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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O que é o Naturei Karta?

O Naturei Karta é apenas um dos grupos judaicos (o mais ativo nesta questão) que se opõe ao sionismo politico. Esta oposição de alguns poucos setores hassídicos místicos é tão antiga quanto o próprio sionismo, podendo ser traçada desde as primeira décadas do século 19, quando sionistas pré-hertzilianos publicaram seus trabalhos, hoje esquecidos. Para estes setores contrários ao sionismo politico, a lógica é simples: os homens não podem criar Israel.

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Natuei Karta é uma seita judaica ortodoxa mística que não aceita o sionismo político e para os quais Israel deve ser dado pelo Messias e não criado pelos homens

Para os judeus antissinistas ortodoxos, o Estado de Israel tem que dado aos homens pelo Messias e ponto final. Estes setores alegam que a criação de Israel pelos homens afasta a vinda do Messias e, portanto, Israel político deve ser destruído, para que Israel místico possa existir. E se há 50 anos atrás, o NK juntava um punhado de membros nas ruas, hoje, somam vários milhares. Ainda assim são uma pequena seita dentro do judaísmo, repudiada por toda a ortodoxia sionista.

Naturei Karta significa Guardiões da Cidade. Qual cidade? Jerusalém. O grupo inteiro vivia em Mea Shearim até os últimos meses de 1938. Na semana seguinte à 10 de novembro, quando houve a Noite dos Cristais na Alemanha, Áustria e Tchecoslováquia, a Liga das Nações ia votar a Partilha da Palestina. A demonstração de força nazista fez com que a Partilha fosse cancelada. Prevendo que a Liga iria de fato criar o Estado Judeu, o movimento NK se dividiu. Um grupo preferiu ficar em Jerusalém para o que desse e outro não admitiu ficar num futuro Israel político e se mudou para Nova Iorque.

Tivesse havido a Partilha em novembro de 1938, teríamos tido uma Segunda Guerra Mundial sem Holocausto.

Não possuindo clero central, o judaísmo permite as mais diversas interpretações, grupos e seitas. O mais lamentável em relação aos Naturei Karta é o fato deles utilizarem como propaganda a frase afimando serem “Os Verdadeiros Judeus”, determinando assim, que todos os outros são falsos, e mais além, os representantes da maldade contra Deus e contra todas as pessoas.

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As lideranças do Natuei Karta preferem se encontrar com líderes como Ahmadinejad e hipotecar a solidariedade deles as promessas iranianas de destruição de Israel

Os membros do Naturei Karta não admitem o conceito de Povo Judeu (Am Israel), e removem do judaísmo todos os outros judeus, o que nos dá o direito absoluto recíproco, de determinar que os membros do Naturei Karta não são judues por não compartilhares dos mesmos conceitos étnicos e culturais de todos os outros judeus.

naturei karta queima bandeira de israel
Como qualquer seita fundamentalista, as crianças do Naturei Karta aprendem a odiar Israel e os outros judeus desde que nascem. Queimar bandeiras de Israel, em Jerusalém, durante as festas de Purim, é atividade normal, correta e positiva para esta gente

São muito ativos na produção de propaganda midiática das atividades deles que terminam por ser utilizadas por todos os antissemitas e antissionistas para mostras que os verdadeiros judeus, os judeus bons são antissionistas e a favor dos inimigos de Israel.

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Os antissemitas adoram as fotos produzidas pelo Naturei Karta que afirmam ser palestinos, que os judeus não são sionistas, que os sionistas não são judeus: são racistas. Ou seja, este punhado de falsos verdeiros judeus determina que todos os outros judeus são racistas

É uma situação lamentável que deveria ser repudiada abertamente por todos os outros judeus. Mas a característica democrática judaica e do Estado de Israel é tão forte que é permitido que os Naturei Karta vivam em Jerusalém apesar deles rejeitarem a cidadania israelense, as leis do país, a justiça e até mesmo a policia de Israel.

domingo, 30 de março de 2014

Clube dos Cabiras? Clube o quê mesmo?

O Rio Judeu Que o Povo Esqueceu

Como uma associação de jovens judeus que teve grande representatividade entre 1939 e 1955, com 2.000 sócios, some sem deixar rastros? Quem a frequentava com 20 anos de idade em 1955, hoje tem 78, portanto, há cabirenses quietos por aí. Alguns, certamente ativistas de outras instituições. Esperamos que este artigo os tire da zona de conforto e os permita trazer novas memórias e quem sabe, fotos, carteirinhas, estórias legais.

 

Definições equivocadas em livros anteriores

Quase tudo que abordamos nesta coluna parte dos erros publicados anteriormente pelos historiadores e tornados verdade através de sua replicação histórica em teses de mestrado e doutorado. Com o Clube dos Cabiras, não é diferente. O jornalista Henrique Weltmam, definiu na página 51 de seu livro "A História dos Judeus no Rio de Janeiro", que o Cabiras "surgiu em 1929 a partir de uma dissidência do Clube Juventude Israelita (Iuguend Bund)", criado em 1919 e terminado em 1929.

Esta é a história que recebemos e contamos até hoje: os jovens de esquerda teriam saído do ambiente sionista e foram cuidar de seus rumos e interesses. O ano de 1929 é até emblemático, mas estranho para isso. Além de termos crise econômica, é o ano dos grandes ataques contra judeus na Palestina, que aglutinaram a Comunidade.

Em seu livro "Paisagem Estrangeira", a professora e historiadora Fania Frydman situa o Cabiras na Rua Álvaro Alvim 21 (edifício Regina, existente até hoje), mas o clube, de fato ficava defronte, no número 24, onde há um prédio mais moderno, conforme consta em notas publicadas nos jornais chamando para eventos entre 1948 e 1955. Fania nos conta que em 1941 uma cisão do Cabiras formou o Grêmio Cadima (Avante) que se reunia no Hotel Elite. Quanto ao Cabiras, dá informação diferente da de Weltman. A origem teria sido um cisão de esquerda do Iidishe Iugend Haim (Grêmio Juventude Israelita). Mas este funcionou apenas entre 1928 e 1934 na rua Hadock Lobo 142. E nada mais havia sobre os Cabiras. Ambos clubes "Iugend" eram iidishistas e segundo sabemos, praticamente todos os iidishistas tinham uma alinhamento de esquerda.


Viu outras matérias e veio nos procurar

Eis que surge, o sr. David German, com seus 95 anos de idade e nos procura, por ter lido os primeiros artigos desta coluna. E David afirma: "Eu fundei o Cabiras, posso de contar tudo!" Nós o recebemos, juntamente com dra. Esther Libergot, química, ativista do clube no pós-guerra, e gravamos em vídeo o depoimento dos dois.

David se formou em odontologia e foi dentista por 60 anos. Inicialmente ele frequentava as atividades para jovens judeus na Bené Herzl, fundada em 1921, a instalada em 1929 na Rua Conselheiro Josino 14, há 50 metros de onde anos depois, em 1932 se inauguraria o Grande Templo Israelita. O prédio foi planejado pelos judeus sefaraditas para ser um Centro Judaico, com pequena sinagoga, salões, salas para reuniões e outras atividades.

Muitos "clubes" e instituições judaicas tiveram como endereço o número 14, inclusive a Federação das Sociedades Israelitas do Rio de Janeiro (atual FIERJ), de 1947.

David, que passou pela história da Comunidade Judaica dos anos 1930 até hoje, concorda que nossos historiadores "agiram politicamente e sectariamente" ao escrever suas versões do que deveria ser uma só história.

1939 e não 1929…

O Cabiras foi fundado em 30 de janeiro de 1939, dez anos depois da data aceita até hoje. Caso contrário, nosso querido David teria sido diretor aos 12 anos de idade, e teria hoje 115 anos...

O nome "Cabiras" é um dos mistérios comunitários. Seria uma corruptela de "guiborim (heróis em hebraico)", como pretendem uns? Como ficava na Bené Herzl teria algo a ver com uma região do norte da Turquia que leva este nome?

David German é categórico ao afirmar que ele e mais quatro amigos se juntaram e resolveram criar um clube judaico "porque naquela época, parece que não havia nenhum."

Havia a BIBSA - Biblioteca Sholem Aleichem, na Praça Onze, fundada sionista em 1915, mas já completamente comunista em 1939. E não era um clube para jovens. Os outros clubes, como vimos deixaram de existir anos antes.

Ao longo do século 19 e nos primeiros 60 anos do 20, o Rio de Janeiro teve centenas de clubes por afinidade em todo seu espectro social.

Os nomes sugeridos foram: Clube da Juventude Judaica Brasileira, Clube dos Judeus do Brasil, que David se lembre, além de outros. A escolha do nome ficou para a reunião seguinte, no voto. "Cheguei em casa e comecei a folhear a 'História da Literatura Universal', vi lá uma estória dos gregos com um asterisco. Fui lá e vi 'cabiras' em hebraico 'cabirim', poderosos, fortes etc. Cabiras... Bom, isso soa bem. Levei na reunião seguinte. Dei lá o nome do Clube dos Cabiras. Ah.. Pegou! É esse!" O nome foi mantido e foi um sucesso até o desaparecimento do clube entre 1955 e 1956.

Na verdade, os Cabiras gregos eram considerados como "o princípio de todas as coisas, o símbolo da geração", teriam dado origem aos deuses.

Pelo que David se recorda, além dele, fundaram o clube: David Lerner, Hoinef (não se recorda o primeiro nome), Marconi Nudelman e duas moças das quais também não lembra o nome. Todos oriundos do Colédio Sholem Aleichem. David German era o mais velho entre eles e sempre gostou das atividades sociais e teatro. Foi produtor e diretor do grupo de teatro do clube. Foram várias peças e a que o marcou foi "Jankel Boile" em 5 atos falados em íidiche só pelos jovens amadores do Cabiras: "falavam, mas não sabiam o que estavam falando e cantando. Havia dança de camponeses, uma peça mesmo. Alguns tinham uma ideia do que era. Mas a plateia, formada pelos pais, entendia o que era dito," arremata David. Precisou de três meses de ensaios. As apresentações aconteciam em teatros alugados e não no salão da Bené Herzl. Normalmente as peças tinham apenas duas apresentações devido ao custo do aluguel dos teatros. Apenas duas peças foram produzidas em íidiche, as outras eram em português. Boa parte delas era teatro infantil.

cabiras web 1Elenco da peça “Não Consultes Médico”, encenada pelo grupo de teatro do Cabiras. O elenco está sentado e da direita para a esquerda temos a diretoria dos anos iniciais: David German (com charuto), Max Goldkorn, Isaac Jaimovich, Abraão, Jaime Tiomno, Jaques Gutemberg e Marconi Nudelman. 

Como David Guerman era da direção do Cabiras e frequentava ativamente aquela região, ele pôde nos dar um testemunho precioso sobre a interação entre sefaraditas e ashkenazitas, separados por 50 metros, veja: "A parte da juventude, social, que estava no Bené Herzl não tinha nada a ver com as festividades judaicas. Ali era só dos sefaraditas, onde eles rezavam etc. O Clube dos Cabiras alugava a sede do Bené Herzl para as atividades dançantes, palestras, conferências e tudo mais em dias certos do mês."

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Planta do segundo piso da Rua Conselheiro Josino 14, Bené Herzl

A planta original deste prédio ainda existe sabemos que a sinagoga de uso diário ficava à esquerda de quem subia as escadas com apenas 15 metros quadrados. Oposta a ela, do outro lado da escada um espaço semelhante designado como "buffet". A pequena sinagoga se justifica, pois as outras sinagogas sefaraditas estavam em plena atividade em várias partes da cidade. A Shel Guemilut, naquele momento histórico ficava na rua Francisco Muratori 33 (de 1935 a 1949 - o prédio ainda existe) a cerca de 15 minutos de caminhada da Bené Herzl.

O salão de festas possuía 155 metros quadrados com quatro colunas centrais quatro pequenas janelas laterais e três grandes janelas frontais com 2 metros de largura para uma. É neste salão que foram dadas dezenas e dezenas de palestras e conferências. É neste espaço que aconteceram vários bailes por ano até 1947 e onde vários casais judeus se conheceram e se beijaram pela primeira vez. Nas festas judaicas, segundo David, se colocava cadeiras no salão e ele se transformava todo em sinagoga. A função de um clube de jovens judeus de oferecer um local onde casais judeus pudessem se formar, foi plenamente satisfeita pelo Cabiras.

cabiras web 5Rua Conselheiro Josino 14, Bené Herzl alguns dias antes de sua inauguração

Os jovens judeus foram se associando. O Cabiras chegou a ter 2.000 sócios jovens judeus que iam lá para dançar e para festividades. As palestras literárias eram de alto nível, com jornalistas, escritores, senadores, palestrantes de várias partes do mundo, "mas ia pouca gente." As festas mais importantes eram de reveillon e carnaval, sempre lotadas. Paralelamente havia o Clube das Damas Israelitas (sefaradi, criado em 1929 no número 14, também) que fazia o mesmo tipo de festas e muitas delas, beneficentes. "Eu acredito que naquela época o Cabiras era o único clube onde só tinha jovens judeus", disse David. Era comum que os jovens participassem dos bailes em vários clubes.

Inicialmente as festas eram todas no número 14, mas rapidamente os bailes principais de Carnaval precisaram de espaços maiores e o enorme salão do Botafogo, era alugado anualmente. Nos anos 1950 até mesmo o grandioso espaço do High Life seria usado para o carnaval dos Cabiras. O clube também promovia concursos de dança, e David venceu um deles com sua partner (parceira), Lygia Hazan, mãe de nosso Ronaldo Gomlevky e colunista da Menorah.

Cultura, dança, diversão e alienação

O clube foi criado nas vésperas da Segunda Guerra Mundial e era de se esperar que uma associação que reunisse este número enorme de judeus para a comunidade dos anos 1940, talvez quase todos os jovens que havia, tivesse um papel destacado durante a guerra, que suas palestras, pelo menos levassem a entender o que acontecia com os judeus, mas não foi o que aconteceu. Naquele momento a Comunidade judaica tinha tamanho semelhante ao atual. Mesmo nos dias de hoje, vemos as instituições culturais judaicas com suas fortes agendas de palestras dissociadas das ameaças aos judeus e ao Estado de Israel. São coisas que não se discutem, preferindo seus dirigentes, as amenidades da literatura, da poesia, da sociologia, da música e do teatro, coisa que os cabirenses fizeram até após a guerra.

Não há nos jornais notícias sobre o clube. Mas há dezenas de publicações de notas de divulgação de suas principais conferências, assim sabemos que enquanto os judeus eram trucidados na Europa Central, nosso jovens judeus recebiam muita literatura, música e teatro, e pouca política e situação mundial. Havia times de vôlei, basquete, ping-pong e outros esportes disputando campeonatos com outras quatro instituições judaicas.

Como historiador não me cabe julgar. Como jornalista me cabe. E nunca se sabe o que será encontrado pela frente. Então julgue você. Em 20 de dezembro de 1942, o Diário de Notícias em suas página 16, traz uma nota: "A festa esportiva do Clube dos Cabiras - O clube dos Cabiras, ora sob a ação da nova diretoria, vem, cada vez mais, ampliando suas atividades nos setores esportivo e social. Concretizando o programa traçado para mês corrente a agremiação da rua Conselheiro Josino promoverá, na manhã de hoje, em um pitoresco local da Gávea, um churrasco-dançante, sendo que antes serão realizados jogos de basquetebol, voleibol, além de provas de natação em uma praia próxima ao local da original festa. Um ônibus especialmente fretado, partirá do Hotel Leblon, às 8 horas da manhã, conduzindo a caravana de cabirenses ao recanto gaveano, escolhido para o churrasco." David acabou de ler esta nota. Provavelmente lembrou-se desta atividade e certamente sabe onde eu vou chegar.

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20 de dezembro de 1942: muita diversão durante o Holocausto

Em dezembro de 1942, já haviam sido trucidados à pauladas, golpes de barras de ferro, tiros, fogo, mortos pela fome, pelo frio e pelas doenças sem possibilidades de obter remédios, mais de 2 milhões de judeus na Europa, entre eles, muitos parentes dos judeus do Rio de Janeiro. Por anos os jornais vinham publicando o massacre de judeus e o extermínio de vilas inteiras. Poderiam ter pago uma nota de repúdio e apoio, mas nenhuma foi publicada de 1939 a 1945. Um churrasco-dançante naquele momento histórico é a demonstração de que a alienação dos problemas dos judeus que vemos hoje, havia ontem. Os filhos e netos seguem os pais.

Perguntei ao querido David o que os judeus faziam aqui durante do Holocausto ele inicialmente afirmou que não sabiam o que estava acontecendo. Confrontei-o com a informação de que tudo era publicado nos jornais, em português, quase que diariamente. E a comunidade lia? O discurso de David, muda: "Lamentava, provavelmente. O que você acha que faziam? Lamentavam entristecidamente o que faziam com os judeus. O que você acha que podiam fazer? Quando havia uma notícia mais contundente se lia no jornal e se discutia no clube e torcendo vivamente para que os soviéticos chegassem à Polônia e resolvessem a questão. Eu sentia muito e ficava revoltado com esta coisa. Mas quem é que não fica?"

As palestras sobre a temática da guerra que conhecemos hoje, são: "A questão racial no pós guerra" em agosto de 1943 pelo prof Artur Ramos, "A guerra de todas as raças"; em setembro de 1943 pelo ser Mario Martins; e "A ciência e o antissemitismo", em novembro de 1943 pelo emblemático Isaac Izecksohn. Em 1944 o Cabiras se incorpora à Liga de Defesa Nacional junto com outras dezenas de agremiações de jovens do Rio de Janeiro.

Clube da esquerda comunista, ou não?

O Cabiras tinha tendência esquerdista e teve problemas durante o Governo Vargas, exatamente quando foi fundado e cresceu. E David começou a nos explicar como isso funcionava. "Eu nunca tive cor política. Ah, são sionistas? Eu faço isso para eles. Ah, são comunistas, eu faço isso para eles. Para mim tanto faz um ou outro. Eu quero fazer o que eu gosto de fazer (teatro). Os sionistas são judeus, os esquerdistas são judeus, eu trabalho pros dois."

"O Clube dos Cabiras foi taxado como clube comunista, clube da esquerda. Alguns diretores é que levavam a coisa politicamente. Mas do ponto de vista social, associativo, ninguém sabia de nada. Tem baile? Tem. Tem conferência? Tem. Tem isso, tem aquilo. Não tinha uma mácula comunista em todas as atividades. Nunca!", afirmou David German e continua, "a cor que alguns comunistas da diretoria davam ao clube, não transparecia. Eu não vi nada. Eu não senti nada. Conheci até muitos sionistas. Todo baile que o clube dava, ia um tal de Zimmerman, judeu, da polícia, para fiscalizar. Para polícia nós éramos um clube comunista. O Zimmerman era designado para ver o que tinha de comunista nos bailes, mas não via nada. Eu conversava muito com ele, já faleceu, e era parente de meu cunhado. Eu passava perto dele e brincava: já viu alguma coisa ruim aí?"

Esther Libergot participou de nossa conversa e disse: "Havia muitos esquerdistas. Havia uma turma sionista que se preparava para ir para Israel e outra turma que ia ficar aqui. Nunca vi nenhuma ação comunista. Mas havia um sentimento." Ela conheceu o clube já depois da guerra na fase da rua Álvaro Alvim, foi na época em que ela entrou na universidade e havia um forte movimento estudantil stalinista que só acabou após o vigésimo congresso do Partido Comunista, quando ficou esclarecido para os jovens o que tinha havido de fato na União Soviética desde 1917, "toda aquela perseguição, toda a história do stalinismo, e aí a coisa mudou. O congresso comunista realmente impactou e houve um êxodo. As pessoas abandonam o comunismo. Esse pessoal que abandonou a ideologia decidiu formar uma comunidade melhor e partiram para criar a escola, o Eliezer Steimbarg. Vendo com uma perspectiva história os grandes autores, artistas e políticos que foram falar no Cabiras eram esquerdistas. Não me recordo de um sionista tendo ido falar lá. Era o outro lado do Colônia. Que simultaneamente atuava com muita intensidade, mas eu não sei, porque nunca fui. Mas todos frequentavam as festas do Cabiras."

"A juventude judaica era divida entre sionistas e progressistas. O Cabiras era o principal centro progressista. Havia reuniões conjuntas em que os grupos degladiavam-se. No Cabiras havia um grupo que levantava os braços a faziam a saudação à Stalin - Viva Stalin - e coisa e tal.", afirmou David. "99% dos sócios estavam pouco se lixando se os diretores eram esquerdistas ou não. Mas quem carregava o clube nas costas eram os comunistas." O clube admitia não-judeus como sócios, mas eram muito poucos, geralmente namorados e namoradas de sócios.

Para comemorar seus nove anos, o Cabiras se mudou e alugou o salão da sobreloja da Rua Álvaro Alvim, 24, onde viveria o período 1948-1955. Essa é a estória contada abertamente até hoje. Mas entrevistamos também o sr Isack Hazan, filho de Salomão Hazan z’l, fundador do Bené Herzl e seu presidente por muitos anos. Foi com Salomão que o Cabiras fez seu contrato de utilização da sede e foi Salomão Hazan que, em 1947, colocou o Cabiras para fora da Conselheiro Josino 14, devido às atividades comunistas de seus diretores que atraiam a atenção das autoridades de governo e da polícia.

Na Álvaro Alvim 24 o aluguel era mensal e o clube, por sua vez, sublocava seu salão para festas de outras associações e escolas. Antes, foi o salão de outra tradicional agremiação carioca, o "Clube dos 40." Uns dizem que embaixo havia um cinema, mas não conseguimos localizar cinema ou teatro algum com a aquele endereço.

Por que o Cabiras acabou?

Dissemos acima que o Cabiras foi um clube de jovens. E este é um dos motivos para ele ter acabado. Os jovens foram crescendo se inserindo em suas profissões, foram casando, tendo filhos e passaram a ser homens e mulheres: "deixaram de ser jovens e sócios do Cabiras."

Os diretores iniciais não tinham mais tempo para se dedicar ao clube e as novas lideranças do pós-guerra eram especificamente comunistas. As novas lideranças eram compostas por jovens inexperientes e compromisso com a esquerda é evidente pelo fato de boa parte das atividades do clube, a partir de 1946, passarem a ser publicadas no tabloide de esquerda 'Momento Feminino' e no jornal 'Tribuna Popular' que era praticamente o órgão de divulgação do Partido Comunista no Brasil.

Com a sede alugada na Rua Álvaro Alvim 24, o Cabiras montou uma grande biblioteca, inaugurada no dia 7 de maio de 1949, um sábado a noite e promoveu eventos para a doação de livros. No dia seguinte, dia 8 de maio, o Cabiras realizou uma seção solene, seguida de baile e muito chope para comemorar "O Dia da Vitória" e um ano da "Proclamação do Estado de Israel."

No pós-guerra, talvez uma das mais interessantes palestras tenha sido "O que eu vi no Oriente Médio", proferida pelo sr Edmar Morel em outubro de 1948. Em dezembro do mesmo ano, o Cabiras recebeu o senador Hamilton Nogueira para "O Brasil e o reconhecimento de Israel." Nota-se em sua agenda, exatamente o que David citou: a diretoria tinha o alinhamento político dela, mas realizaram vários eventos que poderiam ser considerados como sionistas, ou pelo menos de uma esquerda sionista, o que de fato existia naquele momento histórico.

Sabemos por uma troca de acusações entre sócio e presidente, publicada no Diário de Notícias em 24 de outubro de 1949, que o presidente do Cabiras naquele momento era o dr. Nissin Castiel. Outro nome que sobrou nas publicações de notas é o de Isaac Faerchtein, secretário em 1942. Também em 1942, enceram a peça e Machado de Assis, "Não Consulte Médico", com Liuba Vatinyck, Florinha Libman, Arlete Saraiva e Lea Monteiro de Barros, no teatro Ginástico.

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Da peça Grine Felder (Campos Verdes) restaram duas fotos. Nesta, temos David sentado de óculos, Liuba Koifman e Simão Schweid.

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Na segunda, temos, da direita para a esquerda: Dina Moscovitch, Schlesinger (ensaiador), Bela Josef, Simão Schwied (sentado), Liuba Koifman, David German e Jaime Libergot (de pé). Atrás deles, as duas moças são as irmãs Golbenberg, Ruth e Frima, seguidas por Abrahão (com boné e barba) e um rapaz cujo nome se perdeu.

Numa nota publicada no Tirbuna Polular (22/jan/1945) podemos conhecer uma destas diretorias possivelmente "comunistas":

Presidente, dr Saul Chitmann; vice-pres, Francisco Schwartz; 1o sec, Jacob Crohmal; 2o sec, Joseph Alegua; 1o tes, dr Isaac Sterental; 2o tes, dr Jaime Grossman; dir social, Saul Steinschnaider; dir cultural, Bella Karacuchansky e dir esportivo, José Segal.

Como de tantos outros judeus, o sobrenome German também é um sobrenome que não existia. O pai de David, Haim Leib, veio da Rússia em 1914, e na imigração, com o sotaque deu o sobrenome Herman e ficou a cargo do oficial brasileiro declara-lo German e ele aceitar, também sem entender direito ou conhecer nosso alfabeto não cirílico. O pai da Esther Libergot foi soldado do exército russo por três anos na Primeira Guerra Mundial.

Mais uma vez conseguimos efetuar o resgate de outra entidade judaica importante em nossa história, mas que havia se transformado em “duas linhas” nos livros sobre a história dos judeus no Rio de Janeiro e esperamos que outras testemunhas de época nos procurem.

© José Roitberg - jornalista e pesquisador - Editora Menorah Ltda - 2014

quarta-feira, 26 de março de 2014

Judeu falecido em 1914 em cemitério de 1920

Em nossa última visita de pesquisa nos Cemitérios da Chevra Kadisha - RJ para levantarmos o que ainda é possível de sua história (sai na Menorah deste mês que está chegando da gráfica hoje) nos deparamos com um túmulo datado de 1914, enquanto o cemitério de Vila Rosali Velho  foi fundado em 1920 apenas.

COLUNA ZÉVILA ROSALI VELHO 1914f oto de José Roitberg_1

Trata-se de Pinchos Aisin z'l nascido em Lugausk (Lugansk - então Rússia e hoje Ucrânia) falecido em Barretos, interior de São Paulo. Foi trasladado de lá pela família dele. Felizmente, trouxeram a placa original, o que é pouco comum.

Trata-se do pai d Adolfo Aizen que construiu a fantástica empresa EBAL de revistas em quadrinhos no Rio de Janeiro.

Assim, imagino que haja outras pessoas nesta situação e temos falecidos mais antigos que o próprio cemitério. É uma curiosidade. Só podemos saber, indo lá e verificando cada sepultura. São umas 8.000 - só quando estiver nevando...
No cemitério de Vila Rosali Novo, há um forte movimento de reforma de monumentos (matzeivot), com a construção de modelos modernos em lugar dos antigos, infelizmente, com isso, destruindo mais um pouco a história. Mas acato o direito de cada família fazer o que julgar mais correto pelos seus.
© José Roitberg - jornalista e pesquisador - 2014

Centenário do Templo Sidon: Histórias e tradições

Assista a bela matéria do programa Comunidade na TV, da FIERJ sobre este tema que é mais um daqueles do Rio Judeu Que O Povo Esqueceu.
http://youtu.be/-rRrUFFdVMk?t=1m9s

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

1998 - Os 50 Anos da nova sinagoga Shel Guelimut Hassadim

O RIO JUDEU QUE O POVO ESQUECEU

JUBILEU DE OURO: CRÔNICA DE UMA EPOPÉIA SEFARADITA

por Roberto L.Benathar (**)
publicado na Revista Menorah número 473 de novembro de 1998
     
Tarde ensolarada de domingo. Bandeirinhas de Israel e do Brasil tremulavam presas às mãozinhas das crianças: “Iom Ha’atsmaaút” comemora-se alguns meses antes com a alegria contagiante de um “Toque deXofar” anunciando que “Medinat Israel” era nossa! Inteiramente nossa! A rua estava repleta. A bucólica Rodrigo de Brito engalaneara-se para receber sua mais ilustre moradora: a pedra fundamental da sede própria do Templo da União Israelita Shel Guemilut Hassadim! Na rua pontificavam casinhas aqui e acolá, terrenos vazios, muitos.
     
Era o dia 10 de outubro de 1948, 07 de Tixri de 5709. A comunidade judaica lá se apertava por volta das 15 horas. Convocada por seus líderes a participar de mais uma das solenes epopéias sefaraditas, respondia em cânticos como cantaram para Moisés os filhos de Israel a bela canção “Azi IaxirMoshé Uvnei Israel...” Rostos adultos, rostos de velhos patriarcas, de velhas matriarcas, rostos de bebês, rostos de jovens adolescentes, perninhas saltitantes de crianças, e ... povo! Aquele povo das ruas desejoso de saber o porquê de tanta manifestação esfuziante! O povo desejava conhecer o que representava aquela movimentação epidíctica!

Sinagoga Shel Guemiluta Hassadim - Rua Rodrigo de Brito - Botafogo - RJ - fundada em 1866 e passando por 7 endereços, é a sinagoga mais antiga em atividade no Basil. Seu rito é marroquino.
2013 - Shel Guemilut Hassadim
     
A bela tarde que se prenunciava, o ambiente descontraído, agitado, cheio de fragor suave tão próprio do judeu sefaradita, predizia uma grande festa! ãs 15:30 horas a solenidade tem início: Ata histórica deveria ser lavrada! Urna contendo elementos simbólicos e representativos do acontecimento seria depositada sobre a pedra fundamental! Isaac Rafael Benoliel, Diretor de Culto (Parnás), abre a solenidade e convida a tomar assento à mesa dos trabalhos representantes de outras Congregações Judaicas: Rabino Lemle, Salvador Esperança, Felix Hasson, Alexandre Goethe, Tufic Nigri, e representantes da Comunidade Shel Guemilut: Jomtob Azulay (Presidente), Rafael Serruya (Vice-Presidente, Messod Benzecry (Secretário), Maurício Mossé (Tesoureiro), David Pérez (Orador Oficial). Em seguida, convocou Fortunato Azulay que abriu a sessão fazendo histórico da Sinagoga, relembrando em merecido preito de saudade Presidentes e Diretores desde 1882 (***), passando pelas tentativas de construção da sede própria efetivadas em 1936 e 1941 mas que não lograram êxito. Somente hoje, neste dia magnífico de outubro, completou Fortunato, “conseguiu coroar de êxito nossa missão e cumprir o mandamento de nossa Torá: construir o Templo.”
     
Segue-se pela ordem David José Prez. Em um daqueles seus maravilhosos improvisos, imponente, cevado de clareza, de consciência, de coragem, mostrou-nos o papel da Sinagoga como legaram nossos Rabinos: ser o local onde ojudeu, concentrado em suas preces, não perde espiritualidade; ser o lugar em que se cuidada educação religiosa das novas gerações, garantindo aperpertuidade da nossa doutrina. Das poucas casas ao longo da rua, embelezadas para o grande dia e das imediações circunvizinhas, pôde-se ver chegar o povo altaneiro a ouvir o discurso de David Pérez, procurando entender o porquê de tanta força naquelas eruditas, mágicas e emocionantes palavras!
     
Isaac Benoliel vestido como de costume, elegantemente, em traje passeio completo de cor bege, gentilmente, pediu aos presentes que assinassem a Ata a ser depositada na Urna, nela constando os seguintes dizeres:
     
“Aos 10 dias do mês de outubro de 1948 (7 de Tixri de 5709), às 15 horas, nesta Cidade, à Rua Rodrigo de Brito n° 37, foi lançada a pedra fundamental da Sinagoga a ser construída neste local. Pela diretoria foi mandada lavrar esta Ata em comemoração da cerimônia realizada”.
     
Em seguida o Parnás Benoliel, amável como o é o homem de convicção firme, nomeou uma a uma, as matriarcas responsáveis pelo depositar na Urna os detalhes mínimos do extraordinário dia:

      Sr“ Jomtob Azulay: o pergaminho da Ata.
      Sr3 Rafael Serruya: o Boletim de n° 1 do Departamento Cultural e Social.
      Sr3 Ambrosio Ezagui: o convite para o lançamento da pedra fundamental.
      Sr“ Shaba Levy: algumas moedas.
      Sr“ Regina Moraes e Matos: telegramas recebidos.
      Sr“ Pepe Benzecry: o Jornal do dia.
      Sr“ Samuel Lasry Laredo: conduziu a Urna até a pedra fundamental.
     
Vale lembrar que em todas as épocas as mãos das matriarcas se constituíram em fonte de engradecimento do Povo Judeu. Depositada a Urna foram convidados pelo Párnas a preparar o cimento os Senhores José Adler, Abrahão Ramiro bentes e Saul Caji. Os presentes foram convocados a lançar uma pá de cimento. Principiou esta etapa da festividade o sábio maior David José Pérez. nesse momento quebrara-se a tensão, a festa seguia com todo o previsto muito bem desenvolvido e as palmas puderam soar quentes e acarciantes!
     
Prosseguindo com a efeméride, Rabino Lemle, representante das demais Comunidades Judaicas presentes, lembrou em sua alocução que 7 de Tixri se constituí em um dos dias de “Texuvá”. Conclui por elogiar Jomtob Azulay que concretizava seu sonho de muitos anos e por afirmar que nesse momento deve-se realçar o princípio j udaico da Democracia baseado no D’us Uno e Humanidade Una. Outros oradores também se apresentaram: Tufic Nigri louvou a grandiosidade do evento; Moyses Azulay representando a Comissão dos construtores composta dos Engenheiros Rbom Benchimol, José Mizrahi e dele próprio, fez ver aos presentes como fora planejado o Templo: salão de culto e salão no andar térreo para fins culturais e assistenciais.
     
Encerrou a cerimônia o Párnas Isaac B enoliel agradecendo aos presentes pela tarde, pedindo as Bençõas de D’us e asseverando que as futuras gerações seriam gratas pelo esforço daqueles homens e daquelas mulheres ! Os presentes começaram a retornar às suas residências e, em gosotosa vozearia, comentavam a grandeza da iniciativa! Evadiam-se em sonhos, a imaginar nossa Sinagoga pronta, viva, cheia e repleta de judeus de todos os rincões brasileiros e de irmãos marroquinos que nos legaram soberba cultura! Quem sabe sonhava aquele cortejo com o novo Templo repleto em um Cabalat Xabat, ouvindo alegre os Salmos de david?!!...
     
Em 7 de setembro de 1950 aquele sonho tornara-se realidade. Estava pronta nossa relíquia, consagrando o novo templo-sede-própria da União Israelita Shel Guemilut Hassadim !
     
Jomtob Azulay permanceu Presidente até 1959 ano de seu falecimento. De lá para cá foram Presidentes - todos sem exceção mantiveram firmemente o culto de tradição hispano-portuguesa:
     
Falecidos: Abraham Benoliel, Eliézer Zagury, Aarão Benchimol, Fortunato Azulay, Israelino Buzaglo, Messod Benzecry, Moysés Eshiriqui, Abraham Ramiro Bentes.
     
Vivos (Bendito D’us): Rubem David Azulay, Menahem Miguel Benjó, Samuel Joshua Levy, César Benjó.
                                                                         
(*) Publicado pela primeira vez no Boletim da União Israelita Shel Guemilut Hassadim, 50 (2): 28-9, out-nov. 1998.
   
(**) Professor Universitário vem realizando estudos sistemáticos sobre a História da Shel Guemilut, muitos deles publicados na Revista Menorah.
     
(***) Foram Presidentes até 1922 quando tomou posse Jomtob Azulay: Arthur Levy, Isidoro Hass, Abraham Parente, Joseph Alcaim, Leão Abreu, todos falecidos.

© Editora Menorah - 1960-2014

PEQUENO HISTÓRICO DA SHEL GUEMILUT

Sinagoga da União Shel Guemilut Hassadim
1866 - Foi fundada ainda na época do Império e seu alvará foi assinado pelo Imperador D. Pedro II. Sua localização inicial foi na esquina da Praça da República com rua Senhor dos Passos. Foi fundada como União Israelita do Brasil
Em 1873 teve seus estatutos aprovados no dia 13 de janeiro e foi para rua da Alfândega 358. Abaixo o diário oficial do dia 28 de janeiro de 1873.
1873---01---28---diario-oficial-página-da-Uniao-Israelita-do-Brasil-dip
1876, a União Israelita do Brasil recebe autorização para criar um cemitério judaico na Rua da Alegria que hoje fica nos fundos do Cemitério de São Francisco Xavier. Não se sabe se isso foi adiante ou por que não foi.
1890 na Rua do Hospício 81, também chamada de Sociedade União Israelita, cuja diretoria se encontra abaixo (Almanack Adminsitrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro)
1891 O Almanack Adminsitrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, de 1891 faz referência A SOCIEDADE UNIÃO ISRAELITA RUA DO HOSPÍCIO 81 E SUA DIRETORIA
1897 com o nome Sociedade Beneficente União Israelita do Brazil, está na mesma rua do Hospício (Buenos Aires), agora no número 97
1900 na rua de São Pedro 253 (rua não existe mais).
Em 1911, sob a presidência de Arão Henrique Malca, mas aluga a rua do Hospício 166 para Rosh Hashaná e Iom Kipur. É a primeira vez que temos publicado no nome União Israelita Shel Guemilut Hassadim. Outros membros conhecidos desta diretoria são: Leão Abreu e Samuel Nahon.
Em 1920 na rua do Lavradio 90, no sobrado abaixo que ruiu em 2013.
rua-do-lavradio-90-dip
em 1935 na rua Francisco Muratori 33 (Sta Teresa perto da Lapa) abaixo, prédio ainda em excelentes condições.
shel guemilut hassadim francisco muratori 33 blog
Em 1948 na rua Rodrigo de Brito em Botafogo, onde se encontra hoje. Há um vídeo único de 1950 por ocasião de um ano de localização em Botafogo e mostra as fachadas dois dois endereços anteriores. Você pode assistir aqui.
Aniversário de um ano na rua Rodrigo de Brito
© José Roitberg - jornalista e historiador 2014

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

CIB nos anos 1950

O RIO JUDEU QUE O POVO ESQUECEU

Crônica sobre os momentos iniciais do Clube Israelita Brasileiro, até então Centro Israelita Brasileiro, publicada na revista Menorah número 481 de julho de 1999

Uma amorosa viagem pelo Centro Israelita Brasileiro do final dos anos 50.

por Samuel Szwarc

"Ai de ti, Copacabana" (Rubem Braga)

     Na mesma época que entrei para o científico (1953) meus pais trocaram a calma Tijuca, bairro classe média do Rio, onde estudei o primário e o ginasial, pela agitada Copacabana. Como definir Copacabana, ainda Capital Federal, no início dos anos 50, para um jovem sonhador que gostava de escrever, jogava voleibol, tênis de mesa e xadrez, com alguma qualidade, modéstia à parte,
     O bairro merecia a fama internacional que desfrutava. Sua capital: o Hotel Copacabana Palace, o Copa, o Bife de Ouro, seu famoso restaurante e a disputada pérgula e piscina com celebridades permanentes. O Hotel, aliás, acaba de comemorar seus 75 anos, com brilho renovado e público idem.
     Nós, garotos, que freqüentávamos a praia ali no posto dois e meio em (frente ao Copa), não entrávamos no hotel nem por decreto. O porteiro já nos conhecia, não deixava. O Copa era para seus hóspedes famosos e para os socialites da época, cujos nomes saíam freqüentemente nas colunas sociais que começavam a despontar, comandadas por Jacinto de Thormes e Ibraim Sued. Da mesma maneira que hoje ver novelas, o programa do Faustão, ou da Hebe, não era "bem” naquela época, ler colunas sociais, Mas a gente lia. Essas colunas, bastante renovadas, ainda hoje, são um espelho do que acontece na cidade.
    Véspera de ano novo em Copacabana. Como bom carioca, gostava de vestir branco na passagem do ano, ficava inclusive bonito o contraste com a pele morena.
    O bairro vai ficando mágico logo ao nascer do dia, Não há mais ansiedade. Quem tinha que sair já saiu. Li, recente, que carioca acha brega ficar em sua cidade, -durante o Reveillon. Mentira, sacanagem. Nesses últimos anos o espoucar de fogos, a magia do lugar, o sincretismo da Umbanda com seus atabaques, suas velas, seus mistérios, imperdível. Um luxo.
     Houve um tempo, não muito longe, que você não tinha medo de andar a noite por Copacabana.
     Recomendável, recomendável, nunca foi. Sempre houve naqueles tempos uma convivência aceitável com a bandidagem do local.
     O Lido, era lugar de boites animadas e de bares e restaurantes famosos. A gente, lá pelos 16, 18 anos, não freqüentava esses lugares. Não estava na moda pai pagar despesa de filho em boite ou restaurante, você tinha que trabalhar para usufruir.
     Cinemas, todos, vocês ia a pé de um para outro.
     Foi uma época rica: os musicais da Metro, a "nouvelle vague” francesa, o neo-realismo italiano, o cinema novo brasileiro.
     No teatro, Guarnieri, Boal e Nelson Rodrigues, abriam horizontes à dramaturgia brasileira.
     Os contistas mineiros, Guimarães Rosa, Mário Palmério, a Bossa Nova, (Tom/ Vinícius/João Gilberto), Maria Bonini na Bienal de Veneza. No esporte, Brasil pela primeira vez. campeão do mundo de futebol e basquete, Maria Ester Bueno no tênis, Eder Jofre no boxe. Nelson Pereira dos Santos e Roberto Farias com o cinema novo, e por aí vai.
     O período 56/60 foi muito fértil. Parece banal dizer isto agora que as evidências são mais notáveis.
     Faço apenas um superficial exercício de memória, e de reflexão.
     O que atingia a mim, à minha geração. Claro que existirão visões bem mais profundas. Bom para elas e para aqueles que sempre conseguiram enxergar, comparar e julgar as coisas.
     Politicamente, a década começou conturbada pela volta de Getúlio Vargas à Presidência da República, Do "mar de lama” ao suicídio foi um passo, Os meses seguintes (todo o ano 1955). foram marcados por golpes e contragolpes até a eleição apertada de Juscelino. Os seus 50 anos em 5 foram de arrepiar.
     Preciso dizer mais? Preciso. Ainda e principal-
mente que havia um clima de confiança e otimismo neste País. Que era um momento alegre, a despeito dos nossos sempre grandes problemas sociais. Respirava-se o melhor dos ares: o ar da liberdade.
      Éramos jovens. Isso acrescenta e desculpa muitas coisas. Como hoje, queríamos salvar o Brasil e o mundo, e tínhamos muitas fórmulas para isso.
      Certo ou errado, dávamos o nosso exemplo. Nem que fosse o exemplo de nossa insatisfação.
      Queríamos realizar, participar. E aquele casarão branco, majestoso, da Rua Barata Ribeiro, em frente à Rua Anita Garibaldi, ao da lado da Galeria Menescal, foi o "palco cênico” ideal para a excepcional oportunidade de provar isso.
      Chamava-se Centro Israelita Brasileiro, o CIB, e era o Centro da Comunidade Israelita Sefaradí, que imigrou vinda das cidades turcas e gregas de Ismirna, Salônica, etc.
      Há algum tempo mudou de nome, agora é Clube Israelita Brasileiro. Mas continua CIB.
      Dois salões. O de cima, para carteado, que a comunidade sempre foi chegada, sem distinção. No de baixo, o salão social, dos bailes, das atividades culturais e cívicas. Um bar térreo, um restaurante em cima. Na frente, varandas; nos fundos uma solitária quadra multiesportiva (o CIB era bom nos esportes coletivos: vôlei, basquete e futebol de salão). A sinagoga veio depois, lá pelo final dos anos 60, se não me engano.
      Poucos sócios. Talvez 300 famílias, pouco mais. E uma legião de sócios-atletas e sócios sociais, uma juventude bonita que freqüentava e apoiava toda a programação do clube. Que era totalmente idealizada pelos jovens componentes do seu Departamento da Juventude.
      Esses jovens, na faixa dos 18 aos 22 anos viravam o CIB de cabeça para baixo.
      Como responsáveis pela programação social e cultural, e sob a liderança de José Gomlevsky, diretor do Departamento de Juventude, aquele grupo fez e ousou.

O DEPARTAMENTO DA JUVENTUDE (DJ)

     Não me lembro exatamente quando começou o Departamento da Juventude do CIB. Acho em foi em 1956 ou 1957 quando José Gomlevsky foi eleito Diretor da Juventude e convidou um grupo do jovens entre 18 e 22 anos, que perambulava pelos corredores, alguns fazendo esporte, para compor o novo Departamento. Os jovens foram Moysés Akerman, Oscar Magtaz Z’L, Itamar Faul Z’L, Nelson Levy e eu. Pouco depois ingressaram: David Klajmic, o Darruda; Jacques Eduardo Hasson Z’L, que nos deixou tão apressado; Roberto Algranti, Jack Blajchman, Nilton Orembuch, Joaquim Breslauer, Alberto Mizrahy,
Enrico Goldner, o Caburé, Ariel Wainer Z’L, o João Laewenstajn ... . Se a memória não falha, estão todos aí. (Somente rapazes, observo hoje, de passagem ....).
     As reuniões eram realizadas pontual e religiosamente aos sábados a tarde, com surpreendente regularidade para uma turma tão jovem (e carioca), na sala da Diretoria, no andar térreo. O DJ era responsável pela programação social e cultural do clube, menos a esportiva que tinha um diretor próprio, o Dr.Isaac Amar, uma grande e querida figura, realmente fundador e grande batalhador do esporte no CIB. O grupo teatral, que encenava pelos menos uma peça por ano, era também responsabilidade de outras área.
     Esses jovens se auto-intitulavam "os cobras”, no sentido (pretensioso) de melhores, um convencimento desnecessário. Mas na realidade, desempenharam um importante papel na vida social e cultural da comunidade judaica carioca de então, sobretudo a jovem.
     De um modo geral, denominado "Guerra e Paz”, originou-se a Revista do CIB, dirigida desde o início por mim, pelo Moysés Akerman e pelo Oscar Magtaz Z'L.                                          


A PROGRAMAÇÃO

     2a feiras: o CIB fechava
     3a feiras: Carteado no salão superior de 3a a Domingo. Podia-se jantar ou comer um sanduíche, no restaurante/bar. Na quadra descoberta (anos depois fizeram o ginásio e a piscina), treino ou jogo de voleibol. Tênis de mesa no salão inferior.
     4a feiras: basquete ou futebol de salão na quadra.
       Ensaio do teatro.
     5a feiras: Sempre uma atividade cultural, como cinema, música, júris simulados, palestras sobre temas da atualidade, política, judaísmo e comportamento.
     Dizer qual a Bossa Nova - um momento excepcional da MPB, também nasceu no CIB (e ao mesmo tempo no Beco das Garrafas - Bottles Little Club - e no Clube Leblon, que não existe mais), pode parecer exagero, uma vez que isso não é mencionado no excelente livro do Ruy Castro.
     Embora o poeta maior Vinícius de Morais tenha expressamente se referido aos três locais em testemunho à Revista Manchete no anos 70.
     A nossa participação foi a seguinte: em 1958, um radialista chamado Estevam Herman, comandou no CIB, as quintas-feiras, um programa chamado samba-jazz.
     Samba numa 5a feira, jazz na outra. Nesses programas de samba ouvi pela primeira vez João Gilberto, Chico Feitosa "Fim de Noite”, Luís Carlos Vinhas, Ronaldo Boscoli, Luiz Eça, Nara Leão e tantos outros. No Carnegie Hall, de Nova York, já em
62 - aquela batida sincopada "conquistava o mundo", e eu deixo aos historiadores esses fatos passados no CIB, acho que narrados pela primeira vez.
      6a feiras: Em respeito ao Shabat, não havia
• programação, mas a sede ficava aberta. O CIB não era "religioso" mas obedecia razoavelmente aos feriados e festas judaicas, algumas inclusive comemoradas.
      Sábados: Pela manhã, praia, que estamos no Rio ensolarado, em Copacabana, no Posto 4. A tarde (5 hs em ponto) começava a reunião do DJ.
      E as noites, eram sempre mágicas, como devem ser a noites de Sábado quando se tem 20 anos.
      Era uma geração bonita, não tenho dúvidas.
      Namorava-se, dançava-se bolero e samba-can-ção de rosto colado, vimos surgir ritmos como o "Rock", o "Twist", o Chá, Chá, Chá, esses poucos depois.
      Sábado a noite era dia de bailes em traje "passeio completo", isto é, terno e gravata, música ao vivo com orquestras famosas como as Booker Pittman (pai de Eliana) e de Waldemar Spillman. As moças, bem produzidas pois a vaidade era estimulada, o intelecto também. Era o tempo do decote e da cueca samba canção.
     Os rapazes bebiam cuba-libre (rum com coca-cola), depois surgiu o "Hy Fy" (vodka com suco de laranja), o Whisky veio mais tarde.
     As moças pediam coquetel de frutas sem álcool.
     Nesses bailes, sempre havia show com artistas famosos: Silvinha Teles, Trio Irakitan, os Cariocas, Lúcio Alves, Tito Madi, Agostinho dos Santos e tantos outros.
     O CIB fazia baile de tudo que era tipo: debutantes - como era comum na época - desfile Bangu, patrocinado pela conhecida fábrica de tecidos: bailes de carnaval e "gritos de carnaval", com apresentação de escolas de samba, como Império Serrano e Mangueira; bailes de São João, com quadrilhas, fogueiras e todo mundo fantasiado. Alguns bailes eram a rigor, como o do aniversário do Clube, com o salão ricamente decorado pelo bom gosto da esposa do José Gomlevsky, Ligia Hazan Gomlevsky, filha de um dos fundadores do CIB.
     Aos poucos, fomos ficando menos formais, o traje virou esporte, a música ao vivo cedeu lugar à parafernália do som, da música disco, que começou no CIB, num salão pequeno e com poucas mesas. Com o sucesso, a música disco ocupou o salão térreo, principal, sempre lotado nessas ocasiões.
     Domingos: No último Domingo de cada mês, o DJ realizava um programa de auditório que fez bastante sucesso: "Responda se Puder". Um misto de perguntas e respostas sobre temas diversos e brincadeiras de todo tipo. Com premiações, sorteios etc.
Conheci bem este programa, era um de seus apresentadores ao lado de Moysés Akerman, Devido ao sucesso do programa, recebíamos convites para apresentações fora do clube, como a que fizemos no clube Caiçaras, no Rio, e luxo dos luxos, na Hebraica de São Paulo!
      Os bailes menos formais - domingueiras, ao som de música-disco (primórdio das discotecas^ -começaram também nos domingos.


O ESPORTE

      O Esporte coletivo no CIB, durante a década de 50. teve um destaque merecido. O CIB era bom no Vôlei feminino, bi-campeão dos jogos da Primavera, grandiosa promoção esportiva inter-clubes do lornal dos Esportes. Suas atletas mais famosas foram ,vou cometer omissões mas a citação é essencial' Violeta Cheniaux e Anita Bubman-. no voley masculino o CIB sempre esteve entre as três melhores equipes do Rio. vencedor de inúmeras macabíadas nacionais e sempre base do time de voley do Brasil em macabíadas em Israel. Destaques: Boris Guivelder. Eliahu Chut. Oscar Bergman. daniel Schwartz e Beniamm Tysenbaum, e até o time juvenil era formado por futuros craques: Carlos Arthur Nuzman ^campeão carioca e brasileiro de voley adulto, pelo Botafogo, muitos anos), Arnaldo Jagle e Milton Cohen no basket, foram destaques: Eliahu Chut. Efrãnio Caboudy, Fredy Cohen, Bob Zagury (que acabou tendo um famoso romance com a Brigitte Bardot'. e tantos outros. O futebol de salão começava com um técnico famoso o Maurício Apelbaum ("Gumex") e os seus craques eram José Apelkaum (Joca) e o Saul Waissman.
      No tênis de mesa, lembramos de Benjamin Goldgrob e jaime Rzezak. Não jogaram no CIB mas não podem ser esquecidos dois grandes atletas judeus cariocas da década: No basket, René Salomon. da ARI e depois da seleção brasileira, campeão do mundo; e Jaime Baidelman, no tênis de mesa.
      Como já foi dito, o Dr. Isaac Amar foi o grande diretor de esportes do CIB. Menção honrosa para seu auxiliar, dedicado e eficiente, Adolfo Mekler, o "Chapinha”.
      Um parênteses para um destaque a dois atletas de vôlei do clube Hebraica, das Laranjeiras, adversário precioso do CIB: Perez Becker e Selmo Astracham, com quem fiz uma dupla que guardo na memória.

FINAL

      Procuro me lembrar de alguma noite no CIB dos anos 50. Não me concentro em nenhuma noite em especial, seguindo o conselho que recebeu a personagem Emily, da peça "Nossa Cidade”, de Thornton Wilder, encenada no clube, com muito brilho, com a Léa Kohn no papel de personagem. O conselho foi: "Volte (no caso da peça, era para a vida), "mas não escolha nenhuma data em especial, escolha o dia, mais simples, e ainda assim ele será importante demais."Sendo assim, escolho uma noite qualquer de um dia qualquer, Na antiga portaria estão o Dorival ou o Mila. Ainda é cedo, são 7 e meia da noite, vejo o Murilo, funcionário da rouparia, montando a mesa do tênis de mesa. Espero os amigos para combinar o programa da noite, que começava no CIB e terminava muitas vezes na sessão das 10, porque cinema no final dos anos 50 tinha um nível excelente. Era no CIB o ponto de encontro, o "encontro marcado” para tanta coisa inofensiva e tantas outras, um pouco mais levadas.
     Destaque para o Sr.Ivan, um gentleman, Diretor Executivo, e com tanta justiça, destaque aos líderes da comunidade Sefaradi do CIB, que deram espaço para que aqueles jovens realizassem um grande trabalho.
     São eles: Salvador Esperança, Mateus Menaschê, Victor Hasson, Jacques Alhanati, Alberto Behar, Isaac Albalgi, Joseph Esquenazí Pernidgi e tantos outros, desculpem as omissões.
     Não sou - que pena - o historiador do CIB, uma das mais antigas entidades de nossa comunidade, que está a merecer uma pesquisa, quem sabe um livro de sua brilhante trajetória, e não apenas retratos deste memorialista de memórias tão duvidosas.
     Nesse trabalho de resgate, vamos encontrar histórias daqueles rapazes, que sob a liderança do nosso Zeca. editor desta Revista, estavam unidos e conscientes que naquele momento e naquele lugar eles tinham um papel a desempenhar.
     Pena que durou tão pouco ...
  
  ♦        Samuel Szwarc, casado, três filhos, duas netas, é carioca da Praça Onze, da Tijuca e de Copacabana. Foi atleta de vôlei da Hebraica e do CIB. Formado pela Faculdade Nacional de Direito, da rua Moncorvo Filho em 1960. Atua com negócio próprio das áreas de Marketing e Comunicação. Mora em São Paulo há 32 anos onde é membro dos Conselhos Consultivo e Deliberativo do Hospital Israelita Albert Einstein. do qual foi diretor por 28 anos. Também foi diretor da Associação Brasileira- A Hebraica de São Paulo em muitas oportunidades e é Conselheiro do Centro Israelita de Assistência ao Menor - CIAM. Contista, Samuel Szwarc venceu há alguns anos o Concurso de Contos do Clube A Hebraica do Rio, com o trabalho "Uma noite em Palmital”. É autor do livro "Contos Judaicos e Outros nem Tanto”.

© Editora Menorah 1960-2014

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Sociedade Beneficente Israelita Achi Hezer - 1913


O RIO JUDEU QUE O POVO ESQUECEU

19 de setembro de 1913
- Fundada a Sociedade Beneficente Achi Hezer, na rua Visconde de Itaúna 113 (praça Onze) com biblioteca e teatro amador. Foi a primeira grande entidade local de amparo aos imigrantes.

Achi Ezer, em hebraico, significa "Ajuda ao Meu Irmão". Há várias instituições judaicas com este nome, ainda hoje em diversos países.
Em 1920 se tornou a Sociedade Beneficente Israelita e Amparo aos Imigrantes - Relief, provavelmente no mesmo endereço na praça Onze. Esta é bem mais conhecida. No final dos anos 1920 se mudou para São Cristóvão 189 (este número nunca existiu - arrisco-me a dizer que foi no 59), depois rua Joaquim Palhares, onde funcionava também um curso de português para os imigrantes.

diploma da sociedade israelita Achi Ezer fundada em 1913 full

Há pouca informação sobre ela e os historiadores contemporâneos a denominaram incorretamente de "Achiezer" como se fosse o nome de alguém. A data de fundação com a qual se vinha trabalhando até hoje era 1916, e também estava errada. O Diploma não preenchido quer era o título de sócio da Achi Hezer, coloca a história em seu devido lugar.
E como sempre, apenas esbarrei nele procurando outra coisa.

Será que alguém consegue encontrar outros diplomas destes nas coisas dos avós ou bisavós? Em 1913 havia entre 3 a 4 mil judeus no RJ, então o grupo que se associou deve ter sido bem restrito.

© 2014 - José Roitberg - jornalista e historiador

domingo, 15 de setembro de 2013

Yom Kippur 1915–Rio de Janeiro

Na foto vemos 18 Polacas (prostitutas judias) visitando o túmulo de “Lili das Joias”
1915-09-17-A-NOITE-ROSH-HASHANA-NO-S-FCO-XAVIER-POLACAS
Cada comunidade em cada país, ou cidade, ou aldeia, em cada momento histórico de liberdade, de restrições ou de perseguições, tinha seus costumes, sempre variando um pouco em torno do mesmo tema.

Um dos hábitos que havia no Rio de Janeiro das últimas décadas do século19 até lá pelos anos quarenta do século 20, era visitar os cemitérios (um até 1916, dois até 1920 e três em seguida, até 1956 quando foi inaugurado o Cemitério Israelita do Cajú) na manhã de erev Rosh Hashaná, ou seja: seria na manhã de hoje. Como a visitação era maciça, aproveitava-se para inaugurar as matzeivot (a parte construída, artística do túmulo - matzeiva significa monumento) de todos os falecimentos do ano anterior (na verdade são bem poucos a cada ano). Uma ação comunitária conjunta de fato, numa comunidade que beirava apenas umas 2.000 pessoas (de todas as idades), quando a foto abaixo foi tirada.

Ela é de Rosh Hashaná 5676, setembro de 1915, há 98 anos atrás. Nela, vemos 18 polacas em torno do túmulo de "Lili das jóias", cujo nome era Rosa Schwartz za'l. Rosa foi uma polaca, prostituta dos primeiros anos do século 20. De alguma forma que não ficou registrada ela se livrou de seu caften (cafetão) e passou a seu uma "klienteltshnik" (prestamista) vendendo joias, que comprava ou que recebia em consignação de negociantes.

Conta a crônica policial de 8 de outubro de 1914, ela foi morta no dia 7, que Rosa fez relativa fortuna e se dedicava a tentar liberar (talvez comprando) as moças judias mais novas envolvidas na prostituição. Era abertamente uma inimiga dos caftens. No dia 7 "Lili" foi encontrada morta, degolada à navalha, em sua própria cama, na pensão onde morava à rua das Marrecas 28. O mostruário de joias tinha sumido. Este é apenas mais um dos crimes de assassinatos de polacas que jamais foi resolvido. O assassino deixou a navalha no local. A polícia arrolou amantes, namorados, clientes devedores, caftens e até estrangeiros e nunca encontrou o autor.

A contradição que temos na foto é simples: está na história que as pessoas preferem conhecer e acreditar, que as polacas eram mantidas em regime semi-escravo, que os caftens as ameaçavam de morte, que não podiam sair dos prostíbulos. É isso que você provavelmente sabe. Mas essa é uma das várias provas documentais e fotográficas de que elas tinham toda a liberdade de circular, praticavam o judaísmo em sua própria sinagoga, com seus próprios rabinos assalariados, frequentavam a mídia constantemente, abriram seu próprio cemitério em 1916 e também continuaram a usar o S. Fco. Xavier, mesmo depois, com sepultamentos pela halachá ortodoxa (como podemos depreender em vários, mas não todos, de seus túmulos).

A liberdade era tanta que podiam posar para os foto-jornalistas no túmulo da Rosa Schwartz za'l, inimiga declarada dos caftens, amiga e benfeitora das que continuavam a ser polacas, sem temer qualquer tipo de retaliação de seus próprios caftens verdadeiros ou apenas no imaginário racista coletivo.

Associação Religiosa Israelita da legenda não é ARI, e sim ABFRI - Associação Beneficente Funerária Israelita, fundada em 1906, mas atuante já alguns anos antes.

© 2013 – José Roitberg – jornalista e historiador
todos os direitos reservados nos termos da lei 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

1911 Caminhões “judaicos” no Rio de Janeiro

Você tem certeza de que as marcas GM e GMC significam General Motors e General Motors Caminhões? Na verdade é GMC Trucks... E se eu te disser que é Grabowsky Motor Vehicle Co (GMC)??? Brincadeira... Pois é, como história é uma coisa deliciosa, se ensinada certo e não a aula a ser descartada nas escolas...

Max and Morris Grabowsky criaram a Grabowsky Motor Vehicle Co. em Detroit em 1900, produzindo um caminhão (apenas um mesmo) com capacidade para uma tonelada e velocidade máxima de 16 km/h. Em 1902 ele se reorganizaram e abriram a Rapid Motor Vehicle Company e conseguiram montar mais um caminhão, vendido para a companhia de limpeza de Detroit, considerado o primeiro veículo a gasolina a circular por lá.

Em 1909, a GM de carros começou a comprar empresas de caminhões. 75 caminhões Rapid foram vendidos entre 1902 e 1904. Em 1905 a Rapid montou uma fábrica e começou a produzir o Power Wagon. A GM começou a comprar ações da Rapid, Max se desligou e formou a Grabowsky Power Wagon Co. Os Grabowskys são considerados os fundadores GMC.

Entre as grandes companhias a dos irmãos Dodge, também era judaica, chegando a usar a estrela de David em seu escudo. Porque será que Henry Ford era antissemita? Será devido aos seus dois fortíssimos concorrente? Você responde.

E estes caminhões Grabowsky "judaicos" chegaram ao Brasil, sendo anunciados e vendidos no Rio de Janeiro, por um representante comercial judeu, Carlos Blank, em outubro de 1911, no período em que havia pouco mais de 2.500 judeus habitando o Rio de Janeiro. Essa é mais uma estória do Rio Judeu que o Povo Esqueceu.

Grabowsky Power Wagon Co ad in Brazil
José Roitberg - jornalista

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quinta-feira, 14 de março de 2013

MULHERES DE TALIT - VIOLAÇÃO OU NOVA TRADIÇÃO?

Nestes dias tenho lido algumas posições muito fortes contra as 300 Mulheres do Muro que forçaram a barra e entraram na área feminina do Kotel, com talitot (xales de oração) para fazer as orações delas debaixo de agressões verbais e sopros do shofar dos hassidim e hareidim do lado masculino. Precisa ficar claro para todos que o uso do talit apenas pelo homem é tradição: não é legislação judaica (halachá). Um dos pontos focais da lei judaica é TRADICIONALMENTE TAMBÉM: "Se não está expressamente proibido, pode ser feito." Não há proibição da mulher usar o talit como não há obrigação do homem usar o talit.

Por acaso você já viu alguma sinagoga ou alguém no Kotel EXIGIR AOS HOMENS PRESENTES o uso do Talit? Isso não acontece porque essa é a forma correta de agir. Com a kipá ocorre a mesmíssima coisa. Não há nem obrigação nem proibição, tanto que no ramo reformista inteiro, os homens não usam a kipá. Sequer "cobrir a cabeça" (pela tonelada de motivos sugeridos pelos mais diversos rabinos) é uma obrigação, mas talvez seja nossa mais enfática tradição. E caso todos achassem isso especificamente válido, todos o fariam, mas estamos muito longe disto.

Mas as posições que me incomodam profundamente são das pessoas, algumas de fato obtusas e outras comprovadamente inteligentíssimas que afirmam "É uma tradição então TEM QUE SER CUMPRIDA!"

Estas pessoas não conseguem entender que tal tradição por ser afeita ao ramo judaico onde ela cresceu ou está, pode não ter nada a ver com outro ou outros ramos judaicos. Não temos centralização clerical ou teológica. Não existem vaticanos judaicos, papas judaicos, ou encíclicas judaicas. Deve ser pela nossa heterogeneidade que estão tentando acabar com nossa fé e não conseguem porque não há um ponto focal que derrube todos os ramos. Hoje, pode-se citar pelo menos umas 12 designações judaicas maiores que se afirmam ortodoxas ou se afirmam religiosas quase todas elas são teologicamente opostas e excludentes umas as outras. Isso não inclui o judeu não se define como religioso, mas apenas faz o que lhe permite sentir-se bem consigo mesmo dentro da religião. É um círculo de ramos onde um coloca a mão no ombro do que está a sua frente e diz: "você não é judeu...", mas é um círculo e não um reta!

A estas pessoas que IMAGINAM que tradição é algo PARA SER CUMPRIDO, peço um segundo de consideração a ideia absolutamente verdadeira de que nenhuma tradição COMEÇOU SEM SER EXATAMENTE A NOVIDADE CONTRAPOSTA ÀS TRADIÇÕES ANTERIORES! Isso é a mais nítida das verdades e é muito simples de compreender.

O que se vê atualmente como o estereótipo dos judeus de roupas pretas (nas mais diversas formas divididas por grupo) é apenas o formato hassídico, afeto aos que militam no ramo hassídico iniciado no século 18 como MODERNIDADE E OPOSIÇÃO, principalmente aos judeus de Vilna, e consolidado em meados do século 19 na Europa Oriental, exatamente quando na Europa Ocidental se consolidava a Reforma e o Liberalismo (coisas diferentes).

Estes grupos cresceram juntos. Foram contemporâneos em seu surgimento pelas necessidades localizadas. Mas quando são colocados juntos na mesma praça, defronte ao mesmo muro que é tanto de uns quanto de outros as diferenças ficam violentamente aparentes e em algum momento os ramos precisam compreender que são da mesma árvore e nenhum árvore possui galhos iguais e simétricos.

Dizem por aí e os religiosos escutam mais facilmente que a destruição do Segundo Templo e sua não reconstrução deve-se a cisão judaica, inicialmente a de 2.000 anos atrás e depois disso sua manutenção e modificação. Seria um conceito muito louco afirmar que a solução para tal cisão é a COMPREENSÃO E ACEITAÇÃO DO OUTRO e não a submissão do outro ao meu conceito. Creio que não haja para quem falar isso.

Quanto o leiteiro Tevie,no Um Violinista no Telhado diz: “Tradição? Não sei quando começou, mas é tradição”, ele está certo, mas era um leiteiro de shtetel. Você não é!

José Roitberg - jornalista

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Pretexto Fundamental

Para entender o levante salafista islâmico atual contra os Estados Unidos em diversos países árabes é preciso compreender e rever alguns fatos. O primeiro deles é que NÃO é um levante atual, mas parte da Guerra ao Terror iniciada em 11 de setembro de 2001, pelo Terror.

Por quase dois dias, foi gerado um cenário antissemita difícil de desfazer quando o diretor verdadeiro do filme "Inocência do Islã", Nakoula Basseley Nakoula, 55 anos, cristão copta (ramo cristão egípcio que já foi violentamente atacado pela Irmandade Muçulmana hoje no poder), se declarou "judeu-israelense" com o pseudônimo de Sam Bacile ou Nicola Bacily ou Erwin Salameh E OUTROS, conforme informação do Tribunal Federal da Califórnia. Portanto, o cristão copta é um estelionatário conhecido das autoridades norte-americanas. O auto-proclamado porta-voz do filme é Steven Klein, apresentado como consultor. Ele pretendeu a notoriedade e fama defendendo o bacilo...

A mídia brasileira, vivendo de notas de agências internacionais ainda não sabe exatamente quem é este Klein. Mas uma pesquisa de 2 minutos pelo Google revela tudo.

De cara, qualquer um diria e os muçulmanos e a esquerda estão dizendo: "Olha só como tem judeus envolvidos na blasfêmia", até porque há uma CERTEZA incutida pelos governos árabes e muçulmanos, e pela propaganda de esquerda internacional, ao longo de mais de 60 anos de propaganda antissemita covarde de que os "Judeus Controlam Hollywood", logo, um filme contra o islã tem que ser "judeu". Ainda mais quando um "Klein" declara de forma SAFADA que o filme foi financiado por 500 judeus!!! Isso circulou o mundo rapidamente e NENHUMA mídia irá desmentir. Está amplamente divulgado nas mídias brasileiras. Pelo contrário, as mídias dos governos de esquerda e muçulmanos vão INCENTIVAR esta compreensão.

O nome verdadeiro do segundo crápula antissemita é Steven Anthony Klein. Não é judeu. Com 61 anos ele viveu no Texas e em Utah. Steven Anthony Klein foi fundador, secretário e ensaísta de um grupo chamado "Courageous Christians United" (Cristãos Corajosos Unidos), ativo desde 2007, cuja retórica é atacar os muçulmanos e os mórmons (vertente do candidato republicano Mit Romey). Este Klein também fundou outro grupo, chamado "Concerned Christians for the First Amendment" Cristãos Preocupados com o Primeiro Artigo (da Constituição Americana, a liberdade de expressão, liberdade religiosa), cujo foco é anti-islâmico. O CAIR (que é a entidade de representação política dos muçulmanos americanos) já havia entrado com queixas contra dos grupos de Klein pela distribuição de folhetos contra os muçulmanos nas ruas da Califórnia.

Um pequeno jornal da costa oeste americana escreveu sobre Steven Anthony Klein: ele é um ex-fuzileiro naval que acredita que a Califórnia está cheia de célula muçulmanas que estão esperando a ordem para começar a matar aleatoriamente quantos americanos puderem, "eu sei disso e estou me preparando para responder aos tiros."

Em 2004 Steven Anthony Klein criou uma empresa chamada Middle East Experts Team (Equipe de Especialistas em Oriente Médio) e, aparentemente através dela, se autoproclamou o conselheiro técnico do filme de Nakoula Basseley Nakoula, o que provavelmente é verdadeiro.

Estamos diante de um ataque de radicais cristãos contra o islã. Mas o islã não é o judaísmo. Ontem circulou um cartum que mostrava um árabe pichando um judeu ortodoxo estereotipado cheio de sangue e demoníaco e uma criança pichando um Maomé bonitinho. O árabe gritava: "Você não sabe que isso é ofensivo?" Essa é a verdade neste caso. O judeu endemonizado fere a sensibilidade de poucos judeus, como a minha, por exemplo. A massa judaica não se importa. A massa judaica recebe este tipo de agressão há tantos séculos, não anos, mas séculos, que simplesmente não se importa. O Estado de Israel não se importa, considera liberdade de expressão.

E não nos importamos por quê? Porque como minoria imprensada nos guetos, sujeita a todo o tipo de leis discriminatórias e sem fazer parte dos exércitos, os judeus aprenderam a se calar para tentar sobreviver. Hoje a realidade é outra, mas o "cale-se" é tão arraigado que permanece. Os judeus que gritam são taxados de idiotas.

Qualquer livro de memórias sobre os judeus da Polônia, quando a comunidade era de 3,5 milhões, um terço da população do país traz: "... se um goy xingar você, roubar você, bater em você, não reaja... se reagir ele irá matá-lo... melhor ficar vivo para ser roubado novamente..." Isso quando éramos 1/3 do povo. Como minorias muito pequenas, nossa voz pouco importa.

Mas os muçulmanos são maioria e uma maioria enorme. Não lhes faltam nem armas descontroladas a nem apoio de aparelhos completos de Estado com exércitos complexos, forças aéreas, marinhas, forças especiais, serviços secretos, mísseis, armas nucleares, reatores nucleares, mídia controlada, sucessões controlada e petróleo. Sendo uma maioria destas eles podem fazer o que bem entenderem e o mundo vai continuar a se curvar, com poucas alternativas. Um cartum que demoniza um "judeu genérico" é uma coisa. Um filme que mostra Maomé desnudo fazendo sexo com um monte de mulheres e outra coisa.

O islã não está preocupado com a demonstração do caráter sanguinário de seu profeta contra os infiéis. Até aplaude isso. Mas numa teologia que não permite mostrar rostos, sequer mãos ou pés do profeta e seus seguidores originais (teologia sunita, pois na xiita mostram) as cenas de seios, coxas, peitos e sexo são um OFENSA CAPITAL, e a pena será se morte.

O ocidente tenta cobrir e compreender estes fatos com uma mentalidade ocidental, mas o problema é árabe muçulmano. A mentalidade é outra. O sistema de referências é outro. São condições normais de temperatura e pressão alienígenas às nossas. Nos países sem liberdade de expressão a liberdade de expressão é passível de pena de morte sumária sim. E se não se pode matar quem fez, que se mande um recado.

E aí é que precisamos entender que os ataques iniciados no dia 11, por salafistas (ideologia radical muçulmana criada na Arábia Saudita e apoiada pelo Estado) não tem a ver com o filme. O filme é um pretexto. O trailer de 14 minutos foi colocado no YouTube no dia 2 de julho. A legendagem em árabe chegou em meados de agosto e o ataque foi em 11 de setembro. Não há conexão. A Google removeu ontem o vídeo legendado em árabe.

Neste caso a Google deveria remover a versão em inglês também, pois a morte dos diplomatas americanos está se tronando lucro para Nakoula e Anthony. Há menos de 15 horas, o vídeo tinha sido visto por pouco mais de 250.000 pessoas. Hoje, com o caso estourado, já passou de 1.330.000 views. A mensagem do filme está sendo difundida de uma forma muito maior do que poderia ter sido. Segundo o diretor o filme foi passado na íntegra apenas uma vez e havia "um punhado de pessoas no cinema."

Salafistas são a Irmandade Muçulmana e a Al Qaeda. Qualquer ataque terrorista tem como característica o momento político local, a oportunidade, a surpresa e a cobertura. Neste caso, a cobertura é o filme, o momento político é o do poder nas mãos dos Salafistas e um mundo árabe sendo varrido por essa agenda. A surpresa é o ataque de uma forma inteligente que não pode ser retaliado, em princípio. Não há grupo específico atacando. Há grandes grupos populares atacando embaixadas americanas, com pouca ou nenhuma reação das polícias locais. A Al Qaeda criou uma forma inteligente de marcar seu território, pois parece que ninguém está impressionado com as centenas de mortes promovidas pela Al Qaeda no Iraque ao longo de agosto e neste início de setembro. É preciso que eles matem americanos para dar o recado. Deram.

Resta ainda um ponto. É prerrogativa dos regimes árabes e muçulmanos a produção de filmes e séries de TV ofensivas. Eles PODEM publicar Shatat, Zara Blue Eyes, Horseman Whitout a Horse, e todos os outros filmes com enredo baseado no Protocolos dos Sábios de Sião que quiserem. Podem vilanizar e demonizar os judeus à vontade. Podem exibi-los nas noites do Ramadã para incitar centenas de milhões de pessoas no ódio aos judeus, ano após ano. Eles podem fazer isso por serem amparados por seus governos, parlamentos, clérigos, milionários e população.

Nós não podemos. Não somos amparados por nada ou por ninguém. Os judeus que se insurgem contra esse massacre promovido pela mídia islâmica são apenas judeus idiotas.

José Roitberg - jornalista idiota

Obs: "idiota" é um sujeito com pouca inteligência. A pouca inteligência no caso é atribuída pela massa imbecil, aos que não se comportam como ela.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

AMIA – O Que Perdemos?

O tempo passa e um evento que foi marcante e definidor para os adultos de 1994, é uma história chata e incômoda para quem tinha menos de 15 anos na época.

Uma geração que hoje está abaixo dos 32 anos de idade, não viveu o atentado, apenas viveu os lamentos, as recordações e a impunidade.

Não se comovem com as imagens de época e não se emocionam com as mesmas manifestações choradas a cada dia 18 de julho.

A tragédia individual mantida no seio das famílias das vítimas fatais e no corpo mutilado dos feridos não é tragédia nenhuma para os outros jovens na Argentina.

E fora de lá então? Poucos realmente sabem o que foi o atentado e se importam com o que é.

Quem mata judeus fica impune

Em entrevistas dada à TV argentina vimos vários jovens judeus marcados profundamente pela sensação de que há impunidade para quem mata judeus, em todo o mundo, não apenas na Argentina. Isso é uma distorção muito grande e mostra uma comunidade em parte fechada em si mesma. Uma geração que cresceu refém de seu mortos velados, enterrados, mas que ainda não estão em paz.

Ao longo destes 17 anos não cessou por um instante a pressão antissemita num país que abrigou nazistas originais, abertamente antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial.

Um país onde o fürher local, Alessandro Biondini, cujo partido nazista, travestido como Partido Nuevo Triunfo, foi banido por falta de coeficiente eleitoral, disputou a vereança da capital nestas últimas eleições.

Tá certo, foi varrido por um rabino fundador de uma instituição de lembrança do caso AMIA, com 45% do total de votos para a câmara.

Isso mostra uma Argentina de momento, em que a população nada tem contra judeus. Mas são centenas de incidentes antissemitas relatados anualmente na Argentina sobre os quais se coloca o peso dos mortos e feridos há 17 anos e não permitindo uma ação contundente sobre os problemas atuais.

AMIA derrubada – Muros levantados

Mas o ataque no centro de Buenos Aires não destruiu apenas os dois lados daquele quarteirão, naquela rua.

O atentado desencadeou uma já esquecida onda antissemita mundial. Na Argentina foram milhares de pedidos de cidadãos não-judeus para que o governo removesse as instituições judaicas, as escolas, as sinagogas, as creches, bibliotecas e assistenciais de suas vizinhanças.

Apavorados, os argentinos não-judeus não queriam morrer quando terroristas viessem matar judeus. Até porque dos 85 mortos, 33 eram cristãos, 22 estavam na rua e 26 eram funcionários da AMIA.

Esse movimento durou quase dois anos. A AMIA precisou entrar na justiça para reconstruir seu prédio, pois os vizinhos tentavam impedir a todo custo.

Em várias cidades aconteceu a mesma coisa, inclusive em São Paulo e no Rio. O caso melhor documentado foi o dos moradores de Ipanema, onde existe a sinagoga Agudat Israel, hoje totalmente remodelada e moderna, enclausurada no meio de um quarteirão. Eles achavam que os terroristas poderiam explodir a todos para atingir a sinagoga e exigiram sua remoção à prefeitura, o que não aconteceu.

E foi também este atentado de 1994 que originou a necessidade dos muros contra bombas e carros-bomba que cercam as instituições judaicas em quase todas as cidades.

Toda essa geração com menos de 30 anos, cresceu numa comunidade onde as sinagogas não são vistas da rua, onde sua bela arquitetura deu lugar a muros horríveis, seguros e necessários, onde as escolas parecem presídios.

Uma realidade terrível, mas que não existia antes disso.

E estas obras, pelo menos no Brasil, tiveram que ser conquistadas na justiça, pois prefeituras não queriam permitir que os judeus se protegessem de forma "agressiva" como consideravam na época.

Em casos emblemáticos em São Paulo, moradores procuraram a lei para impedir que as sinagogas tivessem floreiras anti-bomba, alegando que abrir as portas de seus carros era mais importante que a vida dos judeus. Em momento algum se conseguiu uma bobagem: que o estacionamento nas fachadas de sinagogas fosse proibido. Meia dúzia de vagas aqui ou ali, não podem ser “retiradas do povo.”

Processo para não ser julgado

Hoje, vemos um processo judicial completo, talvez tornado ilegível intencionalmente.

Não há como nenhum promotor ler ou tabular dados encontrados ao longo de 45.000 páginas A4. Uma bíblia católica tem em média 1.357  páginas de dimensões menores. Assim você pode ter uma noção da proporção assustadora de depoimentos e dados, e provas de um caso que muitos ainda afirmando que não há pistas e que não se consegue encerrar.

Manobra inteligente do Irã

A intenção da entrada do Irã como parceiro  na apuração, elogiada temerariamente pelo ministro das relações exteriores portenho, Héctor Timerman, pode ser a manobra diplomática que fará o caso se estender por mais uma geração.

Não é preciso ser um gênio jurídico ou diplomático para perceber que a entrada oficial do Irã no caso deverá ter como exigência o acesso à totalidade do processo para análise dos juristas e investigadores iranianos.

Isso significa a descoberta e contratação de tradutores juramentados de espanhol para farsi e a tradução, impressão e cópia destas 45 mil páginas, mais dezenas de milhares de páginas de depoimentos e trnascirções de gravações.

Ou seja: anos de trabalho só na tradução. Depois vem a leitura, análise, investigação e o empurra da impunidade enquanto o Irã efetivamente participa das investigações. Talvez o regime dos aiatolás caia antes desse processo terminar.

Israel não liga para a AMIA

Decidi publicar este texto em 18 de agosto, passado exatamente um mês do 17º aniversário da tragédia para ver se os factóides daquele momento persistiam ou se fala de AMIA apenas em torno do dia 18 de julho e deixa-se para lá o resto do ano. Deixa-se para lá, realmente.

Não há nenhuma mobilização nem das comunidades judaicas dos países do Mercosul ou da poderosa americana ou de nenhuma das européias para perssionar pela definição do caso. E Israel? Ficamos aqui a pular por Guilad Shalit, mas você viu ou ouviu falar de algum evento em Israel sobre as vítimas da AMIA ou mesmo, sobre as 250 vítimas do ataque à embaixada de Israel em Buenos Aires ocorrido em 1992 – certamente com os mesmos autores? Não viu? É porque NUNCA houve!

A desgraça dos judeus latino americanos não interessa aos israelenses. Não há manifestação nem nos nichos de imigração argentina na Terra Santa.

E se ficarem, um punhado de argentinos na rua – digo um punhado porque 2 ou 3 mil pessoas numa comunidade de 200 mil é um punhado – reclamando uma solução enquanto o mundo judaico nem liga mais, o evento deixa de ser histórico para ser bizarro.

E nas manifestações dos últimos anos na Argentina, bem como as pífias manifestações pró-Shalit atuais o alvo está sempre errado. Se pronuncia pela libertação de Shalit ou contra o governo argentino. Mas as manifestações tem que ser contra os palestinos, contra o Hamas, contra o Hezbollah e contra o Irã.

Viva-se ou Foda-se

Só que os judeus não sabem se manifestar. Espero que o amigo de Facebbok que escreveu o que vou dizer esteja lendo isso. Faz alguns dias que um não-judeu de minha lista mandou um simples: “Viva o Sionismo!” BRAVO AMIGO! Você, não-judeu, tem a coragem de gritar o que nenhum judeu grita.

Eu garanto que estando dentro de estruturas judaicas a minha vida inteira, colégios, movimento escoteiro desde os 7 anos de idade, federação, sinagogas, clubes, grupos universitáios, jamais ouvi um judeu dizer: “Viva o Sionismo.”

Quando se fala do “Holocausto entranhado na mente das pessoas”, ou do “Galut (exílio) mental”, é isso. Medo de ser judeu. Medo de ser judeu na rua. Medo da democracia. Medo da liberdade de imprensa.

Judeus que não dão vivas ao sionismo, também são judeus que não gritam “foda-se o Hamas, foda-se  o Irã, seus antissemitas filhos da puta!” culpados pelo massacre da embaixada, culpados pelo massacre da AMIA, culpados por massacres em Israel, culpados pela chuva de mísseis vinda do Líbano e Gaza, culpados pelo patrocínio mundial do revisionismo do Holocausto.

José Roitberg – jornalista