A matéria de março de 1939 diz que O Globo foi lá porque havia uma discórdia na comunidade. Era a padaria de David Bilms (nunca tinha ouvido este sobrenome antes).
Só que os pedidos eram muito maiores e David Bilms foi ao Ministério do Trabalho solicitar a outorga de outras 200 toneladas de farinha destinadas a Abraham Szterenkranc (Vila Rosali) que iniciou a marca Tikva no Rio de Janeiro.
(foto pessoal cedida por Raquel Szterenkranc)
“No balcão de mármore estão expostos os lakers (bolos) da vovó Chawa. A padaria funcionava normalmente e era aberta ao público na parte da frente. Nos fundos ficava a fábrica de matzá e kashe.”
"Era um forno a lenha e a matzá feita era crocante. Vovô comprou as terras que pertenciam ao cemitério Velho de Vila Rosali que ficava quase em frente à Tikvah e fez sozinho o primeiro enterro e rezou por aquela alma. Também fez a sinagoga Beit Israel (Bet Ysroel) e o escritório de resgate às vítimas do Holocausto de Ostrowiec na Praça Onze, RJ. Raquel Szterenkranc
"Fui com papai, várias temporadas de fabricação para Pessach, em Vila Rosali. E testemunhei a modernização sequencial dos fornos de fabricação, bolação do nosso pai saudoso. Nosso avô Abram, também foi um dos fundadores do antigo cemitério de Vila Rosali, mais uma contribuição da nossa família a comunidade judaica!!! Tradição centenária!! Saudades eternas!" Luiz Szterenkranc
Este é o prédio da Padaria Tikvah em Vila Rosali. Note ao fundo a chaminé do forno a lenha, o telhado quase original e a arte arquitetônica em concreto, no alto e na frente dos anos 1920.
O portão de entrada de Vila Rosali, ficava a menos de 200 metros da Tikvah. A plataforma do trem, depois estação, ficava entre a padaria e o cemitério. Falta uma história. É muito provável, que durante décadas, os judeus que iam aos enterros em Vila Rosali e nas visitas antes de Yom Kippur (data normal para inaugurar matzeivot naqueles tempos) se reunissem na Tikvah para relaxar, bater papo, tomar um café, um guaraná, levar pão para casa enquanto aguardavam o trem. Alguém precisa lembrar destas histórias.
Em 1939, a padaria de Bilms, já funcionava à 10 anos e tinha patente de 1923 para fabricação de "matzá para a páscoa israelita". Ainda segundo a matéria, David Bilms fabricava matzá no Rio de Janeiro desde 1914.
A supervisão era do rabino "Eide Leip Sirichevsky" (conforme publica em O Globo) na verdade, Yehuda Leib Scherechevswky o rabino da extinta (em 1935) sinagoga Beit Yacov (Jacob). Este rabino foi o primeiro rabino da Chevra Kadisha, fundada pela Beit Yacov e pelo Centro Israelita. Nas fotos de O Globo, o padeiro Pedro está em destaque na superior e David Bilms, de cabelos brancos na inferior.

Única foto conhecida até o momento do rabino Yehuda Leib Scherechevswky (RJ anos 1910s-1940s) e sua família (publicada na Revista Menorah de setembro de 1970)
Anúncio da Matzá Tikva de 1984 na revista Menorah. O endereço era do escritório e não da fábrica. Era absolutamente normal as escolas judaicas levarem os alunos para visitar a fábrica de matzá. Eu mesmo participei duas vezes quando criança. Sempre existiu em nossa comunidade uma complicação a mais com a redação das palavras em ídishe pois são cinco vertentes majoritárias da língua. Então temos "matse" ao invés de matze ou matzo, "ferfo", ao invés de ferfer ou farfale e "matse mel" que não é mel de matzá e sim farinha de matzá (matze-mel).
Em 2008, enviei minha equipe do Comunidade na TV, da FIERJ, fazer a última gravação sobre o funcionamento da fábrica de matzá Tikvah na rua de Santana 195, em seu último ano de funcionamento, pois o segundo proprietário decidiu fechar. Assista, pois é um documento único. Vc verá como é fabricada a matzá para Pessach. Será que alguém guardou uma caixa? Precisa ir para o Museu Judaico.
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