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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Sociedade Israelita de Educação de Madureira - Uma escola que nunca existiu?

CAMPANHA-PARA-LEVANTAMENTO-DE-FUNDOS-PARA-A-CONSTRUÇÃO-DA-SÉDE-SOCIAL-DA-SOCIEDADE-ISR

O Rio Judeu Que o Povo Esqueceu

Na foto, vc vê um fragmento de uma rifa de levantamento de fundos para a construção desta escola judaica, cujo projeto avançado está desenhado. O valor era de 50 cruzeiros. Não há data neste pedaço de documento. O cruzeiro foi adotado em 1942. Sabemos que em Olaria, a escola Mendele Mocher Sforim era ligada ao Centro Israelita Leopoldinense.

Se alguém tiver qualquer informação sobre esta iniciativa em Madureira, por favor complemente nos comentários. Não há nenhuma referência à Sociedade Israelita de Educação de Madureira em qualquer trabalho histórico sobre os judeus do Rio de Janeiro.

É curioso ver Madureira escrito em hebraico na última linha, com dois 'iud...'

© 2015 José Roitberg - jornalista e pesquisador

domingo, 30 de março de 2014

Clube dos Cabiras? Clube o quê mesmo?

O Rio Judeu Que o Povo Esqueceu

Como uma associação de jovens judeus que teve grande representatividade entre 1939 e 1955, com 2.000 sócios, some sem deixar rastros? Quem a frequentava com 20 anos de idade em 1955, hoje tem 78, portanto, há cabirenses quietos por aí. Alguns, certamente ativistas de outras instituições. Esperamos que este artigo os tire da zona de conforto e os permita trazer novas memórias e quem sabe, fotos, carteirinhas, estórias legais.

 

Definições equivocadas em livros anteriores

Quase tudo que abordamos nesta coluna parte dos erros publicados anteriormente pelos historiadores e tornados verdade através de sua replicação histórica em teses de mestrado e doutorado. Com o Clube dos Cabiras, não é diferente. O jornalista Henrique Weltmam, definiu na página 51 de seu livro "A História dos Judeus no Rio de Janeiro", que o Cabiras "surgiu em 1929 a partir de uma dissidência do Clube Juventude Israelita (Iuguend Bund)", criado em 1919 e terminado em 1929.

Esta é a história que recebemos e contamos até hoje: os jovens de esquerda teriam saído do ambiente sionista e foram cuidar de seus rumos e interesses. O ano de 1929 é até emblemático, mas estranho para isso. Além de termos crise econômica, é o ano dos grandes ataques contra judeus na Palestina, que aglutinaram a Comunidade.

Em seu livro "Paisagem Estrangeira", a professora e historiadora Fania Frydman situa o Cabiras na Rua Álvaro Alvim 21 (edifício Regina, existente até hoje), mas o clube, de fato ficava defronte, no número 24, onde há um prédio mais moderno, conforme consta em notas publicadas nos jornais chamando para eventos entre 1948 e 1955. Fania nos conta que em 1941 uma cisão do Cabiras formou o Grêmio Cadima (Avante) que se reunia no Hotel Elite. Quanto ao Cabiras, dá informação diferente da de Weltman. A origem teria sido um cisão de esquerda do Iidishe Iugend Haim (Grêmio Juventude Israelita). Mas este funcionou apenas entre 1928 e 1934 na rua Hadock Lobo 142. E nada mais havia sobre os Cabiras. Ambos clubes "Iugend" eram iidishistas e segundo sabemos, praticamente todos os iidishistas tinham uma alinhamento de esquerda.


Viu outras matérias e veio nos procurar

Eis que surge, o sr. David German, com seus 95 anos de idade e nos procura, por ter lido os primeiros artigos desta coluna. E David afirma: "Eu fundei o Cabiras, posso de contar tudo!" Nós o recebemos, juntamente com dra. Esther Libergot, química, ativista do clube no pós-guerra, e gravamos em vídeo o depoimento dos dois.

David se formou em odontologia e foi dentista por 60 anos. Inicialmente ele frequentava as atividades para jovens judeus na Bené Herzl, fundada em 1921, a instalada em 1929 na Rua Conselheiro Josino 14, há 50 metros de onde anos depois, em 1932 se inauguraria o Grande Templo Israelita. O prédio foi planejado pelos judeus sefaraditas para ser um Centro Judaico, com pequena sinagoga, salões, salas para reuniões e outras atividades.

Muitos "clubes" e instituições judaicas tiveram como endereço o número 14, inclusive a Federação das Sociedades Israelitas do Rio de Janeiro (atual FIERJ), de 1947.

David, que passou pela história da Comunidade Judaica dos anos 1930 até hoje, concorda que nossos historiadores "agiram politicamente e sectariamente" ao escrever suas versões do que deveria ser uma só história.

1939 e não 1929…

O Cabiras foi fundado em 30 de janeiro de 1939, dez anos depois da data aceita até hoje. Caso contrário, nosso querido David teria sido diretor aos 12 anos de idade, e teria hoje 115 anos...

O nome "Cabiras" é um dos mistérios comunitários. Seria uma corruptela de "guiborim (heróis em hebraico)", como pretendem uns? Como ficava na Bené Herzl teria algo a ver com uma região do norte da Turquia que leva este nome?

David German é categórico ao afirmar que ele e mais quatro amigos se juntaram e resolveram criar um clube judaico "porque naquela época, parece que não havia nenhum."

Havia a BIBSA - Biblioteca Sholem Aleichem, na Praça Onze, fundada sionista em 1915, mas já completamente comunista em 1939. E não era um clube para jovens. Os outros clubes, como vimos deixaram de existir anos antes.

Ao longo do século 19 e nos primeiros 60 anos do 20, o Rio de Janeiro teve centenas de clubes por afinidade em todo seu espectro social.

Os nomes sugeridos foram: Clube da Juventude Judaica Brasileira, Clube dos Judeus do Brasil, que David se lembre, além de outros. A escolha do nome ficou para a reunião seguinte, no voto. "Cheguei em casa e comecei a folhear a 'História da Literatura Universal', vi lá uma estória dos gregos com um asterisco. Fui lá e vi 'cabiras' em hebraico 'cabirim', poderosos, fortes etc. Cabiras... Bom, isso soa bem. Levei na reunião seguinte. Dei lá o nome do Clube dos Cabiras. Ah.. Pegou! É esse!" O nome foi mantido e foi um sucesso até o desaparecimento do clube entre 1955 e 1956.

Na verdade, os Cabiras gregos eram considerados como "o princípio de todas as coisas, o símbolo da geração", teriam dado origem aos deuses.

Pelo que David se recorda, além dele, fundaram o clube: David Lerner, Hoinef (não se recorda o primeiro nome), Marconi Nudelman e duas moças das quais também não lembra o nome. Todos oriundos do Colédio Sholem Aleichem. David German era o mais velho entre eles e sempre gostou das atividades sociais e teatro. Foi produtor e diretor do grupo de teatro do clube. Foram várias peças e a que o marcou foi "Jankel Boile" em 5 atos falados em íidiche só pelos jovens amadores do Cabiras: "falavam, mas não sabiam o que estavam falando e cantando. Havia dança de camponeses, uma peça mesmo. Alguns tinham uma ideia do que era. Mas a plateia, formada pelos pais, entendia o que era dito," arremata David. Precisou de três meses de ensaios. As apresentações aconteciam em teatros alugados e não no salão da Bené Herzl. Normalmente as peças tinham apenas duas apresentações devido ao custo do aluguel dos teatros. Apenas duas peças foram produzidas em íidiche, as outras eram em português. Boa parte delas era teatro infantil.

cabiras web 1Elenco da peça “Não Consultes Médico”, encenada pelo grupo de teatro do Cabiras. O elenco está sentado e da direita para a esquerda temos a diretoria dos anos iniciais: David German (com charuto), Max Goldkorn, Isaac Jaimovich, Abraão, Jaime Tiomno, Jaques Gutemberg e Marconi Nudelman. 

Como David Guerman era da direção do Cabiras e frequentava ativamente aquela região, ele pôde nos dar um testemunho precioso sobre a interação entre sefaraditas e ashkenazitas, separados por 50 metros, veja: "A parte da juventude, social, que estava no Bené Herzl não tinha nada a ver com as festividades judaicas. Ali era só dos sefaraditas, onde eles rezavam etc. O Clube dos Cabiras alugava a sede do Bené Herzl para as atividades dançantes, palestras, conferências e tudo mais em dias certos do mês."

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Planta do segundo piso da Rua Conselheiro Josino 14, Bené Herzl

A planta original deste prédio ainda existe sabemos que a sinagoga de uso diário ficava à esquerda de quem subia as escadas com apenas 15 metros quadrados. Oposta a ela, do outro lado da escada um espaço semelhante designado como "buffet". A pequena sinagoga se justifica, pois as outras sinagogas sefaraditas estavam em plena atividade em várias partes da cidade. A Shel Guemilut, naquele momento histórico ficava na rua Francisco Muratori 33 (de 1935 a 1949 - o prédio ainda existe) a cerca de 15 minutos de caminhada da Bené Herzl.

O salão de festas possuía 155 metros quadrados com quatro colunas centrais quatro pequenas janelas laterais e três grandes janelas frontais com 2 metros de largura para uma. É neste salão que foram dadas dezenas e dezenas de palestras e conferências. É neste espaço que aconteceram vários bailes por ano até 1947 e onde vários casais judeus se conheceram e se beijaram pela primeira vez. Nas festas judaicas, segundo David, se colocava cadeiras no salão e ele se transformava todo em sinagoga. A função de um clube de jovens judeus de oferecer um local onde casais judeus pudessem se formar, foi plenamente satisfeita pelo Cabiras.

cabiras web 5Rua Conselheiro Josino 14, Bené Herzl alguns dias antes de sua inauguração

Os jovens judeus foram se associando. O Cabiras chegou a ter 2.000 sócios jovens judeus que iam lá para dançar e para festividades. As palestras literárias eram de alto nível, com jornalistas, escritores, senadores, palestrantes de várias partes do mundo, "mas ia pouca gente." As festas mais importantes eram de reveillon e carnaval, sempre lotadas. Paralelamente havia o Clube das Damas Israelitas (sefaradi, criado em 1929 no número 14, também) que fazia o mesmo tipo de festas e muitas delas, beneficentes. "Eu acredito que naquela época o Cabiras era o único clube onde só tinha jovens judeus", disse David. Era comum que os jovens participassem dos bailes em vários clubes.

Inicialmente as festas eram todas no número 14, mas rapidamente os bailes principais de Carnaval precisaram de espaços maiores e o enorme salão do Botafogo, era alugado anualmente. Nos anos 1950 até mesmo o grandioso espaço do High Life seria usado para o carnaval dos Cabiras. O clube também promovia concursos de dança, e David venceu um deles com sua partner (parceira), Lygia Hazan, mãe de nosso Ronaldo Gomlevky e colunista da Menorah.

Cultura, dança, diversão e alienação

O clube foi criado nas vésperas da Segunda Guerra Mundial e era de se esperar que uma associação que reunisse este número enorme de judeus para a comunidade dos anos 1940, talvez quase todos os jovens que havia, tivesse um papel destacado durante a guerra, que suas palestras, pelo menos levassem a entender o que acontecia com os judeus, mas não foi o que aconteceu. Naquele momento a Comunidade judaica tinha tamanho semelhante ao atual. Mesmo nos dias de hoje, vemos as instituições culturais judaicas com suas fortes agendas de palestras dissociadas das ameaças aos judeus e ao Estado de Israel. São coisas que não se discutem, preferindo seus dirigentes, as amenidades da literatura, da poesia, da sociologia, da música e do teatro, coisa que os cabirenses fizeram até após a guerra.

Não há nos jornais notícias sobre o clube. Mas há dezenas de publicações de notas de divulgação de suas principais conferências, assim sabemos que enquanto os judeus eram trucidados na Europa Central, nosso jovens judeus recebiam muita literatura, música e teatro, e pouca política e situação mundial. Havia times de vôlei, basquete, ping-pong e outros esportes disputando campeonatos com outras quatro instituições judaicas.

Como historiador não me cabe julgar. Como jornalista me cabe. E nunca se sabe o que será encontrado pela frente. Então julgue você. Em 20 de dezembro de 1942, o Diário de Notícias em suas página 16, traz uma nota: "A festa esportiva do Clube dos Cabiras - O clube dos Cabiras, ora sob a ação da nova diretoria, vem, cada vez mais, ampliando suas atividades nos setores esportivo e social. Concretizando o programa traçado para mês corrente a agremiação da rua Conselheiro Josino promoverá, na manhã de hoje, em um pitoresco local da Gávea, um churrasco-dançante, sendo que antes serão realizados jogos de basquetebol, voleibol, além de provas de natação em uma praia próxima ao local da original festa. Um ônibus especialmente fretado, partirá do Hotel Leblon, às 8 horas da manhã, conduzindo a caravana de cabirenses ao recanto gaveano, escolhido para o churrasco." David acabou de ler esta nota. Provavelmente lembrou-se desta atividade e certamente sabe onde eu vou chegar.

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20 de dezembro de 1942: muita diversão durante o Holocausto

Em dezembro de 1942, já haviam sido trucidados à pauladas, golpes de barras de ferro, tiros, fogo, mortos pela fome, pelo frio e pelas doenças sem possibilidades de obter remédios, mais de 2 milhões de judeus na Europa, entre eles, muitos parentes dos judeus do Rio de Janeiro. Por anos os jornais vinham publicando o massacre de judeus e o extermínio de vilas inteiras. Poderiam ter pago uma nota de repúdio e apoio, mas nenhuma foi publicada de 1939 a 1945. Um churrasco-dançante naquele momento histórico é a demonstração de que a alienação dos problemas dos judeus que vemos hoje, havia ontem. Os filhos e netos seguem os pais.

Perguntei ao querido David o que os judeus faziam aqui durante do Holocausto ele inicialmente afirmou que não sabiam o que estava acontecendo. Confrontei-o com a informação de que tudo era publicado nos jornais, em português, quase que diariamente. E a comunidade lia? O discurso de David, muda: "Lamentava, provavelmente. O que você acha que faziam? Lamentavam entristecidamente o que faziam com os judeus. O que você acha que podiam fazer? Quando havia uma notícia mais contundente se lia no jornal e se discutia no clube e torcendo vivamente para que os soviéticos chegassem à Polônia e resolvessem a questão. Eu sentia muito e ficava revoltado com esta coisa. Mas quem é que não fica?"

As palestras sobre a temática da guerra que conhecemos hoje, são: "A questão racial no pós guerra" em agosto de 1943 pelo prof Artur Ramos, "A guerra de todas as raças"; em setembro de 1943 pelo ser Mario Martins; e "A ciência e o antissemitismo", em novembro de 1943 pelo emblemático Isaac Izecksohn. Em 1944 o Cabiras se incorpora à Liga de Defesa Nacional junto com outras dezenas de agremiações de jovens do Rio de Janeiro.

Clube da esquerda comunista, ou não?

O Cabiras tinha tendência esquerdista e teve problemas durante o Governo Vargas, exatamente quando foi fundado e cresceu. E David começou a nos explicar como isso funcionava. "Eu nunca tive cor política. Ah, são sionistas? Eu faço isso para eles. Ah, são comunistas, eu faço isso para eles. Para mim tanto faz um ou outro. Eu quero fazer o que eu gosto de fazer (teatro). Os sionistas são judeus, os esquerdistas são judeus, eu trabalho pros dois."

"O Clube dos Cabiras foi taxado como clube comunista, clube da esquerda. Alguns diretores é que levavam a coisa politicamente. Mas do ponto de vista social, associativo, ninguém sabia de nada. Tem baile? Tem. Tem conferência? Tem. Tem isso, tem aquilo. Não tinha uma mácula comunista em todas as atividades. Nunca!", afirmou David German e continua, "a cor que alguns comunistas da diretoria davam ao clube, não transparecia. Eu não vi nada. Eu não senti nada. Conheci até muitos sionistas. Todo baile que o clube dava, ia um tal de Zimmerman, judeu, da polícia, para fiscalizar. Para polícia nós éramos um clube comunista. O Zimmerman era designado para ver o que tinha de comunista nos bailes, mas não via nada. Eu conversava muito com ele, já faleceu, e era parente de meu cunhado. Eu passava perto dele e brincava: já viu alguma coisa ruim aí?"

Esther Libergot participou de nossa conversa e disse: "Havia muitos esquerdistas. Havia uma turma sionista que se preparava para ir para Israel e outra turma que ia ficar aqui. Nunca vi nenhuma ação comunista. Mas havia um sentimento." Ela conheceu o clube já depois da guerra na fase da rua Álvaro Alvim, foi na época em que ela entrou na universidade e havia um forte movimento estudantil stalinista que só acabou após o vigésimo congresso do Partido Comunista, quando ficou esclarecido para os jovens o que tinha havido de fato na União Soviética desde 1917, "toda aquela perseguição, toda a história do stalinismo, e aí a coisa mudou. O congresso comunista realmente impactou e houve um êxodo. As pessoas abandonam o comunismo. Esse pessoal que abandonou a ideologia decidiu formar uma comunidade melhor e partiram para criar a escola, o Eliezer Steimbarg. Vendo com uma perspectiva história os grandes autores, artistas e políticos que foram falar no Cabiras eram esquerdistas. Não me recordo de um sionista tendo ido falar lá. Era o outro lado do Colônia. Que simultaneamente atuava com muita intensidade, mas eu não sei, porque nunca fui. Mas todos frequentavam as festas do Cabiras."

"A juventude judaica era divida entre sionistas e progressistas. O Cabiras era o principal centro progressista. Havia reuniões conjuntas em que os grupos degladiavam-se. No Cabiras havia um grupo que levantava os braços a faziam a saudação à Stalin - Viva Stalin - e coisa e tal.", afirmou David. "99% dos sócios estavam pouco se lixando se os diretores eram esquerdistas ou não. Mas quem carregava o clube nas costas eram os comunistas." O clube admitia não-judeus como sócios, mas eram muito poucos, geralmente namorados e namoradas de sócios.

Para comemorar seus nove anos, o Cabiras se mudou e alugou o salão da sobreloja da Rua Álvaro Alvim, 24, onde viveria o período 1948-1955. Essa é a estória contada abertamente até hoje. Mas entrevistamos também o sr Isack Hazan, filho de Salomão Hazan z’l, fundador do Bené Herzl e seu presidente por muitos anos. Foi com Salomão que o Cabiras fez seu contrato de utilização da sede e foi Salomão Hazan que, em 1947, colocou o Cabiras para fora da Conselheiro Josino 14, devido às atividades comunistas de seus diretores que atraiam a atenção das autoridades de governo e da polícia.

Na Álvaro Alvim 24 o aluguel era mensal e o clube, por sua vez, sublocava seu salão para festas de outras associações e escolas. Antes, foi o salão de outra tradicional agremiação carioca, o "Clube dos 40." Uns dizem que embaixo havia um cinema, mas não conseguimos localizar cinema ou teatro algum com a aquele endereço.

Por que o Cabiras acabou?

Dissemos acima que o Cabiras foi um clube de jovens. E este é um dos motivos para ele ter acabado. Os jovens foram crescendo se inserindo em suas profissões, foram casando, tendo filhos e passaram a ser homens e mulheres: "deixaram de ser jovens e sócios do Cabiras."

Os diretores iniciais não tinham mais tempo para se dedicar ao clube e as novas lideranças do pós-guerra eram especificamente comunistas. As novas lideranças eram compostas por jovens inexperientes e compromisso com a esquerda é evidente pelo fato de boa parte das atividades do clube, a partir de 1946, passarem a ser publicadas no tabloide de esquerda 'Momento Feminino' e no jornal 'Tribuna Popular' que era praticamente o órgão de divulgação do Partido Comunista no Brasil.

Com a sede alugada na Rua Álvaro Alvim 24, o Cabiras montou uma grande biblioteca, inaugurada no dia 7 de maio de 1949, um sábado a noite e promoveu eventos para a doação de livros. No dia seguinte, dia 8 de maio, o Cabiras realizou uma seção solene, seguida de baile e muito chope para comemorar "O Dia da Vitória" e um ano da "Proclamação do Estado de Israel."

No pós-guerra, talvez uma das mais interessantes palestras tenha sido "O que eu vi no Oriente Médio", proferida pelo sr Edmar Morel em outubro de 1948. Em dezembro do mesmo ano, o Cabiras recebeu o senador Hamilton Nogueira para "O Brasil e o reconhecimento de Israel." Nota-se em sua agenda, exatamente o que David citou: a diretoria tinha o alinhamento político dela, mas realizaram vários eventos que poderiam ser considerados como sionistas, ou pelo menos de uma esquerda sionista, o que de fato existia naquele momento histórico.

Sabemos por uma troca de acusações entre sócio e presidente, publicada no Diário de Notícias em 24 de outubro de 1949, que o presidente do Cabiras naquele momento era o dr. Nissin Castiel. Outro nome que sobrou nas publicações de notas é o de Isaac Faerchtein, secretário em 1942. Também em 1942, enceram a peça e Machado de Assis, "Não Consulte Médico", com Liuba Vatinyck, Florinha Libman, Arlete Saraiva e Lea Monteiro de Barros, no teatro Ginástico.

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Da peça Grine Felder (Campos Verdes) restaram duas fotos. Nesta, temos David sentado de óculos, Liuba Koifman e Simão Schweid.

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Na segunda, temos, da direita para a esquerda: Dina Moscovitch, Schlesinger (ensaiador), Bela Josef, Simão Schwied (sentado), Liuba Koifman, David German e Jaime Libergot (de pé). Atrás deles, as duas moças são as irmãs Golbenberg, Ruth e Frima, seguidas por Abrahão (com boné e barba) e um rapaz cujo nome se perdeu.

Numa nota publicada no Tirbuna Polular (22/jan/1945) podemos conhecer uma destas diretorias possivelmente "comunistas":

Presidente, dr Saul Chitmann; vice-pres, Francisco Schwartz; 1o sec, Jacob Crohmal; 2o sec, Joseph Alegua; 1o tes, dr Isaac Sterental; 2o tes, dr Jaime Grossman; dir social, Saul Steinschnaider; dir cultural, Bella Karacuchansky e dir esportivo, José Segal.

Como de tantos outros judeus, o sobrenome German também é um sobrenome que não existia. O pai de David, Haim Leib, veio da Rússia em 1914, e na imigração, com o sotaque deu o sobrenome Herman e ficou a cargo do oficial brasileiro declara-lo German e ele aceitar, também sem entender direito ou conhecer nosso alfabeto não cirílico. O pai da Esther Libergot foi soldado do exército russo por três anos na Primeira Guerra Mundial.

Mais uma vez conseguimos efetuar o resgate de outra entidade judaica importante em nossa história, mas que havia se transformado em “duas linhas” nos livros sobre a história dos judeus no Rio de Janeiro e esperamos que outras testemunhas de época nos procurem.

© José Roitberg - jornalista e pesquisador - Editora Menorah Ltda - 2014

quarta-feira, 26 de março de 2014

Judeu falecido em 1914 em cemitério de 1920

Em nossa última visita de pesquisa nos Cemitérios da Chevra Kadisha - RJ para levantarmos o que ainda é possível de sua história (sai na Menorah deste mês que está chegando da gráfica hoje) nos deparamos com um túmulo datado de 1914, enquanto o cemitério de Vila Rosali Velho  foi fundado em 1920 apenas.

COLUNA ZÉVILA ROSALI VELHO 1914f oto de José Roitberg_1

Trata-se de Pinchos Aisin z'l nascido em Lugausk (Lugansk - então Rússia e hoje Ucrânia) falecido em Barretos, interior de São Paulo. Foi trasladado de lá pela família dele. Felizmente, trouxeram a placa original, o que é pouco comum.

Trata-se do pai d Adolfo Aizen que construiu a fantástica empresa EBAL de revistas em quadrinhos no Rio de Janeiro.

Assim, imagino que haja outras pessoas nesta situação e temos falecidos mais antigos que o próprio cemitério. É uma curiosidade. Só podemos saber, indo lá e verificando cada sepultura. São umas 8.000 - só quando estiver nevando...
No cemitério de Vila Rosali Novo, há um forte movimento de reforma de monumentos (matzeivot), com a construção de modelos modernos em lugar dos antigos, infelizmente, com isso, destruindo mais um pouco a história. Mas acato o direito de cada família fazer o que julgar mais correto pelos seus.
© José Roitberg - jornalista e pesquisador - 2014

Centenário do Templo Sidon: Histórias e tradições

Assista a bela matéria do programa Comunidade na TV, da FIERJ sobre este tema que é mais um daqueles do Rio Judeu Que O Povo Esqueceu.
http://youtu.be/-rRrUFFdVMk?t=1m9s

segunda-feira, 10 de março de 2014

Sinagoga Beith Aron: erguida pelo idealismo


O Rio Judeu que o Povo Esqueceu

Fundada há vinte e cinco anos na rua Machado de Assis (em 1962), e há doze anos funcionando na rua Gago Coutinho, no Largo do Machado, a Sinagoga Beith Aron é fruto do idealismo e dedicação de um grupo de judeus ortodoxos de origem ashkenazi. Em vias de contratar um novo rabino e ampliar suas instalações, a Sinagoga quer trazer os jovens para participarem da tradição judaica e dar continuidade a esta congregação.

Rua Gago Coutinho 63 - Beith Aron fundada em 1962 inaugurada em 1974
Rua Gago Coutinho 63, inaugurada em 1974
                                              
A LUTA POR UMA SEDE PRÓPRIA

Um sobrado alugado na rua Machado de Assis: esse foi, durante muito tempo, o primeiro endereço da Sinagoga Beith Aron. Despejada deste sobrado, a Sinagoga alugou um salão na rua Marques de Abrantes.
Mas as dificuldades não pararam aí. Com muito custo, e com a ajuda dos membros da congregação e da Chevra Kadisha, conseguia-se o dinheiro para pagar o aluguel. Nessa época é que surgiu o idealismo de se construir a Sinagoga no atual endereço.
Pessoas como Chaim Wajnberg, Szaja Kandelman, Pinchas Sztajman, Lejzer Fridman, Hendel Griner e Ovsia Wajnstajn, entre outros, contribuíram de forma decisiva para a construção da nova sede. Pinchas Sztajman deu a contribuição inicial para a compra do terreno, e se encarregou de financiar o término da construção.
A Sinagoga retribuiu tanta dedicação dando o seu nome ao salão de festas, e ao salão de rezas das mulheres foi dado o nome de sua esposa. Depois de muita luta, e com a ajuda da comunidade judaica, foi inaugurada em 15 de setembro de 1974, véspera de Rosh Hashaná, a nova sede, na rua Gago Coutinho, 63.
Desde o início da Beith Aron, o Rapino Torenheim foi o líder espiritual da congregação, até três anos atrás (1984), quando fez aliá para Israel. Também durante todo esse tempo, o sr. Chaskiel Miernik foi o balkoré da Sinagoga, até hoje, com sua voz privilegiada, apesar de sua idade. E até hoje, a Sinagoga Beith Aron mantém diariamente um mini am, de manhã e tarde.
NOVO RABINO, NOVA ADMINISTRAÇÃO
Apesar de estar localizada na segunda maior concentração judaica de Rio de Janeiro (Flamengo e Laranjeiras) (obs: em 1987), a Sinagoga tem apenas cerca de duzentos sócios. Em vias de contratar um novo rabino e negociar um terreno para ampliar suas instalações, a Sinagoga Beith Aron pretende dar um no impulso à sua administração. O novo rabino terá como objetivo principal incentivar uma maior freqüência jovens. Além disso, dará gratuitamente cursos para bar-mitzvá e terá um per do de atendimentos diários para responder perguntas e aconselhar todos aqueles que precisarem de uma assistência espiritual, independente de serem sócios da Sinagoga.
O sr. Samuel Wanderman é o Predente em exercício da Beith Aron. Nathan Argalji é o tesoureiro, Ovsia Wainstein, vice-tesoureiro, Miguel ner e Salomão Schor fazem parte Conselho Fiscal, Zelio Cleinman é Secretário e Chaskiel Miernik, Diret de Culto. Mas estão sendo convocadas novas eleições.

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Caros leitores, não se consegue obter outras informações sobre a Beith Aron em sua época de Machado de Assis e Marques de Abrantes, sequer a localização correta. Como ficou na Marques de Abrantes até setembro de 1974 deveria haver muitos frequentadores por aí, fotos de casamentos e bar-mitvá e de outras solenidades. Se alguém tiver material, nos procure para tornarmos público.

Há ainda um outro problema. Algumas pessoas garantem que o prédio abaixo, na Rua Machado de Assis foi uma sinagoga e teria sido a Beith Aron. Parece ter arquitetura similar a de sinagogas, com certeza não parece um sobrado e pior que isso, nunca ouvimos falar de outra sinagoga ali. Com certeza uma das testemunhas foi ao local abaixo para um brit-milá em 1969. Portanto, qualquer informação, será de grande valor.

Bet Aron endereço original Machado de Assis 23, hoje consulado do México
por Miguel Regen
José Roitberg - jornalista e historiador
© Revista Menorah 1987

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

1998 - Os 50 Anos da nova sinagoga Shel Guelimut Hassadim

O RIO JUDEU QUE O POVO ESQUECEU

JUBILEU DE OURO: CRÔNICA DE UMA EPOPÉIA SEFARADITA

por Roberto L.Benathar (**)
publicado na Revista Menorah número 473 de novembro de 1998
     
Tarde ensolarada de domingo. Bandeirinhas de Israel e do Brasil tremulavam presas às mãozinhas das crianças: “Iom Ha’atsmaaút” comemora-se alguns meses antes com a alegria contagiante de um “Toque deXofar” anunciando que “Medinat Israel” era nossa! Inteiramente nossa! A rua estava repleta. A bucólica Rodrigo de Brito engalaneara-se para receber sua mais ilustre moradora: a pedra fundamental da sede própria do Templo da União Israelita Shel Guemilut Hassadim! Na rua pontificavam casinhas aqui e acolá, terrenos vazios, muitos.
     
Era o dia 10 de outubro de 1948, 07 de Tixri de 5709. A comunidade judaica lá se apertava por volta das 15 horas. Convocada por seus líderes a participar de mais uma das solenes epopéias sefaraditas, respondia em cânticos como cantaram para Moisés os filhos de Israel a bela canção “Azi IaxirMoshé Uvnei Israel...” Rostos adultos, rostos de velhos patriarcas, de velhas matriarcas, rostos de bebês, rostos de jovens adolescentes, perninhas saltitantes de crianças, e ... povo! Aquele povo das ruas desejoso de saber o porquê de tanta manifestação esfuziante! O povo desejava conhecer o que representava aquela movimentação epidíctica!

Sinagoga Shel Guemiluta Hassadim - Rua Rodrigo de Brito - Botafogo - RJ - fundada em 1866 e passando por 7 endereços, é a sinagoga mais antiga em atividade no Basil. Seu rito é marroquino.
2013 - Shel Guemilut Hassadim
     
A bela tarde que se prenunciava, o ambiente descontraído, agitado, cheio de fragor suave tão próprio do judeu sefaradita, predizia uma grande festa! ãs 15:30 horas a solenidade tem início: Ata histórica deveria ser lavrada! Urna contendo elementos simbólicos e representativos do acontecimento seria depositada sobre a pedra fundamental! Isaac Rafael Benoliel, Diretor de Culto (Parnás), abre a solenidade e convida a tomar assento à mesa dos trabalhos representantes de outras Congregações Judaicas: Rabino Lemle, Salvador Esperança, Felix Hasson, Alexandre Goethe, Tufic Nigri, e representantes da Comunidade Shel Guemilut: Jomtob Azulay (Presidente), Rafael Serruya (Vice-Presidente, Messod Benzecry (Secretário), Maurício Mossé (Tesoureiro), David Pérez (Orador Oficial). Em seguida, convocou Fortunato Azulay que abriu a sessão fazendo histórico da Sinagoga, relembrando em merecido preito de saudade Presidentes e Diretores desde 1882 (***), passando pelas tentativas de construção da sede própria efetivadas em 1936 e 1941 mas que não lograram êxito. Somente hoje, neste dia magnífico de outubro, completou Fortunato, “conseguiu coroar de êxito nossa missão e cumprir o mandamento de nossa Torá: construir o Templo.”
     
Segue-se pela ordem David José Prez. Em um daqueles seus maravilhosos improvisos, imponente, cevado de clareza, de consciência, de coragem, mostrou-nos o papel da Sinagoga como legaram nossos Rabinos: ser o local onde ojudeu, concentrado em suas preces, não perde espiritualidade; ser o lugar em que se cuidada educação religiosa das novas gerações, garantindo aperpertuidade da nossa doutrina. Das poucas casas ao longo da rua, embelezadas para o grande dia e das imediações circunvizinhas, pôde-se ver chegar o povo altaneiro a ouvir o discurso de David Pérez, procurando entender o porquê de tanta força naquelas eruditas, mágicas e emocionantes palavras!
     
Isaac Benoliel vestido como de costume, elegantemente, em traje passeio completo de cor bege, gentilmente, pediu aos presentes que assinassem a Ata a ser depositada na Urna, nela constando os seguintes dizeres:
     
“Aos 10 dias do mês de outubro de 1948 (7 de Tixri de 5709), às 15 horas, nesta Cidade, à Rua Rodrigo de Brito n° 37, foi lançada a pedra fundamental da Sinagoga a ser construída neste local. Pela diretoria foi mandada lavrar esta Ata em comemoração da cerimônia realizada”.
     
Em seguida o Parnás Benoliel, amável como o é o homem de convicção firme, nomeou uma a uma, as matriarcas responsáveis pelo depositar na Urna os detalhes mínimos do extraordinário dia:

      Sr“ Jomtob Azulay: o pergaminho da Ata.
      Sr3 Rafael Serruya: o Boletim de n° 1 do Departamento Cultural e Social.
      Sr3 Ambrosio Ezagui: o convite para o lançamento da pedra fundamental.
      Sr“ Shaba Levy: algumas moedas.
      Sr“ Regina Moraes e Matos: telegramas recebidos.
      Sr“ Pepe Benzecry: o Jornal do dia.
      Sr“ Samuel Lasry Laredo: conduziu a Urna até a pedra fundamental.
     
Vale lembrar que em todas as épocas as mãos das matriarcas se constituíram em fonte de engradecimento do Povo Judeu. Depositada a Urna foram convidados pelo Párnas a preparar o cimento os Senhores José Adler, Abrahão Ramiro bentes e Saul Caji. Os presentes foram convocados a lançar uma pá de cimento. Principiou esta etapa da festividade o sábio maior David José Pérez. nesse momento quebrara-se a tensão, a festa seguia com todo o previsto muito bem desenvolvido e as palmas puderam soar quentes e acarciantes!
     
Prosseguindo com a efeméride, Rabino Lemle, representante das demais Comunidades Judaicas presentes, lembrou em sua alocução que 7 de Tixri se constituí em um dos dias de “Texuvá”. Conclui por elogiar Jomtob Azulay que concretizava seu sonho de muitos anos e por afirmar que nesse momento deve-se realçar o princípio j udaico da Democracia baseado no D’us Uno e Humanidade Una. Outros oradores também se apresentaram: Tufic Nigri louvou a grandiosidade do evento; Moyses Azulay representando a Comissão dos construtores composta dos Engenheiros Rbom Benchimol, José Mizrahi e dele próprio, fez ver aos presentes como fora planejado o Templo: salão de culto e salão no andar térreo para fins culturais e assistenciais.
     
Encerrou a cerimônia o Párnas Isaac B enoliel agradecendo aos presentes pela tarde, pedindo as Bençõas de D’us e asseverando que as futuras gerações seriam gratas pelo esforço daqueles homens e daquelas mulheres ! Os presentes começaram a retornar às suas residências e, em gosotosa vozearia, comentavam a grandeza da iniciativa! Evadiam-se em sonhos, a imaginar nossa Sinagoga pronta, viva, cheia e repleta de judeus de todos os rincões brasileiros e de irmãos marroquinos que nos legaram soberba cultura! Quem sabe sonhava aquele cortejo com o novo Templo repleto em um Cabalat Xabat, ouvindo alegre os Salmos de david?!!...
     
Em 7 de setembro de 1950 aquele sonho tornara-se realidade. Estava pronta nossa relíquia, consagrando o novo templo-sede-própria da União Israelita Shel Guemilut Hassadim !
     
Jomtob Azulay permanceu Presidente até 1959 ano de seu falecimento. De lá para cá foram Presidentes - todos sem exceção mantiveram firmemente o culto de tradição hispano-portuguesa:
     
Falecidos: Abraham Benoliel, Eliézer Zagury, Aarão Benchimol, Fortunato Azulay, Israelino Buzaglo, Messod Benzecry, Moysés Eshiriqui, Abraham Ramiro Bentes.
     
Vivos (Bendito D’us): Rubem David Azulay, Menahem Miguel Benjó, Samuel Joshua Levy, César Benjó.
                                                                         
(*) Publicado pela primeira vez no Boletim da União Israelita Shel Guemilut Hassadim, 50 (2): 28-9, out-nov. 1998.
   
(**) Professor Universitário vem realizando estudos sistemáticos sobre a História da Shel Guemilut, muitos deles publicados na Revista Menorah.
     
(***) Foram Presidentes até 1922 quando tomou posse Jomtob Azulay: Arthur Levy, Isidoro Hass, Abraham Parente, Joseph Alcaim, Leão Abreu, todos falecidos.

© Editora Menorah - 1960-2014

PEQUENO HISTÓRICO DA SHEL GUEMILUT

Sinagoga da União Shel Guemilut Hassadim
1866 - Foi fundada ainda na época do Império e seu alvará foi assinado pelo Imperador D. Pedro II. Sua localização inicial foi na esquina da Praça da República com rua Senhor dos Passos. Foi fundada como União Israelita do Brasil
Em 1873 teve seus estatutos aprovados no dia 13 de janeiro e foi para rua da Alfândega 358. Abaixo o diário oficial do dia 28 de janeiro de 1873.
1873---01---28---diario-oficial-página-da-Uniao-Israelita-do-Brasil-dip
1876, a União Israelita do Brasil recebe autorização para criar um cemitério judaico na Rua da Alegria que hoje fica nos fundos do Cemitério de São Francisco Xavier. Não se sabe se isso foi adiante ou por que não foi.
1890 na Rua do Hospício 81, também chamada de Sociedade União Israelita, cuja diretoria se encontra abaixo (Almanack Adminsitrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro)
1891 O Almanack Adminsitrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, de 1891 faz referência A SOCIEDADE UNIÃO ISRAELITA RUA DO HOSPÍCIO 81 E SUA DIRETORIA
1897 com o nome Sociedade Beneficente União Israelita do Brazil, está na mesma rua do Hospício (Buenos Aires), agora no número 97
1900 na rua de São Pedro 253 (rua não existe mais).
Em 1911, sob a presidência de Arão Henrique Malca, mas aluga a rua do Hospício 166 para Rosh Hashaná e Iom Kipur. É a primeira vez que temos publicado no nome União Israelita Shel Guemilut Hassadim. Outros membros conhecidos desta diretoria são: Leão Abreu e Samuel Nahon.
Em 1920 na rua do Lavradio 90, no sobrado abaixo que ruiu em 2013.
rua-do-lavradio-90-dip
em 1935 na rua Francisco Muratori 33 (Sta Teresa perto da Lapa) abaixo, prédio ainda em excelentes condições.
shel guemilut hassadim francisco muratori 33 blog
Em 1948 na rua Rodrigo de Brito em Botafogo, onde se encontra hoje. Há um vídeo único de 1950 por ocasião de um ano de localização em Botafogo e mostra as fachadas dois dois endereços anteriores. Você pode assistir aqui.
Aniversário de um ano na rua Rodrigo de Brito
© José Roitberg - jornalista e historiador 2014

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

CIB nos anos 1950

O RIO JUDEU QUE O POVO ESQUECEU

Crônica sobre os momentos iniciais do Clube Israelita Brasileiro, até então Centro Israelita Brasileiro, publicada na revista Menorah número 481 de julho de 1999

Uma amorosa viagem pelo Centro Israelita Brasileiro do final dos anos 50.

por Samuel Szwarc

"Ai de ti, Copacabana" (Rubem Braga)

     Na mesma época que entrei para o científico (1953) meus pais trocaram a calma Tijuca, bairro classe média do Rio, onde estudei o primário e o ginasial, pela agitada Copacabana. Como definir Copacabana, ainda Capital Federal, no início dos anos 50, para um jovem sonhador que gostava de escrever, jogava voleibol, tênis de mesa e xadrez, com alguma qualidade, modéstia à parte,
     O bairro merecia a fama internacional que desfrutava. Sua capital: o Hotel Copacabana Palace, o Copa, o Bife de Ouro, seu famoso restaurante e a disputada pérgula e piscina com celebridades permanentes. O Hotel, aliás, acaba de comemorar seus 75 anos, com brilho renovado e público idem.
     Nós, garotos, que freqüentávamos a praia ali no posto dois e meio em (frente ao Copa), não entrávamos no hotel nem por decreto. O porteiro já nos conhecia, não deixava. O Copa era para seus hóspedes famosos e para os socialites da época, cujos nomes saíam freqüentemente nas colunas sociais que começavam a despontar, comandadas por Jacinto de Thormes e Ibraim Sued. Da mesma maneira que hoje ver novelas, o programa do Faustão, ou da Hebe, não era "bem” naquela época, ler colunas sociais, Mas a gente lia. Essas colunas, bastante renovadas, ainda hoje, são um espelho do que acontece na cidade.
    Véspera de ano novo em Copacabana. Como bom carioca, gostava de vestir branco na passagem do ano, ficava inclusive bonito o contraste com a pele morena.
    O bairro vai ficando mágico logo ao nascer do dia, Não há mais ansiedade. Quem tinha que sair já saiu. Li, recente, que carioca acha brega ficar em sua cidade, -durante o Reveillon. Mentira, sacanagem. Nesses últimos anos o espoucar de fogos, a magia do lugar, o sincretismo da Umbanda com seus atabaques, suas velas, seus mistérios, imperdível. Um luxo.
     Houve um tempo, não muito longe, que você não tinha medo de andar a noite por Copacabana.
     Recomendável, recomendável, nunca foi. Sempre houve naqueles tempos uma convivência aceitável com a bandidagem do local.
     O Lido, era lugar de boites animadas e de bares e restaurantes famosos. A gente, lá pelos 16, 18 anos, não freqüentava esses lugares. Não estava na moda pai pagar despesa de filho em boite ou restaurante, você tinha que trabalhar para usufruir.
     Cinemas, todos, vocês ia a pé de um para outro.
     Foi uma época rica: os musicais da Metro, a "nouvelle vague” francesa, o neo-realismo italiano, o cinema novo brasileiro.
     No teatro, Guarnieri, Boal e Nelson Rodrigues, abriam horizontes à dramaturgia brasileira.
     Os contistas mineiros, Guimarães Rosa, Mário Palmério, a Bossa Nova, (Tom/ Vinícius/João Gilberto), Maria Bonini na Bienal de Veneza. No esporte, Brasil pela primeira vez. campeão do mundo de futebol e basquete, Maria Ester Bueno no tênis, Eder Jofre no boxe. Nelson Pereira dos Santos e Roberto Farias com o cinema novo, e por aí vai.
     O período 56/60 foi muito fértil. Parece banal dizer isto agora que as evidências são mais notáveis.
     Faço apenas um superficial exercício de memória, e de reflexão.
     O que atingia a mim, à minha geração. Claro que existirão visões bem mais profundas. Bom para elas e para aqueles que sempre conseguiram enxergar, comparar e julgar as coisas.
     Politicamente, a década começou conturbada pela volta de Getúlio Vargas à Presidência da República, Do "mar de lama” ao suicídio foi um passo, Os meses seguintes (todo o ano 1955). foram marcados por golpes e contragolpes até a eleição apertada de Juscelino. Os seus 50 anos em 5 foram de arrepiar.
     Preciso dizer mais? Preciso. Ainda e principal-
mente que havia um clima de confiança e otimismo neste País. Que era um momento alegre, a despeito dos nossos sempre grandes problemas sociais. Respirava-se o melhor dos ares: o ar da liberdade.
      Éramos jovens. Isso acrescenta e desculpa muitas coisas. Como hoje, queríamos salvar o Brasil e o mundo, e tínhamos muitas fórmulas para isso.
      Certo ou errado, dávamos o nosso exemplo. Nem que fosse o exemplo de nossa insatisfação.
      Queríamos realizar, participar. E aquele casarão branco, majestoso, da Rua Barata Ribeiro, em frente à Rua Anita Garibaldi, ao da lado da Galeria Menescal, foi o "palco cênico” ideal para a excepcional oportunidade de provar isso.
      Chamava-se Centro Israelita Brasileiro, o CIB, e era o Centro da Comunidade Israelita Sefaradí, que imigrou vinda das cidades turcas e gregas de Ismirna, Salônica, etc.
      Há algum tempo mudou de nome, agora é Clube Israelita Brasileiro. Mas continua CIB.
      Dois salões. O de cima, para carteado, que a comunidade sempre foi chegada, sem distinção. No de baixo, o salão social, dos bailes, das atividades culturais e cívicas. Um bar térreo, um restaurante em cima. Na frente, varandas; nos fundos uma solitária quadra multiesportiva (o CIB era bom nos esportes coletivos: vôlei, basquete e futebol de salão). A sinagoga veio depois, lá pelo final dos anos 60, se não me engano.
      Poucos sócios. Talvez 300 famílias, pouco mais. E uma legião de sócios-atletas e sócios sociais, uma juventude bonita que freqüentava e apoiava toda a programação do clube. Que era totalmente idealizada pelos jovens componentes do seu Departamento da Juventude.
      Esses jovens, na faixa dos 18 aos 22 anos viravam o CIB de cabeça para baixo.
      Como responsáveis pela programação social e cultural, e sob a liderança de José Gomlevsky, diretor do Departamento de Juventude, aquele grupo fez e ousou.

O DEPARTAMENTO DA JUVENTUDE (DJ)

     Não me lembro exatamente quando começou o Departamento da Juventude do CIB. Acho em foi em 1956 ou 1957 quando José Gomlevsky foi eleito Diretor da Juventude e convidou um grupo do jovens entre 18 e 22 anos, que perambulava pelos corredores, alguns fazendo esporte, para compor o novo Departamento. Os jovens foram Moysés Akerman, Oscar Magtaz Z’L, Itamar Faul Z’L, Nelson Levy e eu. Pouco depois ingressaram: David Klajmic, o Darruda; Jacques Eduardo Hasson Z’L, que nos deixou tão apressado; Roberto Algranti, Jack Blajchman, Nilton Orembuch, Joaquim Breslauer, Alberto Mizrahy,
Enrico Goldner, o Caburé, Ariel Wainer Z’L, o João Laewenstajn ... . Se a memória não falha, estão todos aí. (Somente rapazes, observo hoje, de passagem ....).
     As reuniões eram realizadas pontual e religiosamente aos sábados a tarde, com surpreendente regularidade para uma turma tão jovem (e carioca), na sala da Diretoria, no andar térreo. O DJ era responsável pela programação social e cultural do clube, menos a esportiva que tinha um diretor próprio, o Dr.Isaac Amar, uma grande e querida figura, realmente fundador e grande batalhador do esporte no CIB. O grupo teatral, que encenava pelos menos uma peça por ano, era também responsabilidade de outras área.
     Esses jovens se auto-intitulavam "os cobras”, no sentido (pretensioso) de melhores, um convencimento desnecessário. Mas na realidade, desempenharam um importante papel na vida social e cultural da comunidade judaica carioca de então, sobretudo a jovem.
     De um modo geral, denominado "Guerra e Paz”, originou-se a Revista do CIB, dirigida desde o início por mim, pelo Moysés Akerman e pelo Oscar Magtaz Z'L.                                          


A PROGRAMAÇÃO

     2a feiras: o CIB fechava
     3a feiras: Carteado no salão superior de 3a a Domingo. Podia-se jantar ou comer um sanduíche, no restaurante/bar. Na quadra descoberta (anos depois fizeram o ginásio e a piscina), treino ou jogo de voleibol. Tênis de mesa no salão inferior.
     4a feiras: basquete ou futebol de salão na quadra.
       Ensaio do teatro.
     5a feiras: Sempre uma atividade cultural, como cinema, música, júris simulados, palestras sobre temas da atualidade, política, judaísmo e comportamento.
     Dizer qual a Bossa Nova - um momento excepcional da MPB, também nasceu no CIB (e ao mesmo tempo no Beco das Garrafas - Bottles Little Club - e no Clube Leblon, que não existe mais), pode parecer exagero, uma vez que isso não é mencionado no excelente livro do Ruy Castro.
     Embora o poeta maior Vinícius de Morais tenha expressamente se referido aos três locais em testemunho à Revista Manchete no anos 70.
     A nossa participação foi a seguinte: em 1958, um radialista chamado Estevam Herman, comandou no CIB, as quintas-feiras, um programa chamado samba-jazz.
     Samba numa 5a feira, jazz na outra. Nesses programas de samba ouvi pela primeira vez João Gilberto, Chico Feitosa "Fim de Noite”, Luís Carlos Vinhas, Ronaldo Boscoli, Luiz Eça, Nara Leão e tantos outros. No Carnegie Hall, de Nova York, já em
62 - aquela batida sincopada "conquistava o mundo", e eu deixo aos historiadores esses fatos passados no CIB, acho que narrados pela primeira vez.
      6a feiras: Em respeito ao Shabat, não havia
• programação, mas a sede ficava aberta. O CIB não era "religioso" mas obedecia razoavelmente aos feriados e festas judaicas, algumas inclusive comemoradas.
      Sábados: Pela manhã, praia, que estamos no Rio ensolarado, em Copacabana, no Posto 4. A tarde (5 hs em ponto) começava a reunião do DJ.
      E as noites, eram sempre mágicas, como devem ser a noites de Sábado quando se tem 20 anos.
      Era uma geração bonita, não tenho dúvidas.
      Namorava-se, dançava-se bolero e samba-can-ção de rosto colado, vimos surgir ritmos como o "Rock", o "Twist", o Chá, Chá, Chá, esses poucos depois.
      Sábado a noite era dia de bailes em traje "passeio completo", isto é, terno e gravata, música ao vivo com orquestras famosas como as Booker Pittman (pai de Eliana) e de Waldemar Spillman. As moças, bem produzidas pois a vaidade era estimulada, o intelecto também. Era o tempo do decote e da cueca samba canção.
     Os rapazes bebiam cuba-libre (rum com coca-cola), depois surgiu o "Hy Fy" (vodka com suco de laranja), o Whisky veio mais tarde.
     As moças pediam coquetel de frutas sem álcool.
     Nesses bailes, sempre havia show com artistas famosos: Silvinha Teles, Trio Irakitan, os Cariocas, Lúcio Alves, Tito Madi, Agostinho dos Santos e tantos outros.
     O CIB fazia baile de tudo que era tipo: debutantes - como era comum na época - desfile Bangu, patrocinado pela conhecida fábrica de tecidos: bailes de carnaval e "gritos de carnaval", com apresentação de escolas de samba, como Império Serrano e Mangueira; bailes de São João, com quadrilhas, fogueiras e todo mundo fantasiado. Alguns bailes eram a rigor, como o do aniversário do Clube, com o salão ricamente decorado pelo bom gosto da esposa do José Gomlevsky, Ligia Hazan Gomlevsky, filha de um dos fundadores do CIB.
     Aos poucos, fomos ficando menos formais, o traje virou esporte, a música ao vivo cedeu lugar à parafernália do som, da música disco, que começou no CIB, num salão pequeno e com poucas mesas. Com o sucesso, a música disco ocupou o salão térreo, principal, sempre lotado nessas ocasiões.
     Domingos: No último Domingo de cada mês, o DJ realizava um programa de auditório que fez bastante sucesso: "Responda se Puder". Um misto de perguntas e respostas sobre temas diversos e brincadeiras de todo tipo. Com premiações, sorteios etc.
Conheci bem este programa, era um de seus apresentadores ao lado de Moysés Akerman, Devido ao sucesso do programa, recebíamos convites para apresentações fora do clube, como a que fizemos no clube Caiçaras, no Rio, e luxo dos luxos, na Hebraica de São Paulo!
      Os bailes menos formais - domingueiras, ao som de música-disco (primórdio das discotecas^ -começaram também nos domingos.


O ESPORTE

      O Esporte coletivo no CIB, durante a década de 50. teve um destaque merecido. O CIB era bom no Vôlei feminino, bi-campeão dos jogos da Primavera, grandiosa promoção esportiva inter-clubes do lornal dos Esportes. Suas atletas mais famosas foram ,vou cometer omissões mas a citação é essencial' Violeta Cheniaux e Anita Bubman-. no voley masculino o CIB sempre esteve entre as três melhores equipes do Rio. vencedor de inúmeras macabíadas nacionais e sempre base do time de voley do Brasil em macabíadas em Israel. Destaques: Boris Guivelder. Eliahu Chut. Oscar Bergman. daniel Schwartz e Beniamm Tysenbaum, e até o time juvenil era formado por futuros craques: Carlos Arthur Nuzman ^campeão carioca e brasileiro de voley adulto, pelo Botafogo, muitos anos), Arnaldo Jagle e Milton Cohen no basket, foram destaques: Eliahu Chut. Efrãnio Caboudy, Fredy Cohen, Bob Zagury (que acabou tendo um famoso romance com a Brigitte Bardot'. e tantos outros. O futebol de salão começava com um técnico famoso o Maurício Apelbaum ("Gumex") e os seus craques eram José Apelkaum (Joca) e o Saul Waissman.
      No tênis de mesa, lembramos de Benjamin Goldgrob e jaime Rzezak. Não jogaram no CIB mas não podem ser esquecidos dois grandes atletas judeus cariocas da década: No basket, René Salomon. da ARI e depois da seleção brasileira, campeão do mundo; e Jaime Baidelman, no tênis de mesa.
      Como já foi dito, o Dr. Isaac Amar foi o grande diretor de esportes do CIB. Menção honrosa para seu auxiliar, dedicado e eficiente, Adolfo Mekler, o "Chapinha”.
      Um parênteses para um destaque a dois atletas de vôlei do clube Hebraica, das Laranjeiras, adversário precioso do CIB: Perez Becker e Selmo Astracham, com quem fiz uma dupla que guardo na memória.

FINAL

      Procuro me lembrar de alguma noite no CIB dos anos 50. Não me concentro em nenhuma noite em especial, seguindo o conselho que recebeu a personagem Emily, da peça "Nossa Cidade”, de Thornton Wilder, encenada no clube, com muito brilho, com a Léa Kohn no papel de personagem. O conselho foi: "Volte (no caso da peça, era para a vida), "mas não escolha nenhuma data em especial, escolha o dia, mais simples, e ainda assim ele será importante demais."Sendo assim, escolho uma noite qualquer de um dia qualquer, Na antiga portaria estão o Dorival ou o Mila. Ainda é cedo, são 7 e meia da noite, vejo o Murilo, funcionário da rouparia, montando a mesa do tênis de mesa. Espero os amigos para combinar o programa da noite, que começava no CIB e terminava muitas vezes na sessão das 10, porque cinema no final dos anos 50 tinha um nível excelente. Era no CIB o ponto de encontro, o "encontro marcado” para tanta coisa inofensiva e tantas outras, um pouco mais levadas.
     Destaque para o Sr.Ivan, um gentleman, Diretor Executivo, e com tanta justiça, destaque aos líderes da comunidade Sefaradi do CIB, que deram espaço para que aqueles jovens realizassem um grande trabalho.
     São eles: Salvador Esperança, Mateus Menaschê, Victor Hasson, Jacques Alhanati, Alberto Behar, Isaac Albalgi, Joseph Esquenazí Pernidgi e tantos outros, desculpem as omissões.
     Não sou - que pena - o historiador do CIB, uma das mais antigas entidades de nossa comunidade, que está a merecer uma pesquisa, quem sabe um livro de sua brilhante trajetória, e não apenas retratos deste memorialista de memórias tão duvidosas.
     Nesse trabalho de resgate, vamos encontrar histórias daqueles rapazes, que sob a liderança do nosso Zeca. editor desta Revista, estavam unidos e conscientes que naquele momento e naquele lugar eles tinham um papel a desempenhar.
     Pena que durou tão pouco ...
  
  ♦        Samuel Szwarc, casado, três filhos, duas netas, é carioca da Praça Onze, da Tijuca e de Copacabana. Foi atleta de vôlei da Hebraica e do CIB. Formado pela Faculdade Nacional de Direito, da rua Moncorvo Filho em 1960. Atua com negócio próprio das áreas de Marketing e Comunicação. Mora em São Paulo há 32 anos onde é membro dos Conselhos Consultivo e Deliberativo do Hospital Israelita Albert Einstein. do qual foi diretor por 28 anos. Também foi diretor da Associação Brasileira- A Hebraica de São Paulo em muitas oportunidades e é Conselheiro do Centro Israelita de Assistência ao Menor - CIAM. Contista, Samuel Szwarc venceu há alguns anos o Concurso de Contos do Clube A Hebraica do Rio, com o trabalho "Uma noite em Palmital”. É autor do livro "Contos Judaicos e Outros nem Tanto”.

© Editora Menorah 1960-2014

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Sociedade Beneficente Israelita Achi Hezer - 1913


O RIO JUDEU QUE O POVO ESQUECEU

19 de setembro de 1913
- Fundada a Sociedade Beneficente Achi Hezer, na rua Visconde de Itaúna 113 (praça Onze) com biblioteca e teatro amador. Foi a primeira grande entidade local de amparo aos imigrantes.

Achi Ezer, em hebraico, significa "Ajuda ao Meu Irmão". Há várias instituições judaicas com este nome, ainda hoje em diversos países.
Em 1920 se tornou a Sociedade Beneficente Israelita e Amparo aos Imigrantes - Relief, provavelmente no mesmo endereço na praça Onze. Esta é bem mais conhecida. No final dos anos 1920 se mudou para São Cristóvão 189 (este número nunca existiu - arrisco-me a dizer que foi no 59), depois rua Joaquim Palhares, onde funcionava também um curso de português para os imigrantes.

diploma da sociedade israelita Achi Ezer fundada em 1913 full

Há pouca informação sobre ela e os historiadores contemporâneos a denominaram incorretamente de "Achiezer" como se fosse o nome de alguém. A data de fundação com a qual se vinha trabalhando até hoje era 1916, e também estava errada. O Diploma não preenchido quer era o título de sócio da Achi Hezer, coloca a história em seu devido lugar.
E como sempre, apenas esbarrei nele procurando outra coisa.

Será que alguém consegue encontrar outros diplomas destes nas coisas dos avós ou bisavós? Em 1913 havia entre 3 a 4 mil judeus no RJ, então o grupo que se associou deve ter sido bem restrito.

© 2014 - José Roitberg - jornalista e historiador

domingo, 29 de dezembro de 2013

Movimento Sionista Betar no Brasil 1947-1961

Surgiram estas preciosas fotos do Movimento Sionista Betar, que ia além de um grupo juvenil em suas atividades no Rio de Janeiro.

Com o monopólio historiográfico judaico por pessoas da esquerda judaica o Betar no Brasil foi varrido da história como se nunca tivesse existido. Exatamente o mesmo que movimentos juvenis de esquerda (Shomer, Dror, Chazit, Ichud, Bund, Clube da Juventude Israelita, Iugen Heim, ASA, Frischman e tantos outros) fizeram com a memória dos jovens que não eram da esquerda e combateram no Gueto de Varsóvia.


Pavel Frenkel

O Betar estava no Gueto de Varsóvia e praticamente todos os seus integrantes foram mortos em combate ou logo depois. Assim sobrevivendo jovens da esquerda, somente, contaram a história como lhes convinha. O Betar formou o ZZW (ZIDOWSRY ZWIZAEK WOJKSOWY - União Militar Judaica). Seus comandantes foram Pavel Frenkel e Leon Rodal, mortos em combates contra os soldados nazistas em abril de 1943


Leon Rodal

O Betar também combateu nos levantes dos guetos de Vilna e Bialistok. Poucos dos que sobreviveram a estes dois combates se incorporaram a unidade partisans de guerrilha. Todavia os membros dos grupos do Betar nos vários países da Europa foram praticamente 100% exterminados no Holocausto.

O Betar sempre foi acusado de ser “da direita fascista”, pelos militantes da esquerda já nos anos 1930 em Israel pelo fato de seu uniforme ter camisas de cor marrom-avermelhada escura. Os judeus de esquerda afirmavam que eram os 'camisas marrons' fascistas e nazistas. Mas convenhamos, as SA nazistas usavam marrom claro, quase bege, e os fascistas italianos usavam camisas pretas. Obviamente não interessa à propaganda judaica de esquerda que as camisas marrom-avermelhadas escuras foram criadas junto com o movimento na Latvia, em 1923, dois anos antes de Hitler escrever o Mein Kampf e sonhar com suas próprias camisas beges. Para o Betar o tom de marrom de suas camisas significava a terra de Israel.

Posteriormente, com a ascensão do nazismo o Betar fora da Alemanha passou a usar camisas brancas ou camisas azuis. Lembre que a imprensa era com fotos preto e brancas e a simples menção de "camisas marrons" era complicada por não ser possível ver os tons de marrom nas fotos. Na foto abaixo, uma manifestação de rua do Betar em Berlim, em 1934, já em pleno vigor da administração hitleriana. Podemos ver os jovens com camisas brancas e bandeira do movimento que unia a 'bandeira sionista' com uma menorá estilizada com a base como uma lâmina de punhal.

Betar na rua um Berlim em 1934


Mas a esquerda determina que tudo que não é esquerda é fascista. Apenas propaganda partidária. Assim, democratas são fascista, republicanos são fascistas, legalistas são fascistas, conservadores… Ah, estes são muito fascistas. É a visão da esquerda e é o que foi propagado por seus livros e ícones culturais.

Mas as pessoas do Betar aí estão, burgueses, democratas, pró-Israel, sionistas que foram embora, sionistas que ficaram.

O Betar não deixou sua história escrita no Brasil, nem na Europa, pois praticamente todos imigraram para Israel. Seus ícones são detestados pela esquerda judaica e pela direita religiosa ortodoxa judaica.


São Jabotinsky e Trumpeldor que desde antes da Primeira Guerra Mundial já pregavam que os judeus fossem capazes de se defender dos pogroms na Europa Oriental, enquanto a esquerda buscava e depois implementava sua revolução sanguinária e os religiosos implementavam a vontade de Deus para retirar dos cristãos ortodoxos do Império Russo e depois dos comunistas não tão ateus assim, a responsabilidade pela matança de judeus. Exatamente o que o Rabino Chefe Sefaradi, Ovadia Yossef z´l fez poucos anos atrás em relação aos nazistas. Nessa visão absurda da ortodoxia (mas não é uma visão geral), os que mataram judeus agiram movidos pelo “nosso Deus” para nos punir. Ah! Que se danem os que pensam assim e rezam para Deus mandar chuva todo ano…

Em março de 1920 oito judeus foram mortos num ataque árabe contra o povoado de Halsa, bem ao norte. Entre eles, Josef Trumpeldor fundador do movimento sionista russo Hejalutz. Entre 1919 e 1920, Halsa estava sob controle francês. Em dois meses, os árabes atacaram outras oito colônias de judeus. Esses ataques levaram os judeus a criarem a Haganá - Força de Defesa em junho. No ano seguinte os ataques árabes continuaram em áreas rurais e se iniciaram nas áreas urbanas, em Jaffa, Rehovot, Petah Tikva, Hadera, Haifa e Jerusalém, onde o bairro judeu foi duramente atacado e os árabes repelidos pela Haganá. Neste clima anti-judaico, os ingleses proíbem os judeus de entrar na "Tranjordânia."


Joseph Turmpeldor com uniforme
britânico em 1916
Em fevereiro de 1915 o comando britânico em Alexandria, no Egito, aprovou o plano de Zeev Jabotinsky e de Joseph Trumpeldor para criar uma tropa formado por judeus imigrantes russos que iriam participar da libertação da 'Palestina' do Império Otomano. O recrutamento começou pelos judeus que estavam no Egito e tinham sido expulsos da 'Palestina' pelos Otomanos em 1914 por serem russos, portanto inimigos na Primeira Guerra Mundial. O primeiro contingente foi de 650 soldados, dos quais 562 participaram da Batalha de Galipoli. Era uma unidade de transporte chamada de Zion Mule Corps. Eles se uniram em solo turco ao 9th Mule Corps da Índia, na tarefa complicada de abastecer de água as tropas da linha de frente de combate. Apenas 13 soldaos do Zion Mule Corps foram mortos. Trumpeldor, recebeu o posto de capitão e levou um tiro de fuzil no ombro, mas recusou a ser evacuado, continuando em suas funções. O ZMC foi desfeito em janeiro de 1916. No ano seguinte seria formada a unidade de combate conhecida por Legião Judaica, mas é assunto para outro artigo.


Zeev Jabotinsky com uniforme
britânico em 1917
Jabotinsky fundou o Betar homenageando Trumpeldor em 1923. Este é um ano emblemático, pois foi quando o Império Britânico promove a Primeira Partilha da Palestina do Mandato Britânico, criando oficialmente a Transjordânia e ampliando oficialmente a proibição de cidadãos judeus lá, já em vigor desde 1920. Portanto, na prática, o Estado Árabe segregado composto por mais de 70% do território da Palestina do Mandato.





As fotos abaixo não possuem legenda alguma. Não sabemos o nome sequer de uma pessoa nelas. Seria interessante se pudéssemos identificar algumas. Use os comentários.

Todas as fotos foram divulgadas pelo historiador militar Israel Blajberg

Fotos do Betar no Rio de Janeiro 1949 - 1961 - 7 FOTO DE ISRAEL BLAJBERG
Essa é uma foto inequívoca de um grupo do Betar antes de embarcar em navio italiano para Gênova, fazendo aliá (emigração para Israel). A rota pela Itália, depois embarcando em navio menor para Israel era a rota comum do final dos anos 1940 e da década de 1950 inteira. É no Porto do Rio.


Fotos do Betar no Rio de Janeiro 1949 - 1961 - 6 FOTO DE ISRAEL BLAJBERG
Parece outra foto de emigração de outro grupo em data mais recente


Fotos do Betar no Rio de Janeiro 1949 - 1961 - 5 FOTO DE ISRAEL BLAJBERG
Tirada no centro do RJ pelo menos a mulher que está à direita com o livro na mão é a que está na fila do centro da foto anterior com camisa quadriculada. Quem terá sido o elemento expurgado do grupo? E qual teria sido o motivo?


Fotos do Betar no Rio de Janeiro 1949 - 1961 - 4 FOTO DE ISRAEL BLAJBERG
Gente de todas as idades, num evento do Betar com a emblemática frase judaica, já caída no esquecimento: “no ano que vem, em Jerusalém”, sempre na esperança dos judeus de voltar a sua cidade mais sagrada. Notamos que não há um bibico do Betar no Museu Judaico. Será que alguém ainda guardou um?


Fotos do Betar no Rio de Janeiro 1949 - 1961 - 3 FOTO DE ISRAEL BLAJBERG
Está foto é provavelmente no campo do América onde a Comunidade Judaica realizava grandes festas como o Aniversário da Independência de Israel, e já muito antes disso, a esquecida festa de Bikurim, comemorando as colheitas em Israel. Vemos os adultos em ternos e os jovens com uniforme o Betar.


Fotos do Betar no Rio de Janeiro 1949 - 1961 - 2 FOTO DE ISRAEL BLAJBERG
Evidentemente é um evento. Pela faixa incipiente com o nome do Betar em hebraico, onde se lê claramente a ortografia “Beitar” podemos arriscar imaginar que poderia ser a foto de fundação do grupo no Brasil. Mas é só suposição. Pelos ladrilhos, aparenta ser um salão do Liceu Português, mais do que no Clube Ginástico Português, muito utilizado pela Comunidade, durante décadas, antes da construção da Hebraica. É notável que a reunião tenha ocorrido sob o retrato de Trumpeldor, fixado bem alto na parede.


Fotos do Betar no Rio de Janeiro 1949 - 1961 - 1 FOTO DE ISRAEL BLAJBERG
Aniversário da Independência de Israel em maio de 1961. É a única foto da qual podemos ter certeza da localização temporal


José Roitberg - jornalista e historiador