Considerações sobre História do Rio de Janeiro e dos Judeus no Rio de Janeiro, edição em vídeo, informática, fotografia e outras tralhas
quarta-feira, 5 de abril de 2023
Escravos negros nunca souberam da existência de escravos judeus e de Pessach
quinta-feira, 16 de março de 2023
If I Where a Richman com Topol e Zero Mostel, um dueto que nunca existiu
quarta-feira, 29 de agosto de 2018
Brasil Acima de Tudo é Alemanha Acima de Tudo?
por José Roitberg´
A música "Gott erhalte Franz den Kaiser" (Deus Preserve (Salve) Franz, o Imperador), que se tornou o hino da Alemanha em 1922, foi composta por Joseph Haydn em 1797 para o aniversário de Francis II (1768-1835), imperador do Sacro Império Romano e Áustria. A letra surgiu apenas em 1841, pelas mãos do poeta Hoffmann von Fallersleben tornando a música velha de 44 anos antes, em "Das Lied der Deutschen" (A Canção dos Alemães).
Naquele momento histórico não existia a Alemanha como país. O nome correto era Confederação Germânica (Deutscher Bund 1815–1866), um agrupamento político de 35 estados monárquicos e quatro cidades republicanas livres. Foi a Revolução Industrial que acabou obrigando, economicamente, a remoção de barreiras comerciais entre estas 39 'nacionalidades' alemãs, através da criação da União Alfandegária Germânica (Zollverein), com a participação da maioria dos estados em 1834.
E foi sobre a Zollverein que von Fallersleben escreveu na canção. A letra elogiava o livre comércio de bens germânicos entre os estados e isso iria aproximar os alemães para a formação de um povo único, acreditava ele.
A primeira linha de "Das Lied der Deutschen" é: "Deutschland, Deutschland über alles, über alles in der Welt" cuja tradução aceita é 'Alemanha, Alemanha acima de tudo, acima de tudo no mundo'. O que von Fallersleben pretendia em 1840 é que o país, Alemanha, o conceito de uma nação que ainda não existia, estivesse acima dos problemas pessoais e individuais do povo alemão fragmentado em 39 pequenos estados. O “todos” para ele, não eram todas as outras nações do mundo, mas os povos germânicos.
Mas, sempre tem um mas: a palavra alemã "alles" é utilizada para dois significados: todos e tudo, que são diferentes nas línguas latinas, mas não em alemão. Aí, a tradução que ficou para o Hino da Alemanha (que não é o hino nazista) durante o período nazista hitleriano foi o brado simples "Alemanha acima de tudo", criado nove décadas antes, já com outro sentido, com o desejo da Alemanha de realmente dominar o mundo e se sobrepor a todas as nações.
Na gramática alemã o termo "über allen" significa "acima de todas as outras pessoas", e foi a escolha dos Aliados para finalidade de propaganda de guerra do durante a Segunda Guerra Mundial. Naquele momento, com o genocídio de judeus, ciganos, deficientes físicos e mentais, e prisioneiros civis e militares, além da escravização dos povos conquistados, fazia sentido.
Este problema gramatical do termo "alles" é semelhante ao "you" em inglês, podendo significar "você" ou "vocês". A aí, o tradutor pode quebrar a cara.
Quem tornou a canção o hino da Alemanha, foi o presidente Social Democrata, Friedrich Ebert, em 1922 e não, Adolf Hitler em 1933. Hitler manteve a primeira estrofe, removeu as outras, trocando-a por uma canção nazista, criando um novo hino baseado no velho.
No caso brasileiro, o lema "Brasil acima de tudo, e Deus acima de todos", o slogan da campanha de Jair Bolsonaro agora em 2018, é citado, obviamente, como um discurso nazista. Mas também não é.
"Brasil acima de tudo" era o grito de guerra da Brigada Paraquedista do Exército Brasileiro e hoje, é uma saudação comum entre os militares, frequentemente dita, também como 'ponto' final ao se cantar a Canção do Exército.
O Coronel Cláudio Tavares Casali (Pqdt 46.363-88/1) escreveu um artigo completo sobre a origem do lema e é algo surpreendente.
Em 1968, o país vivia a turbulência das ações armadas terroristas contra o Estado e o povo brasileiro. No início de 1969 um grupo de oficiais paraquedistas "criou um grupo nacionalista e não xenófobo chamado Centelha Nativista". No Rio de Janeiro estavam os capitães Francimá de Luna Máximo (Pqdt 8.201-61/9) e José Aurélio Valporto de Sá (Pqdt 8.259-61/11).
O entendimento do grupo era muito similar ao de von Fallersleben em 1840: "... teriam que ressuscitar os valores que existiram em Guararapes de nacionalismo não xenófobo, de amor ao Brasil e de criar meios que reforçassem a identidade nacional e evitassem a fragmentação do povo pela ideologia e exploração de dissenso da sociedade dividindo o povo nos termos da velha luta de classes do marxismo."
Sempre lembrando que o marxismo levou ao Internacional Socialismo, onde o Império Soviético tinha a petulância de alegar que ocupar militarmente outros países como Ucrânia, Bielorrússia, Uzbequistão, Cazaquistão, Geórgia, Azerbaijão, Lituânia, Moldávia, Letônia, Quirguistão, Tajiquistão, Armênia, Turcomenistão, Estônia, Polônia e Hungria, era algo “democrático”.
A Centelha Nativista era um movimento de concepção cristã, e possuía uma oração a ser proferida em suas solenidades. Dos sete pedidos a Deus, escritos em 1969, dois se destacam em 2018 e com certeza não foram atendidos.
"Livrai-nos da traição, da indiferença, da omissão, da covardia dos vendilhões da Pátria, e dos que solapam os valores permanentes da nacionalidade.
Livrai-nos dos que, pela comunicação social ou pelos livros, se empenham em poluir a vocação cívica e patriótica de nosso povo,"
Parece bem atual 50 anos depois, né?
A data da Batalha de Guararapes foi instituída como “Dia do Exército Brasileiro” pelo Decreto sem Nr, de 24 de março de 1994
O capitão Valporto criou o lema "Brasil acima de tudo". Foi questionado, já na época, devido ao brado alemão “Deutschland über alles”, cuja origem já detalhamos acima.
Em 1975, o Coronel Acrísio Figueira (Pqdt 800–52/4), então Comandante do 26° Batalhão de Infantaria Paraquedista estava em visita oficial ao Fort Bragg, nos EUA, sede dos paraquedistas norte-americanos. Lá ele viu que os militares da guarnição se cumprimentavam com "Air Born" e respondiam "All the Way". Em tadução livre "Paraquedista", "Até o Fim". Voltando ao Brasil "o Coronel Acrísio, visando a aumentar os laços de camaradagem e espírito de corpo de sua unidade militar, encampou a antiga ideia de seu subcomandante, Tenente-Coronel Valporto, um dos fundadores da Centelha, e introduz a saudação “Brasil” – “Acima de tudo”.
Em 15 de Janeiro de 1985, o General Acrísio Figueira assume o Comando da Brigada de Infantaria Paraquedista e passa a adotar, em definitivo, o lema e o brado “BRASIL, ACIMA DE TUDO”.
Pessoalmente eu acredito que tal e qual outras palavras, designações e lemas, que hoje fogem ao seu domínio original, fogem ao seu significado original, como "gay" (alegre), "fascista" (regime político adotado na Itália, Hungria, Portugal e Espanha), a própria suástica indiana, símbolo do deus Ganisha para boas jornadas físicas e espirituais (e por isto roubada pelos nazistas para a bandeira deles), "bundão" (que deveria ser apenas um traseiro grande) e tantas outras, o lema "Brasil Acima de Tudo", criado em contexto totalmente diferente do "Alemanha Acima de Tudo", mas também com a intenção de unir povo de forma patriota e evidentemente não nazista, vai ter um significado pejorativo para aqueles que o quiserem atribuir.
Outro exemplo desta vinculação de símbolos nazistas com o que não é nazista está no fato do juramento à bandeira no Brasil e na maioria dos países ser feito com o braço direito esticado e ligeiramente inclinado para cima. Temos fotos disto no Brasil desde o século 19, desde antes de Hitler nascer. Vemos isto nos juramentos do Hezbollah e de outros países árabes. Não importa aos que usam estas imagens e argumentos fajutos e falsos (fake), que a saudação nazista fosse uma modificação deste movimento, também antes utilizado pelos soldados alemães com o braço, além de esticado e ligeiramente levantado, ter uma rotação para a direita e não estar perpendicular ao corpo. Mas quem sabe isso? Agora você sabe.
É meu dever, como jornalista e pesquisador, dar a quem quiser, a informação histórica correta.
Alguns dos acontecimentos terroristas de 1968
Segundo BRILHANTE USTRA (p. 161) outros fatos marcantes no ano de 1968: - intensificação do movimento estudantil levando à morte, [...] o estudante Edson Luis; - “Jornadas de Junho”, com passeatas, depredações, queima de veículo; - explosão de bombas, saques e viaturas incendiadas de norte a sul do país; - assalto ao Hospital Militar do Cambuci para roubo de armas; - atentado a bomba no Consulado Americano em São Paulo; - atentado a bomba no QG do II Exército, com a morte do soldado Mário Kozel Filho; - “justiçamento” do Capitão do exército dos EUA Charles Chandler; - “justiçamento” do Major do exército alemão Edward Ernest Tito Otto; - atos de sabotagem em trens e fábrica de armas; e assalto ao trem pagador na ferrovia Santos/Jundiaí.
domingo, 13 de maio de 2018
Até um artigo positivo sobre os 70 anos de Israel perpetua um erro perverso contra o sionismo
por José Roitberg
Inexiste algo mais importante politicamente que controlar o passado para controlar o futuro. Não importa o que aconteceu. Importa a narrativa histórica aceita pelo público.
No sábado a Globo e o G1 publicaram um longo artigo sobre os 70 anos de Israel e sua independência. Historicamente correto e um dos raros momentos em que as paginas da Globo em anos recentes não recorreu ao viés demonizador de Israel.
Eu pensei muito antes de escrever este post. Deveria eu atribuir o tal erro perverso, à propaganda antissemita? Deveria eu atribuir o tal erro perverso à ignorância? Quem me acompanha sabe: eu sempre vou para o lado da propaganda partidária emblemática. Mas neste caso, num artigo de um monte de parágrafos absolutamente corretos, apenas um ponto, que eu atribuo ao SUCESSO de décadas de propaganda racista contra Israel pelos detratores dos judeus e do Estado dos Judeus, aliado a uma VITÓRIA PALESTINA em controlar o passado, deixando a perversidade introjetada no pensamento até de gente bem intencionada quanto à questão.
"David Ben Gurion assinou documento do Museu de Arte de Tel Aviv em cerimônia de 32 minutos, perante apenas 200 pessoas, às 16 horas de 14 de maio de 1948. Divisão da Palestina, aprovada pela ONU, nunca foi aceita por líderes árabes; guerra teve início no dia seguinte", é o olho do artigo, o texto para chamar a atenção do leitor após o titulo. Onde está o erro?
Talvez boa parte dos leitores já tenha lido duas ou três vezes e não encontrou erro nenhum. Alguns talvez digam: 'Ah, parece que Israel é quem começou a guerra...', mas ao longo do texto o início da guerra com o ataque árabe está bem pautado e esclarecido.
O erro que meus amigos e leitores podem não ter encontrado está em "DIVISÃO DA PALESTINA". Isto está conceitualmente errado e ainda assim os líderes políticos e religiosos judaicos dentro e fora de Israel continuam cometendo-o, e com isso dando o CONTROLE DO PASSADO ao Hamas, à Autoridade Palestina, a OLP, ao Irã, à Síria e a tantos outros. Mesmo os sionistas do século 19 e início do 20 falavam "Palestina", por falta de outro designativo adequado, mas falavam de uma futura Palestina Judaica e não de uma Palestina Árabe existente.
A ONU promoveu a Partilha da Palestina do Mandado Britânico, este era o nome. Não havia um país chamado 'Palestina' e a área britânica do mandado era composta por várias divisões administrativas com outros nomes adotados pelo Império Turco-Otomano entre 1475 e 1917. Neste período que podemos chamar de 'moderno' nunca houve um país lá, mas DEZ províncias administrativas (NO MAPA). É fundamental saber que o Império Turco-Otomano (muçulmano sunita) nunca denominou nenhuma das regiões administrativas como 'Palestina'.
Antes disso, retornando ao Imperador Adriano (Hadrian 76-138 DC) no século 2, também nunca houve um país lá. Adriano, o primeiro grande genocida de judeus, matando mais de meio milhão, segundo Cassius Dio (156-235 DC) historiador oficial romano que publicou 80 volumes sobre a história do Império Romano, é quem removeu dos mapas o nome JUDEIA que existia até então e criou o no Syria Palaestina, mas não como um país, e sim como um província romana.
No mesmo momento Adriano riscou o nome de Jerusalém dos mapas e redenominou a cidade de Aelia Capitolina. Um nome incompreensível para a maioria, mas bem simples: Capital de Aelius, ele mesmo, cujo nome completo de nascimento era Publius Aelius Hadrianus. A tradução literal de capitolina é capitólio.
Pela verdade, em 1947, a ONU chamou oficialmente a região de Palestina, pura e simplesmente.
Eu tenho a compreensão de que os líderes políticos e religiosos judeus, os líderes sionistas judeus e evangélicos tinham PREGUIÇA de falar Palestina do Mandado Britânico após 1920, e diziam apenas Palestina. Não podiam imaginar como seus textos e discursos seriam utilizados contra eles no futuro, no controle do Passado, coisa que os governos de Israel desprezam desde o início afirmando que não vale a pena disputar a guerra da informação, apenas a guerra real. Erro grave, pois há muitos anos os inimigos de Israel já venceram a guerra da retórica e a cada ano que passa, mais pessoas bem intencionadas aprendem os conceitos históricos errados. Este Adriano que matou meio milhão de judeus entrou para a história ocidental como um dos "5 imperadores romanos justos de bondosos".
Desta forma no texto positivo da Globo temos a existência de um local ou país, chamado Palestina, que foi divido e parte dele usurpado pelos judeus.
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
TV TEM HISTÓRIA – HOJE TERMINA A ERA DA TV ANALÓGICA. CONHEÇA A VERDADE SOBRE A PROIBIÇÃO DO BRASILEIRO ASSISTIR A COPA DE 1970 A CORES.
Mas vamos nos concentrar em 1970 quando a transmissão inicial de TV no Brasil, pela Tupi, completava já 20 anos. Naquele momento havia 90 milhões de brasileiros. Hoje somamos mais de 210 milhões. Havia apenas 5 milhões de aparelhos de TV em todo o Brasil. Número até difícil de acreditar. E se a estatística apontava para 18 pessoas por aparelho, em minha casa, onde moravam eu e meus pais, defronte ao apartamento onde moravam meus avós, a conta era de um aparelho para oito pessoas. Ainda levaria dois anos para meu pai poder comprar uma TV Motorola portátil preto-e branco de 14 polegadas contrabandeada. Era vendida por camelôs.
A imprensa dizia que pelo menos 20 milhões de brasileiros iam assistir ao primeiro jogo da Copa de 70 e “recomeçarão a exercitar seus olhos na difícil tarefa de sempre: distinguir, em tons de cinza, o que é verde e o que é vermelho”, como publicou a Veja em maio de 1970. Se você é jovem e nunca assistiu a um jogo em preto e branco, é fácil, basta regular sua TV full HD e ver como era o sofrimento. Seleção Canarinho só nas revistas semanais, pois na TV era seleção cinza-e-cinza. Até mesmo o México já tinha liberado as vendas de TVs a cores em 1968 e seus habitantes assistiram a copa colorida em seu próprio país.
O ministro ainda afirmava que o governo não iria permitir que nenhum dos fabricantes de TV corresse sozinho na fabricação de TVs coloridas e que a AFRATA – Associação dos Fabricantes de Rádios, Televisores e Eletrônicos, havia se comprometido a começar a fabricação de aparelhos coloridos apenas no primeiro semestre de 1972, quando todas as marcas já teriam condições de faze-lo. O mercado produtor estava meio assustado com os acontecimentos no México, onde a entrada da TV a cores em 1968 imediatamente derrubou a venda de TV preto e branco em 35%. Os ricos não compravam mais aparelhos que não fossem coloridos.
Os fabricantes não estavam sintonizados com a questão de que a existência da transmissão a cores iria eliminar os aparelhos preto e branco. Achavam que pela diferença de preço, ainda iriam conseguir manter aparelhos desatualizados por vários anos no mercado. E por outro lado, não havia capacidade industrial para substituir, nem a médio prazo, os tais 5 milhões de aparelho preto e branco nas casas brasileiras. Em 1970, a estimativa de preço para um aparelho a cores no Brasil era de 5.000 cruzeiros.
Praticamente o valor nominal em que entrariam no mercado, décadas depois, as telas planas de plasma e posteriormente as TVs 4K. Ou seja: aparelhos para ricos, de fato.
PALM OU NTSC, A VERDADE SOBRE A ESCOLHA DO MODELO DE TRANSMISSÃO
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| Na foto acima, típica câmera de estúdio preta e branca dos anos sessenta |
O segundo problema era que as TVs NTSC tinham, obrigatoriamente, quatro botões para regulagem das cores. O primeiro exigia um critério subjetivo do espectador para ajustar a cor como ele, o espectador, achasse melhor: era o TINT. E o segundo, definia se as cores estavam claras ou escuras: era o TONE. Havia ainda o HUE que ia do mais verde ao mais vermelho e por fim a INTENSIDADE das cores, algo como a saturação. Não bastasse, havia ainda que controlar o contraste o o brilho da imagem. Portanto, uma combinação de seis controles analógicos o que certamente fazia com que cada espectador assistisse um programa bastante diferente do que tinha sido produzido.
Os fantasmas! Jovem, não se assuste! O NTSC não era feito pelos poltergeists!!! Fantasma na TV é algo que grande parte do público mundial atual nunca viu. Na transmissão de sinal analógico, as ondas do sinal batiam em morros e prédios, gerando ondas paralelas de interferência e a antena de sua TV captava todas elas, colocando tudo na tela ao mesmo tempo. Ou seja, você não assistia a uma imagem, mas sim a um grupo de imagens ligeiramente deslocadas umas das outras, sendo a primeira, o sinal mais forte original. Uma das desgraças deste sistema era você ter uma antena razoavelmente ajustada, e aí, construírem um prédio novo perto do seu e ele introduzir um fantasma chato para caramba.
Os fantasmas no sistema NSTC eram terríveis, pois não havendo sincronização entre as três ondas básicas – verde, azul e vermelho -, os fantasmas eram irisados.
Nas imagens seguintes, a TV com fantasmas, como assistíamos.
O sistema de cores escolhido pelo Brasil foi o PAL, criado pela Telefunken alemã em 1967, que rapidamente invadiu a Europa. O PAL significava Phase Alternative Line e podemos simplificar afirmando que as três cores básicas eram agora transmitidas de forma sincronizada o que aliviou a confusão de cores dos fantasmas do NTSC. Os fantasmas do PAL, costumavam ser brancos. Para o espectador, os confusos dois botões do NTSC, qualidade de cor e luminosidade da cor, foi substituído por apenas um de tonalidade em que sempre se tentava ajustar para o melhor tom de pele possível. O PAL permitia equipamentos tecnicamente mais simples que o NTSC e o sinal se propagava bem em áreas edificadas e montanhosas.
A escolha do sistema PAL para o Brasil foi realizada por uma comissão de estudos já em 1967, no mesmo ano em que foi criado. Então, uma portaria do Ministro das Comunicações Carlos Simas, proibiu a transmissão de programas a cores no Brasil até 1972. A portaria colocava em dúvida a validade do sistema escolhido. A portaria manteve sua validade e a primeira transmissão oficial a cores no Brasil ocorreu em 19 de fevereiro de 1972, quando em pool, as emissoras transmitiram a Festa da Uva de Caxias do Sul.
Muitos falam que o sistema que o Brasil deveria ter adotado era o SECAM francês (Sequential em Couleurs à Memoire). Como o nome diz, a transmissão era não sincronizada como no NTSC e a eletrônica do aparelho sincronizava tudo internamente. Os aparelhos eram tecnicamente mais complicados. Em compensação não existia mais a necessidade de qualquer ajuste de cor por parte do espectador. O SECAM foi adotado pela União Soviética e a fragilidade do sistema estava na sua péssima propagação de sinal em áreas edificadas o que mataria a TV no Brasil. Assim, foi descartado. O território russo é essencialmente plano também,
O BRASIL TRANSMITIA A CORES DESDE 1969
| Foto do Arquivo de O Globo. lamentavelmente fotografada em preto e branco... Os jornais não eram coloridos. Não havia motivos para fotografar com Kodakcolor... |
Em 1969 o ex-Presidente Costa e Silva, ao inaugurar a estação de transmissão de TV da Embratel em Itaboraí, quase colocou o sinal colorido NTSC no ar para o Brasil inadvertidamente. Naquela época, a Embratel recebia o sinal norte-americano e quem trabalhava lá em Itaboraí já assistia TV a cores. Os técnicos brasileiros da Embratel criariam a interface que convertia o sinal NTSC em PAL e vice versa, o que depois seria adotado universalmente no Brasil.
Outra questão complicada, resolvida pelos técnicos era de que a transmissão e recepção de TV preto e branco brasileira era no sistema norte-americano e precisa existir uma garantia de que os programas transmitidos em PAL iriam ser assistidos nas TVs que estavam no mercado e não eram PAL. As TVs no sistema norte-americano tinham 525 linhas enquanto as do sistema PAL tinham 625 linhas. Hoje, sua TV full HD tem 1080, enquanto as transmissões de TV digital a cabo, satélite ou pelo ar, tem 720 linhas. E você já sabe: a grosso modo, quanto mais linhas, melhor é a imagem.
A solução brasileira para garantir a compatibilidade de aparelhos existente com os novos foi criar o sistema PAL-M, adotado apenas no Brasil, que combinava a eletrônica do sistema PAL, com as 525 linhas do sistema NTSC.
A criação do PAL-M nos permitiu e o uso do sistema anteiro P&B norte americano de 525 linhas, nos permitiu assistir às séries de TV norte-americanas, tanto em P&B quanto a cores, o que não ocorreu em países como França e Inglaterra. Por outro lado, as produções francesas e inglesas também não passavam nos Estados Unidos.
OS VÁRIOS BOTÕES DO SISTEMA NORTE-AMERICANO
A rolagem vertical não era tão desagradável como a rolagem diagonal. Esta sim, impedia de assistir e lá levantávamos nós para agir em outro potenciômetro tentando parar aquela tragédia tecnológica com a qual todas as pessoas do mundo com acesso a TV conviviam.
De fato, éramos mais saudáveis pois saíamos das poltronas e sofás várias vezes ao longo de uma novela de 45 minutos, apenas para mexer nestes dois controles. Torcar de canal também exigia levantar e ir até o seletor, acioná-lo e ouvilo estalar até o dia em que quebra-se, isso fora as folgas, típicas do uso, que impediam sitonizar corretamente um canal. Uma das frases mais ouvidas e que já não mais existe era: “Menino! Não gire o canal tão rápido, que vai quebrar!”…
Claro que para aumentar e diminuir o volume era outra levantada.
Recordo-me da primeira TV a cores que tivemos, uma Telefunken de 14 polegadas que devia pesar uns 20 kg. Ela tinha um avanço considerável: a rolagem diagonal não acontecia mais. A vertical sim. E para encher o saco do consumidor, colocaram o potenciômetro desta regulagem atrás do aparelho…
E O PRESIDENTE MEDICI ASSISTIU A COPA DE 70 A CORES
| Foto da revista Veja, que era colorida, portanto conseguiram mostrar a novidade, mais ou menos |
Até hoje não se divulgou por qual canal a Embratel transmitiu os jogos de 1970 coloridos. Mas o fato é que o presidente Medici os assistiu, junto com algumas pessoas de seu círculo interno, tendo havido fotos oficiais. Uma delas, foi publicada pela VEJA número 91, em junho de 1970. Obviamente, estas transmissões, foram ilegais pela portaria de 1967.
A DIFERENÇA ESTÉTICA DE PRODUÇÕES A CORES ASSISTIDAS EM PRETO E BRANCO
As primeiras são da série de TV do Batman. Quando gente ficou decepcionada quando descobriu que o morcegão vestia roxo…
quinta-feira, 12 de maio de 2016
Vitrais do Palácio dos Correios em Petrópolis
Em outubro de 1841, D. Pedro II assinou o decreto de implantação dos Correios na cidade, um dos primeiros do país. O atual Palácio dos Correios é uma obra bem posterior, construída em 1922, já bem dentro da República.
Sua imponente arquitetura neoclássica domina a av... no centro de Petrópolis e não há visitante que não dê uma segunda ou terceira olhada no prédio. Mas só pelo lado de fora. Pode entrar! Deve entrar! Em 2012, para a comemoração de 90 anos foi aberta uma sala da memória do local. A arquitetura do palácio já é algo notável.
O hall de entrada com seu pé-direito altíssimo abriga um busto de D. Pedro II e os pisos e lustres, todos são originais de 1922.
Mas a delícia para os olhos exige que o usuário dos correios ou o turista olhem para cima e contemplem um vitral oval enorme, ocupando quase todo o teto do salão de atendimento. Melhor ver nas fotos, que tentar explicar.
Clique para ver o vitral bem maior. É uma peça lindíssima, com tons muito interessantes de marrom. No centro, dominando a arte, uma imagem ufanista do que poderia ser uma “dama dos correios”, em uma nau remetendo às pequenas de três velas que tanto circularam pela Baía da Guanabara, com um garotinho, sobre nítidos pacotes de encomendas. Ela brande uma longa flâmula com as cores brasileiras.
Atrás vemos alguns navios parecidos com os de 1922. No detalhe inferior, postes com linhas telegráficas e na arte superior, um avião biplano já bem superado para a data de inauguração do Palácio. O conceito é simples: mostra o transporte de cargas e correspondência pelo mar, pelo ar e as mensagens via ondas elétricas.
No retângulo superior, fora da estrutura oval, temos uma série de pequenos navios.![]()
E do lado direito de quem entra, uma deliciosa escada em espiral para o segundo andar recebe luz natural através de outro enorme vitral, até que desinteressante em sua maior parte, mas com uma cumeeira espetacular.
Vamos concordar que a arte desta peça é no mínimo… suspeita. O que levaria o artista, ao invés de fazer um caravela (provavelmente não sabia como era), produzir uma nau tipo fenícia, como remos laterais e três grandes velas Cruzadas? Óbvio: isto não simboliza a presença de Portugal no Brasil e é um grande curiosidade.
Pode ser que muitos dos leitores estejam sendo apresentados pela primeira vez à caixas-postais do universo real, e não do espaço virtual. Caixas em madeira, com fechaduras e chaves, e sem qualquer tipo de “@”. Ainda hoje, principalmente em cidades do interior, é normal que pessoas ou empresas que não possuam endereço fixo ou não queiram comprometer seus endereços alguém caixas-postais. Antigamente era a norma e não a exceção. Imagine você como um imigrante, ora nesta pensão, ora noutra. Num quarto alugado aqui, três meses em outra cidade num emprego temporário. Seu endereço fixo para contato com a família acabava sendo uma destas caixinhas de madeira numa agência de correios.
Há outros palácios e palacetes, mansões impressionantes em Petrópolis que guardam lindos tesouros arquitetônicos desconhecidos por seus habitantes e fora das vistas dos turistas.
Esse foi só um gostinho da história de Petrópolis que as pessoas não veem. Indo a Petrópolis e passando na porta, entre, e aprecie esta edificação o quanto quiser.
E nem falamos dos vitrais da catedral... Alguns dos mais espetaculares do Brasil.
© 2016 José Roitberg – jornalista e pesquisador (texto e fotos)
Membro da ABEC – Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais.
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
Rio Antigo e História do Rio de Janeiro
Lista de comunidades no Facebook e páginas de dicadas a História do Rio de Janeiro, fotos antigas do Rio de Janeiro. É uma coleção surpreendente.
Antigamente - http://fotolog.terra.com.br/antigamente1:1479 - Lyscia Braga
As Histórias dos Monumentos do Rio - http://ashistoriasdosmonumentosdorio.blogspot.com.br/ - Vera Lucia Dias Oliveira
Augusto Malta Revival - https://www.facebook.com/augustomaltarevival - Marcello Cavalcanti
Carioca da Gema 1 - http://fotolog.terra.com.br/carioca_da_gema - Roberto Tumminelli Cardoso Fontes
Carioca da Gema 2 - http://fotolog.terra.com.br/carioca_da_gema_2 - Roberto Tumminelli Cardoso Fontes
Cascadura Caminhos do Suburbio - https://www.facebook.com/CascaduraCaminhosDoSuburbio?fref=ts - Raphael Bellem
Cidades Brasileira: Memorias sem papel - https://www.facebook.com/groups/168096043378654/?fref=ts - Olinio Coelho
Coisa Lúdica - http://fotolog.terra.com.br/cartepostale - Milu Maria
Coluna Patrimônio - http://www.rioecultura.com.br/coluna_patrimonio/coluna_patrimonio.asp?patrim_cod=99 - Leo Ladeira
Conversas Cariocas - https://www.facebook.com/ConversasCariocas - Rafael Gota
Flavio M - http://www.flickr.com/photos/flaviorio/ - Flavio Sertã Furtado Mendonça
Copacabana Demolida - https://www.facebook.com/CopacabanaDemolida?fref=ts - Claudia Mesquita
foi um Rio que passou - http://www.rioquepassou.com.br/2013/08/30/igreja-de-sao-cristovao-1916/ - Andre Decourt
Fragmentos georreferenciados da nossa história - https://frags.wiki Halley e Ana Cristina
Fotos do Rio de Janeiro Antigo - https://www.facebook.com/pages/Fotos-do-Rio-de-Janeiro-Antigo/420285374730071?fref=ts - Luiz Gustavo
Fotopaint - http://fotolog.terra.com.br/fotopaint:774 - Luiz Francisco Moniz Figueira
História das Barcas RJ - https://www.facebook.com/barcashistoria/ - Victor Grinbaum, Atilio Flegner e José Roitberg
Itaboraí Antigo - https://www.facebook.com/itaborai.antigo - Rodrigo Lucio
Jornais Antigos do Rio de Janeiro - https://www.facebook.com/jornais.rio - Tiago Bandeira e Rafael Mendes
Literatura e Rio de Janeiro - http://literaturaeriodejaneiro.blogspot.com.br/ - Ivo Korytowski
Mapas Antigos do Rio - www.facebook.com/mapasantigosdorio - Eduardo Botti
Memória de São Gonçalo - www.facebook.com/memoriasg - Luciano Campos Tardock
Memórias do Arcebispado Carioca - https://www.facebook.com/memoriasdoarcebispadocarioca - Eraldo De Souza Leão Filho
Memórias do Futebol Carioca - http://www.facebook.com/MFCarioca - Raphael Belem e Tiago Bandeira
Memorias do Suburbio Carioca - https://www.facebook.com/riosuburbio?fref=ts - Tiago Bandeira
Olhar Nictheroy - https://www.facebook.com/OlharNictheroy?fref=nf - Luiz Marcello Gomes Ribeiro
Olhos de Ver - https://www.facebook.com/pages/Olhos-de-Ver-Patrim%C3%B4nio-Hist%C3%B3rico-Rio-de-Janeiro/413946725361803?fref=ts - Leo Ladeira
Ônibus Antigos do Rio de Janeiro - https://www.facebook.com/OnibusAntigosRio - Rafael Mendes
O Rio de Janeiro Que não Vivi - https://www.facebook.com/ORioDeJaneiroQueNaoVivi?fref=ts - Bruno Chaves
Palácio Monroe - Crônica da demolição (filme) - https://www.facebook.com/palaciomonroe/ Eduardo Ades
Panoramio - http://www.panoramio.com/user/3970987 - Raul Félix de Sousa
Papélia - https://www.facebook.com/Papelia - Stella Tuttolomondo
Rio Antigo Social CLube - https://www.facebook.com/RioAntigoSocialClube - Renato Fernandes
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segunda-feira, 20 de julho de 2015
O PRIMEIRO CEMITÉRIO JUDAICO DO BRASIL EXISTE EM BELÉM
por José Roitberg - Jornalista e Pesquisador - Membro da ABEC
É um lote apertado, hoje numa área de grande movimentação ao lado de uma universidade. Seu nome é Necrópole Israelita e foi estabelecido em 1842, portanto, 74 anos antes do Cemitério Israelita de Inhaúma no Rio de Janeiro. É só ver as fotos e perceber que é um cemitério único entre todos os outros cemitérios israelitas. Sua primeira sepultura com data confirmada é a do rabino Mordecai Hacohen z'l, falecido em 1848 provavelmente um dos primeiros rabinos investido no cargo, vindo com a imigração dos judeus do Marrocos e estabelecendo a primeira sinagoga brasileira, a Eshel Avraham (Bosque de Abraão) em data que os historiadores sefaraditas disputam. Não fosse a lápide, não haveria outro documento que atestasse a passagem e existência deste rabino entre nós.
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| Necrópole Israelita, em Belém na Soledade, primeiro cemitério israelita do Brasil aberto em 1842 e fechado em 1915, foto de Moisés Unger 2013 |
Há mais dois rabinos neste cemitério ancestral: o rabino Eliahu Avudaram, "caridoso, estimado e importante... falecido à véspera do shabat" com um ano judaico deteriorado e ilegível, e o rabino Mordecai Laredo "Que descanse em Eden. Filho do saudoso rabi Joseph de Tanger (obs: importante cidade do Marrocos)" falecido em 1881. Estes três portanto, são alguns dos rabinos imigrantes, investidos no cargo que atuaram no Brasil, em Belém ao longo da porção central do século 19 e lá repousam para sempre." (Egon e Frieda Wolff, As Mishpakhot de Belém, 1987)
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| Necrópole Israelita, em Belém na Soledade, interna, foto de Moisés Unger 2013 |
A existência preservada da Necrópole Israelita nos permite apreciar o fluxo migratório dos judeus para Belém, onde rapidamente estabeleceram as diversas instituições que a comunidade judaica costuma ter.
A Necrópole é anterior a lei para os estabelecimento de cemitérios na Corte, ou seja, no Rio de Janeiro. Ela mostra uma interação entre judeus e não-judeus, entre judeus e a Igreja, de forma surpreendente em Belém, pois houve a permissão para um cemitério exclusivamente judaico. Nesta época estava em vigor uma lei muito recente que permitia cemitérios particulares por origem nacional, como os do Ingleses, no Rio de Janeiro. Não é possível afirmar se a Igreja paraenses compreendeu "israelitas" como uma origem nacional estrangeira. Não há documentos.
No Cemitério dos Ingleses de Belém (anglicano), localizado na Escola Kennedy, quase ao lado da Necrópole Isaelita, foram sepultados Arthur Joseph nascido em Welbourne Lincolnshire na Inglaterra, morto com apenas 18 anos em 1871 e seu túmulo está em inglês. Há ainda um segundo túmulo em hebraico do "pobre Moses..." cujo sobrenome está ilegível, falecido em 1860. Não há registros cartoriais ou cemiteriais de nenhum destes falecimentos antigos. (Egon e Frieda Wolff, As Mishpakhot de Belém, 1987)
Mas ao invés da Necrópole Israelita ser ampliada, o que poderíamos chamar de lei geral dos cemitérios para o Brasil fez com que o Cemitério do Guamá, possuísse um quadro israelita desde 1883, ativo até 1969. A compreensão da Igreja paraense ainda assim era relevante, pois de 1865 até 1916, no RJ, os enterros judaicos eram embolados, misturados no quadro de acatólicos no Cemitério de São Francisco Xavier, no Cajú. Existem 566 sepulturas judaicas no que hoje é conhecido como Cemitério Judeu Antigo do Guamá. E no Caju carioca, continua havendo enterros judaicos na acatólicos até hoje com mais de 2.000 túmulos de judeus.
Em 1940 inaugurou-se o Cemitério Israelita Novo do Guamá, onde havia 492 sepulturas (dado de 1997, último publicado). Naquele ano, contou-se 1.253 sepulturas judaicas em todo o estado do Pará, pois, apesar de se concentrar em Belém, os judeus viveram em algumas outras cidades também, como Tocantins, Gurupá, Mocajuba e Cametá, onde um bom número de judeus foi parar chegando a constituir duas sinagogas e um cemitério. Em dado momento histórico, a Comunidade Judaica de Cametá decidiu se mudar para Belém, desfazendo-se das sinagogas (que funcionavam em casas comuns) e levando os rolos da Torah para Belém, incorporando-os às duas sinagogas existentes. (Portal Amazônia Judaica - amazoniajudaica.org)
Segundo os historiadores judeus dedicados à Amazônia, entre 1810 e 1930, cerca de mil famílias de judeus emigraram para lá. Está no imaginário coletivo que a Comunidade Judaica de Belém foi formada apenas por judeus oriundos do Marrocos e tidos por marroquinos, portanto. Mas isso não é a verdade como um todo. No excelente livro Eretz Amazônia, de Samuel Benchimol, o autor nos presenteou com uma interessante pesquisa das origens de sua própria comunidade que vão fazer você mudar de ideia.
Diz Benchimol que os primeiros imigrantes do Marrocos chegaram ente 1810 e 1820 ainda no ciclo da exportação das "drogas do sertão", especiarias. Naquela época a população de Belém era de 24.500 habitantes e em Cametá residiam somente 8.050 pessoas. Estes primeiros imigrantes vieram do Marrocos Espanhol do Norte, de cidades marítimas e portuárias como Tanger, Tetuan, Ceuta, Arcila e Larache. Estes "marroquinos" eram descendentes dos judeus expulsos da Espanha em 1492 e de Portugal em 1496, portando sefaraditas de fato, seguindo os ritos judaicos portugueses e espanhóis. Falavam espanhol, português, ladino e haquitia, um dialeto que mistura castelhano, português, hebraico e árabe. Muitos falavam francês e inglês, ensinado nas escolas da Aliança Israelita Universal, onde foram preparados para a emigração. Apesar não estar nos dados históricos compilados anteriormente, é certo que também falavam árabe, pois viva em meio aos árabes já por 300 anos. Eles se intitulavam "megorachim" os exilados, os expulsos da Península Ibérica.
O segundo grupo de "marroquinos" é de judeus que foram denominados "toshavim", forasteiros. Forasteiro é alguém de fora, um estrangeiro. Essa denominação é especificamente igual a denominação de "falashas" dos judeus da Etiópia, que significa "estrangeiros em sua própria terra", no fim das contas, forasteiros. Mas quem seriam os judeus forasteiros no Marrocos? Eram os judeus que lá estavam provavelmente desde a destruição do Segundo Templo no ano 70, segundo Benchimol. Portanto, os judeus que chegaram ao Marrocos em 1492 não conseguiram compreender como judeus, os judeus que lá estavam há 1.422 anos, tamanha era a diferença étnica, física e linguística. É a mesma história que se repetiu em todas as imigrações judaicas que embolaram comunidades de diversas origens. Os toshavim falavam árabe e bérbere, residiam nas cidades do interior do Marrocos, como Rabat, Salé, Fez, Marrakesh, Agadir e outras, nomes muito mais relevantes na história universal que os das cidades de litoral.
Essa divisão linguística e um afastamento real entre ritos judaicos, pronúncias, local de residência, vestimentas e tradições familiares aportou em Belém. A primeira sinagoga, a Eshel Avraham, de 1826, foi uma sinagoga dos toshavim e a Shaar Hashamaim (Porta do Céu) de 1828, dos megorachim. Ambas existem até hoje em belas construções de 1947. Na diferença de pronúncia, a Eshel (bosque em hebraico) ficou conhecida como "Essel Avraham", o que intrigou diversos historiadores, pois "essel" não está em língua escrita alguma, e é apenas a forma como os toshavim pronunciam o "sh". Já Shaar Hashamaim é um nome encontrado através de todos os locais para onde judeus expulsos pela Inquisição foram parar, inclusive no leste, em Mumbai, na Índia.
Ainda segundo Benchimol, o terceiro grupo de imigrantes foi o dos sefartitas, judeus franceses expulsos durante a Guerra Franco-Prussiana, mais a frente em 1870-71. "Sefarty" é a palavra para francês, em hebraico arcaico. Estes falavam basicamente francês e não falavam ídiche ou as diversas línguas dos marroquinos.
Portanto, sefaraditas são de origem da Península Ibérica e sefartitas são de origem francesa, e não uma forma de escrita errada, como muita gente imagina.
Uma quarta corrente imigratória trouxe ashkenazitas. Apesar de ashkenaz ser a palavra em hebraico arcaico para a Alemanha, acabou-se considerando que os europeus de fala ídiche como alemães, poloneses, russos e europeus orientais, eram ashkenazitas. Com eles vieram também as Polacas para a Amazônia. A prostituição na região sempre existiu e a chegada de prostitutas judias foi apenas uma questão de abertura de mercado, indo onde o dinheiro estava e onde havia grande número de homens imigrantes e baixo número de mulheres. Sempre é preciso levar em conta que a prostituição era atividade legal no Brasil. Em Manaus, no Cemitério Municipal de São João Batista, Samuel Benchimol e Abraham Benmyual localizaram 17 túmulos de polacas com inscrições em hebraico e falecimento entre 1900 e 1920.
Durante e após a Primeira Guerra Mundial, mais de cem famílias ashkenazitas chegaram à Amazônia e o estatuto da Junta Governativa da Congregação Hebraica do Pará, de 1902, em seu artigo II diz que "sua duração será perpétua enquanto houver nesta cidade os hebreus do rito ortodoxo português ou alemão", como publicou Benchimol. Isso mostra uma presença ashkenazita anterior a 1902 e que os toshavim não são mencionado, correto?
Existe ainda outra corrente, a dos foinquinitas, judeus vindos da Turquia, Líbano, Síria, Egito, que falavam ladino e árabe e eram considerados genericamente como turcos. A designação tão estranha para nós vem de "foinquinos" que em haquitia significa fenícios.
No total 1.000 famílias judaicas chegaram a Amazônia, e este número é bem superior aos cerca de 1.000 judeus que residem em Belém em 2014. Ao longo do tempo muitas destas famílias ou descendentes vieram descendo pelas cidades com e sem judeus no Nordeste, procurando se fixar no Rio de Janeiro. Família, neste caso conta-se indivíduos únicos, geralmente jovens nos primeiros vinte anos de imigração e famílias com esposas e filhos a partir de então. Em 1883 os imigrantes marroquinos começam a vir da África diretamente para o Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro, judeus vindos de Belém participaram da fundação da União Israelita em 1864 e a mantiveram no "rito português" até os dias de hoje, como Shell Guemilut Hassadim, em Botafogo.
OUTROS CEMITÉRIOS JUDAICOS ANTIGOS DO PARÁ
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São
Miguel do Guamá, túmulo de Leon Israel falecido em 13/fev/1886, |
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São
Miguel do Guamá, foto de Salomão Larêdo |
Necrópole
israelita de Óbidos, limpa e bem preservada pela prefeitura, foto de Salomão Larêdo |
© José Roitberg
ABEC - Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais
quinta-feira, 16 de julho de 2015
História do Cemitério Israelita da Vila Rosali
O Rio Judeu que o Povo Esqueceu
E História da Chevra Kadisha – Por José Roitberg - jornalista, pesquisador e - Membro da ABEC
A Sociedade Religiosa Israelita Chevra Kadisha é incontestavelmente uma instituição da Comunidade Judaica que trabalha integralmente dentro do tripé do Judaísmo: Torá, Avodá e Guemilut Hassadim (Religião, Trabalho e Justiça Social).
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Prédio atual da Chevra Kadisha - RJ, rua Barão de Iguatemi 306
Cada judeu e cada instituição judaica deveria estar inserida em pelo menos uma destas três bases. Por Torá entende-se o estudo propriamente dito das leis religiosas e da sua implementação. Avodá é o trabalho, pois os judeus precisam sustentar não apenas a si próprios, mas também auxiliar as pessoas em dificuldades. Isto se estende também às instituições dedicadas à Guemilut Hassadim, que é a justiça social, no sentido mais simples de não permitir a pobreza judaica e de redistribuição de renda.
Segundo seu estatuto, a Chevra Kadisha tem por objetivo: I - Manter e administrar seus cemitérios, a fim de proporcionar aos associados e seus familiares, a assistência ritual e religiosa judaica, no caso de falecimento, designando-lhes o local para sepultamento, em cova rasa perpétua; II - Prestigiar e auxiliar, financeiramente, as instituições judaicas de cunho beneficente, filantrópico, cultural, educacional ou religioso, com existência legal no País; III - Incentivar o estudo e estimular a prática da religião judaica.
Assim, a Chevra Kadisha faz uma enorme e dignificante trabalho ao adquirir terrenos destinados a servir de campo funerário, realizar as obras necessárias para tal destinação, manter segurança e prover os sepultamentos segundo as regras ortodoxas judaicas. Ela atua rígida e especificamente dentro dos ditames da Torá, garantindo, assim, a purificação e os sepultamentos em conformidade com as regras da ortodoxia judaica. Também é extremamente ativa na redistribuição de renda dentro da Comunidade Judaica, apoiando a educação formal (escolas); a informal (os movimentos juvenis sionistas e os grupos escoteiros, enquanto existiram); festivais de dança e filmes; os programas esportivos da Macabi; o Centro de História e Cultura Judaica (vinculada à ARI - Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro); o aperfeiçoamento de professores; os projetos educacionais mais amplos, como a Marcha da Vida (visita internacional conjunto ao campo de concentração de Aushcwitz, na Polônia); a impressão de um grande número de livros de autores judeus ao longo da história (como vários dos historiadores Egon e Frieda Wolf); todas as mídias judaicas ao longo dos tempos; ciclos de palestras; impressão de livros de orações (sidurim e machzorim) para as sinagogas; comemorações como a da Independência de Israel; Dia do Gueto; Dia do Holocausto; Dia de Jerusalém; aporte nas entidades assistenciais (como os lares de idosos e das crianças); apoio consistente aos projetos de kashrut de sinagogas; à FIERJ etc. Na MENORAH (setembro de 1974) vemos que a Chevra foi fundamental para a construção da sinagoga Beth Aron, inaugurada em 1962, em Laranjeiras.
Enfim, a Chevra Kadisha usa parte de seus recursos em manutenção, limpeza, segurança e melhoria e acréscimo de suas instalações, como a necessidade de elevar muros cada vez mais altos em perímetros enormes, bem como para patrocinar projetos comunitários integral ou parcialmente, sem jamais levar em consideração a ideologia ou a linha religiosa dos pretendentes ao apoio financeiro de seus respectivos projetos. Recebe contribuição de todos os judeus e a oferece a todas a instituições. Isso é Guemilut Hassadim, na prática e na teoria.
O nome Chevra Kadisha é oriundo do aramaico e significa ‘Sociedade Sagrada’. É a instituição responsável por um trabalho fundamental e antigo entre os judeus para a purificação ritual dos corpos, a ‘tahará’, e seu sepultamento dentro das normas em cada local e cada época. Este trabalho é considerado ‘chesed shel emet’ (traduzido livremente quer dizer ‘uma boa ação de verdade’). Atualmente a tahará é feita apenas na sede da instituição, na Rua Barão de Iguatemi, e não mais nos cemitérios, embora todos eles possuam instalações muito adequadas para esta função dignificante.
COMO TUDO COMEÇOU
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Rabino Yehuda Leib Schereschevsky e seus familiares na década de 1920, foto publicada pela revista Menorah (RJ)
Em 1913, chegou ao Rio de Janeiro seu primeiro rabino ortodoxo. Chamava-se Yehuda Leib Schereschevsky. Segundo a história contada por sua neta, ficou sem comer carne até 1923, por não aceitar a kashrut (as normas alimentares de higiene judaica) que existiam por aqui. Pelo que entendemos ele foi o rabino da Sinagoga Beit Yakov (denominada Associação Beth-Jacob), fundada no início de 1916, registrada em 15 de junho de 1916 e dissolvida em 1935 (os documentos da instituição foram destruídos no desabamento da Biblioteca Bialik de 1957) e foi o rabino das primeiras tentativas do estabelecimento de um cemitério judaico ortodoxo, que resultou em Vila Rosali e na criação da Chevra Kadisha, numa luta iniciada em 1918, segundo ele, devido ao grande número de enterros de judeus, vítimas da Gripe Espanhola, no São Francisco Xavier. À diferença da sinagoga das Polacas em funcionamento desde 1906, os estatutos desta associação ortodoxa definiam em seu Capítulo 2, art 2o, parágrafo 2o que os sócios deveriam "ter um procedimento moral conforme o Decálogo" (Os 10 Mandamentos).
A imigração de judeus europeus tinha sido incrementada após o final da Primeira Guerra Mundial, tanto para fugir das economias devastadas na França, Bélgica, Alemanha, Áustria, Polônia e Romênia, quanto para fugir do comunismo que estava se consolidando na Rússia.
Os sefaraditas-árabes tinham seus próprios rabinos e eles não falavam iídiche, tal fato os mantinham dissociados da nova imigração europeia. Naquele momento havia cinco cemitérios onde os judeus podiam ser sepultados.
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Cemitério dos Ingleses a beira mar, no Saco da Gamboa em pintura de 1840
O cemitério dos Ingleses, na Gamboa, aberto em 1820 e o mais antigo do país, onde repousam cerca de 70 judeus aqui aportados a partir de 1810, quando caiu a lei portuguesa de 300 anos a qual proibia os judeus de residirem em quaisquer ‘terras lusitanas’. O Cemitério do Catumbi, a primeira necrópole pública do Brasil, descanso final do judeu David Morethson Campista, advogado, economista, político e diplomata e Ministro da Fazenda durante o governo de Afonso Pena. O São João Batista, em Botafogo, onde gente de todas as origens está embolada (inclusive mais de 400 judeus de todas as épocas).
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O Cemitério de São Francisco Xavier (Caju), em sua configuração original a beira mar. A quadra de acatólicos fica à direita na foto. Notar a fila dupla de palmeiras imperiais que dava a volta em toda a ponta do Cajú. Foram removidas durante a construção da Avenida Brasil que exigiu o levantamento do piso desta rua em 30 cm.
O Cemitério de São Francisco Xavier (Caju), no qual foi criada uma “Quadra dos Acatólicos” para serem sepultados protestantes, anglicanos, ateus e judeus.
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Túmulo de Sigfried Nathan, judeu, de 1873 no Cemitério de São Francisco Xavier, foto do autor
Há cerca de 2 mil túmulos judaicos apenas nesta quadra separada, sendo o mais antigo de 1873 (do alemão Sigfried Nathan). O Caju foi também o cemitério das “polacas” até 1916. Os enterros pré-1904 foram realizados pelos parentes e amigos e pelos rabinos em atividade nas mais diversas sinagogas. Não havia uma associação funerária.
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Foto de inauguração do Cemitério Israelita da Inhaúma (A Noite 30/10/2906)
Em 1906 as polacas criam a ABFRI - Associação Beneficente Funerária Religiosa Israelita, legalizada em 1913, e não há registros se a ABFRI controlava todos os enterros. Notícias de jornais nos mostram que ela atuava publicamente desde 1904. Porém em 1915, recebeu a autorização da Prefeitura do então Distrito Federal para a compra do terreno anexo à área de indigentes do Cemitério Municipal de Inhaúma, solicitado desde 1911. Lá se estabelece o Cemitério Israelita de Inhaúma, primeiro apenas judaico, para seus associados e a comunidade em geral, como uma forma de negócio, sem qualquer caráter beneficente. Há 770 judeus enterrados lá. Ver matéria específica neste link Cemitério Israelita de Inhaúma - Polacas
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Cemitério Israelita de Inhaúma, foto do autor (23/09/2012)
Assim, até 1920 estas eram as opções para enterros judaicos: ao lado das prostitutas e cafetões, figuras tratadas como párias em vida, ou junto de cristãos. Pelo volume dos sepultamentos, sabemos que cada um decidiu para si o que achou melhor. Até aquele momento não havia qualquer tipo de questionamento sobre validade de sepultamento pela halachá (lei judaica), ou de como seria a matzeiva (o "monumento" construído sobre o túmulo). Praticamente todos os túmulos de “polacas” e outros do período pré-1940 no Caju ou em Inhaúma contêm dizeres absolutamente corretos de acordo com as normas da ortodoxia judaica. Tanto é assim que o campo de Inhaúma possui quadras separadas por sexos, tal como se pratica em vida, no interior das sinagogas ortodoxas. Norma que a Chevra Kadisha deixaria de aplicar posteriormente.
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Dístico original da porta de entrada da sinagoga Beth Jacob preservado no Museu Judaico do Rio de Janeiro, foto do autor
Então para os imigrantes europeus as opções existentes eram inaceitáveis e se tornava necessário um cemitério próprio. O grupo dirigente da Sinagoga Beth Jacob, a qual em 1920 se localizava no número 130 da Rua Visconde de Itaúna (segundo o “Almanak Administrativo” de 1928) em cima do botequim de José Esteves Barros, considerada a principal sinagoga ashkenazita (as outras eram o Centro Israelita, no número 143 da mesma rua, ambas na Praça Onze, e a ABFRI, estabelecida do outro lado da Praça da República, o lado árabe, no sobrado do número 54), decidiu formar uma comissão. Tentaram obter um terreno junto à prefeitura do Rio de Janeiro, que respondeu negativamente, declarando que já existia um cemitério judaico municipal, o de Inhaúma.
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O prédio original da ABFRI, Praça da República 54 ainda existe e é o azul, hoje um anexo do Tribunal de Contas (TCE), foto do autor
Foi adquirido então, através da prefeitura de Nova Iguaçu um terreno na afastada localidade de Vila Rosali, no então distrito de São João de Meriti, e criada a Sociedade do Cemitério Israelita do Rio de Janeiro, em 1º de março de 1920 (segundo a historiadora Frieda Wolff), e imediatamente passou a operar “em terreno adquirido com autorização do Governo Federal (Correio da Manhã, 03/02/1932)”.
O que deveria ser uma solução redundou em confusão. Em 9 de julho de 1921, alguns meses depois de iniciado o funcionamento de Vila Rosali, a diretoria da Sinagoga Beth Jacob se reuniu para tratar “dos assuntos da Sociedade do Cemitério Israelita do Rio de Janeiro, da qual, a sinagoga forma parte e da qual também possui imóveis que se acham na estação São João de Merity, tendo em conta que a dita Sociedade do Cemitério Israelita não preenche seus fins, como provam os casos dos enterros da Sra. Jacob Brunstein, da Sra. Nachmam Fichbein, de dois filhos de Moisés Schoichet e de um israelita desconhecido, vindo de Kalich, enterros que foram realizados em desacordo com a religião e costumes israelitas” (Correio da Manhã, 10/07/1921 – Pag. 4). Como nenhum enterro até 1920 foi em ‘desacordo’ com a religião, é lícito depreender que havia discordância com a visão religiosa dos diretores da Beth Jacob daquele momento. E estes foram os primeiros enterros em Vila Rosali. O Moisés Schoichet citado no documento não é Moisés Singer, um dos fundadores da Sociedade do Cemitério Israelita, conhecido pelo apelido de ‘Moishe Shoichet’, que além de se dedicar ao abate ritual kosher, circuncidou mais de 25 mil meninos judeus no Brasil. Segundo o Dr. Luiz Chor, neto mais velho de Singer, havia uma placa de bronze com a lista de todos os fundadores junto à entrada original do cemitério. A placa se perdeu em algum momento desconhecido, assim como a sua ata de fundação.
A sinagoga Beth Jacob demonstrou ser especificamente autoritária nos seus comunicados e simplesmente decidiu: "1º - Dissolver a Sociedade Cemitério Israelita do Rio de Janeiro. 2º - Anular desde já todas as procurações e direitos dados aos Srs. Anno Lente, Boris Kuschnir, Moisés Oineff e Samuel Oineff, para assinar ou registrar documentos, cobrar dinheiro, ou efetuar qualquer ato em nome da Sociedade Cemitério Israelita, ou da Synagoga Beth Jacob. Assina: Simja Kupermann presidente da sinagoga. (Correio da Manhã, 10/07/1921 – Pag. 4)". O mesmo texto ainda convocou "todos os israelitas honrados" para uma assembleia a fim de fundar nova Sociedade pró-Cemitério Israelita do Rio de Janeiro. Assim, com a sociedade desfeita, foram mantidos na história os nomes dos ashkenazitas que puseram a mão na massa e iniciaram os trabalhos do Cemitério Israelita de Vila Rosali.
Única foto conhecida de Abraham Szterenkranc (à esq) em sua padaria em Vila Rosali, cedida por sua filha Raquel
E por falar em massa, conhecemos outro dos fundadores: foi Abraham Szterenkranc, que se estabeleceu em Vila Rosali antes do cemitério, construindo lá uma padaria (também kosher) a menos de 200 metros do portão original do cemitério. Lá foi certamente um ponto de encontro de quem ia e vinha para os sepultamentos, enquanto se esperava o trem. Segundo nos conta Rachel Szterenkranc, como seu avô residia ali, foi ele quem fez os primeiros sepultamentos, se forjando padeiro-coveiro. O prédio da “Padaria Szterenkranc” ainda existe, bem como a antiga chaminé do forno de matzá. Foi onde se iniciou a marca Tikva, consumida no Rio de Janeiro por décadas. Posteriormente a marca foi vendida para outra família que, por sua vez, estabeleceu uma nova fábrica de matzá na Rua de Santana, fechada há poucos anos. Há matéria completa sobre este tema.
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Entrada moderna do Cemitério Israelita da Vila Rosali, foto do autor
Mas a questão Beth Jacob e a Sociedade iria se arrastar por muito tempo. Enquanto Simja Kuppermann, provável detentor da posse do terreno, queria criar uma nova Sociedade, no dia 16, a antiga convocava uma assembleia para aprovar o estatuto da Sociedade. Quem assinou a convocação foi um quinto nome do grupo original, o Sr. Samuel Linetsky, então secretário (Correio da Manhã, 28/07/1921 – Pag. 7).
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Vista para a direita da região da entrada original, que ficava no alinhamento do arruamento por onde estão as pessoas na foto. As quadras de túmulos menores e baixos à direita são de crianças, foto do autor
Naquela reunião entrou em ação o emblemático Jacob Schneider, líder político comunitário, ativista sionista, proprietário de várias lojas de móveis na Praça Onze e na Rua do Catete. Outra nota publicada pela Beth Jacob acusou Schneider de “impor novamente como presidente, o Sr. Anno Lent e como vice, Boris Kushnir” (Correio da Manhã, 1º/08/1921). Segundo a nota, houve uma discussão danada entre os sócios presentes, nada foi resolvido e a Beth Jacob resolveu fundar sua própria sociedade – novamente – e exigir a divisão forçada dos bens imóveis. Bem, isso nunca aconteceu. Pelo que parece, consumida pelo seu autoritarismo e conceitos religiosos próprios e radicais, quem se extinguiu em 1935 foi a Sinagoga Beth Jacob, num raro edital de convocação de assembleia para dissolução e destino dos bens (Correio da Manhã, 27/04/1935 – Pag. 13).
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Vista para o centro, podendo se ver o mausoléu do rabino-chefe Guertzenstein, mais escuro e mais afastado o Memorial Reduto dos Mártires (do Holocausto). A construção em último plano abriga entrada, secretaria, salões para o início da cerimônia de enterro (capelas) e as salas de tahará, lavagem ritual dos corpos, hoje desativadas. Foto do autor
Em agosto de 1922 a Sociedade prosseguiu se consolidando e já chamava para assembleia de prestação de contas e eleição de diretoria. Entre 1920 e 1928 foram sepultadas 280 pessoas em Vila Rosali e as fichas destes enterros se perderam. De 1929, até hoje, há um registro completo, ordenado e digitalizado. As fichas foram preenchidas em iídiche, mas em algum momento todos os nomes foram traduzidos. Sabe-se por matéria no Jornal ‘A Noite’ (11/09/1923) que polacas e caftens ofereceram pagamentos vultosos para serem enterrados em Vila Rosali, mas o local, denominado naquele momento como ‘Cemitério Israelita do Rio de Janeiro’, sempre recusou as ofertas. Em 1923, o presidente da Sociedade era o Sr. Motel Zveiter.
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Vista para a esquerda com alguns dos túmulos mais antigos. Após o muro branco há um estreito acesso da estação de trem à rua, complicado, inseguro e desagradável, confinado entre os muros do cemitério israelita e do municipal, foto do autor
Desde 1920, o cemitério foi estabelecido já com a definição junto à Prefeitura local de que não haveria exumações. Para Inhaúma, administrado pela Prefeitura do Distrito Federal, foram publicados vários editais de exumação por falta de pagamento renovatório dos túmulos. O Estado só entenderia que os judeus não exumam seus mortos em 1925, após várias reuniões com a ABFRI. Esta é a razão de muitos túmulos antigos no Caju contarem com a inscrição E.P.P.S. (“Está Pago Para Sempre”), ou J.P. (“Jazigo Perpétuo”) em suas lápides, ou ainda outras variações sobre o mesmo tema, como: PS - Para Sempre e SP - Sepultura Perpétua.
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Exemplo de sepultura judaica de 1894 com a pedra picada com a mensagem de não exumação. No cemitério São Francisco Xavier (RJ), túmulo 290, foto do autor
Conforme a lembrança do Sr. Herman Glanz, a primeira sede da Sociedade do Cemitério Israelita era à Rua Visconde de Itaúna, perto da esquina da Rua de Santana, para a qual se mudou em seguida. Herman ainda se recorda de ter ido a velórios na Rua de Santana. De lá todos iam para a estação de trem de Francisco Sá – hoje demolida ao final da Rua Ceará – do Ramal da Leopoldina Railway. Antes da disseminação dos telefones entre os judeus, alguém ia até a estação e pedia pessoalmente a colocação de um vagão funerário para levar o esquife. Os familiares e demais pessoas compravam passagem em um vagão normal. A viagem levava cerca de uma hora e o desembarque era em uma elevação de terra na porta do cemitério. A única entrada do cemitério foi por ali até 1960. É costume dos cemitérios israelitas ordenar o sepultamento a partir da porta. Assim, os que ficaram próximos à entrada, hoje estão nos fundos.
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Atual estação de trem Vila Rosali, o cemitério fica à direita e não há entrada por este lado.
Em 1925 o Ministério da Viação atendeu ao pedido da Sociedade Cemitério Israelita para os trens pararem no cemitério quando levando caixões para os enterros. Desta parada surgiu a estação Vila Rosali, inaugurada em setembro de 1929: "... que os trens da Estrada de Ferro Rio D'Ouro, quando conduzirem esquifes, façam parada em frente ao cemitério de sua propriedade" (A Noite e outros, 20/10/1925). Era uma época sem muros. De fato, os muros não são vistos nem no filme de 1947 da cobertura do ‘Enterro do Sabão’, a inauguração do primeiro Memorial do Holocausto nas Américas, em 1947, objeto de matéria completa na edição 644 de MENORAH, de maio de 2013.
Não fazemos ideia das durezas do passado. A purificação ritual dos corpos (tahará) antes do sepultamento é uma necessidade na religião judaica. Mas você acha que havia água encanada em Vila Rosali em 1920? Pois não havia mesmo! Doze anos depois, em 1932, uma comissão da Sociedade Cemitério Israelita, composta pelos Srs. Emílio de Mesquita, Luiz Ferman (presidente naquele momento) e Henrique Perelberg foi recebida pelo Ministro da Educação e Saúde, o célebre Dr. Francisco Campos (‘Chico Ciência’) para pleitear água encanada (Correio da Manhã, 03/02/1932). ‘Chico Ciência’ aceitou o pedido e em breve a água de poço estaria esquecida para sempre. Segundo o pedido, os canos já estavam passados e operando na região, inclusive atravessando o terreno do cemitério, mas o departamento de águas e esgoto indeferiu uma solicitação anterior para a colocação de um hidrômetro. O asfalto só chegou às ruas do entorno e acesso a partir da Via Dutra em 1963, por intervenção do deputado estadual Gerson Berger. Com as ruas asfaltadas, o cemitério muda de configuração, constrói seu prédio atual e inverte a entrada. Por alguns anos ainda existiu uma porta estreita para a Estação Vila Rosali, mas depois foi emparedada. Não há fotos conhecidas da entrada original deste cemitério, ou de obras realizadas na região.
As atas entre 1920 e 1947 foram escritas em iídiche e não existem mais. É provável que tenham sido intencionalmente destruídas após o governo Vargas proibir todas as publicações em língua estrangeira durante a Segunda Guerra Mundial, para evitar qualquer suspeita sobre a entidade que se manteve bem discreta, quase sumida. Não existem fotos antigas. Na mídia geral aparece somente nas datas citadas nesta matéria. De 1947 até 1956, todas as atas existem em iídiche manuscrito e pelas poucas linhas, quase não há informações. São documentos muito informais e pouco informativos. A partir daí todas são completas, burocráticas, em português, com todos os dados e projetos contemplados.
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Entrada do Memorial Reduto dos Mártires, foto do autor
Em 1948, ainda com bastante espaço no cemitério ‘velho’, mas muitos dos locais disponíveis já reservados ou adquiridos, é inaugurado o cemitério ‘novo’, a menos de um quarteirão de distância. A placa de inauguração deste novo campo também se perdeu. Em 18 de dezembro de 1949 foi lançada a pedra fundamental do ‘Reduto dos Mártires’, a construção conhecida como ‘Memorial do Sabão’. O Memorial ainda existe, bem conservado, no centro do cemitério. Há matéria completa disponível sobre O Enterro do Sabão. A única outra construção que lhe faz sombra é o grande mausoléu da família do rabino Marcos Guertzenstein (falecido na Bahia). Guertzenstein foi primeiro grão-rabino ashkenazita do Rio de Janeiro.
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Mausoléu do rabino-chefe Marcos Guertzenstein e da esposa dele, o único que existe em todos os cemitérios operados pela Chevra Kadisha do RJ, foto do autor
O ano de 1956 foi emblemático. Uma assembleia geral em 18 de novembro elege nova diretoria e decide pelos documentos em português. Foi a primeira vez que a entidade se denominou publicamente como ‘Chevra Kadisha.’ Seu presidente era Walter Weistman e o vice era Abram Erlich. Em 27 de março de 1960 findou a construção do prédio, atualmente a entrada do Cemitério de Vila Rosali Velho. A obra foi do engenheiro Pinhas Scolnik e do Dr. Guido Cohen, na presidência do rabino Moises Zingerevich.
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Entrada do Cemitério Israelita de Vilar dos Teles, foto do autor
Com a redução de espaços disponíveis em Vila Rosali, a Sociedade adquiriu o terreno de Vilar dos Teles. Sua construção ocorreu entre 1989 e 1990, quando foi inaugurado, na gestão de Jorge Jurkiewicz e Izak Kimelblat como vice. O idealizador da obra, já falecido naquele momento, foi o Dr. Leão Fajwus Gleizer, ex-presidente. Cada um dos cemitérios é um reflexo arquitetônico de sua época e Vilar dos Teles possui uma configuração arejada, muito verde, florida, a qual transmite mais tranquilidade com as matzeivot baixas.
Contrasta com os cemitérios antigos, áridos e de certa forma sufocantes com suas matzeivot altas escuras. Em 28 de setembro de 1997 foi inaugurado o Memorial do Holocausto, projeto de Jacob B. Goldemberg, e em 8 de dezembro de 2002 uma guenizá (local para enterro de rolos de Torá danificados e outros paramentos litúrgicos). A única existente até então, no Rio de Janeiro, ficava no Cemitério Israelita de Nilópolis.
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Guenizá do Cemitério Israelita de Vilar dos Teles, próxima à capela, foto do autor
A sociedade era gerida por uma diretoria de 18 membros, eleita de forma democrática por três anos, e por um Conselho Deliberativo de 30 sócios. O Estatuto da Chevra Kadisha segue a orientação do Shulchan Aruch, uma compilação das regras de conduta judaica – Halachá (“Caminho”) baseada no sistema legal judaico pós-bíblico, ou seja, no Midrash, na Mishná e no Talmude.
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Capela do Cemitério Israelita de Vilar dos Teles, fotos do autor
A Chevra Kadisha criou há cerca de 30 anos uma nova metodologia de arrecadação de fundos. Foi na gestão do Sr. Max Dolinger (1986/1992), em que se adotou o critério de oferecer às famílias, exatamente em seus momentos de profunda dor, distintas localizações com variedade de preços e de possibilidades de pagamento previamente conhecidos, de tal sorte que é a família, a seu critério, quem escolhe o que entende ser possível e adequado à sua realidade, gerando assim uma absoluta tranquilidade no relacionamento da Chevra Kadisha com o Ishuv.
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Vista parcial de uma das quadras de Vilar dos Teles tomada em direção ao portão, foto do autor
A gestão de Nilton Aizeman (1992/1998) criou regras importantes no processo de doações. Foi quando passou a ser prévia e anualmente determinado os percentuais da verba de donativos a serem destinados para cada segmento de atividades da comunidade, dividindo o montante das verbas, cuja distribuição é: para Educação (formal e informal com 50%), Religião (30%), Assistência Social (10%) e Cultura e Lazer (10%). Esta ação, aparentemente simples, mas que requer permanente avaliação, trouxe a desejada transparência ao processo de doações da instituição.
Posteriormente, em 2007, a Chevra Kadisha instituiu normas e critérios disciplinando a apresentação e aprovação de projetos que demandassem seu apoio financeiro, de pleno conhecimento das instituições judaicas do Rio de Janeiro.
Podemos ter a certeza absoluta de que a Chevra Kadisha permanecerá em seu rumo de Torá, Avodá e Guemilut Hassadim, enquanto houver judeus no Rio de Janeiro.
Presidentes da Chevra Kadisha: 1920 - Anno Lent z'l; 1923 - Motel Zveiter z'l; 1932 - Luiz Ferman z'l; 1956 - Walter Weistman z'l; 1961/1964 - Rabino Moisés Zinguerevich z'l; 1968/1974 - Jayme Roizenblit z'l; 1974/1980 - Chaim Henoch Zalcberg; 1980/1986 - Leão Fajwusz Gleizer z'l; 1986/1992 - Max Dolinger; 1992/1998 - Nilton Aizenman; 1998/2004 - Eliezer Lewin; 2002/2008 - Mauro Rodin; 2008/2014 - Paulo Chor.
OBS 1: Nos três cemitérios gerenciados pela Chevra Kadisha no Rio de Janeiro há cerca de 28.000 sepulturas na data de fechamento deste artigo.
OBS 2: Por determinação na família, não temos autorização para publicar a foto do primeiro túmulo do Cemitério Israelita da Vila Rosali.
© 2014 José Roitberg - jornalista e pesquisador
ABEC - Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais





















