segunda-feira, 20 de julho de 2015

O PRIMEIRO CEMITÉRIO JUDAICO DO BRASIL EXISTE EM BELÉM

O Brasil Judeu Que o Povo Esqueceu

por José Roitberg - Jornalista e Pesquisador - Membro da ABEC

É um lote apertado, hoje numa área de grande movimentação ao lado de uma universidade. Seu nome é Necrópole Israelita e foi estabelecido em 1842, portanto, 74 anos antes do Cemitério Israelita de Inhaúma no Rio de Janeiro. É só ver as fotos e perceber que é um cemitério único entre todos os outros cemitérios israelitas. Sua primeira sepultura com data confirmada é a do rabino Mordecai Hacohen z'l, falecido em 1848 provavelmente um dos primeiros rabinos investido no cargo, vindo com a imigração dos judeus do Marrocos e estabelecendo a primeira sinagoga brasileira, a Eshel Avraham (Bosque de Abraão) em data que os historiadores sefaraditas disputam. Não fosse a lápide, não haveria outro documento que atestasse a passagem e existência deste rabino entre nós.

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Necrópole Israelita, em Belém na Soledade, primeiro cemitério israelita do Brasil aberto em 1842 e fechado em 1915, foto de Moisés Unger 2013

Há mais dois rabinos neste cemitério ancestral: o rabino Eliahu Avudaram, "caridoso, estimado e importante... falecido à véspera do shabat" com um ano judaico deteriorado e ilegível, e o rabino Mordecai Laredo "Que descanse em Eden. Filho do saudoso rabi Jospeh de Tanger (obs: importante cidade do Marrocos)" falecido em 1881. Estes três portanto, são alguns dos rabinos imigrantes, investidos no cargo que atuaram no Brasil, em Belém ao longo da porção central do século 19 e lá repousam para sempre. (Egon e Frieda Wolff, As Mishpakhot de Belém, 1987)

Segundo gravado em sua própria alvenaria de fachada, a Necrópole Israelita funcionou entre 1842 e 1915, e abriga apenas 28 túmulos, 16 dos quais não possuem qualquer inscrição e todos os outros são de homens. O túmulo que se vê com lápide vertical é de Alfred Levy, falecido em 1872, também numa véspera de shabat. Seu túmulo tem inscrições em francês e ele nasceu em Erstroff, na Lorena, França, uma minúscula comunidade que em 2010 possuía apenas 209 habitantes. Segundo historiadores judeus outros três judeus foram sepultados no cemitério católico defronte. Seu endereço é avenida Serzedelo Corrêa 154 para quem passar pela cidade.

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Necrópole Israelita, em Belém na Soledade, interna, foto de Moisés Unger 2013

A existência preservada da Necrópole Israelita nos permite apreciar o fluxo migratório dos judeus para Belém, onde rapidamente estabeleceram as diversas instituições que a comunidade judaica costuma ter.

A Necrópole é anterior a lei para os estabelecimento de cemitérios na corte, ou seja, no Rio de Janeiro. Ela mostra uma interação entre judeus e não-judeus, entre judeus e a Igreja, de forma surpreendente em Belém, pois houve a permissão para um cemitério exclusivamente judaico. Nesta época estava em vigor uma lei muito recente que permitia cemitérios particulares por origem nacional, como os do Ingleses, no Rio de Janeiro. Não é possível afirmar se a Igreja paraenses compreendeu "israelitas" como uma origem nacional estrangeira. Não há documentos.

No Cemitério dos Ingleses de Belém, localizado na Escola Kennedy foram sepultados Arthur Joseph nascido em Welbourne Lincolnshire na Inglaterra, morto com apenas 18 anos em 1871 e seu túmulo está em inglês. Há ainda um segundo túmulo em hebraico do "pobre Moses..." cujo sobrenome está ilegível, falecido em 1860. Não há registros cartoriais ou cemiteriais de nenhum destes falecimentos antigos. (Egon e Frieda Wolff, As Mishpakhot de Belém, 1987)

Mas ao invés dele ser ampliado, o que poderíamos chamar de lei geral dos cemitérios para o Brasil fez com que o Cemitério do Guamá, possuísse um quadro israelita desde 1883, ativo até 1969. A compreensão da Igreja paraense ainda assim era relevante, pois de 1865 até 1916, no RJ, os enterros judaicos eram embolados no quadro de acatólicos no Cemitério de São Francisco Xavier, no Cajú. Existem 566 sepulturas judaicas no que hoje é conhecido como Cemitério Judeu Antigo do Guamá. E no Caju carioca, continua havendo enterros judaicos na acatólicos até hoje.

cemitério israelita de soledade em belém foto não datada
Necrópole Israelita, foto não datada encontrada na Internet

Em 1940 inaugurou-se o Cemitério Israelita Novo do Guamá, onde havia 492 sepulturas (dado de 1997, último publicado). Naquele ano, contou-se 1.253 sepulturas judaicas em todo o estado do Pará, pois, apesar de se concentrar em Belém, os judeus viveram em algumas outras cidades também, como Tocantins, Gurupá, Mocajuba e Cametá, onde um bom número de judeus foi parar chegando a constituir duas sinagogas e um cemitério. Em dado momento histórico, a Comunidade Judaica de Cametá decidiu se mudar para Belém, desfazendo-se das singogas (que funcionavam em casas comuns) e levando os rolos da Torah para Belém, incorporando-os às duas sinagogas existentes. (Portal Amazônia Judaica - amazoniajudaica.org)

Segundo os historiadores judeus dedicados à Amazônia, entre 1810 e 1930, cerca de mil famílias de judeus emigraram para lá. Está no imaginário coletivo que a Comunidade Judaica de Belém foi formada apenas por judeus oriundos do Marrocos e tido por marroquinos, portanto. Mas isso não é a verdade com um todo. No excelente livro Eretz Amazônia, de Samuel Benchimol, o autor nos presenteou com uma interessante pesquisa das origens de sua própria comunidade que vão fazer você mudar de ideia.

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Necrópole Israelita, posição urbana, do Google Earth

Diz Benchimol que os primeiros imigrantes do Marrocos chegaram ente 1810 e 1820 ainda no ciclo da exportação das "drogas do sertão", especiarias. Naquela época a população de Belém era de 24.500 habitantes e em Cametá residiam somente 8.050 pessoas. Estes primeiros imigrantes vieram do Marrocos do Norte Espanhol, de cidades marítimas e portuárias como Tanger, Tetuan, Ceuta, Arcila e Larache. Estes "marroquinos" eram descendentes dos judeus expulsos da Espanha em 1492 e de Portugal em 1496, portando sefaraditas de fato, seguindo os ritos judaicos portugueses e espanhóis. Falavam espanhol, português, ladino e haquitia, um dialeto que mistura castelhano, português, hebraico e árabe. Muitos falavam francês e inglês, ensinado nas escolas da Aliança Israelita Universal, onde foram preparados para a emigração. Apesar não estar nos dados históricos compiltados anteriormente, é certo que também falavam árabe, pois viva em meio aos árabes já por 300 anos. Eles se intitulavam "megorachim" os exilados, os expulsos da Península Ibérica.

Necrópole Israelita - Cemitério israelita de Soledade em belém 2010
Necrópole Israelita, foto de 2010

O segundo grupo de "marroquinos" é de judeus que foram denominados "toshavim", forasteiros. Forasteiro é alguém de fora, um estrangeiro. Essa denominação é especificamente igual a denominação de "falashas" dos judeus da Etiópia, que significa "estrangeiros em sua própria terra", no fim das contas, forasteiros. Mas quem seriam os judeus forasteiros no Marrocos? Eram os judeus que lá estavam provavelmente desde a destruição do Segundo Templo no ano 70, segundo Benchimol. Portanto, os judeus que chegaram ao Marrocos em 1492 não conseguiram compreender como judeus, os que lá estavam há 1.422 anos... É a mesma história que se repetiu em todas as imigrações judaicas que embolaram comunidades de diversas origens. Os toshavim falavam árabe e bérbere, residiam nas cidades do interior do Marrocos, como Rabat, Salé, Fez, Marrakesh, Agadir e outras, nomes muito mais relevantes na história universal que os das cidades de litoral.
Essa divisão linguística e um afastamento real entre ritos judaicos, pronúncias, local de residência, vestimentas e tradições familiares aportou em Belém. A primeira sinagoga, a Eshel Avraham de 1826 foi uma sinagoga dos toshavim e a Shaar Hashamaim (Porta do Céu) de 1828, dos megorachim. Ambas existem até hoje em belas construções de 1947. Na diferença de pronúncia, a Eshel (bosque em hebraico) ficou conhecida como "Essel Avraham", o que intrigou diversos historiadores, pois "essel" não está em língua escrita alguma, e é apenas a forma como os toshavim pronunciam o "sh". Já Shaar Hashamaim é um nome encontrado através de todos os locais para onde judeus expulsos pela Inquisição foram parar, inclusive no leste em Mumbai, na Índia.

Ainda segundo Benchimol, o terceiro grupo de imigrantes foi o dos sefartitas, judeus franceses expulsos durante a Guerra Franco-Prussiana, mais a frente em 1870-71. "Sefarty" é a palavra para francês, em hebraico arcaico. Estes falavam basicamente francês e não falavam ídiche ou as diversas línguas dos marroquinos.

Uma quarta corrente imigratória trouxe ashkenazitas. Apesar de ashkenaz ser a palavra em hebraico arcaico para a Alemanha, acabou-se considerando que os europeus de fala ídiche como alemães, poloneses, russos e europeus orientais, eram ashkenazitas. Com eles vieram também as Polacas para a Amazônia. A prostituição na região sempre existiu e a chegada de prostitutas judias foi apenas uma questão de abertura de mercado, indo onde o dinheiro estava e onde havia grande número de homens imigrantes e baixo número de mulheres. Sempre é preciso levar em conta que a prostituição era atividade legal no Brasil. Em Manaus, no Cemitério Municipal de São João Batista, Samuel Benchimol e Abraham Benmyual localizaram 17 túmulos de polacas com inscrições em hebraico e falecimento entre 1900 e 1920.

Durante e após a Primeira Guerra Mundial, mais de cem famílias ashkenazitas chegaram à Amazônia e o estatuto da Junta Governativa da Congregação Hebraica do Pará, de 1902, em seu artigo II diz que "sua duração será perpétua enquanto houver nesta cidade os hebreus do rito ortodoxo português ou alemão", como publicou Benchimol. Isso mostra uma presença ashkenazita anterior a 1902 e que os toshavim não são mencionado, correto?

Existe ainda outra corrente, a dos foinquinitas, judeus vindos da Turquia, Líbano, Síria, Egito, que falavam ladino e árabe e eram considerados genericamente como turcos. A designação tão estranha para nós vem de "foinquinos" que em haquitia significa fenícios.

No total 1.000 famílias judaicas chegaram a Amazônia, e este número é bem superior aos cerca de 1.000 judeus que residem em Belém em 2014. Ao longo do tempo muitas destas famílias ou descendentes vieram descendo pelas cidades com e sem judeus no Nordeste, procurando se fixar no Rio de Janeiro. Família, neste caso conta-se indivíduos únicos, geralmente jovens nos primeiros vinte anos de imigração e famílias com esposas e filhos a partir de então. Em 1883 os imigrantes marroquinos começam a vir da África diretamente para o Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro, judeus vindos de Belém participaram da fundação da União Israelita em 1864 e a mantiveram no "rito português" até os dias de hoje, como Shell Guemilut Hassadim, em Botafogo.

© José Roitberg
ABEC - Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais

Um comentário:

Adriana Dorfman disse...

muito interessante e bem escrito, obrigada!