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terça-feira, 24 de agosto de 2010

Discurso com a letra M

Sempre achei fantástico o discurso sem a letra A, o discurso sem verbos e o discurso com a letra P. Todos estão aqui no blog. Eles mostram a riqueza da língua portuguesa quando se pensa e escreve não só fora da caixa com fora da mesa onde a caixa está. Mas também achava que eu escrevia tão bem quanto eles e me propus o desafio de criar um novo texto, moderno, do século 21, apenas com uma letra. Escolhi a M por um estalo. E deu nisso aqui. Espero que motivados por este texto, o quarto de uma mínima série histórica de excelentes brincadeiras com o português outras pessoas produzam textos com outras letras. A inspiração foi uma musa, menina inatingível por este ou aquele motivo, em que a paixão inesperada e incontrolável precisava fluir para algum lado.


Minha

Magra meiga morena. Melhor mentir, montando moderna moralidade, mentalizando momentos memoráveis.

Metodicamente minha mente mostra manha, mantendo mista morna manhã mudando malogradamente.

Mas mesmo muda, mostra-me mudanças machucadas, manchadas, molhadas, meladas, melosas, mesmo momentaneamente.

Mulher maravilhosa, musa mencionada, menospreza-me, maçãzinha, mascarando meu momento mascado.

Momentos mornos, macios, mascavos. Meras maledicências merecidas.

Mentiras marotas melenas, mortais. Melhorando minha mocidade, merecendo mera mobilidade. Mesmo morrendo, memória motivada machuca, massacra, maltrata.

Meritíssima minha: mostre-me momentos melhores. Mande-me mostras merecidas, manipuladas, mescladas. Mostre-me mesmo meus motivos. Maldiga-me mero monstro metido, meliante. Metralhe-me morto, maltrapilho.

Mazelas movem motivações. Macaquices melancólicas moderadas.

Memorável moça, menti-me mesmo. Meti-me mandado, mudado. Mutando meada motriz movi-me meramente mínimos metros, milímetros, mícrons.

Motivei-me muito metódico. Modifiquei-me maximamente, maciçamente.

Meditarei mentalmente minuciosamente. Mas moverei montanhas martirizar-me-ei minimamente.

Madona motivadora, maledicente. Mude-me. Mostre-me. Monte-me. Mesmo meros minutos, maximizarei momentos merecidos.

Molhe-me, morda-me, minta-me. Mas mova-me mostrando-me merecimento. Metamorfoseie-se maripozinha.

Moçoila mafiosamente metida. Mentalize minha mágica mostra mecânica, mormente maluca, mestre, magistral, memorial.

Mine minha memória, mate-me metodicamente menosprezando mensagens. Muda mas mostre-se. Mude motive-me, mova-me milhas maiores. Melhore menina, memorize minhas moitas, meus muitos modos.

Maravilhosa musa. Mande-me mostrar meros motivos malditos, mínimos. Mosaica, mera moleca, merecidamente mora movendo meu miocárdio.

Mana... Maluco mesmo, moleque, metido, macaquinho marrom meio mundano. Molequinha macia, mordida, malvada, mostre-se mágica, mulherão... Minha.

de José Roitberg

domingo, 28 de março de 2010

Como se tratava o estupro em 1833 no Brasil

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sábado, 9 de agosto de 2008

Texto só com a Letra P

(autor desconhecido - se alguém souber, avise)

A RIQUEZA DA LÍNGUA PORTUGUESA
A ÚNICA LÍNGUA NO MUNDO QUE NOS PERMITE FAZER UM TEXTO ASSIM:


"Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor português, pintava portas, paredes, portais. Porém, pediu para parar porque preferiu pintar panfletos. Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir. Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas  para pessoas pobres. Porém, pouco praticou, pois Padre Pafúncio pediu para pintar panelas, porém posteriormente pintou pratos para poder pagar promessas. Pálido, porém personalizado, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris.

Partindo para Paris, passou pelos Pirineus, pois pretendia pintá-los. Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente, pois perigosas pedras pareciam precipitar-se principalmente pelo Pico, pois pastores passavam pelas picadas para pedirem pousada, provocando provavelmente pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas.

Pisando Paris, pediu permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precatar-se. Profundas privações passou Pedro Paulo. Pensava poder prosseguir pintando, porém, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. Povo previdente! Pensava Pedro Paulo... Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses. Passando pela principal praça parisiense, partindo para Portugal, pediu para pintar pequenos pássaros pretos.

Pintou, prostrou perante políticos, populares, pobres, pedintes.

- Paris! Paris! - proferiu Pedro Paulo - parto, porém penso pintá-la permanentemente, pois pretendo progredir. Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porém, Papai Procópio partira para Província. Pedindo provisões, partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para Papai Procópio para prosseguir praticando pinturas. Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai. Pedindo permissão, penetrou pelo portão principal. Porém, Papai 

Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu:

- Pediste permissão para praticar pintura, porém, praticando, pintas pior. Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. Porque pintas porcarias?

- Papai - proferiu Pedro Paulo - pinto porque permitiste, porém preferindo, poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal. Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences, partiu prontamente, pois pretendia pôr Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro!Passando pela ponte precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando. Primeiro, pegaram peixes pequenos, porém, passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus. Partindo pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro. Pisando por pedras pontudas, Papai Procópio procurou Péricles, primo próximo, pedreiro profissional perfeito. Poucas palavras proferiram, porém prometeu pagar pequena parcela para Péricles profissionalizar Pedro Paulo.

Primeiramente Pedro Paulo pegava pedras, porém, Péricles pediu-lhe para pintar prédios, pois precisava pagar pintores práticos. Particularmente Pedro Paulo preferia pintar prédios.

Pereceu pintando prédios para Péricles, pois precipitou-se pelas paredes pintadas. Pobre Pedro Paulo, pereceu pintando..." Permita-me, pois, pedir perdão pela paciência, pois pretendo parar para pensar...

terça-feira, 15 de julho de 2008

Homenagem a Três

Mais um texto interessante sobre o uso de nossa língua. Lamentavelmente, mais um anônimo... Não tem título. Sugiro: "Homenagem a Três"

Texto supostamente escrito por um aluno de Letras da Universidade Federal e Pernambuco (UFPE), que teria vencido um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa. Mas "discordo da concordância" nominal logo na terceira linha entre "o artigo" "era novinha".... Quanta criatividade... Eu já tirava um ponto aí. Seria mais simples escrever "E artigo era bem definida, novinha"... Tem outros errinhos...

Abs,
Roitberg

"Homenagem a Três"
 
Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino,  singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.

Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar.

O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.

Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar.

Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num  transitivo direto.

Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum
de dois gêneros.

Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.

Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo O edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal.

Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Discurso Sem verbos

Mais espetacular e inusitado que o Discurso Sem a Letra A, abaixo, temos este Discurso Sem Verbos. Parece impossível escrever tanto um quanto outro, mas isso nos mostra que nós, jornalistas e escritores atuais não conhecemos nossa língua. Difunda este texto pois é especificamente desconhecido e feito por um clérigo que também acabou esquecido em nossa história. Os sermões dele deviam ser muito interessantes.

D. Antônio de Macedo Costa (Bahia, 1830-1891) estudou em Paris e doutorou-se em Roma. Teólogo notável, foi bispo no Pará e juntamente com D. Vital de Oliveira (bispo de Olinda) combateu a Maçonaria. Ambos foram presos e anistiados após um ano e meio.

José Roitberg - jornalista

DISCURSO SEM VERBOS
D. Antônio de Macedo Costa

Primeira regra de estilo, uma das principais e porventura a mais esquecida de todas: naturalidade por oposição a afetações ridículas.

Quanto no galarim da fama réu deste delito e quantos oradores, aliás dignos de encômios pelos dotes singulares de seu engenho e imaginação, responsáveis perante a crítica sisuda, pela falta de uma nobre simplicidade de estilo e boleio das frases.

Muita atenção, orador noviço, para este ponto capital.

Nada de ornatos supérfluos, apegados como parasitas ocos a cada palavra: miserável ouropel por cima de pensamentos muitas vezes ocos e sem solidez alguma, só para engano da vista de espíritos superficiais ou de mau gosto. Um brilho fosforescente e um deslumbramento passageiro, como o de um fogo de artifício, tal o único mérito desses campanudos oráculos do púlpito cristão.

Idéias porém sólidas e bem dosadas, ordem rigorosa de raciocínio, doutrinas exatas luculentamente expostas, isso nunca. Não assim Bossuet, os Bourdalouse, os Massilon e todos os outros grandes modelos da eloqüência do púlpito do grande século de Luís XIV.

Que nobre simplicidade! Que naturalidade sublime! Que opulenta sobriedade! Qual rio caudaloso por entre margens, ora severa e escarpadas, ora floridas e risonhas, mas sempre formosas de naturalidade, assim o pensamento desses famosos gênios, por entre a frase ora simples, ora mais ornada, sempre porém em relação com o assunto cheio de graças ingênuas, de louçainhas despretensiosas.

A cada um desses grandes gênios o seu merecimento próprio: a Bossuet sobretudo, em suas orações fúnebres, uma grandeza e majestade incomparáveis; ao nosso Vieira, apesar dos seus senões, uma sutileza, uma retentiva e uma fecundidade pasmosa; e assim os mais, cada qual com seus primores e as suas qualidades características, em todos porém a naturalidade e a simplicidade no seu último auge!

A frase sempre límpida, tersã, louçã; o estilo sempre acomodado ao pensamento, modestamente ataviado, sem arrebiques, sem enfeites pretensiosos e ridículos, sem todas essas lentejoulas tão em voga nas épocas de decadência literária.

Mas sobretudo no orador sagrado, no homem do Evangelho, no Ministro de Deus morto na Cruz, nada mais desairoso, em verdade, do que essas afetações de estilo! Ai! Onde aquele espírito dos varões apostólicos, onde aquela abnegação aos vãos ornatos da eloqüência do mundo?

Ministros do Altíssimo, culpados desta espécie de profanação da palavra santa! Desgraçados de vós por este abuso tão estranho dos dons de Deus e das graças do nosso divino ministério! Mas nem mais palavra! Sobre desvios como estes, só lágrimas e muitas lágrimas!"

Discurso Sem a Letra A

Caros colegas, em nossa discussão continuada sobre como escrever melhor cabe o texto abaixo. Ele ficou perdido durante anos em meu arquivo e o achei por acaso quando procurava por outra coisa. Creio que a maior parte das pessoas nunca ouviu falar dele, e acho que deveria ser de leitura obrigatória nas escolas de jornalismo.

O motivo de ser desconhecido é o fato de seu autor, Dr. Antônio Araújo Gomes de Sá, não ter a mínima importância na memória nacional. Ainda não pesquisei a fundo o que ele fez ou deixou de fazer. O texto é chamado de "Discurso Sem a Letra A" e foi proferido na posse de Gomes de Sá no Instituto Geográfico da Bahia em 1918.

O texto não apenas mostra a riqueza da língua portuguesa, mas também é o fim do duelo de duas mentes privilegiadas: foi o resultado de uma aposta entre Gomes de Sá e Ruy Barbosa. A fonte deste texto é sua publicação na desconhecida revista "Momento Policial ed 28" cuja página eu arranquei quando esperava num barbeiro, na década de 80 do século 20. Não sei se a revista ainda existe, nem sei a data de publicação: devia ter levado a revista inteira...

A gramática de 1918 foi mantida. O texto veio num bloco só sem parágrafos e tomei a liberdade de incluí-los para facilitar. Outras publicações conhecidas: revista Pulso de 29/06/1966. Boa leitura e divulguem essa pérola, principalmente para aqueles que dizem que sabem escrever...

José Roitberg - jornalista

Discurso Sem a Letra A

Dr. Antônio Araújo Gomes de Sá – Bahia - 1918

Meus ilustres e digníssimos consórcios; meus senhores.

Por mim, humilde membro que vou ser deste Instituto, eu vos direi sem orgulho em que me oculte: errou no que pretende, perdeu no que colime, esse que de mim muito esperou em prol deste luzido grêmio, que, sem o meu débil concurso, vive com brilho e vence com fulgor. 

Sim. Porque eu que neste momento vos dirijo um verbo simples e despretensioso, cumprindo somente o desejo de exprimir o sentimento de júbilo de que me possuo, por ser tido no vosso doce e utilíssimo convívio; no meu viver, quer como homem público, quer como eficiente de um tempo ido, sem dons que me nobilitem, sem luzes que me guiem no presente rumo do futuro; em pouco, em muito pouco mesmo, posso proteger o curso luminoso deste conjunto de homens eminentes, deste grêmio benemérito, por isso que, nem de leve, fulgem em mim resquícios de primor.
Fizestes, escolhendo-me em vosso consórcio, o que só costumo ver nos espíritos superiores e que, por isso mesmo, surtem seus vôos por sobre míseros preconceitos. Eis o motivo por que eu me deixei prender nos elos do vosso gentil convite, e deve dizer-vos, sincero, quem fui, quem sou e quem serei, vencendo o pórtico luminoso deste templo repleto de fulgores.

Quem fui? O débil rebento de um tronco bom, e sobretudo honesto, em cujo viver de espíritos eleitos, só virtudes vi florirem e vícios nem de longe pretenderem prender.

Eduquei-me sob o influxo do bem, e tive por complemento dos meus modestos e humildes genitores, um excelente mestre conhecido de todo vós, que tens disso entre vós erguido mil louvores, que nem lhe pode dizer o seu merecimento entre os velhos, entre os moços e entre os que recebem no presente o brilho do seu espírito seleto, fulgindo como um sol que incide-nos pequeninos cérebros, sequiosos de luz. Do colégio, de que conservo vivo o exemplo do bom e do honesto, fui vencer o tirocínio superior, onde, por muito feliz, entre docentes e condiscípulos, conservei desde o início, ouvindo Filinto, Leovigildo e Guerreiro, um nome sem deslizes, que desgosto me trouxesse, no meio de muitos estudiosos como eu. Tenho por mim neste recinto quem vos pode dizer se me exprimo correto neste ponto.

Depois, colhido o louro de um torneio vencido, penetrei o mundo de ilusões, supondo, ingênuo que fui, fluísse em meu viver, num eterno sorrir. Dentro em pouco, porém, vi que o sorriso nos moços nem sempre é prenúncio de um futuro venturoso e, sim, como prólogo de um sofrer contínuo, de um existir repleto de decepções e mil desgostos sem fim.

Sem que desperte dores no recesso de meu peito ferido, eu vos direi: fúnebre dobre de sinos, ouvido por mim, filho extremoso, pelo espírito desse que me deu o ser e que se foi rumo do céu, morrendo como um justo, entre outros golpes bem fundos, foi o primeiro que me fez sentir os negrores deste mundo em que vivemos. Sofri e sofri muito com o ter perdido meu excelente e nobre genitor. Superior porém eu fui, vencendo os óbices do sentimento, tendo, como tive e felizmente tenho, consorte e filhos, meus enlevos que me impelem, cheio de fé e de vigor, no trilho em que me vou conduzindo neste orbe, rico de dores e pobre, muito pobre mesmo, de momentos bons e felizes como este. Isto é que fui.

Que sou? Um pequenino servo de Têmis que fiz do Direito em si o ponto que em reside o imenso bem dos homens, e que Deus quis fosse tido por nós como virtude de virtudes, e que dele mesmo nos veio por intermédio do conhecimento que todos nós devemos ter direitos e deveres próprios, bem como dos de outrem.

Eu vos disse de princípio que tínheis feito de mim um juízo imerecido, escolhendo-me vosso consórcio. Disse e repito. Como o serdes gentis ergueste-me, um homem simples que sempre fui, nos estos de outro indivíduo, desejoso de ter nome e ter estudos que o elevem, que o dignifiquem, por meio dos conhecimentos científicos, vendo, ouvindo, lendo como se de cérebros sem luz seguissem sem temores, no intuito de vencer. Eis o que sou.

E o que serei? Se fui um zero, como vos disse, hoje sou um número dentre vós que no futuro hei de escrever com imenso orgulho todo meu por me sentir no vosso doce e superior convívio. Flui do meu ser um júbilo incontido, por me ver neste recinto, todo luz, todo belo, todo proveito, como se nesse templo se celebre sob os meus olhos o novo surgir de um sol no meu espírito, sequioso de lumes, que me excite o empenho de viver no centro puro em que me detendes com os fortes grilhões dos vossos profundos conhecimentos.

Tudo eu terei, recebendo de vosso ensino o que deixei de ter em outros tempos, quer porque o desleixo me tolhesse, quer porque inconsciente ou cego que estivesse. E venho beber convosco em fonte cujo espelho reflete os melhores dons contidos nesse sólido, no mesmo berço que Rui, o vinho científico me inebrie o intelecto, sorvendo-o em copos de ouro.

E venho com os olhos fitos nesse horizonte cheio de luz. E vendo os seus primores, sentindo-lhe os nobres feitos, noto que por isso mesmo, tudo menos eu concorre com seu brilho em benefício desse grêmio, cujos pórticos, neste momento, penetro como sócio. Sinto-me um homem diferente, sinto-me muito bem, como se de mim se fosse um outro eu e o próprio ressurgisse, revivesse sob o influxo poderoso de vossos fecundos empreendimentos.

Meu íntimo sentir, que os vossos sentidos percebem nos breves termos de meu singelo dizer, é tudo o que de sincero reside nos refolhos do meu peito, repleto desse mesmo vigor e nobre volições com que tendes erguido o Instituto Histórico, que de mim pode ter somente fogosos e efusivos elogios. Tendes nisso o meu futuro proceder.

Neste discurso, produto exclusivo de um esforço ingente que despendi, como noviço que sou de vosso culto, vede somente o desígnio que nutri de exprimir os meus sentimentos sem o emprego de um símbolo de todo preciso no modo de dizer e de escrever o que os nossos espíritos concebem e podem produzir.

Quis, tentei e consegui que me ouvísseis por minutos, sem que dissesse o primeiro signo com que se expõe os estilos. Revele-se-me o inepto intento. Perdoe-se-me o estulto propósito. No intuito que tive e bem vedes que o cumpri, louve-se menos em mim o esquisito escopo, que o meu ilustre e glorioso mestre Ernesto C. Ribeiro, que recebe de um seu discípulo, num excêntrico discurso, os meus íntimos encômios, pois dele eu só tenho tido luzes e conselhos com que pudesse ser recebido neste Instituto.

Ele, o emérito cultor do verbo que o celebrizou entre os profundos conhecedores do Português, que encontre no meu gesto o empenho que tive de querer ser-lhe gentil, dizendo-lhe, de público, o muito bem que lhe quero e o sincero respeito que lhe voto.

Consórcios. Sede indulgentes comigo. Recebei-me como se eu fosse um proscrito que buscou o recolhimento deste teto, em que vejo luzindo os espíritos nobres dos conselheiros Torres e muitos outros de escol; do mesmo modo que crio o desejo certo e imperecível de tudo empreender em prol deste Instituto, dos seus benefícios presentes e futuros, do seu brilho eterno, do seu progresso vencedor, do seu indefectível merecimento, do seu luzente fim, do seu destino vigoroso, conhecidos urbi et orbi como sobremodo úteis e por sempre proveitosos. Tenho concluído.