quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

CIB nos anos 1950

O RIO JUDEU QUE O POVO ESQUECEU

Crônica sobre os momentos iniciais do Clube Israelita Brasileiro, até então Centro Israelita Brasileiro, publicada na revista Menorah número 481 de julho de 1999

Uma amorosa viagem pelo Centro Israelita Brasileiro do final dos anos 50.

por Samuel Szwarc

"Ai de ti, Copacabana" (Rubem Braga)

     Na mesma época que entrei para o científico (1953) meus pais trocaram a calma Tijuca, bairro classe média do Rio, onde estudei o primário e o ginasial, pela agitada Copacabana. Como definir Copacabana, ainda Capital Federal, no início dos anos 50, para um jovem sonhador que gostava de escrever, jogava voleibol, tênis de mesa e xadrez, com alguma qualidade, modéstia à parte,
     O bairro merecia a fama internacional que desfrutava. Sua capital: o Hotel Copacabana Palace, o Copa, o Bife de Ouro, seu famoso restaurante e a disputada pérgula e piscina com celebridades permanentes. O Hotel, aliás, acaba de comemorar seus 75 anos, com brilho renovado e público idem.
     Nós, garotos, que freqüentávamos a praia ali no posto dois e meio em (frente ao Copa), não entrávamos no hotel nem por decreto. O porteiro já nos conhecia, não deixava. O Copa era para seus hóspedes famosos e para os socialites da época, cujos nomes saíam freqüentemente nas colunas sociais que começavam a despontar, comandadas por Jacinto de Thormes e Ibraim Sued. Da mesma maneira que hoje ver novelas, o programa do Faustão, ou da Hebe, não era "bem” naquela época, ler colunas sociais, Mas a gente lia. Essas colunas, bastante renovadas, ainda hoje, são um espelho do que acontece na cidade.
    Véspera de ano novo em Copacabana. Como bom carioca, gostava de vestir branco na passagem do ano, ficava inclusive bonito o contraste com a pele morena.
    O bairro vai ficando mágico logo ao nascer do dia, Não há mais ansiedade. Quem tinha que sair já saiu. Li, recente, que carioca acha brega ficar em sua cidade, -durante o Reveillon. Mentira, sacanagem. Nesses últimos anos o espoucar de fogos, a magia do lugar, o sincretismo da Umbanda com seus atabaques, suas velas, seus mistérios, imperdível. Um luxo.
     Houve um tempo, não muito longe, que você não tinha medo de andar a noite por Copacabana.
     Recomendável, recomendável, nunca foi. Sempre houve naqueles tempos uma convivência aceitável com a bandidagem do local.
     O Lido, era lugar de boites animadas e de bares e restaurantes famosos. A gente, lá pelos 16, 18 anos, não freqüentava esses lugares. Não estava na moda pai pagar despesa de filho em boite ou restaurante, você tinha que trabalhar para usufruir.
     Cinemas, todos, vocês ia a pé de um para outro.
     Foi uma época rica: os musicais da Metro, a "nouvelle vague” francesa, o neo-realismo italiano, o cinema novo brasileiro.
     No teatro, Guarnieri, Boal e Nelson Rodrigues, abriam horizontes à dramaturgia brasileira.
     Os contistas mineiros, Guimarães Rosa, Mário Palmério, a Bossa Nova, (Tom/ Vinícius/João Gilberto), Maria Bonini na Bienal de Veneza. No esporte, Brasil pela primeira vez. campeão do mundo de futebol e basquete, Maria Ester Bueno no tênis, Eder Jofre no boxe. Nelson Pereira dos Santos e Roberto Farias com o cinema novo, e por aí vai.
     O período 56/60 foi muito fértil. Parece banal dizer isto agora que as evidências são mais notáveis.
     Faço apenas um superficial exercício de memória, e de reflexão.
     O que atingia a mim, à minha geração. Claro que existirão visões bem mais profundas. Bom para elas e para aqueles que sempre conseguiram enxergar, comparar e julgar as coisas.
     Politicamente, a década começou conturbada pela volta de Getúlio Vargas à Presidência da República, Do "mar de lama” ao suicídio foi um passo, Os meses seguintes (todo o ano 1955). foram marcados por golpes e contragolpes até a eleição apertada de Juscelino. Os seus 50 anos em 5 foram de arrepiar.
     Preciso dizer mais? Preciso. Ainda e principal-
mente que havia um clima de confiança e otimismo neste País. Que era um momento alegre, a despeito dos nossos sempre grandes problemas sociais. Respirava-se o melhor dos ares: o ar da liberdade.
      Éramos jovens. Isso acrescenta e desculpa muitas coisas. Como hoje, queríamos salvar o Brasil e o mundo, e tínhamos muitas fórmulas para isso.
      Certo ou errado, dávamos o nosso exemplo. Nem que fosse o exemplo de nossa insatisfação.
      Queríamos realizar, participar. E aquele casarão branco, majestoso, da Rua Barata Ribeiro, em frente à Rua Anita Garibaldi, ao da lado da Galeria Menescal, foi o "palco cênico” ideal para a excepcional oportunidade de provar isso.
      Chamava-se Centro Israelita Brasileiro, o CIB, e era o Centro da Comunidade Israelita Sefaradí, que imigrou vinda das cidades turcas e gregas de Ismirna, Salônica, etc.
      Há algum tempo mudou de nome, agora é Clube Israelita Brasileiro. Mas continua CIB.
      Dois salões. O de cima, para carteado, que a comunidade sempre foi chegada, sem distinção. No de baixo, o salão social, dos bailes, das atividades culturais e cívicas. Um bar térreo, um restaurante em cima. Na frente, varandas; nos fundos uma solitária quadra multiesportiva (o CIB era bom nos esportes coletivos: vôlei, basquete e futebol de salão). A sinagoga veio depois, lá pelo final dos anos 60, se não me engano.
      Poucos sócios. Talvez 300 famílias, pouco mais. E uma legião de sócios-atletas e sócios sociais, uma juventude bonita que freqüentava e apoiava toda a programação do clube. Que era totalmente idealizada pelos jovens componentes do seu Departamento da Juventude.
      Esses jovens, na faixa dos 18 aos 22 anos viravam o CIB de cabeça para baixo.
      Como responsáveis pela programação social e cultural, e sob a liderança de José Gomlevsky, diretor do Departamento de Juventude, aquele grupo fez e ousou.

O DEPARTAMENTO DA JUVENTUDE (DJ)

     Não me lembro exatamente quando começou o Departamento da Juventude do CIB. Acho em foi em 1956 ou 1957 quando José Gomlevsky foi eleito Diretor da Juventude e convidou um grupo do jovens entre 18 e 22 anos, que perambulava pelos corredores, alguns fazendo esporte, para compor o novo Departamento. Os jovens foram Moysés Akerman, Oscar Magtaz Z’L, Itamar Faul Z’L, Nelson Levy e eu. Pouco depois ingressaram: David Klajmic, o Darruda; Jacques Eduardo Hasson Z’L, que nos deixou tão apressado; Roberto Algranti, Jack Blajchman, Nilton Orembuch, Joaquim Breslauer, Alberto Mizrahy,
Enrico Goldner, o Caburé, Ariel Wainer Z’L, o João Laewenstajn ... . Se a memória não falha, estão todos aí. (Somente rapazes, observo hoje, de passagem ....).
     As reuniões eram realizadas pontual e religiosamente aos sábados a tarde, com surpreendente regularidade para uma turma tão jovem (e carioca), na sala da Diretoria, no andar térreo. O DJ era responsável pela programação social e cultural do clube, menos a esportiva que tinha um diretor próprio, o Dr.Isaac Amar, uma grande e querida figura, realmente fundador e grande batalhador do esporte no CIB. O grupo teatral, que encenava pelos menos uma peça por ano, era também responsabilidade de outras área.
     Esses jovens se auto-intitulavam "os cobras”, no sentido (pretensioso) de melhores, um convencimento desnecessário. Mas na realidade, desempenharam um importante papel na vida social e cultural da comunidade judaica carioca de então, sobretudo a jovem.
     De um modo geral, denominado "Guerra e Paz”, originou-se a Revista do CIB, dirigida desde o início por mim, pelo Moysés Akerman e pelo Oscar Magtaz Z'L.                                          


A PROGRAMAÇÃO

     2a feiras: o CIB fechava
     3a feiras: Carteado no salão superior de 3a a Domingo. Podia-se jantar ou comer um sanduíche, no restaurante/bar. Na quadra descoberta (anos depois fizeram o ginásio e a piscina), treino ou jogo de voleibol. Tênis de mesa no salão inferior.
     4a feiras: basquete ou futebol de salão na quadra.
       Ensaio do teatro.
     5a feiras: Sempre uma atividade cultural, como cinema, música, júris simulados, palestras sobre temas da atualidade, política, judaísmo e comportamento.
     Dizer qual a Bossa Nova - um momento excepcional da MPB, também nasceu no CIB (e ao mesmo tempo no Beco das Garrafas - Bottles Little Club - e no Clube Leblon, que não existe mais), pode parecer exagero, uma vez que isso não é mencionado no excelente livro do Ruy Castro.
     Embora o poeta maior Vinícius de Morais tenha expressamente se referido aos três locais em testemunho à Revista Manchete no anos 70.
     A nossa participação foi a seguinte: em 1958, um radialista chamado Estevam Herman, comandou no CIB, as quintas-feiras, um programa chamado samba-jazz.
     Samba numa 5a feira, jazz na outra. Nesses programas de samba ouvi pela primeira vez João Gilberto, Chico Feitosa "Fim de Noite”, Luís Carlos Vinhas, Ronaldo Boscoli, Luiz Eça, Nara Leão e tantos outros. No Carnegie Hall, de Nova York, já em
62 - aquela batida sincopada "conquistava o mundo", e eu deixo aos historiadores esses fatos passados no CIB, acho que narrados pela primeira vez.
      6a feiras: Em respeito ao Shabat, não havia
• programação, mas a sede ficava aberta. O CIB não era "religioso" mas obedecia razoavelmente aos feriados e festas judaicas, algumas inclusive comemoradas.
      Sábados: Pela manhã, praia, que estamos no Rio ensolarado, em Copacabana, no Posto 4. A tarde (5 hs em ponto) começava a reunião do DJ.
      E as noites, eram sempre mágicas, como devem ser a noites de Sábado quando se tem 20 anos.
      Era uma geração bonita, não tenho dúvidas.
      Namorava-se, dançava-se bolero e samba-can-ção de rosto colado, vimos surgir ritmos como o "Rock", o "Twist", o Chá, Chá, Chá, esses poucos depois.
      Sábado a noite era dia de bailes em traje "passeio completo", isto é, terno e gravata, música ao vivo com orquestras famosas como as Booker Pittman (pai de Eliana) e de Waldemar Spillman. As moças, bem produzidas pois a vaidade era estimulada, o intelecto também. Era o tempo do decote e da cueca samba canção.
     Os rapazes bebiam cuba-libre (rum com coca-cola), depois surgiu o "Hy Fy" (vodka com suco de laranja), o Whisky veio mais tarde.
     As moças pediam coquetel de frutas sem álcool.
     Nesses bailes, sempre havia show com artistas famosos: Silvinha Teles, Trio Irakitan, os Cariocas, Lúcio Alves, Tito Madi, Agostinho dos Santos e tantos outros.
     O CIB fazia baile de tudo que era tipo: debutantes - como era comum na época - desfile Bangu, patrocinado pela conhecida fábrica de tecidos: bailes de carnaval e "gritos de carnaval", com apresentação de escolas de samba, como Império Serrano e Mangueira; bailes de São João, com quadrilhas, fogueiras e todo mundo fantasiado. Alguns bailes eram a rigor, como o do aniversário do Clube, com o salão ricamente decorado pelo bom gosto da esposa do José Gomlevsky, Ligia Hazan Gomlevsky, filha de um dos fundadores do CIB.
     Aos poucos, fomos ficando menos formais, o traje virou esporte, a música ao vivo cedeu lugar à parafernália do som, da música disco, que começou no CIB, num salão pequeno e com poucas mesas. Com o sucesso, a música disco ocupou o salão térreo, principal, sempre lotado nessas ocasiões.
     Domingos: No último Domingo de cada mês, o DJ realizava um programa de auditório que fez bastante sucesso: "Responda se Puder". Um misto de perguntas e respostas sobre temas diversos e brincadeiras de todo tipo. Com premiações, sorteios etc.
Conheci bem este programa, era um de seus apresentadores ao lado de Moysés Akerman, Devido ao sucesso do programa, recebíamos convites para apresentações fora do clube, como a que fizemos no clube Caiçaras, no Rio, e luxo dos luxos, na Hebraica de São Paulo!
      Os bailes menos formais - domingueiras, ao som de música-disco (primórdio das discotecas^ -começaram também nos domingos.


O ESPORTE

      O Esporte coletivo no CIB, durante a década de 50. teve um destaque merecido. O CIB era bom no Vôlei feminino, bi-campeão dos jogos da Primavera, grandiosa promoção esportiva inter-clubes do lornal dos Esportes. Suas atletas mais famosas foram ,vou cometer omissões mas a citação é essencial' Violeta Cheniaux e Anita Bubman-. no voley masculino o CIB sempre esteve entre as três melhores equipes do Rio. vencedor de inúmeras macabíadas nacionais e sempre base do time de voley do Brasil em macabíadas em Israel. Destaques: Boris Guivelder. Eliahu Chut. Oscar Bergman. daniel Schwartz e Beniamm Tysenbaum, e até o time juvenil era formado por futuros craques: Carlos Arthur Nuzman ^campeão carioca e brasileiro de voley adulto, pelo Botafogo, muitos anos), Arnaldo Jagle e Milton Cohen no basket, foram destaques: Eliahu Chut. Efrãnio Caboudy, Fredy Cohen, Bob Zagury (que acabou tendo um famoso romance com a Brigitte Bardot'. e tantos outros. O futebol de salão começava com um técnico famoso o Maurício Apelbaum ("Gumex") e os seus craques eram José Apelkaum (Joca) e o Saul Waissman.
      No tênis de mesa, lembramos de Benjamin Goldgrob e jaime Rzezak. Não jogaram no CIB mas não podem ser esquecidos dois grandes atletas judeus cariocas da década: No basket, René Salomon. da ARI e depois da seleção brasileira, campeão do mundo; e Jaime Baidelman, no tênis de mesa.
      Como já foi dito, o Dr. Isaac Amar foi o grande diretor de esportes do CIB. Menção honrosa para seu auxiliar, dedicado e eficiente, Adolfo Mekler, o "Chapinha”.
      Um parênteses para um destaque a dois atletas de vôlei do clube Hebraica, das Laranjeiras, adversário precioso do CIB: Perez Becker e Selmo Astracham, com quem fiz uma dupla que guardo na memória.

FINAL

      Procuro me lembrar de alguma noite no CIB dos anos 50. Não me concentro em nenhuma noite em especial, seguindo o conselho que recebeu a personagem Emily, da peça "Nossa Cidade”, de Thornton Wilder, encenada no clube, com muito brilho, com a Léa Kohn no papel de personagem. O conselho foi: "Volte (no caso da peça, era para a vida), "mas não escolha nenhuma data em especial, escolha o dia, mais simples, e ainda assim ele será importante demais."Sendo assim, escolho uma noite qualquer de um dia qualquer, Na antiga portaria estão o Dorival ou o Mila. Ainda é cedo, são 7 e meia da noite, vejo o Murilo, funcionário da rouparia, montando a mesa do tênis de mesa. Espero os amigos para combinar o programa da noite, que começava no CIB e terminava muitas vezes na sessão das 10, porque cinema no final dos anos 50 tinha um nível excelente. Era no CIB o ponto de encontro, o "encontro marcado” para tanta coisa inofensiva e tantas outras, um pouco mais levadas.
     Destaque para o Sr.Ivan, um gentleman, Diretor Executivo, e com tanta justiça, destaque aos líderes da comunidade Sefaradi do CIB, que deram espaço para que aqueles jovens realizassem um grande trabalho.
     São eles: Salvador Esperança, Mateus Menaschê, Victor Hasson, Jacques Alhanati, Alberto Behar, Isaac Albalgi, Joseph Esquenazí Pernidgi e tantos outros, desculpem as omissões.
     Não sou - que pena - o historiador do CIB, uma das mais antigas entidades de nossa comunidade, que está a merecer uma pesquisa, quem sabe um livro de sua brilhante trajetória, e não apenas retratos deste memorialista de memórias tão duvidosas.
     Nesse trabalho de resgate, vamos encontrar histórias daqueles rapazes, que sob a liderança do nosso Zeca. editor desta Revista, estavam unidos e conscientes que naquele momento e naquele lugar eles tinham um papel a desempenhar.
     Pena que durou tão pouco ...
  
  ♦        Samuel Szwarc, casado, três filhos, duas netas, é carioca da Praça Onze, da Tijuca e de Copacabana. Foi atleta de vôlei da Hebraica e do CIB. Formado pela Faculdade Nacional de Direito, da rua Moncorvo Filho em 1960. Atua com negócio próprio das áreas de Marketing e Comunicação. Mora em São Paulo há 32 anos onde é membro dos Conselhos Consultivo e Deliberativo do Hospital Israelita Albert Einstein. do qual foi diretor por 28 anos. Também foi diretor da Associação Brasileira- A Hebraica de São Paulo em muitas oportunidades e é Conselheiro do Centro Israelita de Assistência ao Menor - CIAM. Contista, Samuel Szwarc venceu há alguns anos o Concurso de Contos do Clube A Hebraica do Rio, com o trabalho "Uma noite em Palmital”. É autor do livro "Contos Judaicos e Outros nem Tanto”.

© Editora Menorah 1960-2014

Um comentário:

Eva Setton disse...

Eu,Eva Setton(Eva Goldenberg) fiz parte do grupo teatral do CIB .Encenamos a peça "Vestido de noiva" do Nelson Rodrigues em 1961 e eu fiz o papel de Alaíde.O autor compareceu na estréia e fomos muito elogiados.Concorremos com a peça no 1º festival do teatro amador do Estado da Guanabara e ganhamos o 2º premio.Eu ganhei premio como melhor atriz.José Kogut,Léa Kohn,Alfredo Weg,Edy Kogut,Dinorah Brillanti,Jacob Daniel,Marlene Bregman faziam parte do elenco.Fomos dirigidos por Luis da Silva Ferreira.
Além dessa peça fiemos outra peças como "NOSSA CIDADE","WEEKEND","A ROSA E A CORÔA" e outras mais.
Foi uma época muito boa!