quarta-feira, 20 de março de 2013

Projeto original do Maracanã

Maracanã tinha judeu no projeto? Você sabia? Agora que estamos prestes a ver uma quarta fase do Maracanã inaugurada mas não finalizada, que tal resgatar os autores da obra original, jamais concluída? Em 1947 a prefeitura do Rio de Janeiro abriu concorrência pública para o projeto arquitetônico do estádio. O projeto vencedor foi de autoria da equipe de arquitetos formada por Waldir Ramos, Raphael Galvão, Miguel Feldman, Oscar Valdetaro, Orlando Azevedo, Pedro Paulo Bernardes Bastos e Antônio Dias Carneiro. A sua construção teve início dia 2 de agosto de 1948, na administração do prefeito Ângelo Mendes de Morais. Trabalharam na obra 1.500 homens, e nos meses finais este número elevou-se para 3.500. O engenheiro que iniciou os trabalhos foi Paulo Pinheiro Guedes. A Copa do Mundo de 1950 foi realizada com as obras ainda não concluídas. A rigor, estas só terminaram em 1965, mas longe da configuração do projeto. O parque aquático anexo a um estádio descoberto para tênis e o Estádio Célio de Barros, que também previa uma concha acústica para outros eventos nunca assumiram a configuração do projeto inicial que já determinava a demolição do Museu do Índio, não presente do canto esquerdo superior da maquete oficial. Quanto ao obelisco, nunca saberemos o que iria representar. Todo este complexo foi construído onde funcionou por décadas, o Derby Clube, a principal pista para corridas de cavalos na Capital Federal dos Estados Unidos do Brasil. Na foto temos os arquitetos Miguel Feldman (esq) e Antônio D. Carneiro diante da maquete do Maracanã, em 16/junho/1949. Foto da coleção de Branca Feldman.

Estadio-Municipal-Do-Rio-De-Janeiro-RPPC-Maxi-Postcard-1950-PROJETO-QUE-NUNCA-FOI-EXECUTADO

No final das contas, o parque aquático Maria Lenk foi construído no local da previsão original e o Célio de Barros, também, mas ambos fugindo totalmente as linhas harmoniosas do projeto original. Bem, hoje ambos foram destruídos. Abaixo, configuração do Google Earth em 2009 ou 2010, antes das obras para as Copas de 2013-14.

MARACANA 2010

quinta-feira, 14 de março de 2013

MULHERES DE TALIT - VIOLAÇÃO OU NOVA TRADIÇÃO?

Nestes dias tenho lido algumas posições muito fortes contra as 300 Mulheres do Muro que forçaram a barra e entraram na área feminina do Kotel, com talitot (xales de oração) para fazer as orações delas debaixo de agressões verbais e sopros do shofar dos hassidim e hareidim do lado masculino. Precisa ficar claro para todos que o uso do talit apenas pelo homem é tradição: não é legislação judaica (halachá). Um dos pontos focais da lei judaica é TRADICIONALMENTE TAMBÉM: "Se não está expressamente proibido, pode ser feito." Não há proibição da mulher usar o talit como não há obrigação do homem usar o talit.

Por acaso você já viu alguma sinagoga ou alguém no Kotel EXIGIR AOS HOMENS PRESENTES o uso do Talit? Isso não acontece porque essa é a forma correta de agir. Com a kipá ocorre a mesmíssima coisa. Não há nem obrigação nem proibição, tanto que no ramo reformista inteiro, os homens não usam a kipá. Sequer "cobrir a cabeça" (pela tonelada de motivos sugeridos pelos mais diversos rabinos) é uma obrigação, mas talvez seja nossa mais enfática tradição. E caso todos achassem isso especificamente válido, todos o fariam, mas estamos muito longe disto.

Mas as posições que me incomodam profundamente são das pessoas, algumas de fato obtusas e outras comprovadamente inteligentíssimas que afirmam "É uma tradição então TEM QUE SER CUMPRIDA!"

Estas pessoas não conseguem entender que tal tradição por ser afeita ao ramo judaico onde ela cresceu ou está, pode não ter nada a ver com outro ou outros ramos judaicos. Não temos centralização clerical ou teológica. Não existem vaticanos judaicos, papas judaicos, ou encíclicas judaicas. Deve ser pela nossa heterogeneidade que estão tentando acabar com nossa fé e não conseguem porque não há um ponto focal que derrube todos os ramos. Hoje, pode-se citar pelo menos umas 12 designações judaicas maiores que se afirmam ortodoxas ou se afirmam religiosas quase todas elas são teologicamente opostas e excludentes umas as outras. Isso não inclui o judeu não se define como religioso, mas apenas faz o que lhe permite sentir-se bem consigo mesmo dentro da religião. É um círculo de ramos onde um coloca a mão no ombro do que está a sua frente e diz: "você não é judeu...", mas é um círculo e não um reta!

A estas pessoas que IMAGINAM que tradição é algo PARA SER CUMPRIDO, peço um segundo de consideração a ideia absolutamente verdadeira de que nenhuma tradição COMEÇOU SEM SER EXATAMENTE A NOVIDADE CONTRAPOSTA ÀS TRADIÇÕES ANTERIORES! Isso é a mais nítida das verdades e é muito simples de compreender.

O que se vê atualmente como o estereótipo dos judeus de roupas pretas (nas mais diversas formas divididas por grupo) é apenas o formato hassídico, afeto aos que militam no ramo hassídico iniciado no século 18 como MODERNIDADE E OPOSIÇÃO, principalmente aos judeus de Vilna, e consolidado em meados do século 19 na Europa Oriental, exatamente quando na Europa Ocidental se consolidava a Reforma e o Liberalismo (coisas diferentes).

Estes grupos cresceram juntos. Foram contemporâneos em seu surgimento pelas necessidades localizadas. Mas quando são colocados juntos na mesma praça, defronte ao mesmo muro que é tanto de uns quanto de outros as diferenças ficam violentamente aparentes e em algum momento os ramos precisam compreender que são da mesma árvore e nenhum árvore possui galhos iguais e simétricos.

Dizem por aí e os religiosos escutam mais facilmente que a destruição do Segundo Templo e sua não reconstrução deve-se a cisão judaica, inicialmente a de 2.000 anos atrás e depois disso sua manutenção e modificação. Seria um conceito muito louco afirmar que a solução para tal cisão é a COMPREENSÃO E ACEITAÇÃO DO OUTRO e não a submissão do outro ao meu conceito. Creio que não haja para quem falar isso.

Quanto o leiteiro Tevie,no Um Violinista no Telhado diz: “Tradição? Não sei quando começou, mas é tradição”, ele está certo, mas era um leiteiro de shtetel. Você não é!

José Roitberg - jornalista

Cerveja vai voltar aos jogos de futebol

Que decisão antipatriótica da FERJ - Federação Futebol do Estado do Rio de Janeiro em liberar o consumo de cerveja nos jogos de futebol dentro dos estádios. Há uma pressão nacional amparada pela sociedade em reduzir o consumo estratosférico dessa droga denominada álcool no Brasil, com tolerância zero no trânsito. O torcedor já estava completamente acostumado ao álcool zero nos estádios e a mídia foi muito incisiva contra a FIFA quando ela EXIGIU o consumo de bebidas alcóolicas nos jogos da Copa das Confederações e do Mundo.

Nem FIFA nem FERJ agem no interesse das pessoas nem no interesse da sociedade. Agem apenas em interesse próprio que tem que ser completamente escuso.

O álcool foi banido dos estádios por ser fator determinante na violência de torcedores embriagados dentro do estádio, fora do estádio, nos transportes coletivos e nos carros particulares.

O cenário que deixamos de ver no Brasil retornará no Rio de Janeiro. Veremos mais brigas e brigas mais violentas, veremos atropelamentos de bêbados nas imediações dos estádios, veremos acidentes de trânsito causados por esse medida interna da FERJ.

Podre um país como o nosso que não possui INTENCIONALMENTE a figura do Promotor Público, do advogado pago pelo Estado para falar e dar início a ações pelo interesse óbvio da sociedade.

E como a maior parte da sociedade é consumidora de álcool, vai aplaudir essa decisão, porque sempre são os outros que morrem. A maioria está errada!

José Roitberg - jornalista

domingo, 10 de março de 2013

Chávez Morto–Coreia do Norte à Morte

Estão acontecendo duas coisas que não fazem sentido. A primeira é o velório inicial de Chávez, num caixão fechado, coberto com a bandeira da Venezuela. Ficou largado lá no calor durante uma semana. O governo diz que vai embalsamar e expor num mausoléu aberto, caixão de vidro, estilo Lenin. Especialistas em embalsamar dizem que o processo precisa começar 12 horas após a morte. Assim sendo todos preferem não comentar o que há de fato no caixão, sendo mais provável a veracidade da foto negada pelo pelo governo, do falecido Chávez já embalsamado em dezembro do ano passado.

A segunda é o débil mental do imperador da Coreia do Norte ter anulado o tratado de não agressão de 1953. Tenho certeza de que os jovens não sabem o que foi a Guerra da Coreia então é preciso em pequeno resumo. A Segunda Guerra Mundial no Pacífico não começou com o ataque japonês a Pearl Harbour em 1942, mas muito anos antes quando o Japão invadiu a China e Península Coreana. O fascismo japonês tinha também um forte componente racial, onde japoneses eram superiores a todos os outros povos e sua população foi ensinada assim por pelo menos umas duas ou três gerações antes desta época. Não havia dúvidas.

As atrocidades de japoneses contra todos os outros asiáticos sob ocupação, a escravização, seja antes ou depois de 1942 são horríveis e nada deixam a desejar em relação aos nazistas na Europa. Há uma retribuição coreana, seja do norte, comunista, seja do sul, democrata a espera do Japão. Até hoje isso só não aconteceu pois os EUA tem forte presença militar tanto no Japão quanto na Coreia do Sul. Hoje a China está numa posição contrária à Coreia do Norte e não pretende uma guerra que pode evoluir para nuclear, ao seu lado.

A Guerra da Coreia começou com grupos comunistas centrados no norte do país, apoiados diretamente pela China, que lhes faz fronteira, atacando o Sul em junho de 1950 e tomando a capital, Seul após várias tentativas de golpe de estado.. Começou como uma revolução comunista interna. A ONU estabeleceu uma coalizão de intervenção militar para defender o Sul.

Foi uma guerra mundial localizada e é importante saber quem participou com tropas ativas de combate: pelo norte, Coreia do Norte, China, União Soviética (hospitais militares da Bulgária, Tchecoslovaquia, Hungria, Polônia, Romênia); pelo sul, Coreia do Sul, ONU, EUA, Inglaterra, Austrália, Bélgica, Canadá, França, Filipinas, Colômbia, Etiópia, Grécia, Luxemburgo, Holanda, Nova Zelândia, África do Sul, Tailândia e Turquia (hospitais militares da Dinamarca, Índia, Itália, Noruega e Suécia).

É importante notar que os norte coreanos tinham apenas 266.000 soldados, tendo recebido 26.000 soviéticos, mais uma avalanche de 1.350.000 soldados chineses. O sul mobilizou 603.000 soldados com uma participação dos EUA de 327.000 homens, Juntando tudo, foram 1.642.600 pelo norte (cerca de 500.000 mortos) e 972.214 pelo sul (cerca de 180 mil mortos). Entre a população civil da Coreia inteira foram 2,5 milhões de baixas sendo mais de 2/3 mortos e um número estimado de quase 400 mil sul coreanos sequestrados pela Coreia do Norte cujo paradeiro é basicamente ignorado. Portanto, 3 anos de mais absurda carnificina.

Quando nenhum dos lados suportava mais, foi estabelecido o pacto de não agressão que a Coreia do Norte rasgou ontem mais que publicamente. Tecnicamente, isso significa que a guerra voltou e qualquer ação de qualquer dos lados, neste momento, pode ser considerada uma atividade de guerra e será respondida.

A população da Coreia do Norte não sabe que o mundo existe. Eles são doutrinados há 60 anos, talvez possamos falar de quatro gerações, com a certeza de que que: (1) eles são a única democracia do mundo; (2) todos os países ocidentais são estados fascistas que violam os direitos humanos; (3) eles tem a economia mais forte do mundo e são tecnologicamente os mais desenvolvidos; (4) o que de básico lhes falta, comida, abrigo, saneamento, água é um exemplo do que falta em todo o mundo, sendo que ali, é o lugar onde há mais abundância; (5) os coreanos do sul e os japoneses são animais; (6) os americanos são demônios que cercam o país pelo mar e o prejudicam em tudo que for possível; (7) a morte pelo líder supremo é o desejo nacional (abertamente copiado do regime japonês fascista do século 19-20). E outras coisas que só descobriremos quando o regime cair.

A Zona Tampão entre norte e sul é a área com mais minas terrestres e fortificações do mundo. A tentativa de passar tropas para cima ou para baixo seria inicialmente fatal, mas posteriormente possível. Seul, a capital do sul, uma das cidades mais modernas e desenvolvidas do mundo, fica apenas há 50 km desta Zona. A artilharia (canhões) de longo alcance do norte podem atacar a cidade e o que há entre ela e a Zona, em instantes. Estamos falando aqui, de oficialmente divulgados, 12.000 canhões! No primeiro minuto de ataque, estas armas podem despejar uma chuva de 50.000 projéteis explosivos de grande calibre. Isso só no primeiro minuto e sem contar com aviões, mísseis etc.

Quando um maluco, o próprio Satânico Doutor No, encerra 60 anos de trégua logo após mostrar ao mundo que possui armas nucleares e ao mesmo tempo afirma que vai atacar os Estados Unidos é bom que as pessoas acreditem que qualquer coisa pode acontecer ali e os 4 a 5 milhões de vítimas da guerra de 1950-53 serão um número baixo para o que pode vir.

Para encerrar, para quem não acredita que um regime possa mentir durante 60 anos para sua população, vou citar um texto de Miriam Halfim publicado no Nosso Jornal de uns 15 dias atrás. Anos antes ela foi à Cuba para um congresso da área dela. Disse que carne era só de frango e só no hotel. Um dia não teve o frango algum e ela questionou o gerente do hotel que lhe respondeu com toda a certeza da verdade do mundo: "Os americanos afundaram o navio que trazia os frangos." Nunca se esqueça disto quando pensar em Cuba, em Cháves e em Coreia do Norte.

José Roitberg - jornalista

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Confederação Israelita do Brasil - 1933

Um dos ramos de minha pesquisa é mostrar a organização política dos judeus no Rio de Janeiro (depois em outros lugares também) antes da criação de FSIRJ (Federação das Sociedades Israelitas do RJ) em 1947 (atual FIERJ) e poucos anos depois, da atual CONIB. Um dos motivos da criação da FSIRJ e está em seu estatuto inicial, é o acolhimento dos sobreviventes do Holocausto. Mas sabemos pelos nossos historiadores que as coisas não foram bem assim. Houve grupos anteriores, significativos, que representavam a comunidade israelita SIONISTA junto ao governo e à imprensa. Tais grupos não representavam a esquerda judaica e não representavam os sefaradim árabes e turcos já de segunda e terceira geração, oriundos dos imigrantes do século 19, de décadas antes da proclamação da república.

Assim temos nos anos 1910 a Tiferet Zion, depois substituída pela Hatchia (nome original da Biblioteca Bialik) considerada desde o início como uma "federação sionista do Rio de Janeiro, com muita expressão junto ao governo e até a embaixadores de outros países.

Mas hoje, vamos iniciar a passagem a limpo da C.I.B. (escrita exatamente desta forma): Confederação Israelita Brasileira, tida por nossos historiadores como sendo um "pequeno grupo de pessoas", tendo "pouca expressão e representatividade." Mas isso é o discurso ao que já me referi escrito pelos historiadores da esquerda judaica. A CONIB não é uma descendente direta da C.I.B. e não a substituiu. Trata-se de entidades completamente diferentes.

A C.I.B. foi fundada num sábado a noite, 25 de novembro de 1933 após meses de negociações e de uma gestão provisória. Estiveram presentes 450 pessoas tendo a sua frente nomes como o capitão Levy Cardoso (de pé na foto) e Horácio Lafer (sentado), no momento, deputado constituinte. Segundo a notícia, praticamente todas as entidades israelitas do Rio de Janeiro se filiaram. No arcabouço nacional, filiaram-se: Federação Israelita do Rio Grande do Sul; Centros Israelitas de Pelotas, Santa Maria e Cruz Alta; União Israelita de Belo Horizonte; Federação Israelita Paulista (precursora indireta da FISESP).

1933 Levy Cardoso e Horácio Lafer

Iriam se filiar em breve: Centro Israelita do Paraná; Comitês Israelitas de Belém e de Manaus; Beneficência Israelita de São Luiz do Maranhão; Associação Israelita da Paraíba; Sociedade Israelita de São Salvador (Bahia); Centro Israelita de Aracajú; Biblioteca Israelita de Maceió; União Israelita de Campos dos Goytacases; Sociedade Israelita de Niterói; Círculo Israelita de Petrópolis e outras não nominadas, formando um grupo de entidades e de locais com organização judaica surpreendente e bastante esquecidas em nossa história.

1933 aspecto do publico CIB

Mais a frente vamos entender o que essa C.I.B. enfrentou, por que ela encerrou suas atividades e quando foi isso. Mas um dos motivos de sua criação era a preocupação com o crescendo do antissemitismo na Europa e principalmente na Alemanha junto com a luta para a realização prática do sionismo! Quem dera... Não foi nada disso e talvez seja essa a razão de sua derrocada posterior.

A C.I.B. era uma entidade nacionalista. Conforme seu próprio discurso: "um desejo evidente de melhorar e aperfeiçoar as condições sociais, econômicas e intelectuais dos judeus no Brasil... e pela necessidade da intensificação do intercâmbio judeu brasileiro e da integração dos judeus no ambiente cultural e cívico do Brasil."

Essa é uma demonstração histórica de como os judeus estavam subdivididos em várias vertentes dignas, revolucionárias e excludentes entre elas de tratar o "problema judaico". Pela Palestina? Pelo comunismo? Por Birobijan? Pela democracia americana? Por ser um brasileiro como qualquer outro? Por manter a religião de forma ortodoxa no Brasil? Se formos pensar um pouco, veremos que as questões de 1933 ainda são basicamente as mesmas, inclusive dentro de Israel.

José Roitberg - jornalista e historiador

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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Judeus ortodoxos em Auschvitz

INÉDITO JUDEUS EM VARSÓVIA ANTES DA INVASÃO NAZISTA

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Internação compulsória. É isso que queremos?

A lei brasileira já permitia a internação compulsória (obrigatória) de menores de idade usuários de crack. Em São Paulo, já fazem dois dias que iniciou a internação compulsória de adultos usuários de crack. No Rio de Janeiro, anunciou-se, ainda há pouco, que a mesma medida, através de lei, poderá entrar em vigor em abril. Mas é isso que queremos?

Eu quero! Eu aplaudo! Eu incentivo! Vamos tirar estes indesejáveis das ruas! Vamos tirar essa gente feia, fedida, anti-higiênica e agressiva da rua! Vamos tirar esses homens, mulheres e crianças que nada produzem para a sociedade da rua! Vamos limpá-los! Vamos reeducá-los! Vamos deixá-los longe de nossas vistas enquanto são uma sub-raça humana! Caramba: sou nazista!!!

Sou um nazista anti-crack! O que está acontecendo? Sou judeu! Como posso me tornar nazista? Posso vir a ser nazista se concordar com isso tudo e me calar. Então em altas e boas caixas: EU NÃO CONCORDO! EU NÃO ACEITO INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA!

Eu... eu não vou ser nazista p…nenhuma! E aconselho você a pensar no seu papel na sociedade neste momento.

Lembro-me de uns 10 anos atrás quando escrevi pela primeira vez sobre o crack e fui execrado, taxado de idiota. Afinal, como é que uma droga vagabunda e barata daquela poderia devastar a sociedade? Há 10 anos já se via isso nos Estados Unidos (que não conseguiu resolver), no México e na Colômbia (que também não conseguiram). Em termos de drogas e favelas é só olharmos a Colômbia, pois estamos sempre 10 anos atrás, até nas UPPs, incluído aí o teleférico do alemão, que foi um conceito adotado pela Colômbia para as favelas dela. Há 10 anos atrás os meus leitores achavam que uma droga de 1 real, era menos perigosa que uma de 10 reais. Ah... que engano terrível vocês tiveram né?

Hoje, nos preocupamos com cracolândias e cracudos, mas apenas se estão em nosso caminho. A medida em que a prefeitura do Rio agiu nas linhas férreas os cracudos foram parar o Caju e Parque União, misturados com os veículos da Avenida Brasil. Agora que a prefeitura age na Av Brasil os cracudos em bandos entenderam que estão mais protegidos em Copacabana. Nosso direito de ir e vir livremente é de fato ameaçado pelos cracudos, seja em ações violentas de furtos e pequenos roubos, seja na intimidação pelo Real que lhes dará mais uma dose, seja em vandalismo gratuito como arremesso de pedras contra carros e se posicionar fisicamente na frente dos veículos impedindo nosso "ir", podendo nos tornar criminosos, caso atropelemos um cracudo, principalmente se for criança.

A democracia não possui nenhuma ferramenta capaz de lidar com a situação. Somente regimes ditatoriais à direita ou à esquerda é que podem, com amparo consciente de seus seguidores, através de leis ou apenas de ações de força, remover cracudos da face da terra ou, pelo menos, das vistas de todos.

Nossa democracia partiu para a legalidade. Criou lei para a internação compulsória. Por esta lei, já em vigor em SP, o maior de idade que for "apreendido", pois "preso" é muito politicamente incorreto, já que não comete crime algum - senão era só prender logo todos - será avaliado por uma junta composta de psicólogo, psiquiatra, assistente social, médico e advogado, que estão lá, pagos por nós, para fazer este exame em nosso nome e declarar o cracudo um elemento antissocial, um ser pouco humano (já que lhe faltam fisicamente milhares de neurônios destruídos pela droga), que deverá ser internado para "tratamento".

Leve-se em conta, que não há tratamento. Não há desintoxicação para crack. Especialistas falam que para um criança são dois anos de internação e "talvez" dê certo. Para adultos, encontramos um lacônico, "muito mais tempo." Então, o ser inumano será internado por lei durante quanto tempo e exatamente para quê?

E onde? Onde será internado? Hoje, ouvi no rádio que em princípio pretende-se levá-los para hospitais municipais!!! Ora... Existe merda maior que essa para o Estado fazer? Com o caos que já existe nestes serviços horríveis, teremos agora uma horda de zumbis cracudos e agressivos, controlados por agentes internadores e guardas municipais nestes mesmos lugares? Valha-me, senhor... Que estes prefeitos assistam uns episódios de "The Walking Dead" para entender o que é "trazer os cracudos para o convívio social forçado", note bem, trazer os cracudos para onde estamos, ao invés de afastar. De qualquer modo, esta passagem pelos hospitais municipais que só não acontecerá se a sociedade gritar e gritar bem alto, vai ser temporária. Então, para onde irão os caracudos?

Não serão colocados em prisões. Isto está muito claro. Não serão colocados, obviamente em clínicas particulares, hotéis fazenda ou spas de emagrecimento. Resta-nos, e a eles, um termo que me custa a escrever e prefiro enrolar por mais algumas palavras. Eles serão concentrados em instalações próprias criadas para a proteção deles mesmos, criadas para nossa proteção das ações perversas deles aqui fora, criadas para a reeducação e salvação deles. Só tem um nome: campo de concentração.

E é por isso que eu não vou ser nazista. Não vou aceitar que no Brasil democrático uma nova lei passada a pedido de uma prefeitura de SP (diga-se PT) crie campos de concentração para cidadãos brasileiros que uma junta médica defina que "precisam ser protegidos". Já vimos isso! Apesar do comunismo ser o criador dos campos de concentração e não os nazistas, essa é a marca que ficou.

Como estudioso do nazismo eu sei, e qualquer pessoa bem informada sobre o assunto sabe que nenhuma das ações contra os judeus durante todo o período maior que engloba o Holocausto foi feita sem que houvesse uma lei aprovada em vigor que permitisse tais ações. Nenhuma ação do Estado Nazista, inclusive chacinas, fuzilamentos sumários, execuções brutais, extermínio por gás, extermínio por transporte torturante e inadequada, pela fome, nada disso aconteceu sem o amparo de uma lei.

Todos os atributos que descrevi lá em cima como características do indesejável zumbi cracudo, foram usadas na Alemanha para descrever o indesejável judeu errante.

As pessoas não acreditam que as coisas podem de fato mudar de um dia para outro numa democracia, por lei. Vemos agora mesmo o presidente Obama, recém empossado baixando o equivalente a decretos-lei que não passam pelo congresso, contra os usuários e proprietários de armas nos EUA que hoje, vivem uma realidade Legal diferente da que havia na sexta-feira passada. Ele não se elegeu com esta plataforma. Não são apenas os republicanos que tem armas... As coisas mudam e mudam rápido. Num piscar de olhos, ainda mais quando líderes democráticos contam com a alienação político-social de seus povos, como nos EUA e no Brasil. Na Argentina, pelo menos batem panelas na rua.

Se nós, cidadãos brasileiros, dermos ao governo o direito de nos classificar em desejáveis e indesejáveis por junta médica, por medida administrativa, nós iremos trilhar um caminho que leva direto ao inferno, mas só para quem o Estado considerar indesejável.

O pastor Martin Niemöller escreveu o que você leu várias vezes: "Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse"

ESTÃO LEVANDO OS CRACUDOS. EU NÃO SOU CRACUDO E NÃO VOU ME CALAR!

Tem solução diferente? Numa democracia, parece que não. Num regime de exceção teria sim, mas seria pior. Então, no fim das contas eu serei parte de uma sociedade que era especificamente democrática até domingo passado e terá caráter nazista a partir de agora. É provável que outros estados e prefeituras sigam o "exemplo" de SP e do RJ. Não foi minha decisão, não foi sua decisão. Decidiram por nós, sem nos consultar. Pense em seu papel individual na sociedade. Torça para que o Estado não defina outros tipos de seres humanos como indesejáveis, pois você poderá estar numa nova categoria, englobada por uma nova lei.

Faltou algo no texto, Zé! Dá a entender que crack nasce em árvores ou surge espalhado nas sarjetas cracolantes! E os traficantes? Amigo... A lei da internação compulsória não tem nada a ver com traficantes, apenas com cracudos usuários. Estamos num cenário prestes a ter aprovadas leis que permitirão o porte de drogas em quantidade de consumo onde poderemos assistir algo surreal, mas nada surpreendente. As pessoas poderão portar cocaína, maconha, ecstasi etc, menos crack. Teremos drogas liberadas e drogas proibidas de portar. Ué, mas isso não existe hoje em dia? Claro que existe! Na verdade temos drogas lícitas e drogas ilícitas. Estes são os termos certos e é a lei, o momento social que define o que é uma e o que é outra. Qual tem tarja preta, qual precisa de receita, e qual te leva em cana. Produzir, importar, transportar e vender continuará a ser crime, usar não é crime, menos o crack, que continuará sua trajetória terrível na sociedade. A toda hora temos notícias de apreensões de drogas. Há 30 anos falava-se em gramas, há 20 anos falava-se em quilos. Nos últimos anos se fala em toneladas. Isso só quer dizer uma coisa, o consumo se multiplica e a oferta acompanha. Governo comemora dezenas de milhões saindo da linha de pobreza? Os grandes traficantes também comemoram.

José Roitberg - jornalista