Mostrando postagens com marcador "Primeira Guerra Mundial". Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador "Primeira Guerra Mundial". Mostrar todas as postagens

sábado, 25 de abril de 2015

HÁ CEM ANOS, 1,5 MILHÃO DE CRISTÃOS MASSACRADOS. QUEM CHOROU POR ELES?

Alguns detalhes sobre o Genocídio dos Armênios, e não o "genocídio armênio" como falam por aí:

A Al Jazeera, agência de notícias árabe-sunita do Catar -- único país que apoiou o Hamas na última guerra de Gaza -- produziu grande conteúdo entrevistando alguns armênios que foram para Istambul para a celebração dos cem anos da matança. Os árabes e os turcos-otomanos são inimigos milenares. Ambos querem ser os líderes e controladores absolutos do Oriente Médio e do mundo islâmico. Assim não surpreende ver a agência oficial dos árabes alfinetando o inimigo turco. Mas errou ao chamar de "massacre armênio" o que, na verdade, foi um massacre PROMOVIDO pelos turcos CONTRA os armênios.

Mais adiante a Al Jazeera faz um revisionismo histórico pesado ao afirmar que "os ancestrais" dos armênios entrevistados "foram afetados pelos incidentes de 1915, quando as autoridades turcas expulsaram os armênios da Anatólia e os empurraram para a Síria", dando a entender que aquela teria sido uma ação legítima e que se alguém foi morto, talvez tenha sido pelos sírios. Dizer isso em meio à atual guerra civil na Síria soa estranho.

O Genocídio dos Armênios não foi um incidente isolado no ano de 1915, mas um processo que duraria sete anos, terminando apenas em 1922, quando já não havia mais quem matar.

A FARS, agência de notícias oficial do Irã, ainda não emitiu nada sobre a data. Mas publicou hoje um pedido do embaixador da Armênia para estreitar laços com o Irã.

O G1 (Brasil) publicou um "conheça a história" com conteúdo bem preciso e informativo, mas deixou de lado o mesmo que os países católicos e muçulmanos deixam de lado há um século: o simples fato de que o Império Turco-Otomano era muçulmano (pode parecer óbvio para você, mas não é para a população em geral), que seu líder foi o último Califa (hoje temos o ISIS restabelecendo o califado), portanto líder oficial de todos os muçulmanos do mundo, e que o um milhão e meio de armênios mortos pelos turcos eram CRISTÃOS ORTODOXOS.

Há um MEDO TERRÍVEL da mídia ocidental em mostrar que essa foi a primeira grande matança de cristãos pelos muçulmanos no século 20, sem ser em combate. Até porque os turcos já haviam matado em torno de 200 mil armênios nos anos 1895-1896 em pogroms semelhantes àquele os cristãos-ortodoxos faziam contra os judeus da Rússia. Na época ninguém falou nada, como também nada falavam sobre as mortes de judeus. Isso abriu caminho para que cerca de 20 anos depois houvesse um outro genocídio, porém com métodos mais modernos e industriais: o Holocausto.

A semelhança do Genocídio dos Armênios com o que os nazistas fariam mais tarde aos judeus é impactante: Entre 1915 e 1917 o Califa assinou leis expulsando de suas casas 1,7 milhões de armênios que viviam na Turquia há séculos. Outra lei lhes confiscou todos os seus bens e propriedades. A matança se deu por várias formas: fuzilamento; enforcamento; marchas pelo deserto (morte por exaustão); confinamento em campos de concentração, onde a fome, as epidemias e até incinerações em massa dos cristãos armênios em grandes fogueiras se encarregou de lhes dizimar. Isso perdurou até 1922. Tudo isso inspirou tanto a Hitler na década de 1940 quanto ao ISIS de hoje em dia.

Ainda assim existe até hoje UMA DELIBERADA VONTADE de descaracterizar este genocídio como um massacre de cunho religioso. É semelhante ao que vemos hoje, quando as incontáveis vertentes islâmicas se massacram mutuamente todos os dias, e a imprensa e os intelectuais de plantão insistem em dizer que é tudo política e que a religião tem que ser deixada de fora.

É semelhante à Guerra da Bósnia em 1992/95, quando os sérvios cristãos-ortodoxos partiram para cima dos bósnios muçulmanos e dos croatas católicos assim que o regime comunista iugoslavo caiu, em represália ao que os muçulmanos e católicos fizeram aos ortodoxos durante a Segunda Guerra Mundial.

E você é daqueles que acham que os EUA são "islamofóbicos"? Você se recorda de que lado desta guerra os americanos e a OTAN entraram? Não lembra? Pois e eles atacaram por terra, mar e ar as tropas cristãs em defesa das forças muçulmanas. Depois prenderam as lideranças cristãs e levaram-nas aos tribunais de crimes de guerra e genocídio contra os muçulmanos, que jamais haviam pago pelas centenas de milhares de judeus e cristãos sérvios que mataram na Segunda Guerra Mundial com auxílio dos católicos croatas.

Pode parecer maluquice, mas os católicos croatas foram aliados dos alemães, compondo até mesmo uma divisão das Waffen SS. Eles até ganharam o "privilégio" de operar o campo de extermínio de Jasenovak. E foi apoiando os descendentes destes carrascos voluntários de Hitler que o democrata (assim como Obama) Bill Clinton bombardeou as forças cristãs. Então compreenda que a atual agenda pró-muçulmana americana é algo do Partido Democrata e não uma política oficial norte-americana.

11174769_632465553520420_8960896896625441350_n

A mídia de 1916 não tinha dúvida alguma sobre o que estava ocorrendo com os armênios. A Primeira Guerra Mundial foi muitíssimo bem documentada por relatos, fotos, desenhos e charges. A "Revista da Semana" (Rio de Janeiro) de 15 de janeiro de 1916 e mostra um muçulmano com feições simiescas usando um turbante decorado com uma meia lua (como no alto das mesquitas), uma grande faca na cintura e tendo em mãos uma cimitarra ensanguentada. A legenda, traduzida da publicação original no jornal italiano "L'Asino", é mais que clara: "Vou me vingando nos christãos que tenho em casa!"

Entenda: pela primeira vez desde as Cruzadas, as tropas católicas, anglicanas, e protestantes da Europa Ocidental e Oceania, além das tropas cristãs-ortodoxas russas estavam atacando o Império Muçulmano e visavam a tomada de Jerusalém (o que de fato aconteceu em 1917). Por que houve a decisão turca de matar seus cristãos-ortodoxos? Ninguém sabe, até porque os turcos se recusam até hoje a admitir o massacre. Mas pode-se especular que foi receio de ter 1,7 milhões de cristãos dentro do país apoiando as tropas cristãs que atacavam o império.

Mas aqui temos outro detalhe importante: os católicos, anglicanos e protestantes eram inimigos dos cristãos-ortodoxos. Até hoje temos o Papa Francisco, em pleno século 21, ainda às voltas com esta mesmo questão. Assim, os países expoentes destas religiões -- Itália inclusive -- venceram a guerra e pouco se importaram com o destino dos cristãos-ortodoxos armênios. A grande potência cristã-ortodoxa, o Império Russo, fora esfacelado pela Revolução Comunista. Por conta dessa contingência de fatores, os ortodoxos foram deixados de lado.

DjemalPasha genocidio armenia sem data prov 1917

O segundo cartum foi publicado no "American Jewish Cronicle", definindo que a liderança turca era igual à liderança cossaca, mostrando as casas do armênios em chamas e eles sendo tocados para frente por um soldado turco a cavalo com chicote.

genocidio armenio kaiser visita turquia

No terceiro, também do jornal italiano "L'Ansino", o cáiser Guilherme II (então imperador da Alemanha), visitando Constantinopla, é presentado pelo califa com uma cesta cheia de crânios: "Aceite-os! É uma lembrança do último massacre de cristãos". E pela janela vê-se um armênio empalado numa estaca.

GetOut genocidio armenio

No quarto, do jornal "Evening World" (Nova York), um armênio magro, esfarrapado e com uma criança faminta é posto para fora da sala por um gordo congressista norte-americano que lhe diz: "Saia! Você está partindo meu coração!"

OurWard genocidio armenio

No quinto ("Rocky Mountain News" [Denver] 1919) temos um mal encarado turco de corpo gigantesco e cabeça pequena, cujas mãos pingam sangue enquanto segura uma espada com uma criança armênia empalada. Ao fundo a Armênia em ruínas. A legenda questiona "Nossa Proteção?".

RaisingMonument genocidio armenio

No sexto (Chicago Herald), soldados turcos levantam um monumento ao genocídio, composto por uma enorme cruz cheia de cadáveres de cristãos mortos.

ViaDolorosa genocidio armenio

E por fim o sétimo, de 1922, mostrando um gigante turco com espada pingando sangue chicoteando uma massa de armênios numa marcha da morte.

© 2015 José Roitberg - jornalista e pesquisador

domingo, 29 de junho de 2014

DOIS TIROS MATARAM 60 MILHÕES DE PESSOAS

Num dia quente de junho, dois tiros foram disparados no centro da cidade de Sarajevo. Um homem e uma mulher caíram mortalmente feridos em sua carruagem. Em poucas semanas uma guerra engolfou praticamente o mundo inteiro e redefiniu o mapa e a ordem social na Europa, deixando uma marca indelével na história da humanidade.

Os impérios que foram sacudidos e derrubados na Primeira Guerra Mundial, estão para trás, apenas nos livros. Mas as forças que tornaram o conflito possível, forças como nacionalismo, disputas econômicas, alianças complexas entre países, e receio de uma potencial agressão russa, estão vivas hoje como estavam há 100 anos atrás. E as implicações destas tendências para o futuro continuam tão profundas quanto antes. A carta islâmica daquela época era o decadente Império Turco-Otomano, que controlava Jerusalém já por 400 anos. A carta islâmica atual é um EIIL e ISIS, considerados radicais demais pela Al-Qaeda, tanto que ao mesmo tempo em que aglutinam desertores da empreitada criada por Bin Laden, são atacados pelas forças formais do grupo.

No dia 28 de junho de 2014, o Arquiduque Ferdinando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro e sua esposa, a Duquesa de Hohemberg, foram assassinados durante um trajeto em Sarajevo, por Gavrilo Princip, um dos membros de um grupo de seis terroristas assassinos suicidas enviados para a missão. Foram lançadas bombas que falharam e Princip resolveu atirar nos herdeiros do trono. Eram cinco sérvios e um muçulmano da Bósnia, cujos territórios estavam ocupados pelos austro-húngaros. A repressão foi brutal e países começaram a se alinhar, enviar tropas e lutar uns contra os outros a partir de tratados assinados anteriormente e posteriormente ao início da guerra.

A existência da Primeira Guerra Mundial levou a Alemanha a enviar para a Rússia, Kerensky, Lenin e outros revolucionários maximalistas (posteriormente comunistas) que se abrigavam exilados em seu território, com a finalidade de realizar uma revolução e remover as tropas russas da Frente Oriental, permitindo as potências centrais se concentrarem na guerra contra a Europa Ocidental. Isso ocorreu em outubro de 1917 e deu origem ao comunismo de estado com a União Soviética.

A união entre soviéticos e alemães imperiais, depois alemães nazistas só é rompida quando Hitler decide invadira a União Soviética em 22 de junho de 1941, data curiosamente próxima ao 28 de junho que marca o início da Primeira Guerra Mundial.

Aqueles dois tiros, na verdade, mataram pelo lado da Entente (consideramos os aliados: França, Inglaterra, Bélgica, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Itália, Rússia, Portugal, Japão, Brasil e outros), entre 4,8 e 6,3 milhões de soldados, 777 mil civis (ações militares e crimes de guerra), 2,5 milhões de civis de fome e doenças. Além disso, em torno de 12 milhões de soldados foram feridos. Não se sabe quantos vieram a falecer dos ferimentos nos anos seguintes.

Pelo lado das Potência Centrais (Áustria, Hungria, Alemanha, Turquia e outros), foram mortos entre 3,4 e 4,3 milhões de soldados, 1,6 milhões de civis em ações militares e crimes de guerra, cerca de 2,2 milhões de civis de fome e doenças, além de 8,5 milhões de soldados feridos. No bojo da Primeira Guerra Mundial, o Império Turco-Otomano decidiu praticar o genocídio da população cristã-ortodoxa armênia que habitava seu território, como estratégia pública e publicada, na época, de reação contra as tropas "cristãs" da Inglaterra, Austrália e Nova Zelândia que atacavam o Império não só na Palestina como no litoral da Turquia. Turcos e alemães, inclusive soldados judeus de ambos participaram da defesa e derrota na Palestina, onde Jerusalém passou ao domínio "cristão", pelas tropas inglesas, incluindo unidades judaicas, pela primeira vez desde a última Cruzada derrotada na região.

O total do conflito é de 19.589.982 mortos e 23.674.204 feridos. Apesar de assustador, é menos da metade dos mais de 50 milhões de mortos na Segunda Guerra Mundial.

A Primeira Guerra Mundial, foi amplamente documentada em mapas, fotos, artes, caricaturas e textos pela mídia brasileira diária e semanal.

Mas não foi só o combate e a doença provocada pelas trincheiras que matou durante esta guerra. Em 4 março de 1918 foram detectados os primeiros casos da Gripe Espanhola, uma Influenza A subtipo H1N1 em Fort Riley, no Kansas. No dia 11, os primeiros casos foram registrados no Queens, em Nova Iorque e em abril, as tropas francesas, britânicas e americanas, em portos franceses começaram a cair. Em maio a Grécia, Portugal e Espanha foram atingidas. Em junho os Países Baixos e a Suécia. Todos os exércitos no conflito contraíram a doença e os comboios marítimos as levaram para todo o mundo. 80% das mortes da marinha norte-americana foram por esta gripe e 98% das mortes na marinha brasileira, também.

Até hoje não se sabe o que a causou. Vários cientistas acreditam que as condições terríveis das trincheiras europeias propiciaram uma mutação do vírus da Influenza, para algo devastador com uma taxa de mortalidade de 8%. A primeira fase da Gripe terminou em agosto de 1918. Mas o inverno no hemisfério norte trouxe um novo avanço que terminou em janeiro de 1919. Uma quarta etapa da gripe começa em fevereiro e termina em maio de 1919. Metade da população do mundo contraiu o vírus e 40 milhões de pessoas morreram. Isto eleva o total de mortos devido à Primeira Guerra Mundial à cerca de 59,5 milhões de pessoas.

Na segunda onda, em setembro de 1918, retorna ao Brasil o navio Demerara que é apontado como o portador do vírus. A epidemia atinge nossa nação e deixa 300.000 mortos, entre eles o presidente da república, Rodrigues Alves.

Em nossos cemitérios, inclusive os judaicos, a linha "1919" é especificamente longa, mostrando que os judeus foram vítimas da pandemia de forma semelhantes aos outros grupos étnicos.

Talvez você não saiba de nada disso. Então, é provável que nunca tenha ouvido falar da participação dos judeus na Primeira Guerra Mundial, que considero "A Guerra dos Judeus", pois foi a única em que judeus mataram-se nacionalisticamente defendendo seus países de origem ou de naturalização (principalmente das Américas e Oceania). Há uma matéria bastante completa sobre esta questão em http://roitblog.blogspot.com.br/2013/12/1914-1918-guerra-dos-judeus.html

sábado, 7 de dezembro de 2013

1914-1918 - A Guerra Dos Judeus

Primeira Guerra Mundial? Onde estavam os judeus? O que fizeram? Combateram? Foram perseguidos? Para quem se interessa pelo Holocausto, a resposta está na ponta da língua: dos 500 mil judeus alemães, 100 mil participaram da Primeira Guerra Mundial e 12.000 morreram. E se dissermos que estes 100.000 judeus alemães não significaram nem 20% dos judeus que combateram pelas Potências Centrais (Império Austro-Húngaro, Alemanha, Bulgária, Império Turco-Otomano)? E se mostrarmos que 1.500.000 (um milhão e meio) de judeus estiveram em armas naquele período, receberam treinamento, participaram de combates e ações militares? Onde estavam os europeus deste contingente, 22 anos depois, quando a força das armas e o treinamento militar poderiam ter feito a diferença ao se depararem com a sanha nazista?


A grande decepção reside no fato dos que querem estudar o tema ou conhece-lo mais, nada encontrarem sobre o assunto nos livros didáticos ou históricos. Não há livros escritos pelos ex-combatentes de nenhum país. Não há quase nada na internet. Não há livros escritos pelos comandantes judeus na Primeira Guerra Mundial. Os que combateram e imigraram depois, deixaram de lado sua formação e o combate. A Primeira Guerra Mundial foi tão terrível que praticamente todos decidiram não contar nada. Os poucos relatos fiéis existentes são os das citações oficias das medalhas, em todos os países, pois resumem a ação heroica que levou à sua concessão. Na imprensa judaica carioca não há uma linha sequer sobre os judeus que combateram na Primeira Guerra Mundial e sobre os imigrantes ex-combatentes posteriores. Na imprensa geral há material sobre os judeus e sobre os brasileiros envolvidos: uma outra história mais complexa.



 AJEX - Association of Jewish ex-Service Men and Women Inglaterra.
Foto de Ronaldo Gomlevsky

Os ex-combatentes judeus na América Latina, não formaram associações. Na Inglaterra, EUA, Canadá e Alemanha, formaram, mantém museus (menos na Alemanha) e tem sua história preservada. É exatamente de um jornalista judeu norte-americano, chamado Bernard Postal, quem vem os dados a seguir. Este homem assinou uma matéria sobre o assunto, publicada no Canadian Jewish Chronicle,  já impresso quando aconteceu a "Noite dos Vidros Quebrados" em 9 de novembro de 1938. Para o dia seguinte, estavam marcadas comemorações em toda a Europa, pela derrota alemã de 20 anos antes. A "Noite dos Vidros Quebrados" também foi uma arma da propaganda nazista para mostrar ao mundo a força do regime e varrer as comemorações tão antecipadas e programadas em todas as capitais aliadas. Funcionou de fato. Postal levou alguns anos recolhendo e classificando dados oficiais para podermos, hoje, reescrever a história. Ao longo de sua vida, Postal teve vários cargos importantes, como o de diretor de relações públicas da B'nai Brith americana ao longo de toda a Segunda Guerra Mundial e outros.


Em 1938 Postal derrubou uma noção arraigada de que os judeus do século 19 e início do 20, não pegavam em armas e pegar em armas seria um reflexo da necessidade da luta sionista pela existência e manutenção de judeus na Palestina e depois, do Estado de Israel. Em alguns países das Potências Centrais os judeus não podiam chegar ao oficialato. Na Rússia ainda estava em vigor o serviço militar obrigatório de seis anos para os primogênitos judeus. A saber, antes, era de 25 anos - uma sentença de morte ao completar 18 anos de idade. Por outro lado havia clubes de tiro e esgrima judaicos a ponto das medalhistas de ouro e prata da esgrima na Olimpíada de 1936 em Berlim, terem sido duas judias: uma húngara e outra alemã.


 AJEX - Coronel Cohen. Foto de Ronaldo Gomlevsky

A Primeira Guerra Mundial mobilizou 65 milhões de homens de 16 países. Um milhão e meio eram judeus! Praticamente 10,7% do total da população judaica do mundo. Se reduzirmos isso somente aos homens, teremos 20% da população masculina. Se adotarmos uma pirâmide populacional normal e genérica onde uns 35% da população masculina estava em idade para serviço militar, então o número fica assustador: em torno 57% dos homens judeus em idade militar participaram da Primeira Guerra Mundial. Então, como é que fica na história e na memória, que os judeus não estavam lá? De cada grupo de 10 judeus entre 18 e 40 anos de idade, mais de 5 estavam em farda e armas!

“Culto Judaico no Campo - Rabino de Campo Dr Sondeling de Hamburgo - Autorizado pelo Comando de Sua Majestade o Kaiser Alemão - em 29/30 de setembro de 1914” É um cartão postal alemão que mostra oficiais e soldados judeus alemães na cerimônia de Rosh Hashaná de 1914


Logo após os primeiros combates em 1914, os imigrantes não naturalizados no Brasil, que eram reservistas, foram rapidamente para seus países na Europa. Entre 1915 e 1918, várias levas de reservistas naturalizados e de voluntários brasileiros descendentes de cada país envolvido foram combater na Europa, inclusive judeus franceses e provavelmente judeus alemães. Até o fechamento desta edição a embaixada da Alemanha no Brasil ainda não havia conseguido entregar dados corretos sobre os brasileiros que combateram pela Alemanha. O arquivo da associação dos ex-combatentes franceses, foi destruído no mesmo desabamento de edifício que destruiu a nossa biblioteca Hatchia em 1957, mas o mausoléu dos cariocas mortos em farda francesa está lá no cemitério São João Batista, a e lista de nomes judeus é significativa. Não havia imigrantes norte-americanos no Brasil, exceto um ou outro comerciante e os ingleses já estavam há mais de 100 anos Brasil e eram apenas brasileiros. O governo do Catete nunca interferiu na ida destes reservistas, naturalizados ou não, para o combate na Europa.


No mausoléu da AFAC - Associação Francesa dos Ex-Combatentes, no cemitério São João Batista no RJ temos a lista de franceses que foram do Brasil combater na Europa e de brasileiros da Legião Estrangeira que tombaram na Primeira Guerra Mundial. Todos receberam a Legião de Honra postumamente. Os judeus com nomes óbvios listados são: Artur BLOCH, Pierre BLOCH, Marcel BLOCH, Jaques FRANKFORT, Isaac MARX, Emile SCHUSTER, René SCHUSTER, Manuel LIPPMANN, André ROSENTHAL, Leon CIESIEELSKI, e Richard SASSO.


Na Segunda Guerra Mundial temos apenas sete franceses neste mausoléu, e dois judeus Georges SCHTINBERG e Michel WIEDMANN.




Os jornais de época sempre faziam matérias com os que voltavam da frente de batalha de licença, e depois retornavam à carnificina que empolgava a maioria do mundo. Além dos oficiais da Marinha e do Exército brasileiro que participaram como adidos aos diversos comandos na Europa, tivemos diversos oficiais que comandaram tropas, e combateram nas trincheiras, e até mesmo nos céus. Ainda contaremos melhor a história de vários destes homens que representavam nossas forças armadas e chegaram a postos de comando. Vários dos voluntários brasileiros chegaram ao oficialato, como um rapaz italiano do Rio de Janeiro, que ganhou suas divisas de tenente nas batalhas e depois foi transferido para a força aérea italiana, combatendo os aviões austríacos.


15-agosto-1914 - Reservistas franceses no Cais Pharoux (ao lado da Estação das Barcas na Praça XV, embarcando para a França no navio La Plata. Os jornais não publicaram nomes, mas é possível que alguns dos judeus e alguns dos mortos em combate estejam nesta foto publicada pela Revista da Semana (do Jornal do Brasil).


Dos 65 milhões de homens, as Potências Aliadas mobilizaram 42 milhões e as Potências Centrais mobilizaram 23 milhões. Vestiam uniformes representando uma população de 1 bilhão de pessoas. A população judaica no início da guerra era estimada em 14 milhões. E até o final dela, 13.500.000 viviam nos países envolvidos. Perto da metade destes judeus ficou presa na Europa Oriental onde os exércitos ficaram engajados durante todo o conflito. Naquele momento, havia 2 milhões de judeus na Polônia russa, 1 milhão de judeus na Galícia austríaca e nada menos que 3.500.000 de judeus nas quinze províncias russas que compunham o Pale of Jewish Settlement, ou Zona de Assentamento Judaico, criada pelo Império Russo, como zona-tampão entre suas terras principais e o Império Austro-Húngaro. Onde os combates aconteceram na frente oriental.

Mlawa, Polônia, oficiais e soldados judeus do exército russo pouco antes da WW1


Considera-se que o sofrimento destes 6.500.000 milhões de judeus não foi diferente do sofrimento da população em geral nas áreas ocupadas pelas Potências Centrais na Polônia, Bélgica e na França. As populações civis ficaram a mercê de furtos, roubos, agressões, deportações, assassinatos sem motivo e estupro pelos invasores e algumas vezes por exércitos aliados de etnias diferentes.



Os judeus russos e poloneses sofreram nas mãos das tropas alemães e austríacas. Os judeus da Galícia austríaca sofreram nas botas do soldados russos. Mas há um agravante, um sinal que não foi compreendido e é ignorado até hoje. Durante a Guerra houve pogroms (ataques contra vilas, cidades e bairros judeus organizados pela população civil ou por tropas, com ou sem apoio de soldados e policiais locais) especificamente dirigidos contra os judeus na Europa Oriental - um prelúdio da matança que se iniciaria em 1941. Estima-se que 50.000 civis judeus foram massacrados em centenas de ações violentas e nem é possível estimar o número de feridos e de estupros. Outros 100.000 judeus da Europa Central morreram em consequência da falta de alimentos e de doenças durante a guerra. Os números não são nem exatos nem definitivos: são os números oficiais divulgados em 1938 e para os quais ninguém liga. Nunca foram divulgados ou pesquisados os números de civis judeus mortos na Europa Ocidental durante a Guerra. Esse é um cenário que compõe a necessidade dos judeus saírem da Europa e Rússia após a guerra criando uma fortíssima onda de imigração nas Américas. Também não há contabilização dos mortos na sequência guerra, na Gripe Espanhola.

Entre os 42 milhões de soldados Aliados, 1.055.600 foram judeus, ou seja 2,5% do total entre uma população onde os judeus somavam apenas 1% da totalidade. As Potências Centrais mobilizaram 450.500 judeus, 350.000 a mais que aquele conhecido "número 100" da Alemanha. Entre os judeus mobilizados por países aliados, temos: Rússia 650 mil (inclui Polônia e todos os países do Pale), Estados Unidos 250 mil, França 55 mil, Império Britânico 50 mil, Romênia 38 mil, Itália 6 mil, Bélgica mil, Sérvia e Grécia 1.200 cada. No Japão e Montenegro não havia judeus e os poucos judeus de Portugal não foram recrutados, apesar de alguns voluntários terem servido como oficiais.

No Brasil não encontramos registro de militares judeus brasileiros participando da WW1.

Nas Potências Centrais os judeus convocados se dividiram em: Áustria-Hungria 320 mil, Alemanha 100.000, Turquia 18.000 e Bulgária 12.500. Em termos percentuais, as potências centrais, que temos como "inimigas", recrutaram judeus e não judeus na mesma proporção da sociedade. Já os aliados, os "amigos" recrutaram judeus com uma proporção entre 30% e 90% maior que a sociedade em geral, mas as maiores porcentagens são as dos países que recrutaram menos judeus. Nos EUA, o índice de judeus é ligeiramente maior, pois houve uma enorme quantidade de voluntários.

Pessach de 1919 em Jerusalém. Estes são soldados judeus do exército inglês que lutaram no Oriente Médio em 1917-1918. O fotógrafo escreveu a assinatura dele em hebraico à direita e no barrete turco do soldado em primeiro plano "Pessach Israelitas", também em hebraico.

Na morte, as coisas foram mais igualitárias e o número de judeus mortos é impressionante: 11% entre os Aliados e 12% entre as Potências centrais. Só entre os russos foram 100 mil militares judeus mortos (número que inclui os combates da revolução comunista de 1917), outros 9.500 entre os franceses, 2.400 britânicos, 500 italianos, 3.400 americanos, 900 romenos, 250 sérvios, 125 belgas e 300 gregos. Um total de 117.375 soldados judeus mortos. Nas Potências Centrais, foram 12 mil alemães, 40 mil austro-húngaros, mil turcos e mil búlgaros, um total de 54.00 judeus mortos. Somando os civis contabilizados, chegamos a cerca de 322.000 judeus mortos na Primeira Guerra Mundial, com uma estimativa baixa. Não há dados sobre o número de feridos nem os que morreram depois em consequência de ferimentos.

9 de AV 5678 - 28/jul/1918 - Soldados ingleses judeus no recém libertado Kotel (Muro das Lamentações) em Jerusalém. Os poucos judeus sentados no chão indicam que a situação estava longe de ser normal. A Batalha de Jerusalém ocorreu entre 17 de novembro e 30 de dezembro de 1917. Tropas inglesas, australianas, indianas e neozelandesas derrotaram tropas turcas e alemãs. No total, a luta pela Palestina vitimou 18.000 Aliados de 25.000 homens das Potências Centrais. Praticamente nenhum ocidental compreende que os muçulmanos venceram as Cruzadas e que o Catolicismo Vaticano perdeu. Jerusalém ficou sob domínio muçulmano ininterrupto de 1500 a dezembro de 1917, quando católicos anglicanos britânicos comandados pelo General Allemby, expulsaram os muçulmanos sunitas de lá.

Cemitério Militar da Primeira Guerra Mundial no Monte Scopus em Jerusalém


ESTADOS UNIDOS


Para finalizar, alguns dados americanos impressionantes: 30% dos judeus se alistaram para os Fuzileiros Navais (Marines), quando se anunciou que seria a tropa de primeiro combate e 3,4% dos fuzileiros eram judeus, dos quais 100 eram oficiais, inclusive seu comandante, o brigadeiro-general H. Lauchheimer. 7% da Força Aérea era composta por judeus. No total os americanos tiveram 6 generais judeus, mais de 100 coronéis, mais de 500 majores, 1.500 capitães e 6.000 tenentes. Na marinha foram mais 900 oficiais judeus. Não menos de 1.100 medalhas de valor foram entregues a judeus americanos: 723 pelos americanos, 287 por franceses, 33 pela Inglaterra além de outras 46. A maior comenda americana, a Medalha de Honra do Congresso foi dada a 6 judeus e a Cruz de Serviços Distintos, a 150. A Medalha Militar Francesa (sua maior honraria) foi concedida a 4 judeus americanos e Cruz de Guerra, a outros 174.


INGLATERRA


A Inglaterra teve 1.140 oficiais judeus. Nos domínios britânicos (diversas áreas coloniais menores) viviam 17.000 judeus e 2.000 deles foram para a guerra. Na Austrália havia 80.000 judeus e 6.000 foram para a guerra. Da Índia serviram 100 judeus. Os judeus britânicos deixaram no campo de batalha 334 oficiais e 2.091 soldados mortos. Outros 6.800 foram feridos.

Dois ativistas sionistas, cujos nomes são hoje bem conhecidos e identificados com a “direita judaica”, Joseph Trumpeldor e Vladimir (Ze'ev) Jabotinsky, foram decisivos na criação de unidades de combate apenas de judeus nos exércitos britânicos. A primeira foi o Corpo de Mulas Zion (de transporte) em 1915, que serviu na batalha de Galipoli, contra os turcos. Depois, Jabotinsky conseguiu a criação dos batalhões 38th, 39th e 40th do Fuzileiros Reais. Foram coletivamente chamados de Legião Judaica. Na foto, Jabotinsky é o terceiro da direita para a esquerda na fila central com os braço cruzados. Esta é uma foto 16th Pelotão  do Batalhão de Londres, durante treinamento em 1917. Iriam se juntar ao 38th. A bandeira com duas estrelas de Davi e a Union Jack no centro era normal para os batalhões de judeus britânicos.



FRANÇA


Nos exércitos franceses, havia 40.000 judeus da Europa e outros 15.000 das colônias: Argélia, Tunísia e Marrocos. Mas na França, residiam 30.000 judeus russos, romenos e turcos e 12.000 deles foram voluntários na Legião Estrangeira, lutando contras seus próprios países de origem: 2.000 morreram. Estes são alguns dos números oficiais de uma guerra mundial onde judeus combateram em todos os países, mataram-se nacionalisticamente e com orgulho, mas tiveram sua memória varrida da história, dando a impressão de que os judeus nunca estiveram lá.

OS ARGENTINOS DESAPARECIDOS



Mas em 9 de outubro de 1918, chegaram ao Rio, de passagem, 52 voluntários judeus uniformizados do 52o Batalhão de Caçadores do exército argentino. Só que a Argentina nunca declarou guerra à Alemanha e não se sabe o que foi feito destes homens. É provável que tenham ido para a Legião Estrangeira francesa. O jornal "A Epoca" é contundente: "Foi de uma imponência fóra do commum a manifestação de carinho promovida pela colonia israelita aos voluntários seus patrícios vindos de Buenos Aires... A Associação Sionista do Rio de Janeiro preparou uma acolhida digna aos destemidos voluntários que desembarcaram em meio das mais vivas acclamações." Foi uma recepção que surpreendeu a cidade.

Existe o mito da pobreza dos imigrantes, mas não desta leva da primeira década, tanto que a comunidade compareceu no porto com 132 automóveis, próprios e de aluguel (seria sem precedentes até mesmo nos dias de hoje) "muitos com bandeiras dos alliados e outros com as de sociedades israelitas." Levaram os soldados judeus do Cais do Porto para a sinagoga Tiferet Sion, dirigida pelo emblemático David José Perez. No salão da sinagoga foram recebidos por parte da comunidade, cantaram "Hatikva" (letra antiga) em conjunto. Em nome dos judeus árabes do RJ, discursou em árabe o "sírio sr Aron Atia" que cantou com todos o "Hymno Israelita" (não sabemos o que possa ser).

Os jornais nos deixam conhecer os nomes de alguns destes judeus. Falaram pelos voluntários argentinos o soldado Gustavo Adolpho Buhler, o tenente Wladmir Herman e um jornalista judeu chamado D. M. Menchez, engajado como soldado. Também falaram os outros membros da diretoria da Tiferet Zion: Jacob Schneider, Sinnai Faingold, Boris Tcholrnei e Tuli Sensler. 

Após o Brasil sair da neutralidade houve várias campanhas de arrecadação de fundos para a Cruz Vermelha. A Companhia Israelita de teatro de H. Starr promoveu eventos beneficentes. A Sociedade Beneficente e Funerária Israelita (das Polacas) e a União Israelita levantaram fundos entre a comunidade e os enviaram à Cruz Vermelha.


DUAS HISTÓRIAS PESSOAIS

Nos anos 1970-1980 conheci Mordka Fuks. Grande sujeito, já um adorável avozinho judeu no RJ. Quando eu ainda estava no Exército Brasileiro, ele me pegou num canto e veio conversar sobre ele ter sido cabo, na Primeira Guerra Mundial. Foi um dos soldados judeus poloneses. A Polônia é um dos campos de batalha esquecidos da WW1, pois o ocidente se concentra no que o correu na França e na Turquia. Pois bem, o jovem Mordka, já tendo serviço militar estava no primeiro grupo de reservistas recrutados e como era um pouco mais velho que os recrutas, foi promovido a cabo. Nem só de frente de combate vive-se numa guerra. Morka Fuks comandou uma pequena guarnição de polícia militar polonesa encarregada da segurança de uma estação de trem no meio do país. Quatro anos de serviço de guarda.


Ao publicar esta matéria surgiu a interessante história do avô de Marcia Salomão. Ele foi enfermeiro de combate no exército russo. Foi ferido duas vezes, seus familiares mantém as medalhas recebidas pelos ferimentos e também por bravura sob fogo inimigo. Por vezes imaginamos que as potentes balas de fuzil da Primeira Guerra Mundial eram fatais. Mas nosso enfermeiro russo, primeiro tomou um tiro no peito eu lhe atravessou um pulmão. Foi resgatado levado a um hospital de combate onde foi operado e perdeu o pulmão. Depois de se recuperar voltou à linha de frente para continuar socorrendo seus companheiros russos e acabou por levar um segundo tiro, desta vez, no joelho, o que o impediu de voltar ao combate uma terceira vez. Ao imigrar para o Brasil, inventou uma história para amigos e parentes, para sua nova família. Que se saiba, nunca apareceu em público sem camisa, pois o ferimento no peito, nas costas, e a cirurgia em hospital de campanha Devem ter deixado marcas profundas.

Quanto ao joelho, afirmava que era manco por um defeito de nascença. Viveu uma longa, feliz e profícua vida e contou a história ao seu filho, apenas pouco antes de falecer, ocasião em que lhe passou as medalhas. É um exemplo claro de um herói judeu da Primeira Guerra Mundial, que combateu sem armas, arriscando a vida o tempo todo para resgatar seus companheiros atingidos e tendo tanto patriotismo que voltou ao campo de batalha após um ferimento gravíssimo. Mas como podemos cobrar deste cabo enfermeiro que não tenha contato o que viu? Você pode imaginar o que ele viu? Seus companheiros morrendo o tempo todo, seus companheiros aos pedaços, sua luta diária para conseguir manter este ou aquele amigo vivos até chegar ao hospital de campanha. E os horrores do atendimento médico feito sem higiene, em meio à lama, os gritos, os suspiros de morte, o cansaço terrível? Não há de fato como contar e apenas pessoas muito especiais podem sobreviver à batalha e depois aos pesadelos da guerra.

OUTRAS FOTOS DE MILITARES JUDEUS NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL


 Herman Struck primeiro-tenente alemão, judeu na WW1

 
 1917 - quarto dia de chanucá para um grupo de soldados judeus norte-americanos em algum lugar na França, WW1

1918, antes de Pessach, enorme carregamento de matzá para os militares judeus
da Divisão 77 da Força Expedicionária Americana.


 Cartaz de mobilização civil da principal associação beneficente judaica dos EUA. "Quando nós passamos por tudo isto, precisamos da ajuda e conforto que vocês puderem nos dar". Curiosamente esta campanha estava marcada para ser iniciada no dia em que a guerra acabou, 11 de novembro de 1918.

Num posto de comando de campo do subsolo de trincheira alemã, o oficial ao telefone é o filósofo e teólogo judeu Franz Rosenzweig (1886-1929), um dos mais importantes intelectuais judeus do pós WW1.


 
Ao centro com talit branco e atrás de uma pequena mesa, está um rabino capelão judeu do exército austro-húngaro, celebrando um serviço religioso para prisioneiros russos judeus.


1916, sétimo dia de Chanucá celebrado por um enorme número de judeus, oficiais, sargentos e soldados alemães na Polônia.

Oficiais e soldados judeus alemães numa IGREJA para o Yom Kippur de 1914 na França. Podemos ver vários deles com talit sobre os uniformes e dois deles segurando rolos de Torá pequenos, muito normais como 'portáteis' para uso de tropas em combate, junto a mesa onde está o rabino capelão. Na coluna da igreja vemos um pano típico de ficar na frente de um aron a kodesh, o armário onde ficam os rolos da Torá. Note que a cerimônia não está sendo realizada no púlpito. Acima, à direita, a janela destruída pela artilharia dá o tom de foto de guerra real.

Yom Kippur de 1915 para oficias e soldados judeus alemães numa sinagoga em Bruxelas, na Bélgica. Em destaque o rabino capelão Stellv Baum, de Colônia.

 Hans Loevinson, judeu alemão foi convocado para a WW1 e se tornou médico de combate. De 1920 até a proibição dos judeus no teatro, por Hitler,
foi um dos principais atores judeus alemães.

 Ao centro na segunda fila, baixinho e de barba, está o capelão rabino Arnold Taenzer. Quatro oficias seus companheiros do exército alemão estão sentados dois de cada lado. Um terceiro oficial, está de pé, vestido com um casaco militar de couro. Pode-se notar à direita um jovem soldado segurando um paninho branco que parece esconder algo de pequenas dimensões. De fato o soldado está segurando a matzá utilizada para o Pessach de 1915, celebrado por este grupo de soldados judeus alemães, em campanha na Bielorrúsia, mais exatamente na cidade de Pinsk.

Rudolf Menzel (1889-1972) em seu uniforme de oficial do exército austro-húngaro aos 17 anos de idade. Depois da WW1 estudou medicina na Universidade de Viena, tornou-se médico, sionista e entendeu que as coisas estavam péssimas para os judeus na Europa com a ascensão de Hitler. Em 1935 imigrou para a Palestina do Mandato Britânico com sua esposa. Atuou como médico na Palestina e depois em Israel, até sua morte em Haifa.


Cerimônia religiosa para soldados judeus franceses,
por um capelão rabino francês durante a WW1

Cartaz israelense de 1918, homenageando os soldados
da Brigada Judaica do exército britânico.

Cerimônia religiosa judaica em campo de prisioneiros da Alemanha. Todos na foto, inclusive o rabino são soldados americanos prisioneiros. É notável como lhes foi permitido conservarem seus talitim, que os levam para o combate.

Cinco capelães rabinos norte-americanos cujo nome não consta na foto original. Foto tirada durante treinamento em solo americano. WW1.

 Dois rabinos alemães não militares, conduzem cerimônia religiosa sob os olhares especificamente atentos de prisioneiros judeus russos num campo alemão. WW1.

Entrada do Memorial ANZAC (da Força Expedicionária Britânica), em Jerusalém, que derrotou as tropas turco-otomanas, apoiadas por austríacos e alemães no Oriente Médio e libertou Jerusalém do jugo muçulmano, pela primeira vez, em mais de 400 anos, em novembro de 1917.

No inverno de 1918, a WW1 havia acabado já há algumas semanas antes. Nesta foto curiosa, após uma fortíssima nevasca em Jerusalém, um sargento e um soldado judeus do exército britânico contemplam o Kotel, o Muro das Lamentações.


E esta foto, acaba por ser mais curiosa ainda, pois apenas 3 anos antes, quem estava no mesmo local, orando no Kotel, Muro das Lamentações, colocando seus pedidos ou apenas sentado em contemplação eram oficiais judeus do exército austríaco.

© 2013-2017 José Roitberg - jornalista e pesquisador
Fotos da AJAX são de Ronaldo Gomlevsky
Texto publicado na Revista Menorah 650 de novembro de 2013

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O Brasil na Primeira Guerra Mundial WWI

Participação brasileira na Primeira Guerra Mundial (rev 01/nov/2014)


Navios mercantes torpedeados na costa brasileira. Militares brasileiros entrando em combate. Colônia alemã atacada. Espiões alemães presos no Rio de Janeiro. Comboios navais e militares estrangeiros no Brasil. Você está pensando na Segunda Guerra Mundial? Errou. Isso aconteceu na Primeira Guerra Mundial, a guerra que o povo brasileiro esqueceu.

Como também, a maioria esquece ou sequer foi ensinada sobre isso em nossas escolas, que o Brasil vivia uma guerra civil de quatro anos iniciada em outubro de 1912 e que iria terminar apenas em agosto de 1916. Foi a Guerra do Contestado sobre a linha de fronteira entre o Paraná e Santa Catarina. Os números aceitos para o Contestado são 10.000 soldados rebeldes, dos quais houve entre 5.000 e 8.000 mortos, feridos e desaparecidos; e 7.000 soldados do exército brasileiro acompanhados por 1.000 soldados do Paraná e 1.000 mercenários civis, entre os quais houve de 800 a 1.000 mortos, feridos e desertores.

A Primeira Guerra Mundial começou em 1914. As potências centrais, Império Alemão, Império Austro-Húngaro e Império Turco-Otomano partiram para cima da França e da Bélgica. A carnificina de soldados e o impasse foram a tônica do conflito. Para remover a Rússia do combate a Alemanha financia e envia para lá várias lideranças revolucionárias russas que viviam na Alemanha. A Rússia saiu do combate, desenvolveu sua própria guerra interna, a Revolução Russa (Maximalista, depois conhecida como Comunista), deixando de lado o massacre europeu. O último Czar foi deposto em 23 de fevereiro de 1917. E em 6 de abril os Estados Unidos saem da neutralidade e declaram guerra à Alemanha. Uma participação pouco citada é a de tropas portuguesas nos campos de batalha franceses, sob comando britânico: 7.000 baixas lusitanas semi-esquecidas na história. Também quase nada se diz da marinha japonesa patrulhando o Mar Vermelho, Mediterrâneo e parte do Atlântico em navio britânicos que já não possuíam tripulações suficientes.

Em setembro de 1916, o jornal português "O Século" noticiava o alistamento no exército de Portugal do primeiro oficial judeu, Judah Bento Ruah, sobrinho de Joshua Benoliel, fotógrafo tanto de "O Século" como de "Illustração Portugueza." O jornal cita que havia apenas mais um judeu oficial da marinha "dos mais distintos e illustrados", mas não cita seu nome. Esse alistamento foi para ir ao campo de batalha na França na Primeira Guerra Mundial. Portugal levou 30.000 homens aos campos à guerra. Judah Bento Ruah, acabou por ter uma vida fascinante e produtiva. Seguiu o trabalho em fotografia de seu tio e em 13/jan/1917 é o fotógrafo das crianças do "Segredo de Fátima", fotos das mais importantes para os católicos desde então. Depois, se formou em engenharia, trabalhou na África portuguesa, escreveu "Mestiços: Mulatos de Moçambique" nos anos trinta e também escreveu sobre relações étnicas em Ruanda. Faleceu em 1958.

Judah Bento Ruah (meio careca com terno e colete) está ao centro à direita do baixinho de óculos - foto do arquivo português

O primeiro navio brasileiro a ser afundado na WWI foi o cargueiro Rio Branco operado por noruegueses sob bandeira britânica. Navegava em águas restritas e de acordo com a visão de “regras de guerra” da época, o ataque de 3 de maio de 1916 foi considerado legítimo. Os períodos históricos muitas vezes se confundem. A neutralidade brasileira significava comerciar com bloco germânico e com o aliado. O café brasileiro era consumido pelos vários países em combate: representava 53% na pauta de exportações. A borracha participava com 26%. No início de 1917 a Inglaterra determinou um bloqueio às exportações de café alegando o espaço nos navios ser mais necessário para outros insumos exigidos pela máquina de guerra. Numa rápida reação a Alemanha autorizou seus submarinos a afundar qualquer navio numa zona restrita de bloqueio. Navios corsários alemães, naus mercantes disfarçadas e armadas com canhões, também caçavam navios cargueiros no litoral brasileiro. Alguns corsários foram abandonados em nossas costas e bocas de rios.

No início do século 20, o Brasil era tão alinhado à Alemanha que o projeto e construção da linha de defesa da Baía da Guanabara era de engenheiros alemães com canhões, cúpulas blindadas, usinas de força e até blocos de concreto pré-fabricados na Alemanha. A linha dos grandes fortes, hoje monumentos e museus, composta pelo Forte de Copacabana iniciado em janeiro de 1908; Ilha da Laje, no meio da baía, completada em 1906 e Imbuí, em Niterói, inaugurado em 1901, no fim das contas foram um desperdício, pois jamais qualquer país do século 19 para cá teve planos de nos invadir por este ponto. A Marinha Mercante brasileira, desprotegida, é que passou a ser atacada constantemente.

O Brasil permaneceu neutro até o navio Paraná, um dos maiores cargueiros brasileiros, deslocando 4.466 toneladas e carregado de café ser torpedeado por um submarino alemão na região do cabo Barfleur, na França, no dia 5 de abril de 1917: três brasileiros foram mortos. O Paraná tinha bandeira brasileira e a palavra “Brasil”, enorme, pintada no casco. O submarino ainda emergiu e disparou cinco tiros de canhão contra os sobreviventes. A reação popular ocorreu nas áreas de maior concentração de imigrantes alemães. Milhares de pessoas saíram às ruas em Porto Alegre. As manifestações ordeiras rapidamente degeneraram em ataques contra a colônia alemã. A Sociedade Germânia, o Hotel Schmidt, o clube Turnebund e o jornal Deutsche Zeitung foram depredados e queimados. Esse momento é tão significante e esquecido pois os EUA declaram guerra à Alemanha no dia seguinte.

Os jornais em alemão foram proibidos no Brasil. Em diversas capitais houve manifestações menores até o Brasil abandonar a neutralidade. Descendente de alemães e considerado germanófilo, o então Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Lauro Müller convocou uma reunião com embaixadores e representantes de outros países sul-americanos, em Petrópolis, obtendo apoio para uma tomada de posição contra a Alemanha. Poucos dias depois, a polícia descobre uma estação de rádio clandestina alemã, operando em Niterói, cuja missão era relatar o movimento na Baía da Guanabara: a saída de comboios para a Europa e a presença de navios de guerra de outros países, tornando-os alvos para submarinos e corsários.

De 1917 até o final da guerra, 22 comboios de navios mercantes, escoltados por embarcações militares saíram do Rio de Janeiro para a França. A dificuldade em obter navios de escolta levou os britânicos a transformar velhos encouraçados em escoltas de comboios, a aceitar um grupo de destróieres japoneses que operou no Mediterrâneo e ceder contratorpedeiros britânicos para tripulações nipônicas. A história destes 22 comboios brasileiros é varrida como se não tivessem existido e isso não fizesse parte das operações de guerra.

Com forte clamor popular, o governo brasileiro rompe relações diplomáticas com os países do bloco germânico seis dias depois do ataque ao Paraná. Como primeira medida, nossos portos são abertos para a navegação aliada. Rapidamente quatro encouraçados americanos são deslocados para as costas brasileiras. No mesmo decreto o Brasil confisca 42 navios alemães que estavam em nossos portos. Grande parte deles foi sabotado e suas tripulações se tornaram prisioneiras de guerra no Brasil. O contratorpedeiro Maranhão encontrou em Combari, perto de Santos, São Paulo, instalações que poderiam ser uma base para submarinos alemães. Em 20 de maio, o Brasil perde mais um navio mercante: o Tijuca, torpedeado perto da costa francesa. No dia 27 de julho o navio Lapa foi atacado com três tiros de canhão disparados por um U-Boat (submarino) alemão. Um dos navios confiscados, rebatizado de Macau foi interceptado por um U-Boat a 200 milhas da costa espanhola em 23 de outubro. Seu comandante e o dispenseiro foram aprisionados e nunca mais vistos. Em seguida o navio foi torpedeado e afundado.

Rui Barbosa, o mais importante político da oposição discursou afirmando que o abandono da neutralidade não era suficiente e questionou se a vida dos brasileiros era menos importante que a vida dos americanos, pois já tinham declarado guerra à Alemanha. A pressão do público contra a Alemanha aumenta e o presidente Wenceslau Brás declara guerra à aliança germânica em 26 de outubro de 1917.
1917 - Pres Wenceslau Bras assina a declaração de guerra à Alemanha – foto cedida para esta matéria pelo SDM – Serviço de Documentação da Marinha do Brasil

Ao longo do conflito alguns imigrantes franceses voltaram do Brasil para se alistar nas forças francesas e participaram de combates. Seu número não é conhecido. Brasileiros natos também lutaram no exército francês e sequer seus primeiros nomes têm registro. No cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, há um mausoléu para 98 destes homens, cinco deles brasileiros natos mortos em combate e vários deles judeus. Memorial da AFAC.
 
 

Já existia no Brasil a força aérea da Marinha com aviões de patrulha e reconhecimento. Oito pilotos, sete da Marinha e um do exército foram para a Inglaterra e receberam treinamento de combates, passando a ser nossos primeiros, e também esquecidos, pilotos de caça. O tenente Possolo morreu em uma colisão com um avião pilotado por um inglês, sendo nosso primeiro piloto a perder a vida. As coisas se cruzam quando nosso Grande Templo Israelita, recebe sua pedra fundamental, lançada pelo presidente da república, exatamente na esquina da rua Tenente Possolo. Completado o treinamento, nossos pilotos integraram uma esquadrilha com americanos e ingleses e participaram do conflito até seu final. Brasileiros também participaram com um hospital de campanha com 92 médicos, dez deles militares, mas todos incorporados ao exército com patentes de oficiais. Havia ainda farmacêuticos, pessoal de apoio e soldados brasileiros para a segurança das áreas hospitalares. Esse contingente foi importante quando o surto de Gripe Espanhola atingiu a população civil francesa
Alguns dos pilotos de combate da aviação naval brasileira que participaram da Primeira Guerra Mundial em foto oficial durante treinamento na Inglaterra - foto cedida para esta matéria pelo SDM – Serviço de Documentação da Marinha do Brasil

Da esquerda da foto para a direita: Lauro de Araujo, Heitor Varady, Eugenio da Silva Possolo (o tenente Possolo (morto em ação) que dá nome à rua onde funcionava do Diário dos Sports e o Grande Templo Israelita do RJ, Virginius Brito de Lamares, Olavo de Araujo, Manoel Augusto Pereira de Vasconcelos e Fábio de Sá Earp.


















Antes da criação da D.N.O.G. (Divisão Naval em Operações de Guerra), oficiais brasileiros foram enviados em missões de combate nas frotas inglesas. Um deles chegou a participar da emblemática Batalha de Jutlândia. Em terra, oficiais do exército entraram em combate. O tenente José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, comandou pelotões de cavalaria francesa de três regimentos diferentes. Um deles uma pequena unidade do 504o Regimento de Dragões, equipados com os primeiros tanques de guerra franceses: os Renaults FT-17. Ao voltar ao Brasil com o relato da nova maravilha dos campos de batalha, o país comprou um lote de 12 unidades de tanques FT-17 e o Marechal Albuquerque é conhecido como o pai das forças blindadas brasileiras.

A D.N.O.G. foi criada dia 30 de janeiro de 1918 comandada pelo contra-almirante Pedro Max Fernando Frontin (foto ao lado) como parte das forças britânicas. Seus navios eram os cruzadores Rio Grande do Sul e Bahia, os contratorpedeiros Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Santa Catarina, o tender Belmonte e o rebocador Laurindo Pitta. Este, ainda em atividade fazendo agradáveis passeios turísticos pela Baía da Guanabara. Curiosamente os encouraçados muito bem armados e submarinos modernos que o Brasil operava, não fazem parte da D.N.O.G.

Praticamente todos os navios eram de última geração, adquiridos em 1910, mas com tripulações pouco treinadas e problemas por falta de testes e uso. A D.N.O.G. recebeu a missão de patrulhar o Atlântico buscando submarinos alemães na região entre Dacar na costa africana, o Arquipélago de São Vicente e o estreito de Gibraltar, única saída do Mediterrâneo para o Atlântico. Na Primeira Guerra, a Itália e o Japão eram países aliados, mas a Turquia e todo o seu império no Oriente Médio fazia parte do bloco germânico. O efetivo era de 1.502 homens: 75 oficiais de armada, 4 médicos, 50 oficiais de máquinas, 5 oficiais comissários (intendentes), um farmacêutico, um dentista, um capelão, um sub-maquinista, 41 suboficiais, 43 mecânicos, 4 auxiliares de fiel, 702 marinheiros, 481 foguistas, 89 taifeiros, um padeiro e três barbeiros.

1918 - Pres Wenceslau Bras a Almt Frontin em foto oficial antes do embarque. Atrás vemos os assistentes do almirante, capitães-tenentes Jorge Dodsworth (esq da foto) e Manuel Bricio Guillon - foto cedida para esta matéria pelo SDM – Serviço de Documentação da Marinha do Brasil

Naquela época o oficialato era composto por brancos enquanto os marujos, sargentos e suboficiais eram quase todos negros. No dia primeiro de agosto de 1918 a D.N.O.G. inicia suas atividades, saindo do porto do Rio. Nas palavras do Almirante Frontin: “Cada homem, em cada navio, sabia exatamente o que fazer nas emergências. A guerra, na verdade, iria começar.” Na noite de 25 de agosto, patrulhando a região entre Dacar e Freetowm foi atacada por um submarino alemão. Não houve danos ou baixas.
1918 – Cruzador Bahia em ação na DNOG. Note que é um navio de guerra que sequer possui torres de canhões voltadas para a frente ou para trás, podendo atirar apenas com canhões laterais de calibre modesto, nave totalmente anacrônica para o conflito - foto cedida para esta matéria pelo SDM – Serviço de Documentação da Marinha do Brasil.




Mas 1918 foi o início da terrível Gripe Espanhola, que ceifou a vida de 20 a 40 milhões de pessoas. Os dados não são precisos devido a falta de estatística oficial em países como China e no sub-continente indiano. Os jornais brasileiros tinham notas de primeira página com o número de mortos diários vítimas da "Peste." Uma das notícias é curiosa: "Peste: ninguém morreu ontem em Niceteroy." Dá para imaginar o terror da epidemia. A frota brasileira não escapou e precisou ficar imobilizada por dois meses no porto de Dakar, onde 156 marinheiros faleceram e mais de 300 ficaram incapacitados temporariamente.

Alguns historiadores citam essas baixas como uma vergonha, como algo que pudesse ser evitado. Mas são baixas de guerra. Só como comparação, 80% das mortes da frota americana foram devidas à gripe. Nossos marujos, incluindo sete oficiais, um deles médico e quatro suboficiais foram sepultados em um cemitério específico em Dakar. Em 1928 seus restos mortais foram trazidos para solo brasileiro e estão no mausoléu aos heróis da D.N.O.G. no cemitério São João Batista, logo atrás do mausoléu da família Aranha, onde repousa o inesquecível chanceler Oswaldo Aranha. A D.N.O.G. conseguiu se juntar à esquadra britânica apenas 48 horas antes da assinatura do armistício que pôs fim à “guerra para acabar com todas as guerras”. Voltou ao Brasil após uma visita de boa vontade à Inglaterra.

Cemitério brasileiro da DNOG em Dakar - foto cedida para esta matéria pelo SDM – Serviço de Documentação da Marinha do Brasil – sem data, tirada provavelmente pela equipe que providenciou a exumação e traslado em 1928. Os restos mortais do brasileiros mortos me serviço na Marinha, na WWI estão no cemitério de São João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro (abaixo).


Compensações ao Brasil no Tratado de Versalhes

Essa pequena participação brasileira rendeu frutos pouco conhecidos. Uma grande delegação de diplomatas brasileiros participou da Conferência de Paz de Paris que deu origem ao Tratado de Versalhes, onde a Alemanha foi obrigada a pagar pesadas indenizações por ter iniciado a guerra.

Nosso representante na mesa de Versalhes foi Epitácio Pessoa. Depois seria presidente do Brasil de 1919 a 1922. Pelo Tratado, o Brasil recebeu pagamento com juros pelo café perdido com os navios afundados e ainda incorporou à frota brasileira 70 navios do bloco germânico apreendidos em águas e portos brasileiros. Na esteira dessa participação na Primeira Guerra Mundial e de sua diplomacia, o Brasil foi um dos fundadores da Liga das Nações, entidade que faliu após o Brasil se retirar dela. Após a Segunda Guerra Mundial foi recriada como Organização das Nações Unidas, também com participação decisiva do Brasil

Cidadãos brasileiros e estrangeiros no Brasil

Logo nos primeiros meses da WWI os estrangeiros e naturalizados brasileiros, militares da reserva em seus países se apressaram em se voluntariar nas embaixadas. Os diplomatas organizaram embarques destes voluntários. O primeiro grupo foi de franceses, cujos nacionais estavam em peso na sociedade do Rio de Janeiro, inclusive vários judeus. No cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro, há um mausoléu para o ex-combatente francês, onde os nomes do brasileiros tombados defendendo a bandeira da França estão eternizados. Vários dos mortos são judeus e alguns não possuem nem nome nem sobrenome francês indicando que havia brasileiros sem ligação com a França que foram à guerra. O destino de franceses e judeus franceses está intimamente ligado. Não se sabe mais exatamente sobre estes voluntários, os nomes de todos, suas patentes e seus destinos, pois em 1957 desabou um prédio no centro do Rio de Janeiro, que abrigava, entre outros, a Associação do Ex-Combatentes Franceses e a Biblioteca Bialik, que armazenava praticamente todo o acervo de documentação e fotos da imigração judaica para o Rio de Janeiro e de suas instituições. Todos os documentos, livros e fotos, foram perdidos e, lamentavelmente, 30 pessoas faleceram no desabamento, incluindo o presidente da biblioteca. Por outro lado, o dono judeu de uma confecção que ocupava um andar inteiro e tinha mais de 130 funcionárias, após o prédio estalar, ordenou que todas fossem embora para casas, o que as salvou e minimizou o número de mortes ocorridas pouco menos de três horas depois.

Sabe-se pela análise dos jornais que o mesmo perfil de brasileiro lutou pelas cores italianas e inglesas. Quando Portugal entrou na guerra, pelos Aliados, a colônia portuguesa fez vários eventos de apoio e levantamento de fundos e também enviou seus filhos para a carnificina.

Em 2015, em contado com historiadores da ABEC - Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais, foi constatado que brasileiros de origem alemã e imigrantes alemães ainda não naturalizados foram à Alemanha lutar por seu país. No Cemitério Luterano de Friburgo existem túmulos bem identificados da vários destes soldados e também túmulos de tripulantes da Marinha Mercante alemã dos navios arrestados pelo Brasil. Nos estados do Sul brasileiro, nas áreas de colonização alemã também há bom número de túmulos de germano-brasileiros que lutaram e morreram nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial. Em relação a austro-húngaros no Brasil, ainda não foi possível encontrar qualquer documentação.

Recentemente entendeu-se que russos imigrados para o Brasil, e entenda-se aí também os poloneses e algumas outras nacionalidades, e que eram reservistas, foram oficialmente recrutados no Brasil. A Gazeta de Notícias de 4 de maio de 1915, traz uma nota emblemática: "O consul russo no Rio de Janeiro publicou a 20 de abril um edital chamando ás armas os reservistas. Gozarão, dizia ele, dos favores do art. 48 da lei militar, excepção feita das pessoas da religião israelita!" Mas isso não traduzia o que acontecia em solo pátrio onde o número de judeus que serviu ao exército russo e polonês era enorme. Podemos traduzir isso como algo: estes judeus que foram embora da Rússia, que não voltem.

Se você quiser compreender e enorme vulto da participação dos judeus na Primeira Guerra Mundial, já que eles habitavam praticamente todos os países em conflito, sugiro a leitura desta outra matéria, A Guerra Dos Judeus, onde você poderá encontrar muitos dados a análise por país no conflito. Se você já ouviu falar de 100.000 judeus combateram pela Alemanha na WWI, saiba que isso é apenas a pontinha da história. No total, 55% da população adulta masculina judaica do mundo esteve em armas e uniformes na WWI.

Após o Brasil sair da neutralidade houve várias campanhas de arrecadação de fundos para a Cruz Vermelha. A Companhia Israelita de teatro de Heyman Starr promoveu eventos beneficentes. A Sociedade Beneficente e Funerária Israelita (das Polacas) e a União Israelita levantaram fundos entre a comunidade e os enviaram à Cruz Vermelha.

Os judeus brasileiros foram e voltaram (ou não) da guerra sem despertar maior interesse. Mas em 9 de outubro de 1918, chegaram ao Rio, de passagem, 52 voluntários judeus uniformizados do 52o Batalhão de Caçadores do exército argentino. Só que a Argentina nunca declarou guerra à Alemanha e não se sabe o que foi feito destes homens. O jornal "A Epoca" é contundente: "Foi de uma imponência fóra do commum a manifestação de carinho promovida pela colonia israelita aos voluntários seus patrícios vindos de Buenos Aires...

A Associação Sionista do Rio de Janeiro preparou uma acolhida digna aos destemidos voluntários que desembarcaram em meio das mais vivas acclamações." Foi uma recepção que surpreendeu a cidade. Existe o mito da pobreza dos imigrantes, mas não desta leva da primeira década, tanto que a comunidade compareceu no porto com 132 automóveis (seria sem precedentes até mesmo nos dias de hoje) "muitos com bandeiras dos alliados e outros com as de sociedades israelitas." Levando os soldados judeus do Cais do Porto para a sinagoga Tiferet Sion, dirigida pelo emblemático David José Perez. No salão da sinagoga foram recebidos por parte da comunidade, cantaram "Hatikva" (letra antiga) em conjunto. Em nome dos judeus árabes do RJ, discursou em árabe o "sírio sr Aron Atia" que cantou com todos o "Hymno Israelita" (não sabemos o que possa ser).



09-out-1918 – Publicado pelo jornal Revista da Semana – arquivo pessoal

Os jornais nos deixam conhecer os nomes de alguns destes judeus. Falaram pelos voluntários argentinos o soldado Gustavo Adolpho Buhler, o tenente Wladmir Herman e um jornalista judeu chamado D.M. Menchez, engajado como soldado. Também falaram os outros membros da diretoria da Tiferet Zion, Jacob Schneider, Sinnai Faingold, Boris Tcholrnei e Tuli Sensler.
09-out-1918 – Publicado pelo jornal A Epoca – arquivo pessoal

Dois dias antes temos um registro curioso da Sociedade Israelita Shel Geumilut Hassadim doando 250$000 "para as primeiras 25 viúvas pobres que se apresentassem" ao jornal "O Imparcial." Eram as "viúvas da peste, ou da Gripe Espanhola. A quantia foi obtida durante a festa de Simcha Torah daquele anos. Outros judeus, se cotizaram e obtiveram mais 600$000 entregues para a Cruz Vermelha na mesma ocasião.

O período da Primeira Guerra Mundial é um período importante para o Sionismo. Vários movimentos no Brasil, a Revolução Comunista, a Declaração Baulfour e a libertação da Palestina do domínio muçulmano turco. Também é um período com intensa perseguição antissemita em vários países europeu dentro e fora da guerra, começam a culpar os judeus pelo comunismo, mas isso é tema para outra matéria.

Bibliografia
PRADO, Maia. D.N.O.G. – Uma página esquecida da Marinha Brasileira. Publicação da Marinha do Brasil, 1961.
FROTA, Guilherme de Andrea. 500 Anos de História do Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 2000.
EISENSTEIN, Douglas R. . Whispers in the Wind. Xlibris Corp.
MACDONALD, Lyn. 1915, the Death of innoncence.
PARET. Henry Holt Peter. Construtores da Estratégia Moderna. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora
MARTINS, Helio Leôncio, História Naval Brasileira vol V tomo I. Serviço de Documentação da Marinha
KEEGAN, John. An Illustrated History of the 1st World War. Knopf Corp.
TAYLOR, A J P. The First World War - An illustrated history. Penguim Books
HAUTHORNTWAITE, Philip J.. A photohistory of World War I. Brockhampton press

Agradecimento ao SDM – Serviço de Documentação da Marinha do Brasil cuja ajuda e compreensão permitiu o resgate deste momento histórico com ilustrações.

© 2012 – José Roitberg – jornalista e pesquisador
todos os direitos reservados nos termos da lei