domingo, 8 de novembro de 2015

Túmulo número 3 da Acatólicos do Caju

Nova jornada para ampliar a compreensão sobre os mais de 2.000 túmulos de judeus no Cemitério de São Francisco Xavier. Desta vez a quadra mais antiga foi totalmente fotografada. Todos os túmulos estão documentados e detalhes considerados à parte. Na foto, eu estou no centro da área destinada às crianças. Como se pode ver, ela se estende ainda por mais algumas fileiras até aqueles dois túmulos semelhantes no centro lá atrás.

Um destaque ruim desta área é a falta quase em 70% dos túmulos de qualquer identificação exceto o número da sepultura. Sabemos que existe uma lista em poder da Comunal, e que há uma intenção de identificar ou identificar pela primeira vez, todos os túmulos com problemas neste cemitério. Por exemplo, estes túmulos que se veem em cimento esverdeado, já se trata de trabalho de preservação da gestão de Jayme Salomão.

tumulo-3-0-2015

Em relação aos túmulos de crianças há algumas curiosidades. Em quase nenhum há a inscrição definindo-o como sepultura perpétua, mas não foram exumados. A maioria deles é simples indicando uma origem pobre, como o que está à minha direita na foto e o outro túmulo rente ao chão, mais para a esquerda. Mas há túmulos de crianças de famílias com posses, como este em primeiro plano, com uma coluna de mármore partida e flores caídas, uma indicação universal para todas as religiões, de morte com pouca idade. Mais atrás vemos um túmulo bem alto com urna (para a alma) e uma grande estrela de david em mármore, túmulo caro até para os padrões atuais. O anjo é de um túmulo de protestante.

Naquele período histórico os judeus preservavam muito suas culturas cemiteriais dos países de origem, então podemos afirmar, quase com certeza, de que os túmulos rente a chão são de crianças de origem árabe e os outros de europeus, mesmo que sejam sefaradim.

tumulo-3-2-2015

Nas outras fotos, temos o túmulo judaico de número geral 3 da ala de acatólicos do Caju. É um daqueles casos deve nos fazer pensar sobre a propalada "pobreza geral" dos imigrantes judeus, algo que não considero como realidade, apesar de metade de minha família ter vivido com trabalhos muito aviltantes por vários anos na Argentina, Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte e outra parte com todos os homens trabalhando como Klienteltchics no Rio de Janeiro.

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O túmulo do jovem Mauricio Scharfman z'l, dá a tradução do termo 'matzeiva', que é monumento, o sentido da palavra. Nasceu em 1851 na desconhecida Berlad, na Moldávia e faleceu no Rio de Janeiro, cinco dias antes de completar 28 anos, em 1879, ainda no Império Brasileiro, ainda na época da escravidão. Ao contrário de outros túmulos judaicos destes período no Brasil, há um lado do monumento perfeitamente escrito em português e outro em yídiche, com o símbolo dos coanim. Geralmente, nesta época, são túmulos em alemão e yídishe. A arte do monumento tem elementos curiosamente góticos e pouco encontrados em túmulos judaicos.

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A família Scharfman ainda existe no Brasil e assim podemos notar que estão entre os primeiros imigrantes da Europa Oriental. Humildemente peço desculpas à família e espero que considerem esta pequena matéria como um resgate de sua memória familiar em benefício da história dos judeus no Rio de Janeiro.

Quando vou ao São Francisco Xavier digo um kadish coletivo para os mais de 2.000 judeus de lá. Certamente isso ajuda.

@ 2015 José Roitberg – jornalista e pesquisador, membro da ABEC
Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Rio Antigo e História do Rio de Janeiro

Lista de comunidades no Facebook e páginas de dicadas a História do Rio de Janeiro, fotos antigas do Rio de Janeiro. É uma coleção surpreendente.

Antigamente - http://fotolog.terra.com.br/antigamente1:1479 - Lyscia Braga

As Histórias dos Monumentos do Rio - http://ashistoriasdosmonumentosdorio.blogspot.com.br/ - Vera Lucia Dias Oliveira

Augusto Malta Revival - https://www.facebook.com/augustomaltarevival - Marcello Cavalcanti

Carioca da Gema 1 - http://fotolog.terra.com.br/carioca_da_gema - Roberto Tumminelli Cardoso Fontes

Carioca da Gema 2 - http://fotolog.terra.com.br/carioca_da_gema_2 - Roberto Tumminelli Cardoso Fontes

Cascadura Caminhos do Suburbio - https://www.facebook.com/CascaduraCaminhosDoSuburbio?fref=ts - Raphael Bellem

Cidades Brasileira: Memorias sem papel - https://www.facebook.com/groups/168096043378654/?fref=ts - Olinio Coelho

Coisa Lúdica - http://fotolog.terra.com.br/cartepostale - Milu Maria

Coluna Patrimônio - http://www.rioecultura.com.br/coluna_patrimonio/coluna_patrimonio.asp?patrim_cod=99 - Leo Ladeira

Conversas Cariocas - https://www.facebook.com/ConversasCariocas - Rafael Gota 

Flavio M - http://www.flickr.com/photos/flaviorio/ - Flavio Sertã Furtado Mendonça

Copacabana Demolida - https://www.facebook.com/CopacabanaDemolida?fref=ts - Claudia Mesquita

foi um Rio que passou - http://www.rioquepassou.com.br/2013/08/30/igreja-de-sao-cristovao-1916/ - Andre Decourt

Fragmentos georreferenciados da nossa história - https://frags.wiki Halley e Ana Cristina

Fotos do Rio de Janeiro Antigo - https://www.facebook.com/pages/Fotos-do-Rio-de-Janeiro-Antigo/420285374730071?fref=ts - Luiz Gustavo

Fotopaint - http://fotolog.terra.com.br/fotopaint:774 - Luiz Francisco Moniz Figueira

História das Barcas RJ - https://www.facebook.com/barcashistoria/ - Victor Grinbaum, Atilio Flegner e José Roitberg

Itaboraí Antigo https://www.facebook.com/itaborai.antigo - Rodrigo Lucio

Jornais Antigos do Rio de Janeirohttps://www.facebook.com/jornais.rio - Tiago Bandeira e Rafael Mendes

Literatura e Rio de Janeiro - http://literaturaeriodejaneiro.blogspot.com.br/ - Ivo Korytowski

Mapas Antigos do Rio - www.facebook.com/mapasantigosdorio - Eduardo Botti

Memória de São Gonçalo - www.facebook.com/memoriasg - Luciano Campos Tardock

Memórias do Arcebispado Carioca - https://www.facebook.com/memoriasdoarcebispadocarioca - Eraldo De Souza Leão Filho

Memórias do Futebol Carioca - http://www.facebook.com/MFCarioca - Raphael Belem e Tiago Bandeira

Memorias do Suburbio Carioca - https://www.facebook.com/riosuburbio?fref=ts - Tiago Bandeira

Olhar Nictheroy - https://www.facebook.com/OlharNictheroy?fref=nf - Luiz Marcello Gomes Ribeiro

Olhos de Ver - https://www.facebook.com/pages/Olhos-de-Ver-Patrim%C3%B4nio-Hist%C3%B3rico-Rio-de-Janeiro/413946725361803?fref=ts - Leo Ladeira

Ônibus Antigos do Rio de Janeirohttps://www.facebook.com/OnibusAntigosRio - Rafael Mendes

O Rio de Janeiro Que não Vivi - https://www.facebook.com/ORioDeJaneiroQueNaoVivi?fref=ts - Bruno Chaves 

Palácio Monroe - Crônica da demolição (filme) - https://www.facebook.com/palaciomonroe/ Eduardo Ades

Panoramio - http://www.panoramio.com/user/3970987 - Raul Félix de Sousa

Papélia - https://www.facebook.com/Papelia - Stella Tuttolomondo 

Rio Antigo Social CLube - https://www.facebook.com/RioAntigoSocialClube  - Renato Fernandes

Rio, City of splendour - https://picasaweb.google.com/109916640496448521543/RioCityOfSplendour?noredirect=1 - Nickolas Nogueira

Rio Comprido - Um Bairro de Passado, Presente e  Futuro? - https://http://www.facebook.com/groups/196503143784235/ - Sheila Castello

Rio de Janeiro Desaparecido - https://www.facebook.com/riodejaneiro.desaparecido?fref=ts - Cau Barata

Rio que Foi Notícia e Virou História -https://www.facebook.com/FotosDoRioAntigoQueVirouHistoria/ - José Roitberg

RJ450 http://www.vejario.com.br/blogs/rj450/ - Rafael Sento Sé

Saiba História: http://saibahistoria.blogspot.com/ Adinalzir Pereira Lamego

Saudades do Rio - http://luizd.rio.fotoblog.uol.com.br - Luiz Darcy

S.O.S. Patrimônio - https://www.facebook.com/groups/712997072095070/ - Sheila Castello - Adua Nesi - André Ferreira - Kiki Simone Reis - Marconi Andrade

Tanguá Antigo - https://www.facebook.com/Tangua.Antigo - Rodrigo Lucio

Vale das Videiras - Petrópolis - RJ - https://www.facebook.com/valedasvideiras - Stella Tuttolomondo

Zona Sul Casas e Prédios Antigos -https://www.facebook.com/ZonaSulCasasePrediosAntigos - Rafael Bokor

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Como acelerar os cartões de memória de tablets

Em nossa luta contr regulamentações expúrias como a que limita em 4GB o tamanho dos vídeos devido a formatação FAT 32 dos cartões de memória imposta pela Aple que não aceitou utilizar a formatação NTSF sem limite de tamanho de arquivos do Windows, acabamos perdendo muito tempo com cartões de memória em tablets e telefones.

Certamente você já deve ter carregado vídeo de 2 ou 3 gigas em seu tablet. Quando maior é a resolução de sua tela, mais vc vai querer um vídeo de alta qualidade e o arquivo será maior. Esta limitação anacrônica do uso da FAT 32 chegou até o padrão de cartõs SDHC, mas atualmente todos os cartões de fato velozes e de alta capacidade são SDHX e isto faz toda a diferença.

Para as câmeras fotográficas, é tecnicamente impossível o uso de cartões de memória fomatados como NTSC. Para garantir que os cartões possam ser lidos em equipamentos da Aple, todos os fabricantes OBRIGAM os consumidores, sem alertá-los, a utilizar baixa velocidade, mesmo nos cartões mais velozes do mercado. Não seria mais correto o software das câmeras perguntar se vc vai usar Aple ou não? Quem quer a maça que espere na fila. Quem deixa de lado esta Ferrari com motor de Fusca que voe com o NTSF, mas NENHUM fabricante pensa assim.

Estes padrões são absurdamente antigos e deveriam ser descartados para novos equipamentos. O FAT 32 foi uma revolução de 20 anos atrás com a introdução do Windows 95… Mas apenas no Service Pack 2. A exFAT foi intruzida em 2006 no Windows CE 6.0, portanto são um lixo tecnológico com o qual somos obrigados a conviver.

Existe um padrão de formatação intermediário chamado exFAT (Extended Fat) que torna um hD externo, por exemplo, compatível com Aple e M$, muito mai veloz que só para Aple e muito mais lento que só para M$. Nos testes que publiquei em outra postagem, concluímos que no padrão FAT 32 um HD externo USB 3.0 grava a 10 MB/s, com exFAT chega a 40 MB/s e com NTFS vai a 78 MB/s. O mesmo computador, mesmo hd, mesma tomada etc. Sò muda a formatação do HD.

usb 3.0 com cartão com FAT 32
Gravação em cartão Kingston Classe 10 formatado originalmente com FAT 32, pela USB 3.0

Como estou com um tablet ICC que roda Windows 8.1, sendo um belo quadra-core, e rodando qualquer tipoe tamanho de arquivo de vídeo pois uso o VLC completo, e não o VLC APP para smartphone ou WIndows 8 que deixa muito fazer, decidi formatar um cartão MicroSDHC de 16 Gigas classe 10 da Kingston com NTFS.

usb 3.0 com cartão com NTFS 8000
Gravação no mesmo cartão formatado com NTFS, pela USB 3.0

Parece maluquice né? Pois bem. Por enquanto, está funcionando. Enfiei 11 GB de vídeos em uns 15 minutos lá para dentro dele, e um filme com mais de 4 GB entrou sem problema algum. A velocidade de gravação do cartão é variável. Ela inicia muito rápido e vai perdendo velocidade ao longo do arquivo, ainda assim é um foguete. Enfiei o cartão no tablet e os arquivos são lidos sem qualquer problema.

Aconselho a todos que estão utilizando cartões de altíssima capacidade para fotos e vídeos a comprar um leitor de cartões USB 3.0 – aconselho o Kingston Media Reader 3.0 que le desde microSD a CF. Maior mão na roda.

usb-media-reader

Depois vou tentar em uns smartphones e ver o que acontece.

Para tablets e telefones a situação é outra.

Se você ficar brincando aí com a formatação de seus cartões e acabar não conseguindo ter acesso a eles pelas câmeras por algum erro de formatação FAT 32 do PC, então use o fomatador de cartões para padrão de fábrica oficial utilizado e recomendado por todos os fabricantes, desenvolvido pela SD Association (gratuito). Vá até o fim do contrato, aceite e será enviado para o download. Use e seu cartão ficará como veio de fábrica em instantes.

https://www.sdcard.org/downloads/formatter_4/eula_windows/index.html

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Como remover WMPNetworkSvc

Seu Windows inicia lento e devagar? Depois do desktop aparecer o led do HD fica aceso e você não consegue iniciar programa algum, mesmo que sua máquina seja rápida? Fique calmo, pois não é problema de hardware ou discos. É um serviço IMBECIL instalado por padrão pela Microsoft no Windows, coisa que ela não resolve desde o lançamento do Windows 7 e já vamos para o 10.

Este serviço, em princípio não serve para nada. Ele deveria fazer um compartilhamento de suas músicas e vídeos por sua rede interna de computadores. Agora me diga? Quem é que quer isso? Creio que ninguém.

Para fazer este compartilhamento o serviço fica varrendo seus hds a procura de arquivos e criando uma lista própria sabe-se lá onde. Apesar de usar pouquíssima CPU e memória, ele ocupa o barramento de acesso as hds impedindo que você use o computador corretamente até o serviço acabar. Ele roda em segundo plano e ninguém sabe o que está havendo.

Para ter certeza de que é isso que atravanca sua máquina, abra o Gerenciador de Tarefas, depois a aba Serviços e veja se o maldito está ‘executando’ como na imagem abaixo.

serviço de compartilhamento de rede do windows media player

Se vc souber como interromper um serviço, nem precisa tentar pois o acesso é negado. Também não adianta usar o MSCONFIG e desmarcar a caixinha de iniciação do estorvo, pois ele reinicia sozinho. O mais perverso é que este serviço varre os hds a cada iniciação do WIndows. É um absurdo cortezia de Bill.´

serviço de compartilhamento de rede do windows media player 2

Só há um jeito de detonar o WMPNetworkSvc e é muito simples e rápido. Vá em iniciar e digite “ prompt “ sem as aspas e espaços. Clique com o botão esquerdo no Prompt de Comando e mande  Executar como Administrador (senão, não funciona).

Em seguida copie, cole (só com o mouse, o cntrl+v não funciona em DOS). Dê Enter em um de cada vez é claro.

sc stop "WMPNetworkSvc"
sc config "WMPNetworkSvc" start= disabled

Se você quiser remover, deletar de fato este serviço, use mais este comando.

sc delete "WMPNetworkSvc"

serviço de compartilhamento de rede do windows media player 3

Espero ter ajudado alguém mais uma vez.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

História do Cais do Pharoux

Não costumo citar a Wiki, mas desta vez é mais simples. Apesar de ser conhecido como Cais Pharoux, seu nome inicial correto era Cais do Pharoux, do caso, do sr. Pharoux, construtor do primeiro hotel decente no Rio de Janeiro Imperial.

O EMPREENDEDOR

"Acostumados ao requinte e sofisticação próprios do Velho Mundo, a Corte Lusitana tivera de aguardar dois anos até que desembarcasse no Rio de Janeiro Louis Pharoux, o herói de Marselha, que lutara ao lado de Napoleão até que terminou por exilar-se nos trópicos para começar vida nova." (Bruno Accioly)

É bom lembrarmos que as primeiras décadas do século 19 foram consolidadoras da escravatura urbana no Rio de Janeiro e Louis Pharoux era proprietário de escravos. Ele sai do Brasil antes da difusão da fotografia.



Hotel Pharoux 2
Hotel Pharoux, 1860 - Foto de R. H. Klumb (clique para ver maior)

O HOTEL

“Quando Mr. Pharoux chegou ao Rio de Janeiro, em 1816, era ainda bem moço. Vinha de França. Muito a esse Mr. Pharoux devemos. Muito. Devemos-lhe, por exemplo, a ideia da criação do primeiro hotel, com certo aspeto de grandeza e decoro, instalado entre nós, o erguido no prédio que existia no ângulo da Rua Clapp com a Praça Quinze, e que, em 1901, mostrava, em letras colossais, sobre a fachada, este letreiro: Casa de Saúde do Dr. Cata Preta. Era um imóvel de proporções avantajadas, olhando para o mar. Logrou Mr. Pharoux, entre nós, notável simpatia e larga popularidade. Rico e cansado, muito tempo, depois, vendeu o seu hotel. E foi morrer em França, isso pelo ano de 1868.” O nome do cais deve-se a este francês. (EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro do Meu Tempo. 2ª Edição, 1º Volume. Rio de Janeiro: Conquista. 1957)

desenho-do-hotel-pharoux
Desenho Hotel Pharoux, ainda não consegui atribuir a autoria, mas é ligeiramente diferente da construção verdadeira.

Pela foto, podemos ver que no térreo havia cabines para banhistas com dísticos “banhos” em várias línguas. Uma série de anúncios comerciais de venda, desde barcos até batatas coloca como referência de localização, “em frente a casa” ou “hotel do sr. Pharoux”.

Hotel Pharoux
Adolphe D´Hastrel - Praia D. Manuel Cais Pharoux 1841 -  Litogravura Coleção Geyer/ Museu Imperial de Petrópolis, publicado na web por Renata Jardim em Fragmentos-Arqueologia Histórica no Rio de Janeiro (clique no link para conhecer o trabalho dela com mais detalhes sobre o hotel, e na foto para ver maior)

A localização do hotel, inaugurado em 1825 na Rua da Quitanda e transferido para Rua Fresca em 1838, fazia muito sentido, pois os viajantes podiam sair das longas viagens nos veleiros e ir descansar em terra firme logo ali na esquina. É uma época em que o Largo do Paço (Praça XV) era com piso de terra e lama. Defronte à este hotel e para a sua direita, havia uma praia de areia, denominada Praia Dom Manuel, cuja existência ainda é citada em documentos da capitania do portos em 1847. À esquerda havia a Praia do Peixe já tradicional entreposto de comércio de pescados.

O chafariz do Mestre Valentim, que existe até hoje (sem água) foi colocado ali, para oferecer abastecimento de água gratuito não só aos trabalhadores do cais como às próprias embarcações.

1918 RIO DE JANEIRO CAES PHAROUX
O Cais do Pharoux, área de passageiros em 1918, podendo-se ver as pequenas lanchas que faziam o transbordo. Cartão postal colorizado no original.

CAIS E ESTAÇÃO DAS BARCAS

"O primeiro cais da cidade do Rio de Janeiro foi construído em 1779 pelo vice-rei D. Luis de Vasconcelos. O chafariz denominado de Mestre Valentim, construído no século XVIII, ficava à beira d’água para fornecer aos embarcados água doce, limpa e fresca. Escadarias paralelas, ao lado do chafariz, eram os locais de embarque e desembarque. Durante o século XIX, com a grande exportação de café brasileiro, o porto do Rio de Janeiro teve que adequar-se à mudanças necessárias ao aumento da carga brasileira que ia em direção a diversos países. Várias ilhotas e enseadas, comuns na costa do Rio de Janeiro, deram lugar, no início do século XX, a um porto mais moderno. O cais tomou o nome de Pharoux depois de ter sido chamado Cais da Praça do Carmo, quando ali se instalou o Hotel Pharoux.O dono do Hotel era um francês bonapartista que para o Rio de Janeiro emigrou. Os móveis franceses, os espelhos florentinos e a alvura das suas toalhas brancas faziam o estabelecimento do francês ser diferenciado dentro de uma cidade ainda desorganizada e suja, e o nome do Hotel passou a ser a denominação do local, que conhecemos por Praça XV." (Heloisa Meirelles - FIGUEIREDO, Cláudio. SANTOS, Núbia M. e LENZI, Maria Isabel. (org.)O Porto e a Cidade: o Rio de Janeiro entre 1565 e 1910.Rio de Janeiro: Casa da Palavra Produção Editorial, 2005.)

1907-Rio-de-Janeiro-Caes-Pharoux-A-RIBEIRO
Vista do Cais do Pharoux, área de passageiros em 1907. Pode-se ver o largo arruamento no que viria a ser a Praça XV para acesso de pessoas e bagagens. A iluminação deveria deixar o lugar bucólico a noite. Foto de A. Ribeiro.

"Da fusão da Companhia das Barcas Ferry com a Empresa de Obras Públicas do Brasil, organizou-se, em 1º de outubro de 1889, a Companhia Cantareira e Viação Fluminense, que passou a explorar o abastecimento d’água de Niterói, o serviço de bondes na mesma cidade (tração animal) e a navegação a vapor entre o Rio de Janeiro e a capital fluminense. Na administração do Visconde de Moraes (1903 a 1908), realizou a Cantareira grandes melhoramentos, como a construção de novos flutuantes para facilitar o embarque e desembarque dos passageiros; substituição das velhas barcas por outras mais rápidas e mais confortáveis; construção das novas estações do Cais Pharoux e da Praça Martim Afonso; eletrificação dos bondes de Niterói, etc." (DUNLOP, Charles Julius. Rio Antigo. 3ª Tiragem. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo e Gráfica Laemmert Ltda. 1963)

1911-07-29-0030-FONFON-CAIS-PHAROUX-EM-DIA-DE-PARTIDA-PARA-A-EUROPAParentes, amigos e curiosos, lotam a praça do Cais do Pharoux, para a partida de um transatlântico para a Europa. Publicado pela Fon-Fon em 29/jul/1911 em página dupla central.

O edital para a construção do inicialmente denominado Cais do Paço foi publicada no Diário de Rio de Janeiro em 7 de julho de 1842. Este novo cais seria construído sobre toda a linha do litoral ali da região, da Praia Dom Manuel à do Peixe, passando pelo Paço. O hotel ficaria mais ou menos no meio.

gragoata-cais-do-pharouxNesta foto oda barca Gragoatá vemos a indicação Cais do Pharoux abaixo do nome da embarcação.

Numa das fotos deste post, podemos observar que a linha da barca era para o "Cais do Pharoux" e não para a Praça XV. Durante décadas este cais, praticamente todo ele uma simples calçada de granito com cerca e escadas de granito indo até a água era a porta de entrada e saída de passageiros da cidade do Rio de Janeiro. Os navios ficavam ao largo e passageiros, bagagens e cargas faziam o transbordo em pequenas embarcações. Isto foi bastante documentado e podemos ver fotos de época.

RIO-DE-JANEIRO-EMBARQUE-NO-CAES-PHAROUXUma barcaça com sacas espera para ser descarregada enquanto um barco menor recebe baús de viagem de passageiros oceânicos na área de carga do Cais do Pharoux Cartão postal.

Atualmente a única pequena parte do Cais do Pharoux restante fica à esquerda da estação das barcas que ao longo dos anos foi ocupando cada vez mais a frente de toda a Praça XV, mas na praça Marechal Âncora, à direita da estação das barcas ainda existe uma grande extensão de cais, da mesma época histórica, com as escadas, os pontos de amarração dos barcos em ferro e sem cerca, pois era uma área destinada à carga.

USO MILITAR

No relatório anual do Ministério da Guerra de 1938 dá-se conta de um serviço de transporte militar denominado "Maruja", feito por lanchas com reboques, que duas vezes por dia saía do Cais Pharoux, uma para as Fortalezas de São João e Ilha da Lage, e a outra para a Fortaleza de Santa Cruz e Forte de São Luiz. Esse serviço Maruja também era responsável pela barca de transporte de água Marechal Hermes, também fazendo duas viagens diárias. No ano anterior, transportou 24.745 toneladas de água para estas unidades militares. Foi do Cais do Pharoux que partiram com despedidas emocionadas os brasileiros voluntários e estrangeiros reservistas que foram combater por seus países, ou pelos países de seus familiares logo no início da Primeira Guerra Mundial.

1914---08---15---00026---revista-da-semana---RJ---RESERVISTAS-FRANCESES-EMBARCAM-PARA-WW1-NO-CAIS-PHAROUX
Uma foto tradicional de embarque para as famílias que podiam pagar era tirada na descida das escadas do Cais do Pharoux. Esta mostra um grupo de reservistas franceses que embarcou para o campo de batalha logo no início da Grande Guerra em agosto de 1914. Nenhum deles foi identificado na foto, em matéria ou posteriormente. Não sabemos seus nomes, nem o que fizeram, nem quais deles morreram ou voltaram ao Brasil. Publicado na Revista da Semana de 17/ago/1914.

A GRANDE AVENIDA LITORÂNEA QUE NUNCA EXISTIU

"O Governo do Marechal Hermes da Fonseca (1910-1914), sendo Ministro da Viação e Obras Públicas o Dr. Barbosa Gonçalves, pensou em dar complemento ao Cais com outro rumo: O prolongamento se faria pelo canal da Ilha das Cobras, Doca da Alfândega, Pharoux, até Ponta do Calabouço, extremidade oriental do antigo Arsenal de Guerra; o Arsenal de Marinha passaria para a Ilha das Cobras, aumentada de 60.000 m2; a Avenida do Cais emendaria, assim, com a Avenida Beira mar, em Santa Luzia, oferecendo um passeio de 12 km., desde Botafogo até a Ponta do Caju." (ROSA, Ferreira da. Rio de Janeiro em 1922-1924. Coleção Memória do Rio. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.)

O TÚNEL PARA NITERÓI QUE NUNCA EXISTIU

Ainda em 1876, o engenheiro inglês Hamilton Bucknall veio ao Rio e encantou a corte imperial com um projeto espetacular: um túnel para trens ligando o Rio a Niterói. No projeto, a entrada seria exatamente no Cais do Pharoux desembocando em Gragoatá, em Niterói.

PRAÇA MARECHAL ÂNCORA

Com as obras da derrubada da Perimetral a Praça Marechal Âncora foi transformada em um imenso estacionamento público. Esta área de carga do Cais do Pharoux ficou largada desde que desativada o que a preservou.

PRAÇA MARECHAL ÂNCORA

Nas fotos podemos ver as escadas de acesso aos barcos com os degraus completamente desgastados por décadas de utilização.

PRAÇA MARECHAL ÂNCORA

É o único ponto da cidade onde houve a intenção de preservar o ultimo piso original de paralelepípdeos com os trilhos do bonde que contornava a Marechal Câmara junto ao cais.

PRAÇA MARECHAL ÂNCORATrilhos de bonde originais entre a Marechal Âncora e a Estação das Barcas. Fotos de José Roitberg 10/ago/2013

© 2015 - José Roitberg - jornalista e pesquisador

terça-feira, 15 de setembro de 2015

1986 - RIO ATERRADOR

20-de-Abril-de-1986,-Matutina,-Rio,-página-15-PROJETO-DA-PENÍNSULA-DE-IPANEMA

Não é um projeto centenário. Tem apenas 29 anos mas podia ter modificado a Zona Sul e a relação do carioca com o mar. A matéria publicada pelo jornal O Globo em 20 de abril de 1986 iniciava assim: "Pode parecer uma ideia de algum cérebro delirante, mas o projeto existe e está em estudos".

Muitas pessoas sabem que houve projetos para aterrar a Lagoa Rodrigo de Freitas e até mesmo a Baia da Guanabara inteira e quase todos ignoram tudo que foi aterrado antes. Nossa cidade maravilhosa é aterradora (com o perdão desta formação gramatical curiosa). Só algumas: Glória, Flamengo, Botafogo, Calabouço, Beira Mar, Santos Dumond, Cais do Porto e Gamboa, Caju, Ramos, Ilha do Governador, Praia Vermelha, Urca, entorno do Lagoa, Praia de Copacabana, Lagoa do Boqueirão na Lapa, os mais diversos rios, montanhas derrubadas e removidas etc...

Pela imagem oficial do projeto percebe-se que os 700 metros da Praia do Arpoador seriam extintos e em seu lugar, seriam construídos nada menos que 10 km de praias. As Ilhas Cagarras passariam a ser montanhas urbanas emoldurando a área cultural do projeto.

O pretexto era "facilitar a navegação na entrada da baía" (se bem que ali não é entrada de nada...), mas a realidade era um projeto imobiliário gigante com conjuntos comerciais, bairros residenciais, parques, hotéis, cassinos e marinas. O projeto da Península Cidade-Jardim, lembrava o "Lago Ocean", do arquiteto Sérgio Bernardes, que deveria se localizar em frente ao Jardim de Allah, com uma marina de três andares subterrâneos, lojas, teatros, cinemas e estacionamentos. Obra vetada pela Feema.

Obviamente interessada, estava a Companhia Brasileira de Dragagem com um orçamento de 450 milhões de dólares para criar o grande banco de areia. O custo total do projeto chegaria praticamente a 1 bilhão de dólares (valor de 1986), mas os incorporadores afirmavam que o custeio viria da comercialização de 8 milhões de metros quadrados da Península, 66% da área total de 12 milhões. O desenho não faz jus à área real, duas vezes maior que a área construída de Leme, Copacabana, Arpoador, Ipanema, Leblon e Lagoa juntos!

Teríamos uma Zona Sul três vezes maior do que é, e o Rei Netuno não iria protestar por perder um pedacinho insignificante do Atlântico.

Em minha modesta opinião, os dois projetos, Península e Lago Ocean, deveriam ter sido levado adiante e teríamos uma cidade bastante diferente da atual. Só a questão dos 10 km de praias oceânicas urbanas já seria um atrativo turístico inimaginável. Quem conhece outros locais de litoral como Miami e Fort Lauderdale, sabe que se avança sobre o mar com penínsulas e condomínios, sem ter uma Feema ou ambientalistas criticando a "poluição visual das praias" como no caso de ambos projetos embargados.

por José Roitberg - jornalista e pesquisador

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

TUDO MUDA!

Quando eu comecei a frequentar academias de musculação em 1973, homens iam segundas, quartas e sextas, e mulheres nas terças e quintas. Já entravam o anos 1980 quando academias recém-criadas permitiram as turmas mistas. Lembro das discussões e gritaria. Os tradicionalistas não aceitavam de jeito nenhum. Os professores na faixa dos 50 anos eram totalmente contra. Até mesmo a maioria dos frequentadores de ambos sexos sentiam-se incomodados e preferiam ficar nas academias, digamos, segregadas. Um dos problemas de fato, é que as antigas possuíam apenas um vestiário com chuveiros e a coisa mista ficava inviabilizada.

halteres antigos

Mas a sociedade evoluiu e os frequentadores perceberam que o misto era mais producente e os exibidos de ambos os lados sentiam-se mais a vontade exibindo-se aos opostos. Todo mundo passou a fazer melhor os exercícios, antigamente sob olhares tímidos e desviados, e mais recentemente sob olhares diretos e gulosos.

Mas tudo muda! E é frequente, principalmente nas academias de Copacabana que malhem juntos homens, mulheres e travestis.

A academia é, hoje, o espaço de tolerância de gênero mais livre e agradável que temos em nossa sociedade. Quem não tolera, que vá para outro canto.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Kadish em Português - A Oração dos Mortos

O kadish é conhecido pelos judeus como ‘oração dos mortos’, mas é uma declaração de fé, oração de louvor a Deus e confiança em Deus. É a principal oração judaica dita diariamente nos serviços religiosos nas sinagogas, pela manhã e a tarde, apenas se houver miniam, ou seja um quorum de dez homens judeus.

Há cinco versões de kadish proferidas em momentos diferentes da liturgia judaica. O kadish dos enlutados (kadish yatom), dentro da ortodoxia judaica deverá ser pronunciado apenas por parentes da pessoa falecida. Na liturgia dos ramos liberais, o kadish yatom costuma ser pronunciado por todos os que estejam na sinagoga e o desejarem fazer em honra ao falecido.

Pela ortodoxia, um filho enlutado deverá recitar o kadish yatom pelos onze meses seguintes ao falecimento de seu pai ou sua mãe. A recitação pelo falecimento de um irmão, irmã, esposa, marido, filho ou filha é de apenas um mês. Também é recitado nos aniversários da morte.

Entre os liberais recita-se o kadish yatom para amigos e outros tipos de parentes. Frequentemente os liberais convocam amigos e conhecidos para a reza do final da tarde na sinagoga por uma semana. No shabat, os rabinos liberais costumam solicitar a todos que recitem o kadish yatom para os membros da congregação que faleceram durante a semana, citando-os nominalmente.

Ao se cobrir o túmulo com terra, ao final do enterro, os filhos recitam o kadish yatom estendido com um parágrafo que se refere a ressureição dos mortos e a restauração do Templo de Jerusalém (quando o Messias chegar).

É um costume individual dos judeus recitar o kadish para quem bem entenderem ao visitar túmulos nos cemitérios. Também é um costume em visitas aos cemitérios judaicos, e áreas judaicas de cemitérios públicos, antes do Dia do Perdão (Iom Kippur), que um grupo de homens judeus recite um kadish yatom ‘coletivo’ para todos os que estão sepultados no local.

O kadish é recitado em aramaico seguindo uma definição do Talmud de que apenas a leitura da Torá precisa ser feita em hebraico nas sinagogas. Todas as outras orações, canções e salmos podem ser ditas e lidas em qualquer língua, menos árabe.

O único ponto do Kadish Yatom que fala em morto se refere apenas a “todos os que partiram do mundo” de forma genérica.

Assim, mesmo os judeus que compreendem hebraico não necessariamente compreendem o kadish, daí, a imensa maioria o considerar como uma ‘oração dos mortos’ e recitá-la com tristeza e dor e não com alegria e júbilo. A tradução do kadish yatom para o português é a seguinte.

Que o Seu grande Nome seja exaltado e santificado no mundo que Ele criou conforme Sua vontade. Que Seu reinado durante nossas vidas e nossos dias e durante a vida de toda a Casa de Israel, rapidamente e em breve.

(A Congregação responde: 'Amen. Que Seu grande nome seja abençoado para sempre e eternamente').

Abençoado, louvado, glorificado, exaltado, enaltecido, honrado, elevado e elogiado seja o nome do Todo-Poderoso, pois dele emanam todas as bênçãos e louvores. Nosso guia e o que nos conforta, redentor por toda a eternidade.

(A Congregação responde: 'Abençoado Seja')

Para Israel e seus justos e por todos os que partiram do mundo de acordo com a vontade do Juiz.  Possam eles ter uma grande paz pela graça e caridade que eles provem dos céus.
(Amen)

Que os céus possam nos conceder uma grande paz e a vida para todos nós e Israel.
(Amen)

Aquele Que estabelece paz nas alturas, Que possa trazer a paz sobre nós e sobre todo Israel.

© 2015 José Roitberg - jornalista e pesquisador
ABEC - Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais

sexta-feira, 24 de julho de 2015

MORTES E LIMPEZA NAS PRAIAS

No Diário do Rio de Janeiro de 9 de fevereiro de 1876, na página 2, Noticiário, há um tópico chamado 'Limpeza das praias' que nos dá um panorama assustador sobre a vida no Rio de Janeiro, sobre a falta de saneamento e motivos muito bons para a população não frequentar as praias. Veja o que foi notícia naquele dia na redação original:

"O serviço de limpeza das praias foi feito no mez passado por 191 barcaças, 582 escaleres e 5,736 carroças que transportaram 4,554,931 kilos de lixo, 1 boi, 20 cavallos, 24 porcos, 19 carneiros, 609 cães e 1.387 aves e animaes pequenos encontrados mortos nas praias"

Assustador. Eu não sei se o valor citado está correta, pois seriam 4,5 milhões de quilos, ou seja, 4.500 toneladas de lixo. Sei lá... Mas só os 20 cavalos, dão umas 6 toneladas...

Leve em conta, que nesta época os escravizados que chegavam mortos nos navios negreiros ainda eram levados ao Cemitério dos Pretos Novos (os pretos recém chegados) na Gamboa e empilhados lá a céu aberto.

Esta notícia é de 12 anos antes da Abolição da Escravatura.

© José Roitberg
ABEC - Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O PRIMEIRO CEMITÉRIO JUDAICO DO BRASIL EXISTE EM BELÉM

O Brasil Judeu Que o Povo Esqueceu

por José Roitberg - Jornalista e Pesquisador - Membro da ABEC

É um lote apertado, hoje numa área de grande movimentação ao lado de uma universidade. Seu nome é Necrópole Israelita e foi estabelecido em 1842, portanto, 74 anos antes do Cemitério Israelita de Inhaúma no Rio de Janeiro. É só ver as fotos e perceber que é um cemitério único entre todos os outros cemitérios israelitas. Sua primeira sepultura com data confirmada é a do rabino Mordecai Hacohen z'l, falecido em 1848 provavelmente um dos primeiros rabinos investido no cargo, vindo com a imigração dos judeus do Marrocos e estabelecendo a primeira sinagoga brasileira, a Eshel Avraham (Bosque de Abraão) em data que os historiadores sefaraditas disputam. Não fosse a lápide, não haveria outro documento que atestasse a passagem e existência deste rabino entre nós.

cemitério israelita de soledade em belém 2013 foto de Moisés Unger pequena
Necrópole Israelita, em Belém na Soledade, primeiro cemitério israelita do Brasil aberto em 1842 e fechado em 1915, foto de Moisés Unger 2013

Há mais dois rabinos neste cemitério ancestral: o rabino Eliahu Avudaram, "caridoso, estimado e importante... falecido à véspera do shabat" com um ano judaico deteriorado e ilegível, e o rabino Mordecai Laredo "Que descanse em Eden. Filho do saudoso rabi Jospeh de Tanger (obs: importante cidade do Marrocos)" falecido em 1881. Estes três portanto, são alguns dos rabinos imigrantes, investidos no cargo que atuaram no Brasil, em Belém ao longo da porção central do século 19 e lá repousam para sempre. (Egon e Frieda Wolff, As Mishpakhot de Belém, 1987)

Segundo gravado em sua própria alvenaria de fachada, a Necrópole Israelita funcionou entre 1842 e 1915, e abriga apenas 28 túmulos, 16 dos quais não possuem qualquer inscrição e todos os outros são de homens. O túmulo que se vê com lápide vertical é de Alfred Levy, falecido em 1872, também numa véspera de shabat. Seu túmulo tem inscrições em francês e ele nasceu em Erstroff, na Lorena, França, uma minúscula comunidade que em 2010 possuía apenas 209 habitantes. Segundo historiadores judeus outros três judeus foram sepultados no cemitério católico defronte. Seu endereço é avenida Serzedelo Corrêa 154 para quem passar pela cidade.

cemitério israelita de soledade interna em belém
Necrópole Israelita, em Belém na Soledade, interna, foto de Moisés Unger 2013

A existência preservada da Necrópole Israelita nos permite apreciar o fluxo migratório dos judeus para Belém, onde rapidamente estabeleceram as diversas instituições que a comunidade judaica costuma ter.

A Necrópole é anterior a lei para os estabelecimento de cemitérios na corte, ou seja, no Rio de Janeiro. Ela mostra uma interação entre judeus e não-judeus, entre judeus e a Igreja, de forma surpreendente em Belém, pois houve a permissão para um cemitério exclusivamente judaico. Nesta época estava em vigor uma lei muito recente que permitia cemitérios particulares por origem nacional, como os do Ingleses, no Rio de Janeiro. Não é possível afirmar se a Igreja paraenses compreendeu "israelitas" como uma origem nacional estrangeira. Não há documentos.

No Cemitério dos Ingleses de Belém, localizado na Escola Kennedy foram sepultados Arthur Joseph nascido em Welbourne Lincolnshire na Inglaterra, morto com apenas 18 anos em 1871 e seu túmulo está em inglês. Há ainda um segundo túmulo em hebraico do "pobre Moses..." cujo sobrenome está ilegível, falecido em 1860. Não há registros cartoriais ou cemiteriais de nenhum destes falecimentos antigos. (Egon e Frieda Wolff, As Mishpakhot de Belém, 1987)

Mas ao invés dele ser ampliado, o que poderíamos chamar de lei geral dos cemitérios para o Brasil fez com que o Cemitério do Guamá, possuísse um quadro israelita desde 1883, ativo até 1969. A compreensão da Igreja paraense ainda assim era relevante, pois de 1865 até 1916, no RJ, os enterros judaicos eram embolados no quadro de acatólicos no Cemitério de São Francisco Xavier, no Cajú. Existem 566 sepulturas judaicas no que hoje é conhecido como Cemitério Judeu Antigo do Guamá. E no Caju carioca, continua havendo enterros judaicos na acatólicos até hoje.

cemitério israelita de soledade em belém foto não datada
Necrópole Israelita, foto não datada encontrada na Internet

Em 1940 inaugurou-se o Cemitério Israelita Novo do Guamá, onde havia 492 sepulturas (dado de 1997, último publicado). Naquele ano, contou-se 1.253 sepulturas judaicas em todo o estado do Pará, pois, apesar de se concentrar em Belém, os judeus viveram em algumas outras cidades também, como Tocantins, Gurupá, Mocajuba e Cametá, onde um bom número de judeus foi parar chegando a constituir duas sinagogas e um cemitério. Em dado momento histórico, a Comunidade Judaica de Cametá decidiu se mudar para Belém, desfazendo-se das singogas (que funcionavam em casas comuns) e levando os rolos da Torah para Belém, incorporando-os às duas sinagogas existentes. (Portal Amazônia Judaica - amazoniajudaica.org)

Segundo os historiadores judeus dedicados à Amazônia, entre 1810 e 1930, cerca de mil famílias de judeus emigraram para lá. Está no imaginário coletivo que a Comunidade Judaica de Belém foi formada apenas por judeus oriundos do Marrocos e tido por marroquinos, portanto. Mas isso não é a verdade com um todo. No excelente livro Eretz Amazônia, de Samuel Benchimol, o autor nos presenteou com uma interessante pesquisa das origens de sua própria comunidade que vão fazer você mudar de ideia.

cemitério israelita de soledade em belém 2012 2
Necrópole Israelita, posição urbana, do Google Earth

Diz Benchimol que os primeiros imigrantes do Marrocos chegaram ente 1810 e 1820 ainda no ciclo da exportação das "drogas do sertão", especiarias. Naquela época a população de Belém era de 24.500 habitantes e em Cametá residiam somente 8.050 pessoas. Estes primeiros imigrantes vieram do Marrocos do Norte Espanhol, de cidades marítimas e portuárias como Tanger, Tetuan, Ceuta, Arcila e Larache. Estes "marroquinos" eram descendentes dos judeus expulsos da Espanha em 1492 e de Portugal em 1496, portando sefaraditas de fato, seguindo os ritos judaicos portugueses e espanhóis. Falavam espanhol, português, ladino e haquitia, um dialeto que mistura castelhano, português, hebraico e árabe. Muitos falavam francês e inglês, ensinado nas escolas da Aliança Israelita Universal, onde foram preparados para a emigração. Apesar não estar nos dados históricos compiltados anteriormente, é certo que também falavam árabe, pois viva em meio aos árabes já por 300 anos. Eles se intitulavam "megorachim" os exilados, os expulsos da Península Ibérica.

Necrópole Israelita - Cemitério israelita de Soledade em belém 2010
Necrópole Israelita, foto de 2010

O segundo grupo de "marroquinos" é de judeus que foram denominados "toshavim", forasteiros. Forasteiro é alguém de fora, um estrangeiro. Essa denominação é especificamente igual a denominação de "falashas" dos judeus da Etiópia, que significa "estrangeiros em sua própria terra", no fim das contas, forasteiros. Mas quem seriam os judeus forasteiros no Marrocos? Eram os judeus que lá estavam provavelmente desde a destruição do Segundo Templo no ano 70, segundo Benchimol. Portanto, os judeus que chegaram ao Marrocos em 1492 não conseguiram compreender como judeus, os que lá estavam há 1.422 anos... É a mesma história que se repetiu em todas as imigrações judaicas que embolaram comunidades de diversas origens. Os toshavim falavam árabe e bérbere, residiam nas cidades do interior do Marrocos, como Rabat, Salé, Fez, Marrakesh, Agadir e outras, nomes muito mais relevantes na história universal que os das cidades de litoral.
Essa divisão linguística e um afastamento real entre ritos judaicos, pronúncias, local de residência, vestimentas e tradições familiares aportou em Belém. A primeira sinagoga, a Eshel Avraham de 1826 foi uma sinagoga dos toshavim e a Shaar Hashamaim (Porta do Céu) de 1828, dos megorachim. Ambas existem até hoje em belas construções de 1947. Na diferença de pronúncia, a Eshel (bosque em hebraico) ficou conhecida como "Essel Avraham", o que intrigou diversos historiadores, pois "essel" não está em língua escrita alguma, e é apenas a forma como os toshavim pronunciam o "sh". Já Shaar Hashamaim é um nome encontrado através de todos os locais para onde judeus expulsos pela Inquisição foram parar, inclusive no leste em Mumbai, na Índia.

Ainda segundo Benchimol, o terceiro grupo de imigrantes foi o dos sefartitas, judeus franceses expulsos durante a Guerra Franco-Prussiana, mais a frente em 1870-71. "Sefarty" é a palavra para francês, em hebraico arcaico. Estes falavam basicamente francês e não falavam ídiche ou as diversas línguas dos marroquinos.

Uma quarta corrente imigratória trouxe ashkenazitas. Apesar de ashkenaz ser a palavra em hebraico arcaico para a Alemanha, acabou-se considerando que os europeus de fala ídiche como alemães, poloneses, russos e europeus orientais, eram ashkenazitas. Com eles vieram também as Polacas para a Amazônia. A prostituição na região sempre existiu e a chegada de prostitutas judias foi apenas uma questão de abertura de mercado, indo onde o dinheiro estava e onde havia grande número de homens imigrantes e baixo número de mulheres. Sempre é preciso levar em conta que a prostituição era atividade legal no Brasil. Em Manaus, no Cemitério Municipal de São João Batista, Samuel Benchimol e Abraham Benmyual localizaram 17 túmulos de polacas com inscrições em hebraico e falecimento entre 1900 e 1920.

Durante e após a Primeira Guerra Mundial, mais de cem famílias ashkenazitas chegaram à Amazônia e o estatuto da Junta Governativa da Congregação Hebraica do Pará, de 1902, em seu artigo II diz que "sua duração será perpétua enquanto houver nesta cidade os hebreus do rito ortodoxo português ou alemão", como publicou Benchimol. Isso mostra uma presença ashkenazita anterior a 1902 e que os toshavim não são mencionado, correto?

Existe ainda outra corrente, a dos foinquinitas, judeus vindos da Turquia, Líbano, Síria, Egito, que falavam ladino e árabe e eram considerados genericamente como turcos. A designação tão estranha para nós vem de "foinquinos" que em haquitia significa fenícios.

No total 1.000 famílias judaicas chegaram a Amazônia, e este número é bem superior aos cerca de 1.000 judeus que residem em Belém em 2014. Ao longo do tempo muitas destas famílias ou descendentes vieram descendo pelas cidades com e sem judeus no Nordeste, procurando se fixar no Rio de Janeiro. Família, neste caso conta-se indivíduos únicos, geralmente jovens nos primeiros vinte anos de imigração e famílias com esposas e filhos a partir de então. Em 1883 os imigrantes marroquinos começam a vir da África diretamente para o Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro, judeus vindos de Belém participaram da fundação da União Israelita em 1864 e a mantiveram no "rito português" até os dias de hoje, como Shell Guemilut Hassadim, em Botafogo.

© José Roitberg
ABEC - Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais

domingo, 19 de julho de 2015

História do Cemitério Israelita do Caju

O Rio Judeu Que o Povo Esqueceu

por José Roitberg - jornalista, pesquisador e Membro da ABEC

A Comunal Israelita é a instituição beneficente que gerencia três dos cemitérios israelitas no Rio de Janeiro. É encarregada do Cemitério Israelita de Inhaúma (Polacas) a partir de alguns anos após o falecimento da última membro da ABFRI - Associação Beneficente Israelita do Rio de Janeiro. Apesar de arcar com os custos da limpeza, conservação, reforma dos túmulos, recolocação de nomes que haviam desaparecido ao longo do tempo e da manutenção atual, a Comunal está impedida na justiça de realizar novos sepultamentos em Inhaúma devido a uma ação impetrada por uma parte. Em Inhaúma há 770 túmulos e local para outros 700, no mínimo. É um cemitério de muito fácil acesso atualmente.

caju
imagem Google Street View

O Cemitério Comunal Israelita foi inaugurado em 1955, praticamente no centro do Rio de Janeiro, como uma alternativa à longa jornada de trem necessária para se chegar á Vila Rosali. As ruas de acesso à Vila Rosali somente foram asfaltadas em 1963. A prefeitura dos anos 1960 foi sensível à demanda por um segundo cemitério israelita no município, entendendo que o da ABFRI não era considerado um cemitério adequado pela maior parte da comunidade judaica, devido ao sepultamento de prostitutas e cafetões. O primeiro pleito por um segundo cemitério no município foi feito em 1918. A área dos cemitérios do Caju já se encontrava urbanizada antes de 1850, com fácil acesso, inclusive bonde na porta.

CAJUO-AEREA

O terreno cedido fazia parte da área de indigentes do São Francisco Xavier que foi limpa e teve seu nível de terra rebaixado em vários metros. Atualmente a área de indigentes começa logo após o muro de trás do cemitério israelita que também é utilizado para gavetas do Caju. No início de 2015, foi realizado um contrato com a Santa Casa, para a expansão do Cemitério Israelita, novamente sobre a área de indigentes, mas com a posse da área sendo agora da empresa privada PAX, o acordo ainda não foi implementado.

vista do caju por trás
Cemitério Comunal Israelita do Caju, vista por trás a partir da quadra de indigentes do cemitério São Francisco Xavier, foto do autor

Inaugurado em 1955, o Cemitério Israelita do Caju possui mais de 6.500 sepulturas, inclusive vários mausoléus familiares ao longo de seu muro do lado direito. É um campo já quase totalmente ocupado, onde várias sepulturas são utilizadas em camadas para familiares, algo permitido no judaísmo. Recentemente até mesmo o andar térreo do prédio da administração foi removido para dar lugar a mais sepulturas. Sem o acordo de expansão este cemitério poderá ser encerrado.

cajuo acesso central coberto
Caminho central coberto do Cemitério Comunal Israelita do Caju, foto do autor

O comunal israelita optou por túmulos de média altura sem qualquer lápide vertical, na tentativa de criar um ambiente menos opressivo. Em 1975 foi inaugurado um Memorial do Holocausto, composto por seis grandes pedras trazidas de um rio de Teresópolis, simbolizando os seis milhões de judeus mortos pelos nazistas. O memorial está logo à entrada ao lado da capela.

caju memorial do holocausto
Memorial do Holocausto do Cemitério Comunal Israelita do Caju, foto do autor

NILÓPOLIS

nilopolis entrada

A comunidade judaica de Nilópolis começou a ser criada em 1920 com a chegada dos primeiros imigrantes europeus para aquele município, principalmente judeus alemães, e poloneses das regiões de fala alemã. Em seu auge, esta comunidade tinha apenas 300 família e muitos nasceram, viveram e morreram neste município vizinho ao Rio de Janeiro, hoje parte do Grande Rio.

nilopolis-aerea

O Cemitério Comunal Israelita de Nilópolis também foi criado no alto da colina, na área de indigentes do cemitério municipal com o qual compartilha seu muro dos fundos. Foi inaugurado em 1934 e o primeiro sepultamento ocorreu no ano seguinte.

cemitério comunal israelita de nilópolis grande número de túmulos recuperados
Vista parcial do Cemitério Comunal Israelita na Nilópolis, foto do autor

Nos últimos anos foi totalmente reformado e vem sendo uma opção de baixo custo para a comunidade judaica e é o local utilizado para os sepultamentos gratuitos de quem de fato não tem como arcar com as despesas. Há pouco mais de 1.000 sepulturas e espaço para alguns milhares de túmulos.

cemitério comunal israelita de nilópolis quadras vazias
Mais de 3/4 do Cemitério Comunal Israelita na Nilópolis ainda não foram utilizados, foto do autor

Este cemitério possui o que era a única Guenizá (túmulo para rolos de Torá danificados e outros objetos litúrgicos e livros religiosos), até a criação da segunda no Cemitério Israelita de Vilar dos Teles nos anos 1990. Assim todos os sepultamentos litúrgicos a partir de 1934 ocorreram neste local. Foi construído com espaço de 9 metros cúbicos.

gueniza de nilopolis
Guenizá do Cemitério Comunal Israelita na Nilópolis estabelecida em 1935 com exterior reformado em 2009, foto do autor, ainda não foi localizada foto da instalação original.

O cemitério fica totalmente cercado por uma Comunidade local, que em 2015 se encontrava tomada pelo tráfico, dificultando sua utilização e tornando pouco segura a ida lá. O cemitério municipal passa por dificuldades ainda maiores, pois os criminosos violam túmulos e os utilizam para esconder armas e drogas. Durante a reforma do cemitério Israelita, a Comunal asfaltou todas as ruas do acesso e entorno do cemitério melhorando a vida de toda a Comunidade.

nilopolis placa

O maior problema para o uso deste cemitério é o acesso feito pela Avenida Brasil que pode demandar uma viagem de mais de duas horas entre a Praça da Bandeira e o cemitério, em dias não muito complicados.

A Comunal Israelita também faz a manutenção dos mais de 2.000 túmulos judaicos da quadra de acatólicos do Cemitério São Francisco Xavier, seu vizinho de muro. Quando o Israelita do Caju foi fundado um número considerável de sepulturas judaicas foram exumadas e  transferidas por familiares do Caju católico para o Caju israelita.

Vídeo oficial produzido pela Comunal Israelita em 2011 sobre os três cemitérios.

© 2014 José Roitberg - jornalista e pesquisador
ABEC - Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais

quinta-feira, 16 de julho de 2015

História do Cemitério Israelita da Vila Rosali

O Rio Judeu que o Povo Esqueceu

E História da Chevra Kadisha – Por José Roitberg - jornalista, pesquisador e  - Membro da ABEC

A Sociedade Religiosa Israelita Chevra Kadisha é incontestavelmente uma instituição da Comunidade Judaica que trabalha integralmente dentro do tripé do Judaísmo: Torá, Avodá e Guemilut Hassadim (Religião, Trabalho e Justiça Social).

CHEVRA KADISHA BARÃO DE IGUATEMI
Prédio atual da Chevra Kadisha - RJ, rua Barão de Iguatemi 306

Cada judeu e cada instituição judaica deveria estar inserida em pelo menos uma destas três bases. Por Torá entende-se o estudo propriamente dito das leis religiosas e da sua implementação. Avodá é o trabalho, pois os judeus precisam sustentar não apenas a si próprios, mas também auxiliar as pessoas em dificuldades. Isto se estende também às instituições dedicadas à Guemilut Hassadim, que é a justiça social, no sentido mais simples de não permitir a pobreza judaica e de redistribuição de renda.

Segundo seu estatuto, a Chevra Kadisha tem por objetivo: I - Manter e administrar seus cemitérios, a fim de proporcionar aos associados e seus familiares, a assistência ritual e religiosa judaica, no caso de falecimento, designando-lhes o local para sepultamento, em cova rasa perpétua; II - Prestigiar e auxiliar, financeiramente, as instituições judaicas de cunho beneficente, filantrópico, cultural, educacional ou religioso, com existência legal no País; III - Incentivar o estudo e estimular a prática da religião judaica.

Assim, a Chevra Kadisha faz uma enorme e dignificante trabalho ao adquirir terrenos destinados a servir de campo funerário, realizar as obras necessárias para tal destinação, manter segurança e prover os sepultamentos segundo as regras ortodoxas judaicas. Ela atua rígida e especificamente dentro dos ditames da Torá, garantindo, assim, a purificação e os sepultamentos em conformidade com as regras da ortodoxia judaica. Também é extremamente ativa na redistribuição de renda dentro da Comunidade Judaica, apoiando a educação formal (escolas); a informal (os movimentos juvenis sionistas e os grupos escoteiros, enquanto existiram); festivais de dança e filmes; os programas esportivos da Macabi; o Centro de História e Cultura Judaica (vinculada à ARI - Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro); o aperfeiçoamento de professores; os projetos educacionais mais amplos, como a Marcha da Vida (visita internacional conjunto ao campo de concentração de Aushcwitz, na Polônia); a impressão de um grande número de livros de autores judeus ao longo da história (como vários dos historiadores Egon e Frieda Wolf); todas as mídias judaicas ao longo dos tempos; ciclos de palestras; impressão de livros de orações (sidurim e machzorim) para as sinagogas; comemorações como a da Independência de Israel; Dia do Gueto; Dia do Holocausto; Dia de Jerusalém; aporte nas entidades assistenciais (como os lares de idosos e das crianças); apoio consistente aos projetos de kashrut de sinagogas; à FIERJ etc. Na MENORAH (setembro de 1974) vemos que a Chevra foi fundamental para a construção da sinagoga Beth Aron, inaugurada em 1962, em Laranjeiras.

Enfim, a Chevra Kadisha usa parte de seus recursos em manutenção, limpeza, segurança e melhoria e acréscimo de suas instalações, como a necessidade de elevar muros cada vez mais altos em perímetros enormes, bem como para patrocinar projetos comunitários integral ou parcialmente, sem jamais levar em consideração a ideologia ou a linha religiosa dos pretendentes ao apoio financeiro de seus respectivos projetos. Recebe contribuição de todos os judeus e a oferece a todas a instituições. Isso é Guemilut Hassadim, na prática e na teoria.

O nome Chevra Kadisha é oriundo do aramaico e significa ‘Sociedade Sagrada’. É a instituição responsável por um trabalho fundamental e antigo entre os judeus para a purificação ritual dos corpos, a ‘tahará’, e seu sepultamento dentro das normas em cada local e cada época. Este trabalho é considerado ‘chesed shel emet’ (traduzido livremente quer dizer ‘uma boa ação de verdade’). Atualmente a tahará é feita apenas na sede da instituição, na Rua Barão de Iguatemi, e não mais nos cemitérios, embora todos eles possuam instalações muito adequadas para esta função dignificante.


COMO TUDO COMEÇOU

Yehuda Leib Scherechevswky
Rabino Yehuda Leib Schereschevsky e seus familiares na década de 1920, foto publicada pela revista Menorah (RJ)

Em 1913, chegou ao Rio de Janeiro seu primeiro rabino ortodoxo. Chamava-se Yehuda Leib Schereschevsky. Segundo a história contada por sua neta, ficou sem comer carne até 1923, por não aceitar a kashrut (as normas alimentares de higiene judaica) que existiam por aqui. Pelo que entendemos ele foi o rabino da Sinagoga Beit Yakov (denominada Associação Beth-Jacob), fundada no início de 1916, registrada em 15 de junho de 1916 e dissolvida em 1935 (os documentos da instituição foram destruídos no desabamento da Biblioteca Bialik de 1957) e foi o rabino das primeiras tentativas do estabelecimento de um cemitério judaico ortodoxo, que resultou em Vila Rosali e na criação da Chevra Kadisha, numa luta iniciada em 1918, segundo ele, devido ao grande número de enterros de judeus, vítimas da Gripe Espanhola, no São Francisco Xavier. À diferença da sinagoga das Polacas em funcionamento desde 1906, os estatutos desta associação ortodoxa definiam em seu Capítulo 2, art 2o, parágrafo 2o que os sócios deveriam "ter um procedimento moral conforme o Decálogo" (Os 10 Mandamentos).

A imigração de judeus europeus tinha sido incrementada após o final da Primeira Guerra Mundial, tanto para fugir das economias devastadas na França, Bélgica, Alemanha, Áustria, Polônia e Romênia, quanto para fugir do comunismo que estava se consolidando na Rússia.

Os sefaraditas-árabes tinham seus próprios rabinos e eles não falavam iídiche, tal fato os mantinham dissociados da nova imigração europeia. Naquele momento havia cinco cemitérios onde os judeus podiam ser sepultados.

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Cemitério dos Ingleses a beira mar, no Saco da Gamboa em pintura de 1840

O cemitério dos Ingleses, na Gamboa, aberto em 1820 e o mais antigo do país, onde repousam cerca de 70 judeus aqui aportados a partir de 1810, quando caiu a lei portuguesa de 300 anos a qual proibia os judeus de residirem em quaisquer ‘terras lusitanas’. O Cemitério do Catumbi, a primeira necrópole pública do Brasil, descanso final do judeu David Morethson Campista, advogado, economista, político e diplomata e Ministro da Fazenda durante o governo de Afonso Pena. O São João Batista, em Botafogo, onde gente de todas as origens está embolada (inclusive mais de 400 judeus de todas as épocas).

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O Cemitério de São Francisco Xavier (Caju), em sua configuração original a beira mar. A quadra de acatólicos fica à direita na foto. Notar a fila dupla de palmeiras imperiais que dava a volta em toda a ponta do Cajú. Foram removidas durante a construção da Avenida Brasil que exigiu o levantamento do piso desta rua em 30 cm.

O Cemitério de São Francisco Xavier (Caju), no qual foi criada uma “Quadra dos Acatólicos” para serem sepultados protestantes, anglicanos, ateus e judeus.

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Túmulo de Sigfried Nathan, judeu, de 1873 no Cemitério de São Francisco Xavier, foto do autor

Há cerca de 2 mil túmulos judaicos apenas nesta quadra separada, sendo o mais antigo de 1873 (do alemão Sigfried Nathan). O Caju foi também o cemitério das “polacas” até 1916. Os enterros pré-1904 foram realizados pelos parentes e amigos e pelos rabinos em atividade nas mais diversas sinagogas. Não havia uma associação funerária.

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Foto de inauguração do Cemitério Israelita da Inhaúma (A Noite 30/10/2906)

Em 1906 as polacas criam a ABFRI - Associação Beneficente Funerária Religiosa Israelita, legalizada em 1913, e não há registros se a ABFRI controlava todos os enterros. Notícias de jornais nos mostram que ela atuava publicamente desde 1904. Porém em 1915, recebeu a autorização da Prefeitura do então Distrito Federal para a compra do terreno anexo à área de indigentes do Cemitério Municipal de Inhaúma, solicitado desde 1911. Lá se estabelece o Cemitério Israelita de Inhaúma, primeiro apenas judaico, para seus associados e a comunidade em geral, como uma forma de negócio, sem qualquer caráter beneficente. Há 770 judeus enterrados lá. Ver matéria específica neste link Cemitério Israelita de Inhaúma - Polacas

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Cemitério Israelita de Inhaúma, foto do autor (23/09/2012)

Assim, até 1920 estas eram as opções para enterros judaicos: ao lado das prostitutas e cafetões, figuras tratadas como párias em vida, ou junto de cristãos. Pelo volume dos sepultamentos, sabemos que cada um decidiu para si o que achou melhor. Até aquele momento não havia qualquer tipo de questionamento sobre validade de sepultamento pela halachá (lei judaica), ou de como seria a matzeiva (o "monumento" construído sobre o túmulo). Praticamente todos os túmulos de “polacas” e outros do período pré-1940 no Caju ou em Inhaúma contêm dizeres absolutamente corretos de acordo com as normas da ortodoxia judaica. Tanto é assim que o campo de Inhaúma possui quadras separadas por sexos, tal como se pratica em vida, no interior das sinagogas ortodoxas. Norma que a Chevra Kadisha deixaria de aplicar posteriormente.

BEIT YACOV PACA DA PORTA DE ENTRADA NO MUSEU JUDAICA OD RJ pq
Dístico original da porta de entrada da sinagoga Beth Jacob preservado no Museu Judaico do Rio de Janeiro, foto do autor

Então para os imigrantes europeus as opções existentes eram inaceitáveis e se tornava necessário um cemitério próprio. O grupo dirigente da Sinagoga Beth Jacob, a qual em 1920 se localizava no número 130 da Rua Visconde de Itaúna (segundo o “Almanak Administrativo” de 1928) em cima do botequim de José Esteves Barros, considerada a principal sinagoga ashkenazita (as outras eram o Centro Israelita, no número 143 da mesma rua, ambas na Praça Onze, e a ABFRI, estabelecida do outro lado da Praça da República, o lado árabe, no sobrado do número 54), decidiu formar uma comissão. Tentaram obter um terreno junto à prefeitura do Rio de Janeiro, que respondeu negativamente, declarando que já existia um cemitério judaico municipal, o de Inhaúma.

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O prédio original da ABFRI, Praça da República 54 ainda existe e é o azul, hoje um anexo do Tribunal de Contas (TCE), foto do autor

Foi adquirido então, através da prefeitura de Nova Iguaçu um terreno na afastada localidade de Vila Rosali, no então distrito de São João de Meriti, e criada a Sociedade do Cemitério Israelita do Rio de Janeiro, em 1º de março de 1920 (segundo a historiadora Frieda Wolff), e imediatamente passou a operar “em terreno adquirido com autorização do Governo Federal (Correio da Manhã, 03/02/1932)”.

O que deveria ser uma solução redundou em confusão. Em 9 de julho de 1921, alguns meses depois de iniciado o funcionamento de Vila Rosali, a diretoria da Sinagoga Beth Jacob se reuniu para tratar “dos assuntos da Sociedade do Cemitério Israelita do Rio de Janeiro, da qual, a sinagoga forma parte e da qual também possui imóveis que se acham na estação São João de Merity, tendo em conta que a dita Sociedade do Cemitério Israelita não preenche seus fins, como provam os casos dos enterros da Sra. Jacob Brunstein, da Sra. Nachmam Fichbein, de dois filhos de Moisés Schoichet e de um israelita desconhecido, vindo de Kalich, enterros que foram realizados em desacordo com a religião e costumes israelitas” (Correio da Manhã, 10/07/1921 – Pag. 4). Como nenhum enterro até 1920 foi em ‘desacordo’ com a religião, é lícito depreender que havia discordância com a visão religiosa dos diretores da Beth Jacob daquele momento. E estes foram os primeiros enterros em Vila Rosali. O Moisés Schoichet citado no documento não é Moisés Singer, um dos fundadores da Sociedade do Cemitério Israelita, conhecido pelo apelido de ‘Moishe Shoichet’, que além de se dedicar ao abate ritual kosher, circuncidou mais de 25 mil meninos judeus no Brasil. Segundo o Dr. Luiz Chor, neto mais velho de Singer, havia uma placa de bronze com a lista de todos os fundadores junto à entrada original do cemitério. A placa se perdeu em algum momento desconhecido, assim como a sua ata de fundação.

A sinagoga Beth Jacob demonstrou ser especificamente autoritária nos seus comunicados e simplesmente decidiu: "1º - Dissolver a Sociedade Cemitério Israelita do Rio de Janeiro. 2º - Anular desde já todas as procurações e direitos dados aos Srs. Anno Lente, Boris Kuschnir, Moisés Oineff e Samuel Oineff, para assinar ou registrar documentos, cobrar dinheiro, ou efetuar qualquer ato em nome da Sociedade Cemitério Israelita, ou da Synagoga Beth Jacob. Assina: Simja Kupermann presidente da sinagoga. (Correio da Manhã, 10/07/1921 – Pag. 4)". O mesmo texto ainda convocou "todos os israelitas honrados" para uma assembleia a fim de fundar nova Sociedade pró-Cemitério Israelita do Rio de Janeiro. Assim, com a sociedade desfeita, foram mantidos na história os nomes dos ashkenazitas que puseram a mão na massa e iniciaram os trabalhos do Cemitério Israelita de Vila Rosali.

  padaria sterenkrank em Vila Rosali foto da RaquelÚnica foto conhecida de Abraham Szterenkranc (à esq) em sua padaria em Vila Rosali, cedida por sua filha Raquel

E por falar em massa, conhecemos outro dos fundadores: foi Abraham Szterenkranc, que se estabeleceu em Vila Rosali antes do cemitério, construindo lá uma padaria (também kosher) a menos de 200 metros do portão original do cemitério. Lá foi certamente um ponto de encontro de quem ia e vinha para os sepultamentos, enquanto se esperava o trem. Segundo nos conta Rachel Szterenkranc, como seu avô residia ali, foi ele quem fez os primeiros sepultamentos, se forjando padeiro-coveiro. O prédio da “Padaria Szterenkranc” ainda existe, bem como a antiga chaminé do forno de matzá. Foi onde se iniciou a marca Tikva, consumida no Rio de Janeiro por décadas. Posteriormente a marca foi vendida para outra família que, por sua vez, estabeleceu uma nova fábrica de matzá na Rua de Santana, fechada há poucos anos. Há matéria completa sobre este tema.

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Entrada moderna do Cemitério Israelita da Vila Rosali, foto do autor

Mas a questão Beth Jacob e a Sociedade iria se arrastar por muito tempo. Enquanto Simja Kuppermann, provável detentor da posse do terreno, queria criar uma nova Sociedade, no dia 16, a antiga convocava uma assembleia para aprovar o estatuto da Sociedade. Quem assinou a convocação foi um quinto nome do grupo original, o Sr. Samuel Linetsky, então secretário (Correio da Manhã, 28/07/1921 – Pag. 7).

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Vista para a direita da região da entrada original, que ficava no alinhamento do arruamento por onde estão as pessoas na foto. As quadras de túmulos menores e baixos à direita são de crianças, foto do autor

Naquela reunião entrou em ação o emblemático Jacob Schneider, líder político comunitário, ativista sionista, proprietário de várias lojas de móveis na Praça Onze e na Rua do Catete. Outra nota publicada pela Beth Jacob acusou Schneider de “impor novamente como presidente, o Sr. Anno Lent e como vice, Boris Kushnir” (Correio da Manhã, 1º/08/1921). Segundo a nota, houve uma discussão danada entre os sócios presentes, nada foi resolvido e a Beth Jacob resolveu fundar sua própria sociedade – novamente – e exigir a divisão forçada dos bens imóveis. Bem, isso nunca aconteceu. Pelo que parece, consumida pelo seu autoritarismo e conceitos religiosos próprios e radicais, quem se extinguiu em 1935 foi a Sinagoga Beth Jacob, num raro edital de convocação de assembleia para dissolução e destino dos bens (Correio da Manhã, 27/04/1935 – Pag. 13).

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Vista para o centro, podendo se ver o mausoléu do rabino-chefe Guertzenstein, mais escuro e mais afastado o Memorial Reduto dos Mártires (do Holocausto). A construção em último plano abriga entrada, secretaria, salões para o início da cerimônia de enterro (capelas) e as salas de tahará, lavagem ritual dos corpos, hoje desativadas. Foto do autor

Em agosto de 1922 a Sociedade prosseguiu se consolidando e já chamava para assembleia de prestação de contas e eleição de diretoria. Entre 1920 e 1928 foram sepultadas 280 pessoas em Vila Rosali e as fichas destes enterros se perderam. De 1929, até hoje, há um registro completo, ordenado e digitalizado. As fichas foram preenchidas em iídiche, mas em algum momento todos os nomes foram traduzidos. Sabe-se por matéria no Jornal ‘A Noite’ (11/09/1923) que polacas e caftens ofereceram pagamentos vultosos para serem enterrados em Vila Rosali, mas o local, denominado naquele momento como ‘Cemitério Israelita do Rio de Janeiro’, sempre recusou as ofertas. Em 1923, o presidente da Sociedade era o Sr. Motel Zveiter.

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Vista para a esquerda com alguns dos túmulos mais antigos. Após o muro branco há um estreito acesso da estação de trem à rua, complicado, inseguro e desagradável, confinado entre os muros do cemitério israelita e do municipal, foto do autor

Desde 1920, o cemitério foi estabelecido já com a definição junto à Prefeitura local de que não haveria exumações. Para Inhaúma, administrado pela Prefeitura do Distrito Federal, foram publicados vários editais de exumação por falta de pagamento renovatório dos túmulos. O Estado só entenderia que os judeus não exumam seus mortos em 1925, após várias reuniões com a ABFRI. Esta é a razão de muitos túmulos antigos no Caju contarem com a inscrição E.P.P.S. (“Está Pago Para Sempre”), ou J.P. (“Jazigo Perpétuo”) em suas lápides, ou ainda outras variações sobre o mesmo tema, como: PS - Para Sempre e SP - Sepultura Perpétua.

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Exemplo de sepultura judaica de 1894 com a pedra picada com a mensagem de não exumação. No cemitério São Francisco Xavier (RJ), túmulo 290, foto do autor

Conforme a lembrança do Sr. Herman Glanz, a primeira sede da Sociedade do Cemitério Israelita era à Rua Visconde de Itaúna, perto da esquina da Rua de Santana, para a qual se mudou em seguida. Herman ainda se recorda de ter ido a velórios na Rua de Santana. De lá todos iam para a estação de trem de Francisco Sá – hoje demolida ao final da Rua Ceará – do Ramal da Leopoldina Railway. Antes da disseminação dos telefones entre os judeus, alguém ia até a estação e pedia pessoalmente a colocação de um vagão funerário para levar o esquife. Os familiares e demais pessoas compravam passagem em um vagão normal. A viagem levava cerca de uma hora e o desembarque era em uma elevação de terra na porta do cemitério. A única entrada do cemitério foi por ali até 1960. É costume dos cemitérios israelitas ordenar o sepultamento a partir da porta. Assim, os que ficaram próximos à entrada, hoje estão nos fundos.

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Atual estação de trem Vila Rosali, o cemitério fica à direita e não há entrada por este lado.

Em 1925 o Ministério da Viação atendeu ao pedido da Sociedade Cemitério Israelita para os trens pararem no cemitério quando levando caixões para os enterros. Desta parada surgiu a estação Vila Rosali, inaugurada em setembro de 1929: "... que os trens da Estrada de Ferro Rio D'Ouro, quando conduzirem esquifes, façam parada em frente ao cemitério de sua propriedade" (A Noite e outros, 20/10/1925). Era uma época sem muros. De fato, os muros não são vistos nem no filme de 1947 da cobertura do ‘Enterro do Sabão’, a inauguração do primeiro Memorial do Holocausto nas Américas, em 1947, objeto de matéria completa na edição 644 de MENORAH, de maio de 2013.

Não fazemos ideia das durezas do passado. A purificação ritual dos corpos (tahará) antes do sepultamento é uma necessidade na religião judaica. Mas você acha que havia água encanada em Vila Rosali em 1920? Pois não havia mesmo! Doze anos depois, em 1932, uma comissão da Sociedade Cemitério Israelita, composta pelos Srs. Emílio de Mesquita, Luiz Ferman (presidente naquele momento) e Henrique Perelberg foi recebida pelo Ministro da Educação e Saúde, o célebre Dr. Francisco Campos (‘Chico Ciência’) para pleitear água encanada (Correio da Manhã, 03/02/1932). ‘Chico Ciência’ aceitou o pedido e em breve a água de poço estaria esquecida para sempre. Segundo o pedido, os canos já estavam passados e operando na região, inclusive atravessando o terreno do cemitério, mas o departamento de águas e esgoto indeferiu uma solicitação anterior para a colocação de um hidrômetro. O asfalto só chegou às ruas do entorno e acesso a partir da Via Dutra em 1963, por intervenção do deputado estadual Gerson Berger. Com as ruas asfaltadas, o cemitério muda de configuração, constrói seu prédio atual e inverte a entrada. Por alguns anos ainda existiu uma porta estreita para a Estação Vila Rosali, mas depois foi emparedada. Não há fotos conhecidas da entrada original deste cemitério, ou de obras realizadas na região.

As atas entre 1920 e 1947 foram escritas em iídiche e não existem mais. É provável que tenham sido intencionalmente destruídas após o governo Vargas proibir todas as publicações em língua estrangeira durante a Segunda Guerra Mundial, para evitar qualquer suspeita sobre a entidade que se manteve bem discreta, quase sumida. Não existem fotos antigas. Na mídia geral aparece somente nas datas citadas nesta matéria. De 1947 até 1956, todas as atas existem em iídiche manuscrito e pelas poucas linhas, quase não há informações. São documentos muito informais e pouco informativos. A partir daí todas são completas, burocráticas, em português, com todos os dados e projetos contemplados.

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Entrada do Memorial Reduto dos Mártires, foto do autor

Em 1948, ainda com bastante espaço no cemitério ‘velho’, mas muitos dos locais disponíveis já reservados ou adquiridos, é inaugurado o cemitério ‘novo’, a menos de um quarteirão de distância. A placa de inauguração deste novo campo também se perdeu. Em 18 de dezembro de 1949 foi lançada a pedra fundamental do ‘Reduto dos Mártires’, a construção conhecida como ‘Memorial do Sabão’. O Memorial ainda existe, bem conservado, no centro do cemitério. Há matéria completa disponível sobre O Enterro do Sabão. A única outra construção que lhe faz sombra é o grande mausoléu da família do rabino Marcos Guertzenstein (falecido na Bahia). Guertzenstein foi primeiro grão-rabino ashkenazita do Rio de Janeiro.

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Mausoléu do rabino-chefe Marcos Guertzenstein e da esposa dele, o único que existe em todos os cemitérios operados pela Chevra Kadisha do RJ, foto do autor

O ano de 1956 foi emblemático. Uma assembleia geral em 18 de novembro elege nova diretoria e decide pelos documentos em português. Foi a primeira vez que a entidade se denominou publicamente como ‘Chevra Kadisha.’ Seu presidente era Walter Weistman e o vice era Abram Erlich. Em 27 de março de 1960 findou a construção do prédio, atualmente a entrada do Cemitério de Vila Rosali Velho. A obra foi do engenheiro Pinhas Scolnik e do Dr. Guido Cohen, na presidência do rabino Moises Zingerevich.

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Entrada do Cemitério Israelita de Vilar dos Teles, foto do autor

Com a redução de espaços disponíveis em Vila Rosali, a Sociedade adquiriu o terreno de Vilar dos Teles. Sua construção ocorreu entre 1989 e 1990, quando foi inaugurado, na gestão de Jorge Jurkiewicz e Izak Kimelblat como vice. O idealizador da obra, já falecido naquele momento, foi o Dr. Leão Fajwus Gleizer, ex-presidente. Cada um dos cemitérios é um reflexo arquitetônico de sua época e Vilar dos Teles possui uma configuração arejada, muito verde, florida, a qual transmite mais tranquilidade com as matzeivot baixas.

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fotos do autor

Contrasta com os cemitérios antigos, áridos e de certa forma sufocantes com suas matzeivot altas escuras. Em 28 de setembro de 1997 foi inaugurado o Memorial do Holocausto, projeto de Jacob B. Goldemberg, e em 8 de dezembro de 2002 uma guenizá (local para enterro de rolos de Torá danificados e outros paramentos litúrgicos). A única existente até então, no Rio de Janeiro, ficava no Cemitério Israelita de Nilópolis.

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Guenizá do Cemitério Israelita de Vilar dos Teles, próxima à capela, foto do autor

A sociedade era gerida por uma diretoria de 18 membros, eleita de forma democrática por três anos, e por um Conselho Deliberativo de 30 sócios. O Estatuto da Chevra Kadisha segue a orientação do Shulchan Aruch, uma compilação das regras de conduta judaica – Halachá (“Caminho”) baseada no sistema legal judaico pós-bíblico, ou seja, no Midrash, na Mishná e no Talmude.

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Capela do Cemitério Israelita de Vilar dos Teles, fotos do autor

A Chevra Kadisha criou há cerca de 30 anos uma nova metodologia de arrecadação de fundos. Foi na gestão do Sr. Max Dolinger (1986/1992), em que se adotou o critério de oferecer às famílias, exatamente em seus momentos de profunda dor, distintas localizações com variedade de preços e de possibilidades de pagamento previamente conhecidos, de tal sorte que é a família, a seu critério, quem escolhe o que entende ser possível e adequado à sua realidade, gerando assim uma absoluta tranquilidade no relacionamento da Chevra Kadisha com o Ishuv.

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Vista parcial de uma das quadras de Vilar dos Teles tomada em direção ao portão, foto do autor

A gestão de Nilton Aizeman (1992/1998) criou regras importantes no processo de doações. Foi quando passou a ser prévia e anualmente determinado os percentuais da verba de donativos a serem destinados para cada segmento de atividades da comunidade, dividindo o montante das verbas, cuja distribuição é: para Educação (formal e informal com 50%), Religião (30%), Assistência Social (10%) e Cultura e Lazer (10%). Esta ação, aparentemente simples, mas que requer permanente avaliação, trouxe a desejada transparência ao processo de doações da instituição.

Posteriormente, em 2007, a Chevra Kadisha instituiu normas e critérios disciplinando a apresentação e aprovação de projetos que demandassem seu apoio financeiro, de pleno conhecimento das instituições judaicas do Rio de Janeiro.

Podemos ter a certeza absoluta de que a Chevra Kadisha permanecerá em seu rumo de Torá, Avodá e Guemilut Hassadim, enquanto houver judeus no Rio de Janeiro.

Presidentes da Chevra Kadisha: 1920 - Anno Lent z'l; 1923 - Motel Zveiter z'l; 1932 - Luiz Ferman z'l; 1956 - Walter Weistman z'l; 1961/1964 - Rabino Moisés Zinguerevich z'l; 1968/1974 - Jayme Roizenblit z'l; 1974/1980 - Chaim Henoch Zalcberg; 1980/1986 - Leão Fajwusz Gleizer z'l; 1986/1992 - Max Dolinger; 1992/1998 - Nilton Aizenman; 1998/2004 - Eliezer Lewin; 2002/2008 - Mauro Rodin; 2008/2014 - Paulo Chor.

OBS 1: Nos três cemitérios gerenciados pela Chevra Kadisha no Rio de Janeiro há cerca de 28.000 sepulturas na data de fechamento deste artigo.

OBS 2: Por determinação na família, não temos autorização para publicar a foto do primeiro túmulo do Cemitério Israelita da Vila Rosali.

© 2014 José Roitberg - jornalista e pesquisador
ABEC - Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais