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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Rio Antigo e História do Rio de Janeiro

Lista de comunidades no Facebook e páginas de dicadas a História do Rio de Janeiro, fotos antigas do Rio de Janeiro. É uma coleção surpreendente.

Antigamente - http://fotolog.terra.com.br/antigamente1:1479 - Lyscia Braga

As Histórias dos Monumentos do Rio - http://ashistoriasdosmonumentosdorio.blogspot.com.br/ - Vera Lucia Dias Oliveira

Augusto Malta Revival - https://www.facebook.com/augustomaltarevival - Marcello Cavalcanti

Carioca da Gema 1 - http://fotolog.terra.com.br/carioca_da_gema - Roberto Tumminelli Cardoso Fontes

Carioca da Gema 2 - http://fotolog.terra.com.br/carioca_da_gema_2 - Roberto Tumminelli Cardoso Fontes

Cascadura Caminhos do Suburbio - https://www.facebook.com/CascaduraCaminhosDoSuburbio?fref=ts - Raphael Bellem

Cidades Brasileira: Memorias sem papel - https://www.facebook.com/groups/168096043378654/?fref=ts - Olinio Coelho

Coisa Lúdica - http://fotolog.terra.com.br/cartepostale - Milu Maria

Coluna Patrimônio - http://www.rioecultura.com.br/coluna_patrimonio/coluna_patrimonio.asp?patrim_cod=99 - Leo Ladeira

Conversas Cariocas - https://www.facebook.com/ConversasCariocas - Rafael Gota 

Flavio M - http://www.flickr.com/photos/flaviorio/ - Flavio Sertã Furtado Mendonça

Copacabana Demolida - https://www.facebook.com/CopacabanaDemolida?fref=ts - Claudia Mesquita

foi um Rio que passou - http://www.rioquepassou.com.br/2013/08/30/igreja-de-sao-cristovao-1916/ - Andre Decourt

Fragmentos georreferenciados da nossa história - https://frags.wiki Halley e Ana Cristina

Fotos do Rio de Janeiro Antigo - https://www.facebook.com/pages/Fotos-do-Rio-de-Janeiro-Antigo/420285374730071?fref=ts - Luiz Gustavo

Fotopaint - http://fotolog.terra.com.br/fotopaint:774 - Luiz Francisco Moniz Figueira

História das Barcas RJ - https://www.facebook.com/barcashistoria/ - Victor Grinbaum, Atilio Flegner e José Roitberg

Itaboraí Antigo https://www.facebook.com/itaborai.antigo - Rodrigo Lucio

Jornais Antigos do Rio de Janeirohttps://www.facebook.com/jornais.rio - Tiago Bandeira e Rafael Mendes

Literatura e Rio de Janeiro - http://literaturaeriodejaneiro.blogspot.com.br/ - Ivo Korytowski

Mapas Antigos do Rio - www.facebook.com/mapasantigosdorio - Eduardo Botti

Memória de São Gonçalo - www.facebook.com/memoriasg - Luciano Campos Tardock

Memórias do Arcebispado Carioca - https://www.facebook.com/memoriasdoarcebispadocarioca - Eraldo De Souza Leão Filho

Memórias do Futebol Carioca - http://www.facebook.com/MFCarioca - Raphael Belem e Tiago Bandeira

Memorias do Suburbio Carioca - https://www.facebook.com/riosuburbio?fref=ts - Tiago Bandeira

Olhar Nictheroy - https://www.facebook.com/OlharNictheroy?fref=nf - Luiz Marcello Gomes Ribeiro

Olhos de Ver - https://www.facebook.com/pages/Olhos-de-Ver-Patrim%C3%B4nio-Hist%C3%B3rico-Rio-de-Janeiro/413946725361803?fref=ts - Leo Ladeira

Ônibus Antigos do Rio de Janeirohttps://www.facebook.com/OnibusAntigosRio - Rafael Mendes

O Rio de Janeiro Que não Vivi - https://www.facebook.com/ORioDeJaneiroQueNaoVivi?fref=ts - Bruno Chaves 

Palácio Monroe - Crônica da demolição (filme) - https://www.facebook.com/palaciomonroe/ Eduardo Ades

Panoramio - http://www.panoramio.com/user/3970987 - Raul Félix de Sousa

Papélia - https://www.facebook.com/Papelia - Stella Tuttolomondo 

Rio Antigo Social CLube - https://www.facebook.com/RioAntigoSocialClube  - Renato Fernandes

Rio, City of splendour - https://picasaweb.google.com/109916640496448521543/RioCityOfSplendour?noredirect=1 - Nickolas Nogueira

Rio Comprido - Um Bairro de Passado, Presente e  Futuro? - https://http://www.facebook.com/groups/196503143784235/ - Sheila Castello

Rio de Janeiro Desaparecido - https://www.facebook.com/riodejaneiro.desaparecido?fref=ts - Cau Barata

Rio que Foi Notícia e Virou História -https://www.facebook.com/FotosDoRioAntigoQueVirouHistoria/ - José Roitberg

RJ450 http://www.vejario.com.br/blogs/rj450/ - Rafael Sento Sé

Saiba História: http://saibahistoria.blogspot.com/ Adinalzir Pereira Lamego

Saudades do Rio - http://luizd.rio.fotoblog.uol.com.br - Luiz Darcy

S.O.S. Patrimônio - https://www.facebook.com/groups/712997072095070/ - Sheila Castello - Adua Nesi - André Ferreira - Kiki Simone Reis - Marconi Andrade

Tanguá Antigo - https://www.facebook.com/Tangua.Antigo - Rodrigo Lucio

Vale das Videiras - Petrópolis - RJ - https://www.facebook.com/valedasvideiras - Stella Tuttolomondo

Zona Sul Casas e Prédios Antigos -https://www.facebook.com/ZonaSulCasasePrediosAntigos - Rafael Bokor

terça-feira, 15 de setembro de 2015

1986 - RIO ATERRADOR

20-de-Abril-de-1986,-Matutina,-Rio,-página-15-PROJETO-DA-PENÍNSULA-DE-IPANEMA

Não é um projeto centenário. Tem apenas 29 anos mas podia ter modificado a Zona Sul e a relação do carioca com o mar. A matéria publicada pelo jornal O Globo em 20 de abril de 1986 iniciava assim: "Pode parecer uma ideia de algum cérebro delirante, mas o projeto existe e está em estudos".

Muitas pessoas sabem que houve projetos para aterrar a Lagoa Rodrigo de Freitas e até mesmo a Baia da Guanabara inteira e quase todos ignoram tudo que foi aterrado antes. Nossa cidade maravilhosa é aterradora (com o perdão desta formação gramatical curiosa). Só algumas: Glória, Flamengo, Botafogo, Calabouço, Beira Mar, Santos Dumond, Cais do Porto e Gamboa, Caju, Ramos, Ilha do Governador, Praia Vermelha, Urca, entorno do Lagoa, Praia de Copacabana, Lagoa do Boqueirão na Lapa, os mais diversos rios, montanhas derrubadas e removidas etc...

Pela imagem oficial do projeto percebe-se que os 700 metros da Praia do Arpoador seriam extintos e em seu lugar, seriam construídos nada menos que 10 km de praias. As Ilhas Cagarras passariam a ser montanhas urbanas emoldurando a área cultural do projeto.

O pretexto era "facilitar a navegação na entrada da baía" (se bem que ali não é entrada de nada...), mas a realidade era um projeto imobiliário gigante com conjuntos comerciais, bairros residenciais, parques, hotéis, cassinos e marinas. O projeto da Península Cidade-Jardim, lembrava o "Lago Ocean", do arquiteto Sérgio Bernardes, que deveria se localizar em frente ao Jardim de Allah, com uma marina de três andares subterrâneos, lojas, teatros, cinemas e estacionamentos. Obra vetada pela Feema.

Obviamente interessada, estava a Companhia Brasileira de Dragagem com um orçamento de 450 milhões de dólares para criar o grande banco de areia. O custo total do projeto chegaria praticamente a 1 bilhão de dólares (valor de 1986), mas os incorporadores afirmavam que o custeio viria da comercialização de 8 milhões de metros quadrados da Península, 66% da área total de 12 milhões. O desenho não faz jus à área real, duas vezes maior que a área construída de Leme, Copacabana, Arpoador, Ipanema, Leblon e Lagoa juntos!

Teríamos uma Zona Sul três vezes maior do que é, e o Rei Netuno não iria protestar por perder um pedacinho insignificante do Atlântico.

Em minha modesta opinião, os dois projetos, Península e Lago Ocean, deveriam ter sido levado adiante e teríamos uma cidade bastante diferente da atual. Só a questão dos 10 km de praias oceânicas urbanas já seria um atrativo turístico inimaginável. Quem conhece outros locais de litoral como Miami e Fort Lauderdale, sabe que se avança sobre o mar com penínsulas e condomínios, sem ter uma Feema ou ambientalistas criticando a "poluição visual das praias" como no caso de ambos projetos embargados.

por José Roitberg - jornalista e pesquisador

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

RENOVAÇÃO DA FROTA DE ÔNIBUS - tente entender esta conta

Um ônibus com ar-condicionado fora do padrão exigido pela lei aprovada para o município do Rio de Janeiro em 2012, que previa 100% da frota refrescada para a Copa de 2014, custa aí pelos 500 mil reais. O preço pode chegar a 1 milhão no caso dos ônibus articulados como do BRT ou em uso em SP.

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Frescão de 40 anos atrás era um ônibus rodoviário em uso urbano. Naquela época o motor traseiro aumentava o conforto. O Brasil possuiu grande frota de ônibus com motores traseiros, todos desenvolvidos a partir do zero para serem ônibus, diferente dos ônibus com motor dianteiro que são carrocerias adaptadas sobre mecânicas mais baratas e desconfortáveis de caminhões. Foto do blog rodrigomattardotcom.wordpress.com

O curioso é que o RJ introduziu os ônibus com ar-condicionado há 40 anos atrás, com os "frescões". Os jovens nem sabem que isto existiu. Funcionava! A tarifa era mais cara, ainda assim uma fração do que custaria fazer a viagem em taxi, com o agravante de que há 40 anos atrás os taxis eram Fuscas só com banco traseiro, o VW "Zé do Caixão" com suas espetaculares 4 portas e ainda outras coisas piores. Opalas com ar-condicionado eram apenas Taxis especiais do aeroporto. Assim, o Frescão cumpria o que prometia e existe até hoje, com passagens entre R$ 8 e 13,50 contribuindo apenas com 695 veículos da frota total da cidade.

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Este Frescão em foto de 1975, foi o modelo mais bem sucedido e confortável em circulação no Rio de Janeiro. Foto do blog www.skyscrapercity.com

Se você está apenas na Zona Sul do Rio de Janeiro pode imaginar que há muitos ônibus com ar-condiciona, mas são apenas 741. Portanto, o RJ, hoje possui 1.436 veículos com ar-condicionado (os BRTs não entram nestas contas) de uma frota de 9.000 ônibus. A meta atual é que até o final de 2015, metade das viagens de ônibus no RJ sejam com ar-condicionado, o que parece pouco exequível.

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O Fusca taxi representava quase a totalidade da frota no Rio de Janeiro. Com apenas uma porta, o banco dianteiro foi retirado por força de lei e a cordinha para fechar a porta foi o acessório mais barato e difundido da história. Foto Extra-O Globo.

Já São Paulo, aprovou a lei que obriga toda a sua frota de ônibus a ter ar-condicionado, sem prazo determinado, apenas em outubro do ano passado, isto mesmo, apenas em 2014. Segundo os jornais de hoje, há 60 (sessenta ônibus com ar-condicionado) circulando em SP e até o final de fevereiro espera-se 'quase' dobrar, chegando aos 110 veículos. Fica faltando apenas a troca de outros 15.000...

O padrão carioca de ônibus com motor traseiro, piso rebaixado, suspensão a ar e câmbio automático, lamentavelmente foi sepultado e o que vemos nos últimos dois meses é uma proliferação de novos ônibus de modelos velhos, de quase 10 anos atrás, maquiados com faróis e lanternas super-modernos para parecerem coisas novas, mas infelizmente não são. O governo abriu as pernas e o legislativo não cobra explicações. A única coisa mantida foi a decisão de que só serão emplacados ônibus com ar-condicionado no Rio. Alguns tem câmbio automático, a maioria não tem.

Uns dizem que foram os 20 centavos, outros afirmam que os atuais 40 centavos resolvem. Então tente entender. A alegação de que os 40 centavos a mais nas passagens permitirão a renovação da frota é estranha. No preço mais baixo, um ônibus de meio milhão dependeria de 1.250.000 passageiros pagando 40 centavos a mais para ser adquirido. No caso de SP, onde a frota de articulados é fundamental, seriam 2.500.000 de passageiros para pagar um só ônibus. Como precisam comprar 15.000, então temos o número quase impossível de compreender de que seriam necessárias 37.500.000.000 trinta e sete bilhões e quinhentas milhões de viagens, de passageiros pagos, para que estes 40 centavos permitissem a renovação total da frota!

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VW 1600 Zé do Caixão taxi, revolucionou o mercado e permitiu transportar com economia 3 ou até 4 passageiros. O porta-malas dianteiro era consideravelmente grande. Foto do blog www.essevaleumafoto.com

Segundo a prefeitura de SP, são transportados quase 10 milhões de passageiros por dia. O número é total, pois as gratuidades são diluídas pelo valor das passagens além de subsídio público. Assim seriam necessários 3.750 dias, praticamente 10 anos para que estes hoje 40 centavos permitissem a troca total da frota.

Para se ter uma ideia correta da diferença da dimensão de SP para o RJ, em SP são quase 300 milhões de passageiros por mês e no RJ, onde todos os dados estão disponíveis pela transparência administrativa, em outubro de 2014 foram 117 milhões de passageiros, dos quais 20.258.000 pela gratuidade. Estão empregados no setor, no Rio de Janeiro 40.688 trabalhadores. A frota no RJ possui pouco mais de 9.000 ônibus. Assim vemos que a frota de SP transporta quase três vezes mais passageiros que a do RJ com pouco mais de 60% a mais de ônibus apenas, o que significa sufoco por lá, e intervalos grandes entre os ônibus das mesmas linhas.

DIÁRIO DA NOITE 12-OUT-1937 - PIERROT - MARIA YVONNE
Lote de 83 ônibus com ar-condicionado e câmbio automático, mas sem piso rebaixado e sem motor traseiro chegados ao RJ. Foto da Rio Ônibus.

Mas será existem estes 22.000 veículos com ar-condicionado para serem distribuídos apenas pelas cidades do RJ e SP, sem levar em conta todo o restante do Brasil? Segundo A FABUS - Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus, também muito transparente, em 2014 foram produzidas 15.518 carrocerias de ônibus urbanos e 5.423 de ônibus rodoviários. Deste total, mais de 3.200 foram exportados. Não há indicação de quantos modelos com e sem ar foram produzidos.

Com este volume de produção, com a média de 1.293 unidades/mês, o que temos visto são lotes de 50 ônibus novos/mês aqui, 60 ali, raramente uma entrada de mais de 80 unidades, como ocorreu em dezembro para uma das empresas cariocas. Portanto se for mantida uma média abaixo das 100 unidades novas por mês para Rio e São Paulo, podemos esperar 80 meses para o RJ (6,7 anos) e 150 meses para SP (12,5 anos) para a frota estar inteiramente refrigerada. E quem sabe onde estaremos daqui a 2 ou 3 anos, muito menos  daqui a 7 ou 12 anos.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Exposição do Centenário de 1922

Uma das primeiras grandes obras após o desmonte do Morro do Castelo foi a construção da Avenidas das Nações, nome que faz pouco sentido para quem passa por lá nos dias de hoje, e encontra apenas o consulado dos EUA. Em 1922, construída a avenida foi criada uma grandiosa exposição com pavilhões internacionais (portanto, das nações), bem ao estilo das grandes exposições mundiais que ocorriam desde o século 19. Por exemplo o Palácio Monroe, foi o pavilhão do Brasil na Exposição de Saint Louis em 1904, projetado para ser desmontável. Foi trazido e montado no RJ em 1906.

Vamos então resgatar os belíssimos pavilhões da Exposição de 1922 através dos cartões postais emitidos oficialmente para a ocasião. Vamos começar com o Pavilhão da França, pois é o único que sobreviveu, como a Academia Brasileira de Letras. As fotos dos postais levam a assinatura dos Malta.

É até difícil de acreditar que há tão pouco tempo atrás tivemos estes prédios magníficos no centro do Rio, e na Avenida Beira Mar. Olhamos hoje para o terreno e não conseguimos visualizar onde ficava tudo isto.

Exposicao do Centenario 1922, Franca

Exposicao do Centenario 1922, America do Norte

Exposicao do Centenario 1922, Inglaterra

Exposicao do Centenario 1922, Pavilhao da Belgica, Grandes

Exposicao do Centenario 1922, Pavilhao da Belgica

Exposicao do Centenario 1922, Pavilhao da Suecia

Exposicao do Centenario 1922, Pavilhao das Industrias Particulares

Exposicao do Centenario 1922, Pavilhao de Festa

Rio De Janeiro, World Expo, Independence 1922
Abertura da Exposição com desfile militar no Pavilhão de Festas

Exposicao do Centenario 1922, Caca e Pesca

Exposicao do Centenario 1922, Districto Federal

Exposicao do Centenario 1922, Vista parcial

Exposicao do Centenario 1922  2

Exposicao Do Centenario 1922 - meixco

Exposicao Do Centenario 1922 - Italial

RIO DE JANEIRO PAVILHAO DA TCHECO SLOVACA EXPOSICAO CENTENARIO 1922

EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL DE 1922 PAVILHÃO DA TCHECOSLOVÁQUIA , PAVILHÃO DA NORUEGA ENTRE OUTROS
Pavilhões da Tchecoslovaquia (primeiro plano), Noruega (escuro) e outros

EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL DE 1922 PAVILHÃO DE ESTATÍSTICA E PAVILHÃO DE CAÇA E PESCA
Pavilhões da Estatística e da Caça e Pesca

PAVILHÕES DA EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL DE 1922 COM VISTA DO PÃO DE AÇÚCAR PAVILHÕES BRAHMA E ANTARCTICa
Pavilhões da Brahma (primeiro plano) e Antártica (claro)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Cerveja Way Cream Porter ???

Vc passou num supermercado hoje, dia 3 de janeiro em Copacabana? Viu os espaços vazios? Sem sorvetes, sem refrigerantes em lata que não fossem zero, sem qualquer garrafa d'água, faltando iogurtes, sem sucos, poucos leites...

Parece que uma horda de gafanhotos passou por Copacabana e os mercados se programaram mal. Tivessem dobro de estoque, talvez tivessem tido o dobro de vendas. As cervejas baratas também deixaram de existir e essa aqui me chamou a atenção.

Way, vê se isso é nome de cerveja, ainda mais se definindo com "cream porter"... Rotulo pintado em silkscreen...

Atrás, uma explicação dizendo que é preta, cremosa, encorpada com aveia, como as cervejas do século 18 feitas para serem levadas em viagens e expedições.

Com uma propaganda destas, merece ser comprada. E é uma cream porter adocicada perfeita que deixa a superprecificada Guiness irlandesa no chinelo.

Como qualquer cream porter, precisa estar bem gelada e servida em copo para a espuma cremosa subir. No copo é perfeita, do gargalo não vale um tostão furado.

Se vc gosta das pretinhas arrisque This Way e confie nos cervejeiros da Chácara Atubá em Pinhais, SC. Eles sabem o que estão fazendo. Vou tomar a segunda.

http://www.waybeer.com.br/qual-a-sua-way/

© José Roitberg - jornalista e historiador

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O Enterro do Sabão - Memorial do Holocausto do Rio de Janeiro - 1947

Rio Judeu que o Povo Esqueceu

O Enterro do Sabão

A realidade sepultada por mitos, tinha restado deste episódio da história dos judeus no Rio de Janeiro. Evento relacionado ao Holocausto, ainda em 1947, ausente dos livros sobre história comunitária. Haveria motivo? A história era emocionante. Como desapareceu?

Pequeno caixão coberto por talitim conduzido pelas ruas da Praça Onze. De barba, o rabino Tzikinowsky.

O mito propagado nas últimas décadas sobre o Memorial do Holocausto do Cemitério de Vila Rosali Velho, afirmava "ter sido enterrada" lá uma caixa com sabão feito com gordura de judeus pelos nazistas. Cada vez mais pessoas que falavam sobre o assunto duvidavam da ocorrência desta ação. Trazendo uma faceta heroica para o mito, dizia-se tal caixa com o sabão de gordura humana ter chegado ao porto do Rio e de lá, seguido por trem, em vagão plataforma, escoltada por quatro membros dos movimentos juvenis judaicos, com tochas ou bandeiras (dependendo da fonte). 

Fazia até sentido pois a linha do trem passa do outro lado do muro, hoje de trás, do cemitério. Mas desde sua inauguração em 1928 a entrada do cemitério era praticamente lá na Estação Vila Rosali, tanto que a numeração de túmulos começa por lá e eles estão voltados para aquela direção.

Mas há uns sete anos atrás, foi encontrado um filme de três minutos, de 16 mm de Herszt Roizemblit, o único judeu a ter uma câmera de cinema semi-profissional na época. Não há imagens do trem, das bandeiras, nem de nada parecido. Teria nosso câmera que não imaginava estar flagrando um momento importantíssimo de nossa história chegado atrasado? Ou tudo teria se desenrolado de forma diferente? O filme deixou mais dúvidas que soluções e está há anos postado por mim no YouTube.

Um dos comentários feitos a este filme é de uma senhora afirmando que o pai dela contava outra história semelhante, mas não igual. Seria ele membro da liderança da Comunidade judaica de São Paulo e ido ao Porto de Santos receber a caixa com o sabão, escoltando-a junto com outros paulistas, em vagão normal, para o Rio de Janeiro e participando da cerimônia?

Dificultava a pesquisa o fato de não se conseguir definir as datas originais colocadas em letras metálicas do lado de fora do Memorial e furtadas em sua maioria ao longo do tempo. O local é chamado por muitos, de forma pouco digna, de Memorial do Sabão (abaixo). É uma estrutura bege e branca com cúpula preta encimada por uma estrela de David, bem no arruamento central do cemitério. Ao longo dos anos as cerimônias comunitárias do Dia do Holocausto sempre foram realizadas ali. Só há duas estruturas que não são túmulos por lá. A outra, um tanto afastada e mais próxima à entrada original é o jazigo da família Guertzsenstein.

Memorial dos Mártires do Holocausto, cemitério israelita de Vila Rosali Velho

O pesquisador Dr. Joachim Neander da Polônia, entrou em contato com a Chevra Kadisha, recentemente e afirmou que nosso monumento estadual pode ser o primeiro memorial do Holocausto das Américas. Nosso amigo Davis Taublib orientado por Neander chegou aos Diários Associados (detentor do acervo e arquivo da revista O Cruzeiro) e Karla Luz, dos Diários cedeu a matéria da revista. Pronto, estabelecemos um momento exato. A publicação é do dia 01 de novembro de 1947. Como a revista era quinzenal, bastou começarmos a procurar no mês de outubro até encontrarmos.

A matéria de O Cruzeiro é pouco informativa, mas escrita pelo conceituado David Nasser. Ao longo de quatro páginas com grandes fotos, umas poucas linhas repetem basicamente a nota oficial de chamada da Comunidade judaica sem qualquer esclarecimento ou detalhe do evento acontecido. Das 17 fotos publicadas, apenas uma é relacionada ao evento, ficando as outras para mulheres aos prantos em túmulos do cemitério. Aliás isso chamou a atenção da mídia em geral: mães e avós se atirando aos túmulos aos gritos e chorando pelos seus entes queridos enterrados. O que teria isto a ver com o "sabão?" Nada.

O evento foi no dia 12 de outubro de 1947, um domingo, sem relação alguma com Rosh Hashaná, que caiu no dia 14 de setembro e Iom Kippur no dia 23 de setembro. Quatorze meses antes da inauguração oficial do cemitério novo, com seu primeiro sepultamento a 5 de dezembro de 1948. É provável que muita gente tenha aproveitado a ida no dia 12 para compensar a visita tradicional no período das festas, duas semanas antes. É longe ainda hoje e era bem mais longe na época.

 

AS MANCHETES


O evento teve cobertura ampla por todas as mídias, sejam isentas, de direita ou de esquerda. Mesmo assim, caiu no esquecimento. Foi o evento judaico mais documentado e publicado na história dos judeus no Rio de Janeiro. Página do Diário da Noite.

A cobertura de O Cruzeiro nos mostra que publicar, nem sempre é informar. A revista minimizou os acontecimentos com a manchete simples: "Num cemitério do Rio - Enterro de Sabão Humano."  O texto e a cobertura trans formam-se em sensacionalismo de judeus entristecidos no cemitério e deixa de lado o evento.





A foto foi invertida para publicação, por questão estética e o responsável nem imaginou que o texto em hebraico do túmulo estava ao contrário.


Já outros jornais foram bem mais enfáticos, inflados, errados e sensacionalistas: "Centenas De Vítimas De Hitler Serão Enterradas Amanhã Num Dos Cemitérios Do Rio - Imenso cortejo de automóveis levando em caixotes, os corpos de judeus que os nazistas transformaram em sabão", deu o Diário da Noite que parece não ter entendido o que iria acontecer, mas nos deu a cobertura mais completa, depois.




“Será Sepultada Hoje A Gordura Humana, a cerimônia promovida pelos israelitas será no cemitério de Vila Rosali", deu o Diário Carioca.
 
"Um Enterro Original - Barras de sabão feito com gordura humana serão inumadas, simbolicamente, no cemitério de Vila Rosali", publicou o Diário de Notícias.

"As Vítimas Do Nazismo - A cidade assistirá na manhã de hoje a uma cerimônia fúnebre sem precedentes: corpos humanos, convertidos em produtos industriais, serão conduzidos até um cemitério israelita, em remoto subúrbio, e aí sepultados", no Correio da Manhã. 


"Levadas À Sepultura As Barras De Sabão Feitas Com Despojos Humanos - 5.000 Pessoas e 600 Automóveis No Cortejo Fúnebre Das Vítimas De Hitler", estampou o Diário da Noite em matéria da página inteira com sete grandes fotos.



“Sepultados Os Pedaços De Sabão Fabricados Com Banha De Judeus - Milhares de carros e dezenas de milhares de judeus acompanharam os restos mortais de seus irmãos de sangue numa cerimônia tocante: choro, gritos e velas", inflou o jornal A Noite em sua primeira página.



"Milhares de pessoas no enterro simbólico das vítimas nos nazistas", colocava de forma muito correta o Tribuna Popular, um jornal comunista circulado apenas entre 1945 e 1947.

O Globo dá em sua primeira página.

Assim, trocamos o mito pela verdade. Não houve navio, nem trem, ou plataforma, e muito menos, as tochas levadas por jovens. Que fique claro: esta versão corriqueira e errada não foi estimulada, criada ou divulgada pelos movimentos juvenis que a ignoravam. Nunca saberemos quando e onde surgiu.

 

AS BARRAS DE SABÃO

A chegada dos sobreviventes do Holocausto ao Brasil foi acompanhada por uma comprovação das atrocidades. Alguns deles trouxeram uma barra de sabão "R.I.F." ("Pura Gordura de Judeus - Reine Juden Fetz" - conforme os jornais publicaram na época), que teriam recebido ainda em cativeiro para uso em sua higiene.


KUM BERL!

Dois deles são identificados pelo Diário da Noite, como os "irmãos Samenson e Leib". E eles publicaram sobre o assunto em seu livro de memórias. Após ler a primeira publicação desta matéria na Revista Menorah, Betty Moszkowicz entrou em contato e nos contou: "Meu pai Szamszon Ber Jarczun z'l (conhecido como Bóris) e seu irmão, Lejba Jarczun z'l (Leão), judeus imigrantes da Polônia, nos contaram sobre o sabão feito de banha humana. Agora graças ao seu artigo, descobri que eles fizeram muito mais que apenas relatar este fato às suas famílias. Na folha 146 da biografia de Bóris, "KUM BERL!", temos: “Meses antes de embarcarem para o Brasil, Bóris, Leão e Estera (prima e futura esposa de Leão) foram a uma birosca na cidade de Zabje comprar sabão para lavar a roupa. Bóris lembra que era uma pequena barra 3x4 de um branco encardido. Quando chegaram de volta em casa, Bóris percebe uma inscrição e fica horrorizado > R.I.F. - Pura gordura de Judeus – Os três voltam à loja e compram todo o sabão à venda. Seguem para birosca seguinte e fazem o mesmo. Guardam os pedaços, cuidadosamente, para traze-los consigo.”
 
Contrário ao que Sameson escreveu em sua biografia, ele (à dir) e Leib (à esq) foram entrevistados pelo jornal Diário da Noite no dia 30 de setembro de 1947. Na foto, a única que parece existir, mostrando as 16 barras de sabão R.I.F.

Na página 151 de KUM BERL! temos: "Moyses se lembra bem dos primeiros 'lanches e papos'. A vizinhança toda aparecia. Todos querendo ouvir os relatos da guerra. Todos tinham uma língua em comum: o iídiche. Em algum desses momentos das histórias da guerra, vem à baila os pedaços de sabão que tinham trazido da Polônia. Todos ficam horrorizados, mas não paralisados. A imprensa é avisada. Nenhum dos três quer contato com a imprensa. 

Traumatizados pela guerra, não queriam ser foco de atenções, queriam o protegido anonimato. E ainda mais quando souberam que Luiz Carlos Prestes gostaria de se encontrar com eles. Bóris 'surtou'. Não queria nada com nenhum comunista. Com cobertura da imprensa, estes pedaços de 'sabão' foram enterrados no cemitério de Vila Rosali. Sem a presença de Bóris, Leon e Ester. Mas Bóris só não foi naquele ano, nos anos seguintes, em 15 de Elul, ele visita a sepultura desses judeus anônimos. (E sua neta Michelle, com sua família, presta neste mesmo dia, em Israel, uma homenagem às vítimas do holocausto, em nome dos Jarczun.)"




A chegada das barras de Sabão R.I.F. ocorreu em todos os lugares para onde os sobreviventes de campos de concentração nazistas na Polônia foram após a Segunda Guerra Mundial, inclusive para Israel onde há várias destas caixas enterradas. A conversa se propagou, as barras foram vistas e passadas de mão em mão no Rio de Janeiro, até que o rabino chefe, então M. Tzikinowsky, decidiu: eram restos humanos judaicos e os restos humanos precisam ser enterrados conforme a halachá (a lei religiosa judaica). O rabinato então, pediu que as barras lhe fossem entregues. Um dos jornais declara: "a exemplo do que já foi feito nos Estados Unidos".

Isso indica que parte a história de um grupo de São Paulo ter trazido uma caixa com barras de trem para o Rio de Janeiro provavelmente é verdadeira: os sobreviventes radicados em São Paulo devem ter enviado suas barras para a cerimônia, bem como judeus de outros estados, pois as matérias de jornal dão conta de judeus vindos de todas as comunidades brasileiras.

 

A CERIMÔNIA

Consta que dezesseis barras foram reunidas na manhã do dia 12 de outubro e examinadas pelos rabinos Henrique Lemle (alemão liberal), Zingerevitch e Tzikinowsky. As oito horas da manhã, o rabino Tzikinovsky, alto de barba branca e óculos nas fotos, inicia a cerimônia no Grande Templo Israelita, à rua Tenente Possolo, já na presença da mídia e cerca de 5.000 pessoas lotando o templo e as ruas ao redor, e mais de 600 carros particulares, taxis e de aluguel estacionados: "Uma grande massa se comprimia no interior do templo e entoava cânticos e preces pela alma dos sacrificados", do Diário da Noite.

A cerimônia teve a organização, juntamente com a Sociedade do Cemitério Israelita do Rio de Janeiro (Chevra Kadisha), da "Sociedade Ostroweer ou Comitê de Socorro aos Israelitas Sobreviventes de Ostrowiec", formada por imigrantes anteriores daquela cidade e sobreviventes do campo de concentração de Stutthof, na Polônia, região de Danzig, onde funcionaria a tal confecção macabra do sabão "R.I.F."

As dezesseis barras foram colocadas na frente do Aron Ha Kodesh (o armário onde são guardados os rolos da Torah) e o chazan (cantor litúrgico) Steimberg, entoou "os salmos 88, 89, 82, 83 e 85, todos eles referentes aos sofrimento de Israel e pedindo de D'us se compadeça de seu povo", conforme o jornal A Noite.

Ao centro o chazan Steimberg e à esq o rabino Tzikinowsky nas orações dentro do Grande Templo Israelita. O pequeno caixão com as barrinhas de sabão pode ser visto, coberto, ao que parece por entre 2 a 4 talitim (xales de oração). Foto do Diário da Noite 

As oito e meia da manhã o cortejo fúnebre começou a se deslocar, tendo a frente uma grande comissão identificada por braçadeiras, carregando o caixão "coberto com uma toalha branca e bordada", ou "um pano com listras azuis e brancas" na visão dos repórteres. Mas foi um talit que está bem nítido nas fotos e no filme.

Do Diário da Noite

Figuras de destaque da comunidade revezavam-se, carregando o pequeno caixão a pé pelas ruas Mem de Sá, Santana, até a Avenida Presidente Vargas onde parou no templo Israelita "Yaven" (segundo A Noite) ou a "Sinagoga da Praça Onze" (segundo o Diário da Noite). Mas naquele momento, a sinagoga da Avenida Presidente Vargas era a Beyruthense, no número 1.197 desde 1944. Isso justifica uma segunda cerimônia: a primeira no Templo no rito ashkenazi e a segunda na Beyruthense no rito sefaradi entoado por Maurício Sztaitman.
 
Rabinos Tizkinowsky (à esq), Zingirevitch (à dir) e outro não identificado, ao centro levam o pequeno caixão com as 16 barrinhas de sabão - O Cruzeiro (foto cortesia do arquivo dos Diários Associados-MG)

Às 10 horas o caixão foi colocado no carro fúnebre e todo o cortejo se dirigiu para Vila Rosali.

Os números de cada jornal variam muito. Mas o evento foi enorme. A Noite, um jornal considerado sério e não muito sensacionalista descreve: "A seguir, em cerca de 2.000 carros, centenas e centenas de judeus acompanharam os simbólicos restos mortais de seus irmãos torturados e mortos pelos nazistas." O jornal comunista Tribuna Popular, fala em 500 carros. Sobre a cerimônia na segunda sinagoga o Diário Carioca, traz: "Essa solenidade ao ar livre foi deveras chocante, tendo a massa humana que ali se comprimia, chegado mesmo a interromper o tráfego pela Avenida Presidente Vargas."
 
Membros importantes da Comunidade Judaica se revezam carregando o pequeno caixão pelas ruas da Praça Onze. Foto do Diário da Noite

O ENTERRO

No cemitério, as barras de sabão foram levadas ao local de purificação onde os corpos são lavados, o que é claro não foi feito com elas, sendo envolvidas individualmente em panos brancos "ainda não utilizados" e cobertas com o talit, segundo um jornal ou "cada peça de sabão foi posta em um saquinho de linho branco", segundo outro, e em seguida houve o enterro.

"Vários discursos foram pronunciados à beira do túmulo por membros destacados da colônia, que em seu idioma (ídiche), versavam em protestos conta a selvageria nazista e erguiam-se em exortações pelo eterno descanso de seus compatriotas mortos. Entre eles, o professor Américo Valério, da faculdade de medicina, que condenou as práticas bárbaras dos nazistas e exaltou o heroísmo dos judeus. Maurício Sztaitman, entoou os últimos cânticos fúnebres e o kadish (oração "a sagrada" em louvor a Deus, cantada nos sepultamentos e no luto), acompanhado em massa por todos os presentes.
 
Momento exata quando o pequeno caixão foi colocado na cova sobre a qual seria construído o Memorial do Holocausto no Cemitério Israelita de Vila Rosali (Velho). Foto do jornal A Noite


.O jornal A Noite, termina sua matéria dando conta de algo que passaria despercebido na história não fosse a determinação de sua linha política em publicar outras oito linhas: "Os comunistas também compareceram. Os comunistas se infiltram em toda a parte e não perdem a oportunidade de tirar partido de tudo. Lá estavam eles também no cemitério dos israelitas, tendo a frente seu chefe, sr. Luiz Carlos Prestes, procurando, por certo, fazer adeptos entre os judeus."

Evidentemente a visão do jornal comunista é muito diferente: "Durante o percurso, centenas de populares atraídos pela curiosidade, indagavam quem tinha morrido. Informados, manifestavam seu horror e protesto. No Mangue, uma senhora católica disse, revoltada, aos passageiros dos carros: 'do nazismo e fascismo só se pode esperar isso'. O senador Luiz Carlos Prestes e o deputado Maurício Grabois assistiram ao sepultamento simbólico dos restos mortais de milhares de vítimas do nazismo. Calorosamente aplaudido por ocasião da sua chegada, Prestes foi cumprimentado pelos rabinos e inúmeras outras pessoas da colônia judaica." Abel Chremont, presidente do Partido Popular Progressista se alinhou ao lado de Prestes e Grabois.


Na foto da Tribuna Popular, Luis Carlos Prestes está de chapéu, o segundo a esq, ao centro com bigode, Maurício Grabois e de terno claro listrado, provavelmente Abel Chermont
(ainda à confirmar)

E AS CONTROVÉRSIAS?

Mas o que está de fato enterrado lá? A estória de que estariam fazendo sabão com gordura de judeus era uma estória criada pelos próprios nazistas para intimidar os poloneses, para que eles tivessem medo de ter o mesmo destino dos judeus. Os rumores tomaram um vulto tão grande que a população polonesa parou de comprar sabão e Himler, o chefe da SS determinou que os corpos dos judeus fossem cremados e transformados em cinzas o mais rápido possível. O rumor foi publicado pela primeira vez no The New York Times em 1942. Há uma carta de 20 de novembro de 1942 de Himler para o chefe da Gestapo, Heinrich Müller, após a publicação do jornal americano: "Você me garantiu que em cada um dos locais os corpos dos judeus mortos foram ou queimados ou enterrados, e que em nenhum lugar nenhuma outra coisa poderia acontecer com os corpos", exigindo uma explicação oficial para o rumor publicado.
 

Barra original do sabão RIF do acervo do museu do kibtuz Lohamei HaGuetaot (Combatentes dos Guetos), o primeiro "Yad Vashem" até 1969. Há muitas fotos do sabão RIF com vários lotes e formatos diferentes na Internet

Acima você vê uma barra de sabão RIF com número de lote 0034 que está no Museu da Casa dos Combatentes do Gueto - Lohamei Ha Guetaot, em Israel. Não há como confundir o "I", com "J". Os poloneses e russos que escreveram inicialmente sobre o assunto entenderam R.I.F., como R.J.F. (Reine Juden Fett) o que seria "Pura Gordura de Judeus". Mas a marca R.I.F. era (Reichsstelle für Industrielle Fettversorgung) "Centro Nacional de Fornecimento de Gordura Industrial" a agência do governo nazista encarregada da produção e distribuição de sabão e produtos de limpeza durante a guerra. Os diversos produtos R.I.F. e eram considerados péssimos e não continham gordura nem animal, muito menos humana. A gordura era necessária para fabricação lubrificantes e explosivos.

”Judeu” em qualquer das línguas do centro ou leste europeu não é com a letra com a letra “I”. No caso do ídiche, o termo o “Yid”, com a letra “Y”. Em alemão, Jude; em polonês, Żyd; em romeno, Evreu; em lituano, Judėjas; em russo, Eврей, em húngaro, Zsidó. A única explicação plausível seria o termo “israelita”, com “i” em todas as línguas, mas que não é citado em nenhuma matéria de época no final dos anos 1940.

 
Durante os Julgamentos de Nuremberg (dos criminosos nazistas após a guerra), Sigmund Mazur, técnico assistente de laboratório do Instituto de Anatomia de Danzig (na Polônia alemã) testemunhou sob juramento e sob pena de ser condenado à morte, que fizeram sabão com gordura humana no campo de concentração em 1943.

Em sua declaração, lê-se que foram obtidos 70 a 80 kg de gordura de 400 corpos (menos de 200 gramas por corpo) e com isso se produziu 25 kg de sabão entregues ao professor Rudolf Spanner. Era um estudo de viabilidade que foi considerado oneroso, difícil e fracassado. Seu testemunho pode ser visto em

http://en.wikisource.org/wiki/Testimony_of_Sigmund_Mazur_before_the_International_Military_Tribunal_in_Nurenberg_in_the_case_of_Danzig_Anatomical_Institute


Escritores soviéticos do pós guerra descreveram chegar a várias instalações em locais diferentes. Numa delas havia caldeirões cheios de líquidos e partes de cadáveres humanos, num processo de fabricação interrompido de sabão. Há trechos de filmes militares que estavam em poder da União Soviética mostrando isso. Tais filmes foram liberados e publicados em 2014.

Testemunhas e judeus que investigaram o assunto não encontraram evidências de fabricação em massa, mas concluíram que houve experimentos. Sabe-se que a SS usava tudo dos judeus como insumos, até mesmo cabelos e ossos. Seria a gordura algo improvável? Mas seria coerente imaginar cozinhar corpos em grandes panelas para extrair gordura? Não foi este o método utilizado no Instituto de Anatomia de Gdansk.


TESTES GENÉTICOS

Em 2006, um pedaço de um sabão RIF arquivado na Corte Internacional de Justiça em Haia foi entregue ao maior especialista em gorduras da Universidade de Tecnologia de Gdansk, na Polônia. Sua análise concluiu que havia alguma gordura humana no sabão.

Porem, desde 1990, o Yad Vashem, que é a Autoridade Nacional (Israelense) Sobre o Holocausto, definiu que nunca houve sabão feito com gordura humana de judeus.
 
Agência Reuters publica, em abril de 1990, para o mundo inteiro nota do Yad Vashem declarando que gordura humana não foi utilizada pelos nazistas.

Em 1990 já havia retirado as barras que tinha de exposição no museu em Jerusalém. Várias amostras, de várias partes do mundo, foram enviadas para exames de DNA na Universidade de Tel Aviv e os testes não encontraram gorduras humanas.

A Casa dos Combatentes dos Guetos (Lohamei Ha Guetaot), no norte de Israel, expõe o sabão RIF mostrando que ele não é feito com gordura humana. Este local foi o primeiro Museu do Holocausto do mundo.

As associações de sobreviventes do Holocausto do mundo inteiro, inclusive em Israel, e praticamente todas as associações funerais judaicas não aceitam a definição do Yad Vashem e se puseram publicamente contra. Esta confusão de documentos e falta deles, de testemunhas, e de testes químicos provando que tem gordura humana e outros provando que não tem, são um dos mais fortes argumentos dos revisionistas do Holocausto para afirmar que a totalidade da matança de 6 milhões não existiu.

“Memorial do Sabão” em Cuba é um exemplo do que existe em vários países e em Israel: "Honrando sua memória neste lugar estão enterrados vários pedaços de sabão feitos de gordura humana de judeus, parte dos seis milhões de vítimas da barbárie nazista no século vinte. Paz a seus restos."

O Memorial dos Mártires do Holocausto do Rio de Janeiro, nunca será violado, bem como as outras centenas que existem no mundo. Assim, não podemos ter certeza de que só há sabão RIF e não outro tipo, o dos experimentos em pequena escala assumidos em julgamento pelos criminosos nazistas que o fizeram. De qualquer modo, nosso Memorial do Holocausto é um memorial geral e o sabão RIF não possuir gordura humana seria ótimo e um desfecho feliz. É um objeto simbólico da tortura psicológica a que os judeus foram submetidos, quem sabe, imaginando terem que se lavar com sabão que não limpava direito e feito com os restos de seu povo.

O filme curto original de 1947 pode ser visto abaixo.
Existem dois erros sérios em minha narração e peço desculpas. Disse que o memorial ficava em Vila Rosali Novo, e não no Velho, que é o correto, e troquei o rabino Tzikinowsky pelo Fink, que é um rabino décadas posterior. Desculpem-me.


Comentários do professor e historiador Fábio Koifman

Mais importante exatamente do que o sabão ser ou não gordura humana (ele de fato não é, mas eles não sabiam disso), na época ele foi acreditado assim e desse modo foi tratado. Daí o procedimento de enterro. O Yad Vashem foi criado só em 1953. Importante também é compreender o contexto no qual o evento foi elaborado e qual significação (política, identitária, afirmativa etc) que a comunidade judaica deu ao fato e a publicidade. 

O "mistério" quanto a segunda câmera mostrada no vídeo de 1947, relaciona-se possivelmente ao filme "Enterro do sabão de gordura humana" que passou a partir de 28.3.1949 no Cine São Carlos como complemento de outro, pelo distribuidor de filmes israelitas Jacob Dvoskin, cujo representante era Isaac Copelman e depois seguiu para apresentação em São Paulo no Odeon.

Único anúncio encontrado do filme citado pelo historiador Fábio Koifman Indicando "Enterro do Sabão de gordura Humana" no Cine São Carlos no RJ e Cine Odeon em SP. Será que algum dia será possível localizar e digitalizar esta película? Anúncio encontrado em fevereiro de 2025. O Nossa Voz era o Unzer Stime, era o mais importante jornal em língua ídiche de São Paulo, contendo, normalmente 7 páginas em ídiche, praticamente sem fotos ou artes, e a última página, em português. A imagem é montada com o expediente em português na página 8 e o anúncio que saiu no centro inferior da página 8. O jornal passa a ser publicado em 1948, dois anos depois do decreto do governo brasileiro proibindo publicações em língua estrangeira, de 1941, devido à Segunda Guerra Mundial, foi revogado. É preciso ficar claro que o governo Vargas não "proibiu os jornais em ídiche" como se nossos historiadores publicam dando um caráter antissemita arbitrário à medida. Todos os jornais que não em português foram proibidos. Existiam no Brasil jornais em inglês, alemão, francês, italiano, árabe e ídiche. Existiam até mesmo jornais em Japonês: Nippak Shimbun (Jornal Nipo-brasileiro 1916-1941) e Burajiru Jihô (Notícias do Brasil 1917-1941). Todos foram proibidos entre 1941 e 1946.

 
© José Roitberg 2013-2025- Jornalista e Pesquisador
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Publicado inicialmente na Revista Menorah edição de maio de 2013