1925). Era uma época sem muros. De fato, os muros não são vistos nem no filme de 1947 da cobertura do ‘Enterro do Sabão’, a inauguração do primeiro Memorial do Holocausto nas Américas, em 1947, objeto de matéria completa na edição 644 de MENORAH, de maio de 2013.

Não fazemos ideia das durezas do passado. A purificação ritual dos corpos (tahará) antes do sepultamento é uma necessidade na religião judaica. Mas você acha que havia água encanada em Vila Rosali em 1920? Pois não havia mesmo! Doze anos depois, em 1932, uma comissão da Sociedade Cemitério Israelita, composta pelos Srs. Emílio de Mesquita, Luiz Ferman (presidente naquele momento) e Henrique Perelberg foi recebida pelo Ministro da Educação e Saúde, o célebre Dr. Francisco Campos (‘Chico Ciência’) para pleitear água encanada (Correio da Manhã, 03/02/1932). ‘Chico Ciência’ aceitou o pedido e em breve a água de poço estaria esquecida para sempre. Segundo o pedido, os canos já estavam passados e operando na região, inclusive atravessando o terreno do cemitério, mas o departamento de águas e esgoto indeferiu uma solicitação anterior para a colocação de um hidrômetro. O asfalto só chegou às ruas do entorno e acesso a partir da Via Dutra em 1963, por intervenção do deputado estadual Gerson Berger. Com as ruas asfaltadas, o cemitério muda de configuração, constrói seu prédio atual e inverte a entrada. Por alguns anos ainda existiu uma porta estreita para a Estação Vila Rosali, mas depois foi emparedada. Não há fotos conhecidas da entrada original deste cemitério, ou de obras realizadas na região.

As atas entre 1920 e 1947 foram escritas em iídiche e não existem mais. É provável que tenham sido intencionalmente destruídas após o governo Vargas proibir todas as publicações em língua estrangeira durante a Segunda Guerra Mundial, para evitar qualquer suspeita sobre a entidade que se manteve bem discreta, quase sumida. Não existem fotos antigas. Na mídia geral aparece somente nas datas citadas nesta matéria. De 1947 até 1956, todas as atas existem em iídiche manuscrito e pelas poucas linhas, quase não há informações. São documentos muito informais e pouco informativos. A partir daí todas são completas, burocráticas, em português, com todos os dados e projetos contemplados.

image
Entrada do Memorial Reduto dos Mártires, foto do autor

Em 1948, ainda com bastante espaço no cemitério ‘velho’, mas muitos dos locais disponíveis já reservados ou adquiridos, é inaugurado o cemitério ‘novo’, a menos de um quarteirão de distância. A placa de inauguração deste novo campo também se perdeu. Em 18 de dezembro de 1949 foi lançada a pedra fundamental do ‘Reduto dos Mártires’, a construção conhecida como ‘Memorial do Sabão’. O Memorial ainda existe, bem conservado, no centro do cemitério. Há matéria completa disponível sobre O Enterro do Sabão. A única outra construção que lhe faz sombra é o grande mausoléu da família do rabino Marcos Guertzenstein (falecido na Bahia). Guertzenstein foi primeiro grão-rabino ashkenazita do Rio de Janeiro.

mausoleu rabino
Mausoléu do rabino-chefe Marcos Guertzenstein e da esposa dele, o único que existe em todos os cemitérios operados pela Chevra Kadisha do RJ, foto do autor

O ano de 1956 foi emblemático. Uma assembleia geral em 18 de novembro elege nova diretoria e decide pelos documentos em português. Foi a primeira vez que a entidade se denominou publicamente como ‘Chevra Kadisha.’ Seu presidente era Walter Weistman e o vice era Abram Erlich. Em 27 de março de 1960 findou a construção do prédio, atualmente a entrada do Cemitério de Vila Rosali Velho. A obra foi do engenheiro Pinhas Scolnik e do Dr. Guido Cohen, na presidência do rabino Moises Zingerevich.

image
Entrada do Cemitério Israelita de Vilar dos Teles, foto do autor

Com a redução de espaços disponíveis em Vila Rosali, a Sociedade adquiriu o terreno de Vilar dos Teles. Sua construção ocorreu entre 1989 e 1990, quando foi inaugurado, na gestão de Jorge Jurkiewicz e Izak Kimelblat como vice. O idealizador da obra, já falecido naquele momento, foi o Dr. Leão Fajwus Gleizer, ex-presidente. Cada um dos cemitérios é um reflexo arquitetônico de sua época e Vilar dos Teles possui uma configuração arejada, muito verde, florida, a qual transmite mais tranquilidade com as matzeivot baixas.

vilar-dos-teles-túmulos-baixos-e-espalhados-com-gramadaos

vilar-dos-teles-túmulos-floridos
fotos do autor

Contrasta com os cemitérios antigos, áridos e de certa forma sufocantes com suas matzeivot altas escuras. Em 28 de setembro de 1997 foi inaugurado o Memorial do Holocausto, projeto de Jacob B. Goldemberg, e em 8 de dezembro de 2002 uma guenizá (local para enterro de rolos de Torá danificados e outros paramentos litúrgicos). A única existente até então, no Rio de Janeiro, ficava no Cemitério Israelita de Nilópolis.

vilar-dos-teles-gueniza
Guenizá do Cemitério Israelita de Vilar dos Teles, próxima à capela, foto do autor

A sociedade era gerida por uma diretoria de 18 membros, eleita de forma democrática por três anos, e por um Conselho Deliberativo de 30 sócios. O Estatuto da Chevra Kadisha segue a orientação do Shulchan Aruch, uma compilação das regras de conduta judaica – Halachá (“Caminho”) baseada no sistema legal judaico pós-bíblico, ou seja, no Midrash, na Mishná e no Talmude.

vilar-dos-teles-capela-externa

vilar-dos-teles-capela
Capela do Cemitério Israelita de Vilar dos Teles, fotos do autor

A Chevra Kadisha criou há cerca de 30 anos uma nova metodologia de arrecadação de fundos. Foi na gestão do Sr. Max Dolinger (1986/1992), em que se adotou o critério de oferecer às famílias, exatamente em seus momentos de profunda dor, distintas localizações com variedade de preços e de possibilidades de pagamento previamente conhecidos, de tal sorte que é a família, a seu critério, quem escolhe o que entende ser possível e adequado à sua realidade, gerando assim uma absoluta tranquilidade no relacionamento da Chevra Kadisha com o Ishuv.

vilar-dos-teles-vista-parcial-em-direaçõ-ao-portão
Vista parcial de uma das quadras de Vilar dos Teles tomada em direção ao portão, foto do autor

A gestão de Nilton Aizeman (1992/1998) criou regras importantes no processo de doações. Foi quando passou a ser prévia e anualmente determinado os percentuais da verba de donativos a serem destinados para cada segmento de atividades da comunidade, dividindo o montante das verbas, cuja distribuição é: para Educação (formal e informal com 50%), Religião (30%), Assistência Social (10%) e Cultura e Lazer (10%). Esta ação, aparentemente simples, mas que requer permanente avaliação, trouxe a desejada transparência ao processo de doações da instituição.

Posteriormente, em 2007, a Chevra Kadisha instituiu normas e critérios disciplinando a apresentação e aprovação de projetos que demandassem seu apoio financeiro, de pleno conhecimento das instituições judaicas do Rio de Janeiro.

Podemos ter a certeza absoluta de que a Chevra Kadisha permanecerá em seu rumo de Torá, Avodá e Guemilut Hassadim, enquanto houver judeus no Rio de Janeiro.

Presidentes da Chevra Kadisha: 1920 - Anno Lent z'l; 1923 - Motel Zveiter z'l; 1932 - Luiz Ferman z'l; 1956 - Walter Weistman z'l; 1961/1964 - Rabino Moisés Zinguerevich z'l; 1968/1974 - Jayme Roizenblit z'l; 1974/1980 - Chaim Henoch Zalcberg; 1980/1986 - Leão Fajwusz Gleizer z'l; 1986/1992 - Max Dolinger; 1992/1998 - Nilton Aizenman; 1998/2004 - Eliezer Lewin; 2002/2008 - Mauro Rodin; 2008/2014 - Paulo Chor.

OBS 1: Nos três cemitérios gerenciados pela Chevra Kadisha no Rio de Janeiro há cerca de 28.000 sepulturas na data de fechamento deste artigo.

OBS 2: Por determinação na família, não temos autorização para publicar a foto do primeiro túmulo do Cemitério Israelita da Vila Rosali.

© 2014 José Roitberg - jornalista e pesquisador
ABEC - Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais