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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O que é o Naturei Karta?

O Naturei Karta é apenas um dos grupos judaicos (o mais ativo nesta questão) que se opõe ao sionismo politico. Esta oposição de alguns poucos setores hassídicos místicos é tão antiga quanto o próprio sionismo, podendo ser traçada desde as primeira décadas do século 19, quando sionistas pré-hertzilianos publicaram seus trabalhos, hoje esquecidos. Para estes setores contrários ao sionismo politico, a lógica é simples: os homens não podem criar Israel.

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Natuei Karta é uma seita judaica ortodoxa mística que não aceita o sionismo político e para os quais Israel deve ser dado pelo Messias e não criado pelos homens

Para os judeus antissinistas ortodoxos, o Estado de Israel tem que dado aos homens pelo Messias e ponto final. Estes setores alegam que a criação de Israel pelos homens afasta a vinda do Messias e, portanto, Israel político deve ser destruído, para que Israel místico possa existir. E se há 50 anos atrás, o NK juntava um punhado de membros nas ruas, hoje, somam vários milhares. Ainda assim são uma pequena seita dentro do judaísmo, repudiada por toda a ortodoxia sionista.

Naturei Karta significa Guardiões da Cidade. Qual cidade? Jerusalém. O grupo inteiro vivia em Mea Shearim até os últimos meses de 1938. Na semana seguinte à 10 de novembro, quando houve a Noite dos Cristais na Alemanha, Áustria e Tchecoslováquia, a Liga das Nações ia votar a Partilha da Palestina. A demonstração de força nazista fez com que a Partilha fosse cancelada. Prevendo que a Liga iria de fato criar o Estado Judeu, o movimento NK se dividiu. Um grupo preferiu ficar em Jerusalém para o que desse e outro não admitiu ficar num futuro Israel político e se mudou para Nova Iorque.

Tivesse havido a Partilha em novembro de 1938, teríamos tido uma Segunda Guerra Mundial sem Holocausto.

Não possuindo clero central, o judaísmo permite as mais diversas interpretações, grupos e seitas. O mais lamentável em relação aos Naturei Karta é o fato deles utilizarem como propaganda a frase afimando serem “Os Verdadeiros Judeus”, determinando assim, que todos os outros são falsos, e mais além, os representantes da maldade contra Deus e contra todas as pessoas.

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As lideranças do Natuei Karta preferem se encontrar com líderes como Ahmadinejad e hipotecar a solidariedade deles as promessas iranianas de destruição de Israel

Os membros do Naturei Karta não admitem o conceito de Povo Judeu (Am Israel), e removem do judaísmo todos os outros judeus, o que nos dá o direito absoluto recíproco, de determinar que os membros do Naturei Karta não são judues por não compartilhares dos mesmos conceitos étnicos e culturais de todos os outros judeus.

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Como qualquer seita fundamentalista, as crianças do Naturei Karta aprendem a odiar Israel e os outros judeus desde que nascem. Queimar bandeiras de Israel, em Jerusalém, durante as festas de Purim, é atividade normal, correta e positiva para esta gente

São muito ativos na produção de propaganda midiática das atividades deles que terminam por ser utilizadas por todos os antissemitas e antissionistas para mostras que os verdadeiros judeus, os judeus bons são antissionistas e a favor dos inimigos de Israel.

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Os antissemitas adoram as fotos produzidas pelo Naturei Karta que afirmam ser palestinos, que os judeus não são sionistas, que os sionistas não são judeus: são racistas. Ou seja, este punhado de falsos verdeiros judeus determina que todos os outros judeus são racistas

É uma situação lamentável que deveria ser repudiada abertamente por todos os outros judeus. Mas a característica democrática judaica e do Estado de Israel é tão forte que é permitido que os Naturei Karta vivam em Jerusalém apesar deles rejeitarem a cidadania israelense, as leis do país, a justiça e até mesmo a policia de Israel.

domingo, 30 de março de 2014

Clube dos Cabiras? Clube o quê mesmo?

O Rio Judeu Que o Povo Esqueceu

Como uma associação de jovens judeus que teve grande representatividade entre 1939 e 1955, com 2.000 sócios, some sem deixar rastros? Quem a frequentava com 20 anos de idade em 1955, hoje tem 78, portanto, há cabirenses quietos por aí. Alguns, certamente ativistas de outras instituições. Esperamos que este artigo os tire da zona de conforto e os permita trazer novas memórias e quem sabe, fotos, carteirinhas, estórias legais.

 

Definições equivocadas em livros anteriores

Quase tudo que abordamos nesta coluna parte dos erros publicados anteriormente pelos historiadores e tornados verdade através de sua replicação histórica em teses de mestrado e doutorado. Com o Clube dos Cabiras, não é diferente. O jornalista Henrique Weltmam, definiu na página 51 de seu livro "A História dos Judeus no Rio de Janeiro", que o Cabiras "surgiu em 1929 a partir de uma dissidência do Clube Juventude Israelita (Iuguend Bund)", criado em 1919 e terminado em 1929.

Esta é a história que recebemos e contamos até hoje: os jovens de esquerda teriam saído do ambiente sionista e foram cuidar de seus rumos e interesses. O ano de 1929 é até emblemático, mas estranho para isso. Além de termos crise econômica, é o ano dos grandes ataques contra judeus na Palestina, que aglutinaram a Comunidade.

Em seu livro "Paisagem Estrangeira", a professora e historiadora Fania Frydman situa o Cabiras na Rua Álvaro Alvim 21 (edifício Regina, existente até hoje), mas o clube, de fato ficava defronte, no número 24, onde há um prédio mais moderno, conforme consta em notas publicadas nos jornais chamando para eventos entre 1948 e 1955. Fania nos conta que em 1941 uma cisão do Cabiras formou o Grêmio Cadima (Avante) que se reunia no Hotel Elite. Quanto ao Cabiras, dá informação diferente da de Weltman. A origem teria sido um cisão de esquerda do Iidishe Iugend Haim (Grêmio Juventude Israelita). Mas este funcionou apenas entre 1928 e 1934 na rua Hadock Lobo 142. E nada mais havia sobre os Cabiras. Ambos clubes "Iugend" eram iidishistas e segundo sabemos, praticamente todos os iidishistas tinham uma alinhamento de esquerda.


Viu outras matérias e veio nos procurar

Eis que surge, o sr. David German, com seus 95 anos de idade e nos procura, por ter lido os primeiros artigos desta coluna. E David afirma: "Eu fundei o Cabiras, posso de contar tudo!" Nós o recebemos, juntamente com dra. Esther Libergot, química, ativista do clube no pós-guerra, e gravamos em vídeo o depoimento dos dois.

David se formou em odontologia e foi dentista por 60 anos. Inicialmente ele frequentava as atividades para jovens judeus na Bené Herzl, fundada em 1921, a instalada em 1929 na Rua Conselheiro Josino 14, há 50 metros de onde anos depois, em 1932 se inauguraria o Grande Templo Israelita. O prédio foi planejado pelos judeus sefaraditas para ser um Centro Judaico, com pequena sinagoga, salões, salas para reuniões e outras atividades.

Muitos "clubes" e instituições judaicas tiveram como endereço o número 14, inclusive a Federação das Sociedades Israelitas do Rio de Janeiro (atual FIERJ), de 1947.

David, que passou pela história da Comunidade Judaica dos anos 1930 até hoje, concorda que nossos historiadores "agiram politicamente e sectariamente" ao escrever suas versões do que deveria ser uma só história.

1939 e não 1929…

O Cabiras foi fundado em 30 de janeiro de 1939, dez anos depois da data aceita até hoje. Caso contrário, nosso querido David teria sido diretor aos 12 anos de idade, e teria hoje 115 anos...

O nome "Cabiras" é um dos mistérios comunitários. Seria uma corruptela de "guiborim (heróis em hebraico)", como pretendem uns? Como ficava na Bené Herzl teria algo a ver com uma região do norte da Turquia que leva este nome?

David German é categórico ao afirmar que ele e mais quatro amigos se juntaram e resolveram criar um clube judaico "porque naquela época, parece que não havia nenhum."

Havia a BIBSA - Biblioteca Sholem Aleichem, na Praça Onze, fundada sionista em 1915, mas já completamente comunista em 1939. E não era um clube para jovens. Os outros clubes, como vimos deixaram de existir anos antes.

Ao longo do século 19 e nos primeiros 60 anos do 20, o Rio de Janeiro teve centenas de clubes por afinidade em todo seu espectro social.

Os nomes sugeridos foram: Clube da Juventude Judaica Brasileira, Clube dos Judeus do Brasil, que David se lembre, além de outros. A escolha do nome ficou para a reunião seguinte, no voto. "Cheguei em casa e comecei a folhear a 'História da Literatura Universal', vi lá uma estória dos gregos com um asterisco. Fui lá e vi 'cabiras' em hebraico 'cabirim', poderosos, fortes etc. Cabiras... Bom, isso soa bem. Levei na reunião seguinte. Dei lá o nome do Clube dos Cabiras. Ah.. Pegou! É esse!" O nome foi mantido e foi um sucesso até o desaparecimento do clube entre 1955 e 1956.

Na verdade, os Cabiras gregos eram considerados como "o princípio de todas as coisas, o símbolo da geração", teriam dado origem aos deuses.

Pelo que David se recorda, além dele, fundaram o clube: David Lerner, Hoinef (não se recorda o primeiro nome), Marconi Nudelman e duas moças das quais também não lembra o nome. Todos oriundos do Colédio Sholem Aleichem. David German era o mais velho entre eles e sempre gostou das atividades sociais e teatro. Foi produtor e diretor do grupo de teatro do clube. Foram várias peças e a que o marcou foi "Jankel Boile" em 5 atos falados em íidiche só pelos jovens amadores do Cabiras: "falavam, mas não sabiam o que estavam falando e cantando. Havia dança de camponeses, uma peça mesmo. Alguns tinham uma ideia do que era. Mas a plateia, formada pelos pais, entendia o que era dito," arremata David. Precisou de três meses de ensaios. As apresentações aconteciam em teatros alugados e não no salão da Bené Herzl. Normalmente as peças tinham apenas duas apresentações devido ao custo do aluguel dos teatros. Apenas duas peças foram produzidas em íidiche, as outras eram em português. Boa parte delas era teatro infantil.

cabiras web 1Elenco da peça “Não Consultes Médico”, encenada pelo grupo de teatro do Cabiras. O elenco está sentado e da direita para a esquerda temos a diretoria dos anos iniciais: David German (com charuto), Max Goldkorn, Isaac Jaimovich, Abraão, Jaime Tiomno, Jaques Gutemberg e Marconi Nudelman. 

Como David Guerman era da direção do Cabiras e frequentava ativamente aquela região, ele pôde nos dar um testemunho precioso sobre a interação entre sefaraditas e ashkenazitas, separados por 50 metros, veja: "A parte da juventude, social, que estava no Bené Herzl não tinha nada a ver com as festividades judaicas. Ali era só dos sefaraditas, onde eles rezavam etc. O Clube dos Cabiras alugava a sede do Bené Herzl para as atividades dançantes, palestras, conferências e tudo mais em dias certos do mês."

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Planta do segundo piso da Rua Conselheiro Josino 14, Bené Herzl

A planta original deste prédio ainda existe sabemos que a sinagoga de uso diário ficava à esquerda de quem subia as escadas com apenas 15 metros quadrados. Oposta a ela, do outro lado da escada um espaço semelhante designado como "buffet". A pequena sinagoga se justifica, pois as outras sinagogas sefaraditas estavam em plena atividade em várias partes da cidade. A Shel Guemilut, naquele momento histórico ficava na rua Francisco Muratori 33 (de 1935 a 1949 - o prédio ainda existe) a cerca de 15 minutos de caminhada da Bené Herzl.

O salão de festas possuía 155 metros quadrados com quatro colunas centrais quatro pequenas janelas laterais e três grandes janelas frontais com 2 metros de largura para uma. É neste salão que foram dadas dezenas e dezenas de palestras e conferências. É neste espaço que aconteceram vários bailes por ano até 1947 e onde vários casais judeus se conheceram e se beijaram pela primeira vez. Nas festas judaicas, segundo David, se colocava cadeiras no salão e ele se transformava todo em sinagoga. A função de um clube de jovens judeus de oferecer um local onde casais judeus pudessem se formar, foi plenamente satisfeita pelo Cabiras.

cabiras web 5Rua Conselheiro Josino 14, Bené Herzl alguns dias antes de sua inauguração

Os jovens judeus foram se associando. O Cabiras chegou a ter 2.000 sócios jovens judeus que iam lá para dançar e para festividades. As palestras literárias eram de alto nível, com jornalistas, escritores, senadores, palestrantes de várias partes do mundo, "mas ia pouca gente." As festas mais importantes eram de reveillon e carnaval, sempre lotadas. Paralelamente havia o Clube das Damas Israelitas (sefaradi, criado em 1929 no número 14, também) que fazia o mesmo tipo de festas e muitas delas, beneficentes. "Eu acredito que naquela época o Cabiras era o único clube onde só tinha jovens judeus", disse David. Era comum que os jovens participassem dos bailes em vários clubes.

Inicialmente as festas eram todas no número 14, mas rapidamente os bailes principais de Carnaval precisaram de espaços maiores e o enorme salão do Botafogo, era alugado anualmente. Nos anos 1950 até mesmo o grandioso espaço do High Life seria usado para o carnaval dos Cabiras. O clube também promovia concursos de dança, e David venceu um deles com sua partner (parceira), Lygia Hazan, mãe de nosso Ronaldo Gomlevky e colunista da Menorah.

Cultura, dança, diversão e alienação

O clube foi criado nas vésperas da Segunda Guerra Mundial e era de se esperar que uma associação que reunisse este número enorme de judeus para a comunidade dos anos 1940, talvez quase todos os jovens que havia, tivesse um papel destacado durante a guerra, que suas palestras, pelo menos levassem a entender o que acontecia com os judeus, mas não foi o que aconteceu. Naquele momento a Comunidade judaica tinha tamanho semelhante ao atual. Mesmo nos dias de hoje, vemos as instituições culturais judaicas com suas fortes agendas de palestras dissociadas das ameaças aos judeus e ao Estado de Israel. São coisas que não se discutem, preferindo seus dirigentes, as amenidades da literatura, da poesia, da sociologia, da música e do teatro, coisa que os cabirenses fizeram até após a guerra.

Não há nos jornais notícias sobre o clube. Mas há dezenas de publicações de notas de divulgação de suas principais conferências, assim sabemos que enquanto os judeus eram trucidados na Europa Central, nosso jovens judeus recebiam muita literatura, música e teatro, e pouca política e situação mundial. Havia times de vôlei, basquete, ping-pong e outros esportes disputando campeonatos com outras quatro instituições judaicas.

Como historiador não me cabe julgar. Como jornalista me cabe. E nunca se sabe o que será encontrado pela frente. Então julgue você. Em 20 de dezembro de 1942, o Diário de Notícias em suas página 16, traz uma nota: "A festa esportiva do Clube dos Cabiras - O clube dos Cabiras, ora sob a ação da nova diretoria, vem, cada vez mais, ampliando suas atividades nos setores esportivo e social. Concretizando o programa traçado para mês corrente a agremiação da rua Conselheiro Josino promoverá, na manhã de hoje, em um pitoresco local da Gávea, um churrasco-dançante, sendo que antes serão realizados jogos de basquetebol, voleibol, além de provas de natação em uma praia próxima ao local da original festa. Um ônibus especialmente fretado, partirá do Hotel Leblon, às 8 horas da manhã, conduzindo a caravana de cabirenses ao recanto gaveano, escolhido para o churrasco." David acabou de ler esta nota. Provavelmente lembrou-se desta atividade e certamente sabe onde eu vou chegar.

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20 de dezembro de 1942: muita diversão durante o Holocausto

Em dezembro de 1942, já haviam sido trucidados à pauladas, golpes de barras de ferro, tiros, fogo, mortos pela fome, pelo frio e pelas doenças sem possibilidades de obter remédios, mais de 2 milhões de judeus na Europa, entre eles, muitos parentes dos judeus do Rio de Janeiro. Por anos os jornais vinham publicando o massacre de judeus e o extermínio de vilas inteiras. Poderiam ter pago uma nota de repúdio e apoio, mas nenhuma foi publicada de 1939 a 1945. Um churrasco-dançante naquele momento histórico é a demonstração de que a alienação dos problemas dos judeus que vemos hoje, havia ontem. Os filhos e netos seguem os pais.

Perguntei ao querido David o que os judeus faziam aqui durante do Holocausto ele inicialmente afirmou que não sabiam o que estava acontecendo. Confrontei-o com a informação de que tudo era publicado nos jornais, em português, quase que diariamente. E a comunidade lia? O discurso de David, muda: "Lamentava, provavelmente. O que você acha que faziam? Lamentavam entristecidamente o que faziam com os judeus. O que você acha que podiam fazer? Quando havia uma notícia mais contundente se lia no jornal e se discutia no clube e torcendo vivamente para que os soviéticos chegassem à Polônia e resolvessem a questão. Eu sentia muito e ficava revoltado com esta coisa. Mas quem é que não fica?"

As palestras sobre a temática da guerra que conhecemos hoje, são: "A questão racial no pós guerra" em agosto de 1943 pelo prof Artur Ramos, "A guerra de todas as raças"; em setembro de 1943 pelo ser Mario Martins; e "A ciência e o antissemitismo", em novembro de 1943 pelo emblemático Isaac Izecksohn. Em 1944 o Cabiras se incorpora à Liga de Defesa Nacional junto com outras dezenas de agremiações de jovens do Rio de Janeiro.

Clube da esquerda comunista, ou não?

O Cabiras tinha tendência esquerdista e teve problemas durante o Governo Vargas, exatamente quando foi fundado e cresceu. E David começou a nos explicar como isso funcionava. "Eu nunca tive cor política. Ah, são sionistas? Eu faço isso para eles. Ah, são comunistas, eu faço isso para eles. Para mim tanto faz um ou outro. Eu quero fazer o que eu gosto de fazer (teatro). Os sionistas são judeus, os esquerdistas são judeus, eu trabalho pros dois."

"O Clube dos Cabiras foi taxado como clube comunista, clube da esquerda. Alguns diretores é que levavam a coisa politicamente. Mas do ponto de vista social, associativo, ninguém sabia de nada. Tem baile? Tem. Tem conferência? Tem. Tem isso, tem aquilo. Não tinha uma mácula comunista em todas as atividades. Nunca!", afirmou David German e continua, "a cor que alguns comunistas da diretoria davam ao clube, não transparecia. Eu não vi nada. Eu não senti nada. Conheci até muitos sionistas. Todo baile que o clube dava, ia um tal de Zimmerman, judeu, da polícia, para fiscalizar. Para polícia nós éramos um clube comunista. O Zimmerman era designado para ver o que tinha de comunista nos bailes, mas não via nada. Eu conversava muito com ele, já faleceu, e era parente de meu cunhado. Eu passava perto dele e brincava: já viu alguma coisa ruim aí?"

Esther Libergot participou de nossa conversa e disse: "Havia muitos esquerdistas. Havia uma turma sionista que se preparava para ir para Israel e outra turma que ia ficar aqui. Nunca vi nenhuma ação comunista. Mas havia um sentimento." Ela conheceu o clube já depois da guerra na fase da rua Álvaro Alvim, foi na época em que ela entrou na universidade e havia um forte movimento estudantil stalinista que só acabou após o vigésimo congresso do Partido Comunista, quando ficou esclarecido para os jovens o que tinha havido de fato na União Soviética desde 1917, "toda aquela perseguição, toda a história do stalinismo, e aí a coisa mudou. O congresso comunista realmente impactou e houve um êxodo. As pessoas abandonam o comunismo. Esse pessoal que abandonou a ideologia decidiu formar uma comunidade melhor e partiram para criar a escola, o Eliezer Steimbarg. Vendo com uma perspectiva história os grandes autores, artistas e políticos que foram falar no Cabiras eram esquerdistas. Não me recordo de um sionista tendo ido falar lá. Era o outro lado do Colônia. Que simultaneamente atuava com muita intensidade, mas eu não sei, porque nunca fui. Mas todos frequentavam as festas do Cabiras."

"A juventude judaica era divida entre sionistas e progressistas. O Cabiras era o principal centro progressista. Havia reuniões conjuntas em que os grupos degladiavam-se. No Cabiras havia um grupo que levantava os braços a faziam a saudação à Stalin - Viva Stalin - e coisa e tal.", afirmou David. "99% dos sócios estavam pouco se lixando se os diretores eram esquerdistas ou não. Mas quem carregava o clube nas costas eram os comunistas." O clube admitia não-judeus como sócios, mas eram muito poucos, geralmente namorados e namoradas de sócios.

Para comemorar seus nove anos, o Cabiras se mudou e alugou o salão da sobreloja da Rua Álvaro Alvim, 24, onde viveria o período 1948-1955. Essa é a estória contada abertamente até hoje. Mas entrevistamos também o sr Isack Hazan, filho de Salomão Hazan z’l, fundador do Bené Herzl e seu presidente por muitos anos. Foi com Salomão que o Cabiras fez seu contrato de utilização da sede e foi Salomão Hazan que, em 1947, colocou o Cabiras para fora da Conselheiro Josino 14, devido às atividades comunistas de seus diretores que atraiam a atenção das autoridades de governo e da polícia.

Na Álvaro Alvim 24 o aluguel era mensal e o clube, por sua vez, sublocava seu salão para festas de outras associações e escolas. Antes, foi o salão de outra tradicional agremiação carioca, o "Clube dos 40." Uns dizem que embaixo havia um cinema, mas não conseguimos localizar cinema ou teatro algum com a aquele endereço.

Por que o Cabiras acabou?

Dissemos acima que o Cabiras foi um clube de jovens. E este é um dos motivos para ele ter acabado. Os jovens foram crescendo se inserindo em suas profissões, foram casando, tendo filhos e passaram a ser homens e mulheres: "deixaram de ser jovens e sócios do Cabiras."

Os diretores iniciais não tinham mais tempo para se dedicar ao clube e as novas lideranças do pós-guerra eram especificamente comunistas. As novas lideranças eram compostas por jovens inexperientes e compromisso com a esquerda é evidente pelo fato de boa parte das atividades do clube, a partir de 1946, passarem a ser publicadas no tabloide de esquerda 'Momento Feminino' e no jornal 'Tribuna Popular' que era praticamente o órgão de divulgação do Partido Comunista no Brasil.

Com a sede alugada na Rua Álvaro Alvim 24, o Cabiras montou uma grande biblioteca, inaugurada no dia 7 de maio de 1949, um sábado a noite e promoveu eventos para a doação de livros. No dia seguinte, dia 8 de maio, o Cabiras realizou uma seção solene, seguida de baile e muito chope para comemorar "O Dia da Vitória" e um ano da "Proclamação do Estado de Israel."

No pós-guerra, talvez uma das mais interessantes palestras tenha sido "O que eu vi no Oriente Médio", proferida pelo sr Edmar Morel em outubro de 1948. Em dezembro do mesmo ano, o Cabiras recebeu o senador Hamilton Nogueira para "O Brasil e o reconhecimento de Israel." Nota-se em sua agenda, exatamente o que David citou: a diretoria tinha o alinhamento político dela, mas realizaram vários eventos que poderiam ser considerados como sionistas, ou pelo menos de uma esquerda sionista, o que de fato existia naquele momento histórico.

Sabemos por uma troca de acusações entre sócio e presidente, publicada no Diário de Notícias em 24 de outubro de 1949, que o presidente do Cabiras naquele momento era o dr. Nissin Castiel. Outro nome que sobrou nas publicações de notas é o de Isaac Faerchtein, secretário em 1942. Também em 1942, enceram a peça e Machado de Assis, "Não Consulte Médico", com Liuba Vatinyck, Florinha Libman, Arlete Saraiva e Lea Monteiro de Barros, no teatro Ginástico.

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Da peça Grine Felder (Campos Verdes) restaram duas fotos. Nesta, temos David sentado de óculos, Liuba Koifman e Simão Schweid.

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Na segunda, temos, da direita para a esquerda: Dina Moscovitch, Schlesinger (ensaiador), Bela Josef, Simão Schwied (sentado), Liuba Koifman, David German e Jaime Libergot (de pé). Atrás deles, as duas moças são as irmãs Golbenberg, Ruth e Frima, seguidas por Abrahão (com boné e barba) e um rapaz cujo nome se perdeu.

Numa nota publicada no Tirbuna Polular (22/jan/1945) podemos conhecer uma destas diretorias possivelmente "comunistas":

Presidente, dr Saul Chitmann; vice-pres, Francisco Schwartz; 1o sec, Jacob Crohmal; 2o sec, Joseph Alegua; 1o tes, dr Isaac Sterental; 2o tes, dr Jaime Grossman; dir social, Saul Steinschnaider; dir cultural, Bella Karacuchansky e dir esportivo, José Segal.

Como de tantos outros judeus, o sobrenome German também é um sobrenome que não existia. O pai de David, Haim Leib, veio da Rússia em 1914, e na imigração, com o sotaque deu o sobrenome Herman e ficou a cargo do oficial brasileiro declara-lo German e ele aceitar, também sem entender direito ou conhecer nosso alfabeto não cirílico. O pai da Esther Libergot foi soldado do exército russo por três anos na Primeira Guerra Mundial.

Mais uma vez conseguimos efetuar o resgate de outra entidade judaica importante em nossa história, mas que havia se transformado em “duas linhas” nos livros sobre a história dos judeus no Rio de Janeiro e esperamos que outras testemunhas de época nos procurem.

© José Roitberg - jornalista e pesquisador - Editora Menorah Ltda - 2014

quarta-feira, 26 de março de 2014

Judeu falecido em 1914 em cemitério de 1920

Em nossa última visita de pesquisa nos Cemitérios da Chevra Kadisha - RJ para levantarmos o que ainda é possível de sua história (sai na Menorah deste mês que está chegando da gráfica hoje) nos deparamos com um túmulo datado de 1914, enquanto o cemitério de Vila Rosali Velho  foi fundado em 1920 apenas.

COLUNA ZÉVILA ROSALI VELHO 1914f oto de José Roitberg_1

Trata-se de Pinchos Aisin z'l nascido em Lugausk (Lugansk - então Rússia e hoje Ucrânia) falecido em Barretos, interior de São Paulo. Foi trasladado de lá pela família dele. Felizmente, trouxeram a placa original, o que é pouco comum.

Trata-se do pai d Adolfo Aizen que construiu a fantástica empresa EBAL de revistas em quadrinhos no Rio de Janeiro.

Assim, imagino que haja outras pessoas nesta situação e temos falecidos mais antigos que o próprio cemitério. É uma curiosidade. Só podemos saber, indo lá e verificando cada sepultura. São umas 8.000 - só quando estiver nevando...
No cemitério de Vila Rosali Novo, há um forte movimento de reforma de monumentos (matzeivot), com a construção de modelos modernos em lugar dos antigos, infelizmente, com isso, destruindo mais um pouco a história. Mas acato o direito de cada família fazer o que julgar mais correto pelos seus.
© José Roitberg - jornalista e pesquisador - 2014

segunda-feira, 10 de março de 2014

Sinagoga Beith Aron: erguida pelo idealismo


O Rio Judeu que o Povo Esqueceu

Fundada há vinte e cinco anos na rua Machado de Assis (em 1962), e há doze anos funcionando na rua Gago Coutinho, no Largo do Machado, a Sinagoga Beith Aron é fruto do idealismo e dedicação de um grupo de judeus ortodoxos de origem ashkenazi. Em vias de contratar um novo rabino e ampliar suas instalações, a Sinagoga quer trazer os jovens para participarem da tradição judaica e dar continuidade a esta congregação.

Rua Gago Coutinho 63 - Beith Aron fundada em 1962 inaugurada em 1974
Rua Gago Coutinho 63, inaugurada em 1974
                                              
A LUTA POR UMA SEDE PRÓPRIA

Um sobrado alugado na rua Machado de Assis: esse foi, durante muito tempo, o primeiro endereço da Sinagoga Beith Aron. Despejada deste sobrado, a Sinagoga alugou um salão na rua Marques de Abrantes.
Mas as dificuldades não pararam aí. Com muito custo, e com a ajuda dos membros da congregação e da Chevra Kadisha, conseguia-se o dinheiro para pagar o aluguel. Nessa época é que surgiu o idealismo de se construir a Sinagoga no atual endereço.
Pessoas como Chaim Wajnberg, Szaja Kandelman, Pinchas Sztajman, Lejzer Fridman, Hendel Griner e Ovsia Wajnstajn, entre outros, contribuíram de forma decisiva para a construção da nova sede. Pinchas Sztajman deu a contribuição inicial para a compra do terreno, e se encarregou de financiar o término da construção.
A Sinagoga retribuiu tanta dedicação dando o seu nome ao salão de festas, e ao salão de rezas das mulheres foi dado o nome de sua esposa. Depois de muita luta, e com a ajuda da comunidade judaica, foi inaugurada em 15 de setembro de 1974, véspera de Rosh Hashaná, a nova sede, na rua Gago Coutinho, 63.
Desde o início da Beith Aron, o Rapino Torenheim foi o líder espiritual da congregação, até três anos atrás (1984), quando fez aliá para Israel. Também durante todo esse tempo, o sr. Chaskiel Miernik foi o balkoré da Sinagoga, até hoje, com sua voz privilegiada, apesar de sua idade. E até hoje, a Sinagoga Beith Aron mantém diariamente um mini am, de manhã e tarde.
NOVO RABINO, NOVA ADMINISTRAÇÃO
Apesar de estar localizada na segunda maior concentração judaica de Rio de Janeiro (Flamengo e Laranjeiras) (obs: em 1987), a Sinagoga tem apenas cerca de duzentos sócios. Em vias de contratar um novo rabino e negociar um terreno para ampliar suas instalações, a Sinagoga Beith Aron pretende dar um no impulso à sua administração. O novo rabino terá como objetivo principal incentivar uma maior freqüência jovens. Além disso, dará gratuitamente cursos para bar-mitzvá e terá um per do de atendimentos diários para responder perguntas e aconselhar todos aqueles que precisarem de uma assistência espiritual, independente de serem sócios da Sinagoga.
O sr. Samuel Wanderman é o Predente em exercício da Beith Aron. Nathan Argalji é o tesoureiro, Ovsia Wainstein, vice-tesoureiro, Miguel ner e Salomão Schor fazem parte Conselho Fiscal, Zelio Cleinman é Secretário e Chaskiel Miernik, Diret de Culto. Mas estão sendo convocadas novas eleições.

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Caros leitores, não se consegue obter outras informações sobre a Beith Aron em sua época de Machado de Assis e Marques de Abrantes, sequer a localização correta. Como ficou na Marques de Abrantes até setembro de 1974 deveria haver muitos frequentadores por aí, fotos de casamentos e bar-mitvá e de outras solenidades. Se alguém tiver material, nos procure para tornarmos público.

Há ainda um outro problema. Algumas pessoas garantem que o prédio abaixo, na Rua Machado de Assis foi uma sinagoga e teria sido a Beith Aron. Parece ter arquitetura similar a de sinagogas, com certeza não parece um sobrado e pior que isso, nunca ouvimos falar de outra sinagoga ali. Com certeza uma das testemunhas foi ao local abaixo para um brit-milá em 1969. Portanto, qualquer informação, será de grande valor.

Bet Aron endereço original Machado de Assis 23, hoje consulado do México
por Miguel Regen
José Roitberg - jornalista e historiador
© Revista Menorah 1987

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Sociedade Beneficente Israelita Achi Hezer - 1913


O RIO JUDEU QUE O POVO ESQUECEU

19 de setembro de 1913
- Fundada a Sociedade Beneficente Achi Hezer, na rua Visconde de Itaúna 113 (praça Onze) com biblioteca e teatro amador. Foi a primeira grande entidade local de amparo aos imigrantes.

Achi Ezer, em hebraico, significa "Ajuda ao Meu Irmão". Há várias instituições judaicas com este nome, ainda hoje em diversos países.
Em 1920 se tornou a Sociedade Beneficente Israelita e Amparo aos Imigrantes - Relief, provavelmente no mesmo endereço na praça Onze. Esta é bem mais conhecida. No final dos anos 1920 se mudou para São Cristóvão 189 (este número nunca existiu - arrisco-me a dizer que foi no 59), depois rua Joaquim Palhares, onde funcionava também um curso de português para os imigrantes.

diploma da sociedade israelita Achi Ezer fundada em 1913 full

Há pouca informação sobre ela e os historiadores contemporâneos a denominaram incorretamente de "Achiezer" como se fosse o nome de alguém. A data de fundação com a qual se vinha trabalhando até hoje era 1916, e também estava errada. O Diploma não preenchido quer era o título de sócio da Achi Hezer, coloca a história em seu devido lugar.
E como sempre, apenas esbarrei nele procurando outra coisa.

Será que alguém consegue encontrar outros diplomas destes nas coisas dos avós ou bisavós? Em 1913 havia entre 3 a 4 mil judeus no RJ, então o grupo que se associou deve ter sido bem restrito.

© 2014 - José Roitberg - jornalista e historiador

domingo, 29 de dezembro de 2013

Movimento Sionista Betar no Brasil 1947-1961

Surgiram estas preciosas fotos do Movimento Sionista Betar, que ia além de um grupo juvenil em suas atividades no Rio de Janeiro.

Com o monopólio historiográfico judaico por pessoas da esquerda judaica o Betar no Brasil foi varrido da história como se nunca tivesse existido. Exatamente o mesmo que movimentos juvenis de esquerda (Shomer, Dror, Chazit, Ichud, Bund, Clube da Juventude Israelita, Iugen Heim, ASA, Frischman e tantos outros) fizeram com a memória dos jovens que não eram da esquerda e combateram no Gueto de Varsóvia.


Pavel Frenkel

O Betar estava no Gueto de Varsóvia e praticamente todos os seus integrantes foram mortos em combate ou logo depois. Assim sobrevivendo jovens da esquerda, somente, contaram a história como lhes convinha. O Betar formou o ZZW (ZIDOWSRY ZWIZAEK WOJKSOWY - União Militar Judaica). Seus comandantes foram Pavel Frenkel e Leon Rodal, mortos em combates contra os soldados nazistas em abril de 1943


Leon Rodal

O Betar também combateu nos levantes dos guetos de Vilna e Bialistok. Poucos dos que sobreviveram a estes dois combates se incorporaram a unidade partisans de guerrilha. Todavia os membros dos grupos do Betar nos vários países da Europa foram praticamente 100% exterminados no Holocausto.

O Betar sempre foi acusado de ser “da direita fascista”, pelos militantes da esquerda já nos anos 1930 em Israel pelo fato de seu uniforme ter camisas de cor marrom-avermelhada escura. Os judeus de esquerda afirmavam que eram os 'camisas marrons' fascistas e nazistas. Mas convenhamos, as SA nazistas usavam marrom claro, quase bege, e os fascistas italianos usavam camisas pretas. Obviamente não interessa à propaganda judaica de esquerda que as camisas marrom-avermelhadas escuras foram criadas junto com o movimento na Latvia, em 1923, dois anos antes de Hitler escrever o Mein Kampf e sonhar com suas próprias camisas beges. Para o Betar o tom de marrom de suas camisas significava a terra de Israel.

Posteriormente, com a ascensão do nazismo o Betar fora da Alemanha passou a usar camisas brancas ou camisas azuis. Lembre que a imprensa era com fotos preto e brancas e a simples menção de "camisas marrons" era complicada por não ser possível ver os tons de marrom nas fotos. Na foto abaixo, uma manifestação de rua do Betar em Berlim, em 1934, já em pleno vigor da administração hitleriana. Podemos ver os jovens com camisas brancas e bandeira do movimento que unia a 'bandeira sionista' com uma menorá estilizada com a base como uma lâmina de punhal.

Betar na rua um Berlim em 1934


Mas a esquerda determina que tudo que não é esquerda é fascista. Apenas propaganda partidária. Assim, democratas são fascista, republicanos são fascistas, legalistas são fascistas, conservadores… Ah, estes são muito fascistas. É a visão da esquerda e é o que foi propagado por seus livros e ícones culturais.

Mas as pessoas do Betar aí estão, burgueses, democratas, pró-Israel, sionistas que foram embora, sionistas que ficaram.

O Betar não deixou sua história escrita no Brasil, nem na Europa, pois praticamente todos imigraram para Israel. Seus ícones são detestados pela esquerda judaica e pela direita religiosa ortodoxa judaica.


São Jabotinsky e Trumpeldor que desde antes da Primeira Guerra Mundial já pregavam que os judeus fossem capazes de se defender dos pogroms na Europa Oriental, enquanto a esquerda buscava e depois implementava sua revolução sanguinária e os religiosos implementavam a vontade de Deus para retirar dos cristãos ortodoxos do Império Russo e depois dos comunistas não tão ateus assim, a responsabilidade pela matança de judeus. Exatamente o que o Rabino Chefe Sefaradi, Ovadia Yossef z´l fez poucos anos atrás em relação aos nazistas. Nessa visão absurda da ortodoxia (mas não é uma visão geral), os que mataram judeus agiram movidos pelo “nosso Deus” para nos punir. Ah! Que se danem os que pensam assim e rezam para Deus mandar chuva todo ano…

Em março de 1920 oito judeus foram mortos num ataque árabe contra o povoado de Halsa, bem ao norte. Entre eles, Josef Trumpeldor fundador do movimento sionista russo Hejalutz. Entre 1919 e 1920, Halsa estava sob controle francês. Em dois meses, os árabes atacaram outras oito colônias de judeus. Esses ataques levaram os judeus a criarem a Haganá - Força de Defesa em junho. No ano seguinte os ataques árabes continuaram em áreas rurais e se iniciaram nas áreas urbanas, em Jaffa, Rehovot, Petah Tikva, Hadera, Haifa e Jerusalém, onde o bairro judeu foi duramente atacado e os árabes repelidos pela Haganá. Neste clima anti-judaico, os ingleses proíbem os judeus de entrar na "Tranjordânia."


Joseph Turmpeldor com uniforme
britânico em 1916
Em fevereiro de 1915 o comando britânico em Alexandria, no Egito, aprovou o plano de Zeev Jabotinsky e de Joseph Trumpeldor para criar uma tropa formado por judeus imigrantes russos que iriam participar da libertação da 'Palestina' do Império Otomano. O recrutamento começou pelos judeus que estavam no Egito e tinham sido expulsos da 'Palestina' pelos Otomanos em 1914 por serem russos, portanto inimigos na Primeira Guerra Mundial. O primeiro contingente foi de 650 soldados, dos quais 562 participaram da Batalha de Galipoli. Era uma unidade de transporte chamada de Zion Mule Corps. Eles se uniram em solo turco ao 9th Mule Corps da Índia, na tarefa complicada de abastecer de água as tropas da linha de frente de combate. Apenas 13 soldaos do Zion Mule Corps foram mortos. Trumpeldor, recebeu o posto de capitão e levou um tiro de fuzil no ombro, mas recusou a ser evacuado, continuando em suas funções. O ZMC foi desfeito em janeiro de 1916. No ano seguinte seria formada a unidade de combate conhecida por Legião Judaica, mas é assunto para outro artigo.


Zeev Jabotinsky com uniforme
britânico em 1917
Jabotinsky fundou o Betar homenageando Trumpeldor em 1923. Este é um ano emblemático, pois foi quando o Império Britânico promove a Primeira Partilha da Palestina do Mandato Britânico, criando oficialmente a Transjordânia e ampliando oficialmente a proibição de cidadãos judeus lá, já em vigor desde 1920. Portanto, na prática, o Estado Árabe segregado composto por mais de 70% do território da Palestina do Mandato.





As fotos abaixo não possuem legenda alguma. Não sabemos o nome sequer de uma pessoa nelas. Seria interessante se pudéssemos identificar algumas. Use os comentários.

Todas as fotos foram divulgadas pelo historiador militar Israel Blajberg

Fotos do Betar no Rio de Janeiro 1949 - 1961 - 7 FOTO DE ISRAEL BLAJBERG
Essa é uma foto inequívoca de um grupo do Betar antes de embarcar em navio italiano para Gênova, fazendo aliá (emigração para Israel). A rota pela Itália, depois embarcando em navio menor para Israel era a rota comum do final dos anos 1940 e da década de 1950 inteira. É no Porto do Rio.


Fotos do Betar no Rio de Janeiro 1949 - 1961 - 6 FOTO DE ISRAEL BLAJBERG
Parece outra foto de emigração de outro grupo em data mais recente


Fotos do Betar no Rio de Janeiro 1949 - 1961 - 5 FOTO DE ISRAEL BLAJBERG
Tirada no centro do RJ pelo menos a mulher que está à direita com o livro na mão é a que está na fila do centro da foto anterior com camisa quadriculada. Quem terá sido o elemento expurgado do grupo? E qual teria sido o motivo?


Fotos do Betar no Rio de Janeiro 1949 - 1961 - 4 FOTO DE ISRAEL BLAJBERG
Gente de todas as idades, num evento do Betar com a emblemática frase judaica, já caída no esquecimento: “no ano que vem, em Jerusalém”, sempre na esperança dos judeus de voltar a sua cidade mais sagrada. Notamos que não há um bibico do Betar no Museu Judaico. Será que alguém ainda guardou um?


Fotos do Betar no Rio de Janeiro 1949 - 1961 - 3 FOTO DE ISRAEL BLAJBERG
Está foto é provavelmente no campo do América onde a Comunidade Judaica realizava grandes festas como o Aniversário da Independência de Israel, e já muito antes disso, a esquecida festa de Bikurim, comemorando as colheitas em Israel. Vemos os adultos em ternos e os jovens com uniforme o Betar.


Fotos do Betar no Rio de Janeiro 1949 - 1961 - 2 FOTO DE ISRAEL BLAJBERG
Evidentemente é um evento. Pela faixa incipiente com o nome do Betar em hebraico, onde se lê claramente a ortografia “Beitar” podemos arriscar imaginar que poderia ser a foto de fundação do grupo no Brasil. Mas é só suposição. Pelos ladrilhos, aparenta ser um salão do Liceu Português, mais do que no Clube Ginástico Português, muito utilizado pela Comunidade, durante décadas, antes da construção da Hebraica. É notável que a reunião tenha ocorrido sob o retrato de Trumpeldor, fixado bem alto na parede.


Fotos do Betar no Rio de Janeiro 1949 - 1961 - 1 FOTO DE ISRAEL BLAJBERG
Aniversário da Independência de Israel em maio de 1961. É a única foto da qual podemos ter certeza da localização temporal


José Roitberg - jornalista e historiador

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O Enterro do Sabão - Memorial do Holocausto do Rio de Janeiro - 1947

Rio Judeu que o Povo Esqueceu

O Enterro do Sabão

A realidade sepultada por mitos, tinha restado deste episódio da história dos judeus no Rio de Janeiro. Evento relacionado ao Holocausto, ainda em 1947, ausente dos livros sobre história comunitária. Haveria motivo? A história era emocionante. Como desapareceu?

Pequeno caixão coberto por talitim conduzido pelas ruas da Praça Onze. De barba, o rabino Tzikinowsky.

O mito propagado nas últimas décadas sobre o Memorial do Holocausto do Cemitério de Vila Rosali Velho, afirmava "ter sido enterrada" lá uma caixa com sabão feito com gordura de judeus pelos nazistas. Cada vez mais pessoas que falavam sobre o assunto duvidavam da ocorrência desta ação. Trazendo uma faceta heroica para o mito, dizia-se tal caixa com o sabão de gordura humana ter chegado ao porto do Rio e de lá, seguido por trem, em vagão plataforma, escoltada por quatro membros dos movimentos juvenis judaicos, com tochas ou bandeiras (dependendo da fonte). 

Fazia até sentido pois a linha do trem passa do outro lado do muro, hoje de trás, do cemitério. Mas desde sua inauguração em 1928 a entrada do cemitério era praticamente lá na Estação Vila Rosali, tanto que a numeração de túmulos começa por lá e eles estão voltados para aquela direção.

Mas há uns sete anos atrás, foi encontrado um filme de três minutos, de 16 mm de Herszt Roizemblit, o único judeu a ter uma câmera de cinema semi-profissional na época. Não há imagens do trem, das bandeiras, nem de nada parecido. Teria nosso câmera que não imaginava estar flagrando um momento importantíssimo de nossa história chegado atrasado? Ou tudo teria se desenrolado de forma diferente? O filme deixou mais dúvidas que soluções e está há anos postado por mim no YouTube.

Um dos comentários feitos a este filme é de uma senhora afirmando que o pai dela contava outra história semelhante, mas não igual. Seria ele membro da liderança da Comunidade judaica de São Paulo e ido ao Porto de Santos receber a caixa com o sabão, escoltando-a junto com outros paulistas, em vagão normal, para o Rio de Janeiro e participando da cerimônia?

Dificultava a pesquisa o fato de não se conseguir definir as datas originais colocadas em letras metálicas do lado de fora do Memorial e furtadas em sua maioria ao longo do tempo. O local é chamado por muitos, de forma pouco digna, de Memorial do Sabão (abaixo). É uma estrutura bege e branca com cúpula preta encimada por uma estrela de David, bem no arruamento central do cemitério. Ao longo dos anos as cerimônias comunitárias do Dia do Holocausto sempre foram realizadas ali. Só há duas estruturas que não são túmulos por lá. A outra, um tanto afastada e mais próxima à entrada original é o jazigo da família Guertzsenstein.

Memorial dos Mártires do Holocausto, cemitério israelita de Vila Rosali Velho

O pesquisador Dr. Joachim Neander da Polônia, entrou em contato com a Chevra Kadisha, recentemente e afirmou que nosso monumento estadual pode ser o primeiro memorial do Holocausto das Américas. Nosso amigo Davis Taublib orientado por Neander chegou aos Diários Associados (detentor do acervo e arquivo da revista O Cruzeiro) e Karla Luz, dos Diários cedeu a matéria da revista. Pronto, estabelecemos um momento exato. A publicação é do dia 01 de novembro de 1947. Como a revista era quinzenal, bastou começarmos a procurar no mês de outubro até encontrarmos.

A matéria de O Cruzeiro é pouco informativa, mas escrita pelo conceituado David Nasser. Ao longo de quatro páginas com grandes fotos, umas poucas linhas repetem basicamente a nota oficial de chamada da Comunidade judaica sem qualquer esclarecimento ou detalhe do evento acontecido. Das 17 fotos publicadas, apenas uma é relacionada ao evento, ficando as outras para mulheres aos prantos em túmulos do cemitério. Aliás isso chamou a atenção da mídia em geral: mães e avós se atirando aos túmulos aos gritos e chorando pelos seus entes queridos enterrados. O que teria isto a ver com o "sabão?" Nada.

O evento foi no dia 12 de outubro de 1947, um domingo, sem relação alguma com Rosh Hashaná, que caiu no dia 14 de setembro e Iom Kippur no dia 23 de setembro. Quatorze meses antes da inauguração oficial do cemitério novo, com seu primeiro sepultamento a 5 de dezembro de 1948. É provável que muita gente tenha aproveitado a ida no dia 12 para compensar a visita tradicional no período das festas, duas semanas antes. É longe ainda hoje e era bem mais longe na época.

 

AS MANCHETES


O evento teve cobertura ampla por todas as mídias, sejam isentas, de direita ou de esquerda. Mesmo assim, caiu no esquecimento. Foi o evento judaico mais documentado e publicado na história dos judeus no Rio de Janeiro. Página do Diário da Noite.

A cobertura de O Cruzeiro nos mostra que publicar, nem sempre é informar. A revista minimizou os acontecimentos com a manchete simples: "Num cemitério do Rio - Enterro de Sabão Humano."  O texto e a cobertura trans formam-se em sensacionalismo de judeus entristecidos no cemitério e deixa de lado o evento.





A foto foi invertida para publicação, por questão estética e o responsável nem imaginou que o texto em hebraico do túmulo estava ao contrário.


Já outros jornais foram bem mais enfáticos, inflados, errados e sensacionalistas: "Centenas De Vítimas De Hitler Serão Enterradas Amanhã Num Dos Cemitérios Do Rio - Imenso cortejo de automóveis levando em caixotes, os corpos de judeus que os nazistas transformaram em sabão", deu o Diário da Noite que parece não ter entendido o que iria acontecer, mas nos deu a cobertura mais completa, depois.




“Será Sepultada Hoje A Gordura Humana, a cerimônia promovida pelos israelitas será no cemitério de Vila Rosali", deu o Diário Carioca.
 
"Um Enterro Original - Barras de sabão feito com gordura humana serão inumadas, simbolicamente, no cemitério de Vila Rosali", publicou o Diário de Notícias.

"As Vítimas Do Nazismo - A cidade assistirá na manhã de hoje a uma cerimônia fúnebre sem precedentes: corpos humanos, convertidos em produtos industriais, serão conduzidos até um cemitério israelita, em remoto subúrbio, e aí sepultados", no Correio da Manhã. 


"Levadas À Sepultura As Barras De Sabão Feitas Com Despojos Humanos - 5.000 Pessoas e 600 Automóveis No Cortejo Fúnebre Das Vítimas De Hitler", estampou o Diário da Noite em matéria da página inteira com sete grandes fotos.



“Sepultados Os Pedaços De Sabão Fabricados Com Banha De Judeus - Milhares de carros e dezenas de milhares de judeus acompanharam os restos mortais de seus irmãos de sangue numa cerimônia tocante: choro, gritos e velas", inflou o jornal A Noite em sua primeira página.



"Milhares de pessoas no enterro simbólico das vítimas nos nazistas", colocava de forma muito correta o Tribuna Popular, um jornal comunista circulado apenas entre 1945 e 1947.

O Globo dá em sua primeira página.

Assim, trocamos o mito pela verdade. Não houve navio, nem trem, ou plataforma, e muito menos, as tochas levadas por jovens. Que fique claro: esta versão corriqueira e errada não foi estimulada, criada ou divulgada pelos movimentos juvenis que a ignoravam. Nunca saberemos quando e onde surgiu.

 

AS BARRAS DE SABÃO

A chegada dos sobreviventes do Holocausto ao Brasil foi acompanhada por uma comprovação das atrocidades. Alguns deles trouxeram uma barra de sabão "R.I.F." ("Pura Gordura de Judeus - Reine Juden Fetz" - conforme os jornais publicaram na época), que teriam recebido ainda em cativeiro para uso em sua higiene.


KUM BERL!

Dois deles são identificados pelo Diário da Noite, como os "irmãos Samenson e Leib". E eles publicaram sobre o assunto em seu livro de memórias. Após ler a primeira publicação desta matéria na Revista Menorah, Betty Moszkowicz entrou em contato e nos contou: "Meu pai Szamszon Ber Jarczun z'l (conhecido como Bóris) e seu irmão, Lejba Jarczun z'l (Leão), judeus imigrantes da Polônia, nos contaram sobre o sabão feito de banha humana. Agora graças ao seu artigo, descobri que eles fizeram muito mais que apenas relatar este fato às suas famílias. Na folha 146 da biografia de Bóris, "KUM BERL!", temos: “Meses antes de embarcarem para o Brasil, Bóris, Leão e Estera (prima e futura esposa de Leão) foram a uma birosca na cidade de Zabje comprar sabão para lavar a roupa. Bóris lembra que era uma pequena barra 3x4 de um branco encardido. Quando chegaram de volta em casa, Bóris percebe uma inscrição e fica horrorizado > R.I.F. - Pura gordura de Judeus – Os três voltam à loja e compram todo o sabão à venda. Seguem para birosca seguinte e fazem o mesmo. Guardam os pedaços, cuidadosamente, para traze-los consigo.”
 
Contrário ao que Sameson escreveu em sua biografia, ele (à dir) e Leib (à esq) foram entrevistados pelo jornal Diário da Noite no dia 30 de setembro de 1947. Na foto, a única que parece existir, mostrando as 16 barras de sabão R.I.F.

Na página 151 de KUM BERL! temos: "Moyses se lembra bem dos primeiros 'lanches e papos'. A vizinhança toda aparecia. Todos querendo ouvir os relatos da guerra. Todos tinham uma língua em comum: o iídiche. Em algum desses momentos das histórias da guerra, vem à baila os pedaços de sabão que tinham trazido da Polônia. Todos ficam horrorizados, mas não paralisados. A imprensa é avisada. Nenhum dos três quer contato com a imprensa. 

Traumatizados pela guerra, não queriam ser foco de atenções, queriam o protegido anonimato. E ainda mais quando souberam que Luiz Carlos Prestes gostaria de se encontrar com eles. Bóris 'surtou'. Não queria nada com nenhum comunista. Com cobertura da imprensa, estes pedaços de 'sabão' foram enterrados no cemitério de Vila Rosali. Sem a presença de Bóris, Leon e Ester. Mas Bóris só não foi naquele ano, nos anos seguintes, em 15 de Elul, ele visita a sepultura desses judeus anônimos. (E sua neta Michelle, com sua família, presta neste mesmo dia, em Israel, uma homenagem às vítimas do holocausto, em nome dos Jarczun.)"




A chegada das barras de Sabão R.I.F. ocorreu em todos os lugares para onde os sobreviventes de campos de concentração nazistas na Polônia foram após a Segunda Guerra Mundial, inclusive para Israel onde há várias destas caixas enterradas. A conversa se propagou, as barras foram vistas e passadas de mão em mão no Rio de Janeiro, até que o rabino chefe, então M. Tzikinowsky, decidiu: eram restos humanos judaicos e os restos humanos precisam ser enterrados conforme a halachá (a lei religiosa judaica). O rabinato então, pediu que as barras lhe fossem entregues. Um dos jornais declara: "a exemplo do que já foi feito nos Estados Unidos".

Isso indica que parte a história de um grupo de São Paulo ter trazido uma caixa com barras de trem para o Rio de Janeiro provavelmente é verdadeira: os sobreviventes radicados em São Paulo devem ter enviado suas barras para a cerimônia, bem como judeus de outros estados, pois as matérias de jornal dão conta de judeus vindos de todas as comunidades brasileiras.

 

A CERIMÔNIA

Consta que dezesseis barras foram reunidas na manhã do dia 12 de outubro e examinadas pelos rabinos Henrique Lemle (alemão liberal), Zingerevitch e Tzikinowsky. As oito horas da manhã, o rabino Tzikinovsky, alto de barba branca e óculos nas fotos, inicia a cerimônia no Grande Templo Israelita, à rua Tenente Possolo, já na presença da mídia e cerca de 5.000 pessoas lotando o templo e as ruas ao redor, e mais de 600 carros particulares, taxis e de aluguel estacionados: "Uma grande massa se comprimia no interior do templo e entoava cânticos e preces pela alma dos sacrificados", do Diário da Noite.

A cerimônia teve a organização, juntamente com a Sociedade do Cemitério Israelita do Rio de Janeiro (Chevra Kadisha), da "Sociedade Ostroweer ou Comitê de Socorro aos Israelitas Sobreviventes de Ostrowiec", formada por imigrantes anteriores daquela cidade e sobreviventes do campo de concentração de Stutthof, na Polônia, região de Danzig, onde funcionaria a tal confecção macabra do sabão "R.I.F."

As dezesseis barras foram colocadas na frente do Aron Ha Kodesh (o armário onde são guardados os rolos da Torah) e o chazan (cantor litúrgico) Steimberg, entoou "os salmos 88, 89, 82, 83 e 85, todos eles referentes aos sofrimento de Israel e pedindo de D'us se compadeça de seu povo", conforme o jornal A Noite.

Ao centro o chazan Steimberg e à esq o rabino Tzikinowsky nas orações dentro do Grande Templo Israelita. O pequeno caixão com as barrinhas de sabão pode ser visto, coberto, ao que parece por entre 2 a 4 talitim (xales de oração). Foto do Diário da Noite 

As oito e meia da manhã o cortejo fúnebre começou a se deslocar, tendo a frente uma grande comissão identificada por braçadeiras, carregando o caixão "coberto com uma toalha branca e bordada", ou "um pano com listras azuis e brancas" na visão dos repórteres. Mas foi um talit que está bem nítido nas fotos e no filme.

Do Diário da Noite

Figuras de destaque da comunidade revezavam-se, carregando o pequeno caixão a pé pelas ruas Mem de Sá, Santana, até a Avenida Presidente Vargas onde parou no templo Israelita "Yaven" (segundo A Noite) ou a "Sinagoga da Praça Onze" (segundo o Diário da Noite). Mas naquele momento, a sinagoga da Avenida Presidente Vargas era a Beyruthense, no número 1.197 desde 1944. Isso justifica uma segunda cerimônia: a primeira no Templo no rito ashkenazi e a segunda na Beyruthense no rito sefaradi entoado por Maurício Sztaitman.
 
Rabinos Tizkinowsky (à esq), Zingirevitch (à dir) e outro não identificado, ao centro levam o pequeno caixão com as 16 barrinhas de sabão - O Cruzeiro (foto cortesia do arquivo dos Diários Associados-MG)

Às 10 horas o caixão foi colocado no carro fúnebre e todo o cortejo se dirigiu para Vila Rosali.

Os números de cada jornal variam muito. Mas o evento foi enorme. A Noite, um jornal considerado sério e não muito sensacionalista descreve: "A seguir, em cerca de 2.000 carros, centenas e centenas de judeus acompanharam os simbólicos restos mortais de seus irmãos torturados e mortos pelos nazistas." O jornal comunista Tribuna Popular, fala em 500 carros. Sobre a cerimônia na segunda sinagoga o Diário Carioca, traz: "Essa solenidade ao ar livre foi deveras chocante, tendo a massa humana que ali se comprimia, chegado mesmo a interromper o tráfego pela Avenida Presidente Vargas."
 
Membros importantes da Comunidade Judaica se revezam carregando o pequeno caixão pelas ruas da Praça Onze. Foto do Diário da Noite

O ENTERRO

No cemitério, as barras de sabão foram levadas ao local de purificação onde os corpos são lavados, o que é claro não foi feito com elas, sendo envolvidas individualmente em panos brancos "ainda não utilizados" e cobertas com o talit, segundo um jornal ou "cada peça de sabão foi posta em um saquinho de linho branco", segundo outro, e em seguida houve o enterro.

"Vários discursos foram pronunciados à beira do túmulo por membros destacados da colônia, que em seu idioma (ídiche), versavam em protestos conta a selvageria nazista e erguiam-se em exortações pelo eterno descanso de seus compatriotas mortos. Entre eles, o professor Américo Valério, da faculdade de medicina, que condenou as práticas bárbaras dos nazistas e exaltou o heroísmo dos judeus. Maurício Sztaitman, entoou os últimos cânticos fúnebres e o kadish (oração "a sagrada" em louvor a Deus, cantada nos sepultamentos e no luto), acompanhado em massa por todos os presentes.
 
Momento exata quando o pequeno caixão foi colocado na cova sobre a qual seria construído o Memorial do Holocausto no Cemitério Israelita de Vila Rosali (Velho). Foto do jornal A Noite


.O jornal A Noite, termina sua matéria dando conta de algo que passaria despercebido na história não fosse a determinação de sua linha política em publicar outras oito linhas: "Os comunistas também compareceram. Os comunistas se infiltram em toda a parte e não perdem a oportunidade de tirar partido de tudo. Lá estavam eles também no cemitério dos israelitas, tendo a frente seu chefe, sr. Luiz Carlos Prestes, procurando, por certo, fazer adeptos entre os judeus."

Evidentemente a visão do jornal comunista é muito diferente: "Durante o percurso, centenas de populares atraídos pela curiosidade, indagavam quem tinha morrido. Informados, manifestavam seu horror e protesto. No Mangue, uma senhora católica disse, revoltada, aos passageiros dos carros: 'do nazismo e fascismo só se pode esperar isso'. O senador Luiz Carlos Prestes e o deputado Maurício Grabois assistiram ao sepultamento simbólico dos restos mortais de milhares de vítimas do nazismo. Calorosamente aplaudido por ocasião da sua chegada, Prestes foi cumprimentado pelos rabinos e inúmeras outras pessoas da colônia judaica." Abel Chremont, presidente do Partido Popular Progressista se alinhou ao lado de Prestes e Grabois.


Na foto da Tribuna Popular, Luis Carlos Prestes está de chapéu, o segundo a esq, ao centro com bigode, Maurício Grabois e de terno claro listrado, provavelmente Abel Chermont
(ainda à confirmar)

E AS CONTROVÉRSIAS?

Mas o que está de fato enterrado lá? A estória de que estariam fazendo sabão com gordura de judeus era uma estória criada pelos próprios nazistas para intimidar os poloneses, para que eles tivessem medo de ter o mesmo destino dos judeus. Os rumores tomaram um vulto tão grande que a população polonesa parou de comprar sabão e Himler, o chefe da SS determinou que os corpos dos judeus fossem cremados e transformados em cinzas o mais rápido possível. O rumor foi publicado pela primeira vez no The New York Times em 1942. Há uma carta de 20 de novembro de 1942 de Himler para o chefe da Gestapo, Heinrich Müller, após a publicação do jornal americano: "Você me garantiu que em cada um dos locais os corpos dos judeus mortos foram ou queimados ou enterrados, e que em nenhum lugar nenhuma outra coisa poderia acontecer com os corpos", exigindo uma explicação oficial para o rumor publicado.
 

Barra original do sabão RIF do acervo do museu do kibtuz Lohamei HaGuetaot (Combatentes dos Guetos), o primeiro "Yad Vashem" até 1969. Há muitas fotos do sabão RIF com vários lotes e formatos diferentes na Internet

Acima você vê uma barra de sabão RIF com número de lote 0034 que está no Museu da Casa dos Combatentes do Gueto - Lohamei Ha Guetaot, em Israel. Não há como confundir o "I", com "J". Os poloneses e russos que escreveram inicialmente sobre o assunto entenderam R.I.F., como R.J.F. (Reine Juden Fett) o que seria "Pura Gordura de Judeus". Mas a marca R.I.F. era (Reichsstelle für Industrielle Fettversorgung) "Centro Nacional de Fornecimento de Gordura Industrial" a agência do governo nazista encarregada da produção e distribuição de sabão e produtos de limpeza durante a guerra. Os diversos produtos R.I.F. e eram considerados péssimos e não continham gordura nem animal, muito menos humana. A gordura era necessária para fabricação lubrificantes e explosivos.

”Judeu” em qualquer das línguas do centro ou leste europeu não é com a letra com a letra “I”. No caso do ídiche, o termo o “Yid”, com a letra “Y”. Em alemão, Jude; em polonês, Żyd; em romeno, Evreu; em lituano, Judėjas; em russo, Eврей, em húngaro, Zsidó. A única explicação plausível seria o termo “israelita”, com “i” em todas as línguas, mas que não é citado em nenhuma matéria de época no final dos anos 1940.

 
Durante os Julgamentos de Nuremberg (dos criminosos nazistas após a guerra), Sigmund Mazur, técnico assistente de laboratório do Instituto de Anatomia de Danzig (na Polônia alemã) testemunhou sob juramento e sob pena de ser condenado à morte, que fizeram sabão com gordura humana no campo de concentração em 1943.

Em sua declaração, lê-se que foram obtidos 70 a 80 kg de gordura de 400 corpos (menos de 200 gramas por corpo) e com isso se produziu 25 kg de sabão entregues ao professor Rudolf Spanner. Era um estudo de viabilidade que foi considerado oneroso, difícil e fracassado. Seu testemunho pode ser visto em

http://en.wikisource.org/wiki/Testimony_of_Sigmund_Mazur_before_the_International_Military_Tribunal_in_Nurenberg_in_the_case_of_Danzig_Anatomical_Institute


Escritores soviéticos do pós guerra descreveram chegar a várias instalações em locais diferentes. Numa delas havia caldeirões cheios de líquidos e partes de cadáveres humanos, num processo de fabricação interrompido de sabão. Há trechos de filmes militares que estavam em poder da União Soviética mostrando isso. Tais filmes foram liberados e publicados em 2014.

Testemunhas e judeus que investigaram o assunto não encontraram evidências de fabricação em massa, mas concluíram que houve experimentos. Sabe-se que a SS usava tudo dos judeus como insumos, até mesmo cabelos e ossos. Seria a gordura algo improvável? Mas seria coerente imaginar cozinhar corpos em grandes panelas para extrair gordura? Não foi este o método utilizado no Instituto de Anatomia de Gdansk.


TESTES GENÉTICOS

Em 2006, um pedaço de um sabão RIF arquivado na Corte Internacional de Justiça em Haia foi entregue ao maior especialista em gorduras da Universidade de Tecnologia de Gdansk, na Polônia. Sua análise concluiu que havia alguma gordura humana no sabão.

Porem, desde 1990, o Yad Vashem, que é a Autoridade Nacional (Israelense) Sobre o Holocausto, definiu que nunca houve sabão feito com gordura humana de judeus.
 
Agência Reuters publica, em abril de 1990, para o mundo inteiro nota do Yad Vashem declarando que gordura humana não foi utilizada pelos nazistas.

Em 1990 já havia retirado as barras que tinha de exposição no museu em Jerusalém. Várias amostras, de várias partes do mundo, foram enviadas para exames de DNA na Universidade de Tel Aviv e os testes não encontraram gorduras humanas.

A Casa dos Combatentes dos Guetos (Lohamei Ha Guetaot), no norte de Israel, expõe o sabão RIF mostrando que ele não é feito com gordura humana. Este local foi o primeiro Museu do Holocausto do mundo.

As associações de sobreviventes do Holocausto do mundo inteiro, inclusive em Israel, e praticamente todas as associações funerais judaicas não aceitam a definição do Yad Vashem e se puseram publicamente contra. Esta confusão de documentos e falta deles, de testemunhas, e de testes químicos provando que tem gordura humana e outros provando que não tem, são um dos mais fortes argumentos dos revisionistas do Holocausto para afirmar que a totalidade da matança de 6 milhões não existiu.

“Memorial do Sabão” em Cuba é um exemplo do que existe em vários países e em Israel: "Honrando sua memória neste lugar estão enterrados vários pedaços de sabão feitos de gordura humana de judeus, parte dos seis milhões de vítimas da barbárie nazista no século vinte. Paz a seus restos."

O Memorial dos Mártires do Holocausto do Rio de Janeiro, nunca será violado, bem como as outras centenas que existem no mundo. Assim, não podemos ter certeza de que só há sabão RIF e não outro tipo, o dos experimentos em pequena escala assumidos em julgamento pelos criminosos nazistas que o fizeram. De qualquer modo, nosso Memorial do Holocausto é um memorial geral e o sabão RIF não possuir gordura humana seria ótimo e um desfecho feliz. É um objeto simbólico da tortura psicológica a que os judeus foram submetidos, quem sabe, imaginando terem que se lavar com sabão que não limpava direito e feito com os restos de seu povo.

O filme curto original de 1947 pode ser visto abaixo.
Existem dois erros sérios em minha narração e peço desculpas. Disse que o memorial ficava em Vila Rosali Novo, e não no Velho, que é o correto, e troquei o rabino Tzikinowsky pelo Fink, que é um rabino décadas posterior. Desculpem-me.


Comentários do professor e historiador Fábio Koifman

Mais importante exatamente do que o sabão ser ou não gordura humana (ele de fato não é, mas eles não sabiam disso), na época ele foi acreditado assim e desse modo foi tratado. Daí o procedimento de enterro. O Yad Vashem foi criado só em 1953. Importante também é compreender o contexto no qual o evento foi elaborado e qual significação (política, identitária, afirmativa etc) que a comunidade judaica deu ao fato e a publicidade. 

O "mistério" quanto a segunda câmera mostrada no vídeo de 1947, relaciona-se possivelmente ao filme "Enterro do sabão de gordura humana" que passou a partir de 28.3.1949 no Cine São Carlos como complemento de outro, pelo distribuidor de filmes israelitas Jacob Dvoskin, cujo representante era Isaac Copelman e depois seguiu para apresentação em São Paulo no Odeon.

Único anúncio encontrado do filme citado pelo historiador Fábio Koifman Indicando "Enterro do Sabão de gordura Humana" no Cine São Carlos no RJ e Cine Odeon em SP. Será que algum dia será possível localizar e digitalizar esta película? Anúncio encontrado em fevereiro de 2025. O Nossa Voz era o Unzer Stime, era o mais importante jornal em língua ídiche de São Paulo, contendo, normalmente 7 páginas em ídiche, praticamente sem fotos ou artes, e a última página, em português. A imagem é montada com o expediente em português na página 8 e o anúncio que saiu no centro inferior da página 8. O jornal passa a ser publicado em 1948, dois anos depois do decreto do governo brasileiro proibindo publicações em língua estrangeira, de 1941, devido à Segunda Guerra Mundial, foi revogado. É preciso ficar claro que o governo Vargas não "proibiu os jornais em ídiche" como se nossos historiadores publicam dando um caráter antissemita arbitrário à medida. Todos os jornais que não em português foram proibidos. Existiam no Brasil jornais em inglês, alemão, francês, italiano, árabe e ídiche. Existiam até mesmo jornais em Japonês: Nippak Shimbun (Jornal Nipo-brasileiro 1916-1941) e Burajiru Jihô (Notícias do Brasil 1917-1941). Todos foram proibidos entre 1941 e 1946.

 
© José Roitberg 2013-2025- Jornalista e Pesquisador
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Publicado inicialmente na Revista Menorah edição de maio de 2013