quinta-feira, 16 de julho de 2015

História do Cemitério Israelita da Vila Rosali

O Rio Judeu que o Povo Esqueceu

E História da Chevra Kadisha – Por José Roitberg - jornalista, pesquisador e  - Membro da ABEC

A Sociedade Religiosa Israelita Chevra Kadisha é incontestavelmente uma instituição da Comunidade Judaica que trabalha integralmente dentro do tripé do Judaísmo: Torá, Avodá e Guemilut Hassadim (Religião, Trabalho e Justiça Social).

CHEVRA KADISHA BARÃO DE IGUATEMI
Prédio atual da Chevra Kadisha - RJ, rua Barão de Iguatemi 306

Cada judeu e cada instituição judaica deveria estar inserida em pelo menos uma destas três bases. Por Torá entende-se o estudo propriamente dito das leis religiosas e da sua implementação. Avodá é o trabalho, pois os judeus precisam sustentar não apenas a si próprios, mas também auxiliar as pessoas em dificuldades. Isto se estende também às instituições dedicadas à Guemilut Hassadim, que é a justiça social, no sentido mais simples de não permitir a pobreza judaica e de redistribuição de renda.

Segundo seu estatuto, a Chevra Kadisha tem por objetivo: I - Manter e administrar seus cemitérios, a fim de proporcionar aos associados e seus familiares, a assistência ritual e religiosa judaica, no caso de falecimento, designando-lhes o local para sepultamento, em cova rasa perpétua; II - Prestigiar e auxiliar, financeiramente, as instituições judaicas de cunho beneficente, filantrópico, cultural, educacional ou religioso, com existência legal no País; III - Incentivar o estudo e estimular a prática da religião judaica.

Assim, a Chevra Kadisha faz uma enorme e dignificante trabalho ao adquirir terrenos destinados a servir de campo funerário, realizar as obras necessárias para tal destinação, manter segurança e prover os sepultamentos segundo as regras ortodoxas judaicas. Ela atua rígida e especificamente dentro dos ditames da Torá, garantindo, assim, a purificação e os sepultamentos em conformidade com as regras da ortodoxia judaica. Também é extremamente ativa na redistribuição de renda dentro da Comunidade Judaica, apoiando a educação formal (escolas); a informal (os movimentos juvenis sionistas e os grupos escoteiros, enquanto existiram); festivais de dança e filmes; os programas esportivos da Macabi; o Centro de História e Cultura Judaica (vinculada à ARI - Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro); o aperfeiçoamento de professores; os projetos educacionais mais amplos, como a Marcha da Vida (visita internacional conjunto ao campo de concentração de Aushcwitz, na Polônia); a impressão de um grande número de livros de autores judeus ao longo da história (como vários dos historiadores Egon e Frieda Wolf); todas as mídias judaicas ao longo dos tempos; ciclos de palestras; impressão de livros de orações (sidurim e machzorim) para as sinagogas; comemorações como a da Independência de Israel; Dia do Gueto; Dia do Holocausto; Dia de Jerusalém; aporte nas entidades assistenciais (como os lares de idosos e das crianças); apoio consistente aos projetos de kashrut de sinagogas; à FIERJ etc. Na MENORAH (setembro de 1974) vemos que a Chevra foi fundamental para a construção da sinagoga Beth Aron, inaugurada em 1962, em Laranjeiras.

Enfim, a Chevra Kadisha usa parte de seus recursos em manutenção, limpeza, segurança e melhoria e acréscimo de suas instalações, como a necessidade de elevar muros cada vez mais altos em perímetros enormes, bem como para patrocinar projetos comunitários integral ou parcialmente, sem jamais levar em consideração a ideologia ou a linha religiosa dos pretendentes ao apoio financeiro de seus respectivos projetos. Recebe contribuição de todos os judeus e a oferece a todas a instituições. Isso é Guemilut Hassadim, na prática e na teoria.

O nome Chevra Kadisha é oriundo do aramaico e significa ‘Sociedade Sagrada’. É a instituição responsável por um trabalho fundamental e antigo entre os judeus para a purificação ritual dos corpos, a ‘tahará’, e seu sepultamento dentro das normas em cada local e cada época. Este trabalho é considerado ‘chesed shel emet’ (traduzido livremente quer dizer ‘uma boa ação de verdade’). Atualmente a tahará é feita apenas na sede da instituição, na Rua Barão de Iguatemi, e não mais nos cemitérios, embora todos eles possuam instalações muito adequadas para esta função dignificante.


COMO TUDO COMEÇOU

Yehuda Leib Scherechevswky
Rabino Yehuda Leib Schereschevsky e seus familiares na década de 1920, foto publicada pela revista Menorah (RJ)

Em 1913, chegou ao Rio de Janeiro seu primeiro rabino ortodoxo. Chamava-se Yehuda Leib Schereschevsky. Segundo a história contada por sua neta, ficou sem comer carne até 1923, por não aceitar a kashrut (as normas alimentares de higiene judaica) que existiam por aqui. Pelo que entendemos ele foi o rabino da Sinagoga Beit Yakov (denominada Associação Beth-Jacob), fundada no início de 1916, registrada em 15 de junho de 1916 e dissolvida em 1935 (os documentos da instituição foram destruídos no desabamento da Biblioteca Bialik de 1957) e foi o rabino das primeiras tentativas do estabelecimento de um cemitério judaico ortodoxo, que resultou em Vila Rosali e na criação da Chevra Kadisha, numa luta iniciada em 1918, segundo ele, devido ao grande número de enterros de judeus, vítimas da Gripe Espanhola, no São Francisco Xavier. À diferença da sinagoga das Polacas em funcionamento desde 1906, os estatutos desta associação ortodoxa definiam em seu Capítulo 2, art 2o, parágrafo 2o que os sócios deveriam "ter um procedimento moral conforme o Decálogo" (Os 10 Mandamentos).

A imigração de judeus europeus tinha sido incrementada após o final da Primeira Guerra Mundial, tanto para fugir das economias devastadas na França, Bélgica, Alemanha, Áustria, Polônia e Romênia, quanto para fugir do comunismo que estava se consolidando na Rússia.

Os sefaraditas-árabes tinham seus próprios rabinos e eles não falavam iídiche, tal fato os mantinham dissociados da nova imigração europeia. Naquele momento havia cinco cemitérios onde os judeus podiam ser sepultados.

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Cemitério dos Ingleses a beira mar, no Saco da Gamboa em pintura de 1840

O cemitério dos Ingleses, na Gamboa, aberto em 1820 e o mais antigo do país, onde repousam cerca de 70 judeus aqui aportados a partir de 1810, quando caiu a lei portuguesa de 300 anos a qual proibia os judeus de residirem em quaisquer ‘terras lusitanas’. O Cemitério do Catumbi, a primeira necrópole pública do Brasil, descanso final do judeu David Morethson Campista, advogado, economista, político e diplomata e Ministro da Fazenda durante o governo de Afonso Pena. O São João Batista, em Botafogo, onde gente de todas as origens está embolada (inclusive mais de 400 judeus de todas as épocas).

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O Cemitério de São Francisco Xavier (Caju), em sua configuração original a beira mar. A quadra de acatólicos fica à direita na foto. Notar a fila dupla de palmeiras imperiais que dava a volta em toda a ponta do Cajú. Foram removidas durante a construção da Avenida Brasil que exigiu o levantamento do piso desta rua em 30 cm.

O Cemitério de São Francisco Xavier (Caju), no qual foi criada uma “Quadra dos Acatólicos” para serem sepultados protestantes, anglicanos, ateus e judeus.

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Túmulo de Sigfried Nathan, judeu, de 1873 no Cemitério de São Francisco Xavier, foto do autor

Há cerca de 2 mil túmulos judaicos apenas nesta quadra separada, sendo o mais antigo de 1873 (do alemão Sigfried Nathan). O Caju foi também o cemitério das “polacas” até 1916. Os enterros pré-1904 foram realizados pelos parentes e amigos e pelos rabinos em atividade nas mais diversas sinagogas. Não havia uma associação funerária.

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Foto de inauguração do Cemitério Israelita da Inhaúma (A Noite 30/10/2906)

Em 1906 as polacas criam a ABFRI - Associação Beneficente Funerária Religiosa Israelita, legalizada em 1913, e não há registros se a ABFRI controlava todos os enterros. Notícias de jornais nos mostram que ela atuava publicamente desde 1904. Porém em 1915, recebeu a autorização da Prefeitura do então Distrito Federal para a compra do terreno anexo à área de indigentes do Cemitério Municipal de Inhaúma, solicitado desde 1911. Lá se estabelece o Cemitério Israelita de Inhaúma, primeiro apenas judaico, para seus associados e a comunidade em geral, como uma forma de negócio, sem qualquer caráter beneficente. Há 770 judeus enterrados lá. Ver matéria específica neste link Cemitério Israelita de Inhaúma - Polacas

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Cemitério Israelita de Inhaúma, foto do autor (23/09/2012)

Assim, até 1920 estas eram as opções para enterros judaicos: ao lado das prostitutas e cafetões, figuras tratadas como párias em vida, ou junto de cristãos. Pelo volume dos sepultamentos, sabemos que cada um decidiu para si o que achou melhor. Até aquele momento não havia qualquer tipo de questionamento sobre validade de sepultamento pela halachá (lei judaica), ou de como seria a matzeiva (o "monumento" construído sobre o túmulo). Praticamente todos os túmulos de “polacas” e outros do período pré-1940 no Caju ou em Inhaúma contêm dizeres absolutamente corretos de acordo com as normas da ortodoxia judaica. Tanto é assim que o campo de Inhaúma possui quadras separadas por sexos, tal como se pratica em vida, no interior das sinagogas ortodoxas. Norma que a Chevra Kadisha deixaria de aplicar posteriormente.

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Dístico original da porta de entrada da sinagoga Beth Jacob preservado no Museu Judaico do Rio de Janeiro, foto do autor

Então para os imigrantes europeus as opções existentes eram inaceitáveis e se tornava necessário um cemitério próprio. O grupo dirigente da Sinagoga Beth Jacob, a qual em 1920 se localizava no número 130 da Rua Visconde de Itaúna (segundo o “Almanak Administrativo” de 1928) em cima do botequim de José Esteves Barros, considerada a principal sinagoga ashkenazita (as outras eram o Centro Israelita, no número 143 da mesma rua, ambas na Praça Onze, e a ABFRI, estabelecida do outro lado da Praça da República, o lado árabe, no sobrado do número 54), decidiu formar uma comissão. Tentaram obter um terreno junto à prefeitura do Rio de Janeiro, que respondeu negativamente, declarando que já existia um cemitério judaico municipal, o de Inhaúma.

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O prédio original da ABFRI, Praça da República 54 ainda existe e é o azul, hoje um anexo do Tribunal de Contas (TCE), foto do autor

Foi adquirido então, através da prefeitura de Nova Iguaçu um terreno na afastada localidade de Vila Rosali, no então distrito de São João de Meriti, e criada a Sociedade do Cemitério Israelita do Rio de Janeiro, em 1º de março de 1920 (segundo a historiadora Frieda Wolff), e imediatamente passou a operar “em terreno adquirido com autorização do Governo Federal (Correio da Manhã, 03/02/1932)”.

O que deveria ser uma solução redundou em confusão. Em 9 de julho de 1921, alguns meses depois de iniciado o funcionamento de Vila Rosali, a diretoria da Sinagoga Beth Jacob se reuniu para tratar “dos assuntos da Sociedade do Cemitério Israelita do Rio de Janeiro, da qual, a sinagoga forma parte e da qual também possui imóveis que se acham na estação São João de Merity, tendo em conta que a dita Sociedade do Cemitério Israelita não preenche seus fins, como provam os casos dos enterros da Sra. Jacob Brunstein, da Sra. Nachmam Fichbein, de dois filhos de Moisés Schoichet e de um israelita desconhecido, vindo de Kalich, enterros que foram realizados em desacordo com a religião e costumes israelitas” (Correio da Manhã, 10/07/1921 – Pag. 4). Como nenhum enterro até 1920 foi em ‘desacordo’ com a religião, é lícito depreender que havia discordância com a visão religiosa dos diretores da Beth Jacob daquele momento. E estes foram os primeiros enterros em Vila Rosali. O Moisés Schoichet citado no documento não é Moisés Singer, um dos fundadores da Sociedade do Cemitério Israelita, conhecido pelo apelido de ‘Moishe Shoichet’, que além de se dedicar ao abate ritual kosher, circuncidou mais de 25 mil meninos judeus no Brasil. Segundo o Dr. Luiz Chor, neto mais velho de Singer, havia uma placa de bronze com a lista de todos os fundadores junto à entrada original do cemitério. A placa se perdeu em algum momento desconhecido, assim como a sua ata de fundação.

A sinagoga Beth Jacob demonstrou ser especificamente autoritária nos seus comunicados e simplesmente decidiu: "1º - Dissolver a Sociedade Cemitério Israelita do Rio de Janeiro. 2º - Anular desde já todas as procurações e direitos dados aos Srs. Anno Lente, Boris Kuschnir, Moisés Oineff e Samuel Oineff, para assinar ou registrar documentos, cobrar dinheiro, ou efetuar qualquer ato em nome da Sociedade Cemitério Israelita, ou da Synagoga Beth Jacob. Assina: Simja Kupermann presidente da sinagoga. (Correio da Manhã, 10/07/1921 – Pag. 4)". O mesmo texto ainda convocou "todos os israelitas honrados" para uma assembleia a fim de fundar nova Sociedade pró-Cemitério Israelita do Rio de Janeiro. Assim, com a sociedade desfeita, foram mantidos na história os nomes dos ashkenazitas que puseram a mão na massa e iniciaram os trabalhos do Cemitério Israelita de Vila Rosali.

  padaria sterenkrank em Vila Rosali foto da RaquelÚnica foto conhecida de Abraham Szterenkranc (à esq) em sua padaria em Vila Rosali, cedida por sua filha Raquel

E por falar em massa, conhecemos outro dos fundadores: foi Abraham Szterenkranc, que se estabeleceu em Vila Rosali antes do cemitério, construindo lá uma padaria (também kosher) a menos de 200 metros do portão original do cemitério. Lá foi certamente um ponto de encontro de quem ia e vinha para os sepultamentos, enquanto se esperava o trem. Segundo nos conta Rachel Szterenkranc, como seu avô residia ali, foi ele quem fez os primeiros sepultamentos, se forjando padeiro-coveiro. O prédio da “Padaria Szterenkranc” ainda existe, bem como a antiga chaminé do forno de matzá. Foi onde se iniciou a marca Tikva, consumida no Rio de Janeiro por décadas. Posteriormente a marca foi vendida para outra família que, por sua vez, estabeleceu uma nova fábrica de matzá na Rua de Santana, fechada há poucos anos. Há matéria completa sobre este tema.

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Entrada moderna do Cemitério Israelita da Vila Rosali, foto do autor

Mas a questão Beth Jacob e a Sociedade iria se arrastar por muito tempo. Enquanto Simja Kuppermann, provável detentor da posse do terreno, queria criar uma nova Sociedade, no dia 16, a antiga convocava uma assembleia para aprovar o estatuto da Sociedade. Quem assinou a convocação foi um quinto nome do grupo original, o Sr. Samuel Linetsky, então secretário (Correio da Manhã, 28/07/1921 – Pag. 7).

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Vista para a direita da região da entrada original, que ficava no alinhamento do arruamento por onde estão as pessoas na foto. As quadras de túmulos menores e baixos à direita são de crianças, foto do autor

Naquela reunião entrou em ação o emblemático Jacob Schneider, líder político comunitário, ativista sionista, proprietário de várias lojas de móveis na Praça Onze e na Rua do Catete. Outra nota publicada pela Beth Jacob acusou Schneider de “impor novamente como presidente, o Sr. Anno Lent e como vice, Boris Kushnir” (Correio da Manhã, 1º/08/1921). Segundo a nota, houve uma discussão danada entre os sócios presentes, nada foi resolvido e a Beth Jacob resolveu fundar sua própria sociedade – novamente – e exigir a divisão forçada dos bens imóveis. Bem, isso nunca aconteceu. Pelo que parece, consumida pelo seu autoritarismo e conceitos religiosos próprios e radicais, quem se extinguiu em 1935 foi a Sinagoga Beth Jacob, num raro edital de convocação de assembleia para dissolução e destino dos bens (Correio da Manhã, 27/04/1935 – Pag. 13).

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Vista para o centro, podendo se ver o mausoléu do rabino-chefe Guertzenstein, mais escuro e mais afastado o Memorial Reduto dos Mártires (do Holocausto). A construção em último plano abriga entrada, secretaria, salões para o início da cerimônia de enterro (capelas) e as salas de tahará, lavagem ritual dos corpos, hoje desativadas. Foto do autor

Em agosto de 1922 a Sociedade prosseguiu se consolidando e já chamava para assembleia de prestação de contas e eleição de diretoria. Entre 1920 e 1928 foram sepultadas 280 pessoas em Vila Rosali e as fichas destes enterros se perderam. De 1929, até hoje, há um registro completo, ordenado e digitalizado. As fichas foram preenchidas em iídiche, mas em algum momento todos os nomes foram traduzidos. Sabe-se por matéria no Jornal ‘A Noite’ (11/09/1923) que polacas e caftens ofereceram pagamentos vultosos para serem enterrados em Vila Rosali, mas o local, denominado naquele momento como ‘Cemitério Israelita do Rio de Janeiro’, sempre recusou as ofertas. Em 1923, o presidente da Sociedade era o Sr. Motel Zveiter.

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Vista para a esquerda com alguns dos túmulos mais antigos. Após o muro branco há um estreito acesso da estação de trem à rua, complicado, inseguro e desagradável, confinado entre os muros do cemitério israelita e do municipal, foto do autor

Desde 1920, o cemitério foi estabelecido já com a definição junto à Prefeitura local de que não haveria exumações. Para Inhaúma, administrado pela Prefeitura do Distrito Federal, foram publicados vários editais de exumação por falta de pagamento renovatório dos túmulos. O Estado só entenderia que os judeus não exumam seus mortos em 1925, após várias reuniões com a ABFRI. Esta é a razão de muitos túmulos antigos no Caju contarem com a inscrição E.P.P.S. (“Está Pago Para Sempre”), ou J.P. (“Jazigo Perpétuo”) em suas lápides, ou ainda outras variações sobre o mesmo tema, como: PS - Para Sempre e SP - Sepultura Perpétua.

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Exemplo de sepultura judaica de 1894 com a pedra picada com a mensagem de não exumação. No cemitério São Francisco Xavier (RJ), túmulo 290, foto do autor

Conforme a lembrança do Sr. Herman Glanz, a primeira sede da Sociedade do Cemitério Israelita era à Rua Visconde de Itaúna, perto da esquina da Rua de Santana, para a qual se mudou em seguida. Herman ainda se recorda de ter ido a velórios na Rua de Santana. De lá todos iam para a estação de trem de Francisco Sá – hoje demolida ao final da Rua Ceará – do Ramal da Leopoldina Railway. Antes da disseminação dos telefones entre os judeus, alguém ia até a estação e pedia pessoalmente a colocação de um vagão funerário para levar o esquife. Os familiares e demais pessoas compravam passagem em um vagão normal. A viagem levava cerca de uma hora e o desembarque era em uma elevação de terra na porta do cemitério. A única entrada do cemitério foi por ali até 1960. É costume dos cemitérios israelitas ordenar o sepultamento a partir da porta. Assim, os que ficaram próximos à entrada, hoje estão nos fundos.

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Atual estação de trem Vila Rosali, o cemitério fica à direita e não há entrada por este lado.

Em 1925 o Ministério da Viação atendeu ao pedido da Sociedade Cemitério Israelita para os trens pararem no cemitério quando levando caixões para os enterros. Desta parada surgiu a estação Vila Rosali, inaugurada em setembro de 1929: "... que os trens da Estrada de Ferro Rio D'Ouro, quando conduzirem esquifes, façam parada em frente ao cemitério de sua propriedade" (A Noite e outros, 20/10/1925). Era uma época sem muros. De fato, os muros não são vistos nem no filme de 1947 da cobertura do ‘Enterro do Sabão’, a inauguração do primeiro Memorial do Holocausto nas Américas, em 1947, objeto de matéria completa na edição 644 de MENORAH, de maio de 2013.

Não fazemos ideia das durezas do passado. A purificação ritual dos corpos (tahará) antes do sepultamento é uma necessidade na religião judaica. Mas você acha que havia água encanada em Vila Rosali em 1920? Pois não havia mesmo! Doze anos depois, em 1932, uma comissão da Sociedade Cemitério Israelita, composta pelos Srs. Emílio de Mesquita, Luiz Ferman (presidente naquele momento) e Henrique Perelberg foi recebida pelo Ministro da Educação e Saúde, o célebre Dr. Francisco Campos (‘Chico Ciência’) para pleitear água encanada (Correio da Manhã, 03/02/1932). ‘Chico Ciência’ aceitou o pedido e em breve a água de poço estaria esquecida para sempre. Segundo o pedido, os canos já estavam passados e operando na região, inclusive atravessando o terreno do cemitério, mas o departamento de águas e esgoto indeferiu uma solicitação anterior para a colocação de um hidrômetro. O asfalto só chegou às ruas do entorno e acesso a partir da Via Dutra em 1963, por intervenção do deputado estadual Gerson Berger. Com as ruas asfaltadas, o cemitério muda de configuração, constrói seu prédio atual e inverte a entrada. Por alguns anos ainda existiu uma porta estreita para a Estação Vila Rosali, mas depois foi emparedada. Não há fotos conhecidas da entrada original deste cemitério, ou de obras realizadas na região.

As atas entre 1920 e 1947 foram escritas em iídiche e não existem mais. É provável que tenham sido intencionalmente destruídas após o governo Vargas proibir todas as publicações em língua estrangeira durante a Segunda Guerra Mundial, para evitar qualquer suspeita sobre a entidade que se manteve bem discreta, quase sumida. Não existem fotos antigas. Na mídia geral aparece somente nas datas citadas nesta matéria. De 1947 até 1956, todas as atas existem em iídiche manuscrito e pelas poucas linhas, quase não há informações. São documentos muito informais e pouco informativos. A partir daí todas são completas, burocráticas, em português, com todos os dados e projetos contemplados.

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Entrada do Memorial Reduto dos Mártires, foto do autor

Em 1948, ainda com bastante espaço no cemitério ‘velho’, mas muitos dos locais disponíveis já reservados ou adquiridos, é inaugurado o cemitério ‘novo’, a menos de um quarteirão de distância. A placa de inauguração deste novo campo também se perdeu. Em 18 de dezembro de 1949 foi lançada a pedra fundamental do ‘Reduto dos Mártires’, a construção conhecida como ‘Memorial do Sabão’. O Memorial ainda existe, bem conservado, no centro do cemitério. Há matéria completa disponível sobre O Enterro do Sabão. A única outra construção que lhe faz sombra é o grande mausoléu da família do rabino Marcos Guertzenstein (falecido na Bahia). Guertzenstein foi primeiro grão-rabino ashkenazita do Rio de Janeiro.

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Mausoléu do rabino-chefe Marcos Guertzenstein e da esposa dele, o único que existe em todos os cemitérios operados pela Chevra Kadisha do RJ, foto do autor

O ano de 1956 foi emblemático. Uma assembleia geral em 18 de novembro elege nova diretoria e decide pelos documentos em português. Foi a primeira vez que a entidade se denominou publicamente como ‘Chevra Kadisha.’ Seu presidente era Walter Weistman e o vice era Abram Erlich. Em 27 de março de 1960 findou a construção do prédio, atualmente a entrada do Cemitério de Vila Rosali Velho. A obra foi do engenheiro Pinhas Scolnik e do Dr. Guido Cohen, na presidência do rabino Moises Zingerevich.

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Entrada do Cemitério Israelita de Vilar dos Teles, foto do autor

Com a redução de espaços disponíveis em Vila Rosali, a Sociedade adquiriu o terreno de Vilar dos Teles. Sua construção ocorreu entre 1989 e 1990, quando foi inaugurado, na gestão de Jorge Jurkiewicz e Izak Kimelblat como vice. O idealizador da obra, já falecido naquele momento, foi o Dr. Leão Fajwus Gleizer, ex-presidente. Cada um dos cemitérios é um reflexo arquitetônico de sua época e Vilar dos Teles possui uma configuração arejada, muito verde, florida, a qual transmite mais tranquilidade com as matzeivot baixas.

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fotos do autor

Contrasta com os cemitérios antigos, áridos e de certa forma sufocantes com suas matzeivot altas escuras. Em 28 de setembro de 1997 foi inaugurado o Memorial do Holocausto, projeto de Jacob B. Goldemberg, e em 8 de dezembro de 2002 uma guenizá (local para enterro de rolos de Torá danificados e outros paramentos litúrgicos). A única existente até então, no Rio de Janeiro, ficava no Cemitério Israelita de Nilópolis.

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Guenizá do Cemitério Israelita de Vilar dos Teles, próxima à capela, foto do autor

A sociedade era gerida por uma diretoria de 18 membros, eleita de forma democrática por três anos, e por um Conselho Deliberativo de 30 sócios. O Estatuto da Chevra Kadisha segue a orientação do Shulchan Aruch, uma compilação das regras de conduta judaica – Halachá (“Caminho”) baseada no sistema legal judaico pós-bíblico, ou seja, no Midrash, na Mishná e no Talmude.

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Capela do Cemitério Israelita de Vilar dos Teles, fotos do autor

A Chevra Kadisha criou há cerca de 30 anos uma nova metodologia de arrecadação de fundos. Foi na gestão do Sr. Max Dolinger (1986/1992), em que se adotou o critério de oferecer às famílias, exatamente em seus momentos de profunda dor, distintas localizações com variedade de preços e de possibilidades de pagamento previamente conhecidos, de tal sorte que é a família, a seu critério, quem escolhe o que entende ser possível e adequado à sua realidade, gerando assim uma absoluta tranquilidade no relacionamento da Chevra Kadisha com o Ishuv.

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Vista parcial de uma das quadras de Vilar dos Teles tomada em direção ao portão, foto do autor

A gestão de Nilton Aizeman (1992/1998) criou regras importantes no processo de doações. Foi quando passou a ser prévia e anualmente determinado os percentuais da verba de donativos a serem destinados para cada segmento de atividades da comunidade, dividindo o montante das verbas, cuja distribuição é: para Educação (formal e informal com 50%), Religião (30%), Assistência Social (10%) e Cultura e Lazer (10%). Esta ação, aparentemente simples, mas que requer permanente avaliação, trouxe a desejada transparência ao processo de doações da instituição.

Posteriormente, em 2007, a Chevra Kadisha instituiu normas e critérios disciplinando a apresentação e aprovação de projetos que demandassem seu apoio financeiro, de pleno conhecimento das instituições judaicas do Rio de Janeiro.

Podemos ter a certeza absoluta de que a Chevra Kadisha permanecerá em seu rumo de Torá, Avodá e Guemilut Hassadim, enquanto houver judeus no Rio de Janeiro.

Presidentes da Chevra Kadisha: 1920 - Anno Lent z'l; 1923 - Motel Zveiter z'l; 1932 - Luiz Ferman z'l; 1956 - Walter Weistman z'l; 1961/1964 - Rabino Moisés Zinguerevich z'l; 1968/1974 - Jayme Roizenblit z'l; 1974/1980 - Chaim Henoch Zalcberg; 1980/1986 - Leão Fajwusz Gleizer z'l; 1986/1992 - Max Dolinger; 1992/1998 - Nilton Aizenman; 1998/2004 - Eliezer Lewin; 2002/2008 - Mauro Rodin; 2008/2014 - Paulo Chor.

OBS 1: Nos três cemitérios gerenciados pela Chevra Kadisha no Rio de Janeiro há cerca de 28.000 sepulturas na data de fechamento deste artigo.

OBS 2: Por determinação na família, não temos autorização para publicar a foto do primeiro túmulo do Cemitério Israelita da Vila Rosali.

© 2014 José Roitberg - jornalista e pesquisador
ABEC - Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais

quinta-feira, 9 de julho de 2015

VII Encontro Nacional da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais

APOIO ICONOGRÁFICO DO TRABALHO SOBRE ENTERRO JUDAICO E CEMITÉRIOS JUDAICOS.

por José Roitberg - jornalista, pesquisador e membro da ABEC

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Túmulos Cemitério Israelita de Vila Rosali, no Rio de Janeiro, mostram vários elementos tradicionais básicos. À direita temos no alto a Estrela de David com as letras Pei e Nun, inscritas, que significam em hebraico, Pó Nikbar (Aqui Jaz). Na última linha desta lápide e da maior parte dos túmulos judaicos antigos encontramos outro grupo de 5 letras, que podem ser separadas por pontos, ou não (como estas) que significam “Que sua alma faça parte da Corrente Eterna da Vida” e indica que este sepultamento foi pelos ritos ortodoxos.

Na lápide à esquerda vemos uma Estrela de David simples no alto, e na pedra principal as mãos na posição da “benção dos coanim” (dos sacerdotes do Primeiro e Segundo templos de Jerusalém), indicando que o falecido acreditava ser de uma família oriunda dos coanim. As letras Pei e Nun estão abaixo da imagem da das mãos.

 

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Detalhe de uma ala especificamente feminina em um cemitério judaico na Ucrânia onde todos os túmulos possuem detalhes diferentes, provavelmente ligados a um modismo local do século XVIII, mas todos possuem o castiçal de 5 velas, um castiçal apenas funeral e de luto judaico, atualmente em desuso, que remete aos 5 estados da alma judaica: Nefesh, Ruach, Neshamá, Iechidá e Chaiá. Se alguém quiser ter um entendimento mais completo destes cinco estados, temos um bom texto em inglês neste link.

 

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Lápide do século XVIII em cemitério na Criméia (ex-Ucrânia) traz, à direita um castiçal de três velas, indicando ser um túmulo feminino de mulher que acendia as velas do shabat, e consequentente praticava a religiosidade judaica e à esquerda, a flor de seis pétalas, típica dos túmulos judaicos em países árabes ou sob dominação islâmica quando a estrela de David e a candelabro de 7 velas (a Menorá) eram proibidos. Naquele momento histórico a Criméia pertencia ao Império Otomano.

 

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Túmulo judaico feminino na Alemanha, do século 19, traz a flor de três pétalas em formato moderno de estrela, numa configuração pouco usual, pouco documentada e cujo o significado para parte da comunidade judaica se perdeu. É pouco provável que a família Schwarz fosse oriunda de área muçulmana.

 

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Lápide do século 18, no cemitério da cidade de Klatovi, na República Tcheca, traz o cacho de uvas, símbolo já esquecido de um Israel idealizado antes da existência do sionismo e do próprio estado.

 

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Uma jarra nesta lápide do início do século XIX na Alemanha indica que o falecido acreditava ser descende da tribo de Levi, dos levitas, funcionários e operários do Primeiro e Segundo templos de Jerusalém. As pinhas, não remetem a significado judaico conhecido devem ser ou modismo de época ou algo pessoal relacionado com a vida do falecido.

 

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Neste cemitério da Inglaterra do século XVII temos lápides típicas que foram utilizadas ao longo da Idade Média e pouco depois com um pequeno relato da vida do falecido. Os dois túmulos da esquerda com jarras sendo despejadas são túmulos de homens levitas e o da direita, de homem coen. Nestes túmulos não vemos as letras Pei e Nun, e sim Pei e Tet, que significam “Aqui foi escondido ou encoberto” o falecido, no sentido de estar fora das vistas das pessoas. É um modismo antigo e não mais utilizado.

 

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Um shofar, ou instrumento de sopro litúrgico feito com um chifre de carneiro, nos diz que o falecido era quem o tocava nas cerimônias religiosas. Neste caso, o picador de pedra não sabia como fazer o instrumento e o picou parecendo um cachimbo.

 

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O livro aberto indica ser um estudioso da Torá e das leis judaicas e a faca nos informa que ele era o ‘shoichet’, o judeu responsável por abater animais e aves para alimentação de acordo com as leis de higiene judaicas. Um shoichet poderia ser também um açougueiro ou não. Era comum nas pequena aldeias antigas que as mulheres comprassem suas galinhas vivas e o shoichet passasse nas casas das pessoas para realizar o abate de forma profissional se sustentando com as pequenas quantias obtidas.

 

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Como acima, temos o livro aberto junto a duas pequenas facas de formato pouco usual. Elas eram os instrumentos do ‘moel’ o responsável por fazer a circuncisão nos meninos no oitavo dia de vida.

 

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Duas lápides de rabinos em cemitério do século XVIII na Alemanha nos mostram livros em duas configurações bem distintas. O da direita é um coen, fazendo o sinal da benção dos sacerdotes e o da esquerda, com um leão é um membro da tribo de Judah.

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Leões podem vir nas mais diversas configurações e há detalhes que podem complicar o entendimento. Temos a jarra, que indica o falecido ser um Levi, então ele não pode ser Levi e Judah ao mesmo tempo. Para dificultar um pouco as coisas, houve momentos históricos em que as pessoas atribuíam as figuras de animais às pessoas falecidas cujos nomes próprios, nas mais diversas línguas remetiam ao tal animal, o que parece ser este caso. O falecido, provavelmente chamava-se Arie, Judah, Leib ou Loew.

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Os túmulos judaicos costumam ser modestos, mas você pode se deparar com artes grandes, caras e sofisticadas como este leão no Velho Cemitério Judaico de Praga. Abaixo, detalhes deste cemitério no antigo bairro judaico, que já foi cidade judaica de Josefov. Foram contadas 12.000 lápides amontoadas desta forma, mas estima-se que haja 100.000 sepultamentos no local em suas várias camadas de terra. A lápide mais antiga localizada é de 1439 e a última é de 1787. Chama-se originalmente “O Jardim Israelita”. A ‘lei judaica’ não permite que o cemitério seja escavado. Assim historiadores divergem com contas que variam de 5 a 12 camadas de sepultamentos.

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A imagem de um veado nos indica ser o sepultamento de alguém relacionado a tribo de Naftali. No caso de homens, poderia ser pessoas chamadas Zvi ou Hirsh, mas o buquê de flores com uma grande rosa virada para baixo além de uma flor menor ao lado nos indica ser um túmulo feminino.

 

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Uma coroa nos indica ser o túmulo de um rabino chefe de cidade, região ou mesmo de país. Incidentalmente também era ele quem tocava o shofar nas cerimônias religiosas onde isso era necessário. Apenas homens podem tocar tal instrumento.


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Como deixamos claro no artigo, não há regras escritas que padronizem túmulos judaicos. Na realidade, cada um faz o que quer. Esta coroa de rabino-chefe no túmulo de frau Mina Kohn, nos leva a imaginar ela ter sido esposa de um rabino-chefe. À direita o túmulo de um coen.

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Pássaros são utilizados em túmulos de moças possivelmente virgens, mas curiosamente são encontrados no Brasil em túmulos de prostitutas judias, das Polacas. É só uma inferência, imaginar que elas talvez tivessem mandado picar pássaros em seus túmulos esperando que no futuro, quando alguém os observa-se tivesse a certeza de que eram moças novas e virgens e não prostitutas. Mas não leve isso como fato, ok. Temos ainda dois castiçais com as velas de shabat partidas indicando uma morte prematura, ainda jovem.

 

tumulos com retratos grandes
Enquanto nos últimos 25 anos a interpretação dos rabinos brasileiros diz que não se pode colocar fotos nos túmulos, nos EUA e Rússia, uma nova técnica de impressão com ácido permite fotos enormes nas lápides.

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A liberdade para fazer a lápide como se quer pode ser ilustrada nesta foto de um cemitério judaico nos EUA, onde podemos ver vários dos elementos discutidos no artigo em uma tomada só.

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Exemplo de cemitério judaico, na Judeia, da época bíblica
em Beit Shearim, foto de Ronaldo Gomlevsky, 200

© 2015 - José Roitberg
ABEC - Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais

sábado, 13 de junho de 2015

DRÁCULA CAÇADOR DE NAZISTAS

Pilot officer Lee in Vatican City, 1944, soon after The Liberation of RomeCalma! Não é um novo filme em resposta ao bizarro Abraham Lincoln Caçador de Vampiros... É a vida real do recém falecido Sir Christopher Frank Carandini Lee. Vamos deixar para lá seu pior papel nominado como conde Dooku, grande aliado de Sifo Dias em Starwars... E vamos nos concentrar no que ele fez na vida real.

Nascido em Londres, em maio de 1922, filho de um tenente-coronel do exército britânico, que combateu na WW1 e na Guerra dos Boers, Lee não foi criado pelo pai, que se separou de sua mãe quando ele tinha apenas 4 anos de idade. Mas ao iniciar a Segunda Guerra Mundial Lee se voluntariou para combater os soviéticos, em 1939, então aliados dos nazistas, que haviam invadido a Finlândia. Tinha 17 anos. O batalhão inglês desta fase pouco divulgada da WW2 não entrou em combate. O governo finlandês optou por colocar aqueles soldados nas posições de guarda e segurança na retaguarda, liberando soldados do país para o combate. Aliás, a Finlândia venceu os soviéticos.

Em 1941 se alistou na RAF - Real Força Aérea, recebendo treinamento de piloto. Em sua última aula antes do voo solo, passou mal, com dores de cabeça e visão borrada e foi diagnosticado com falha no nervo ótico, sendo proibido de voar novamente. Passou então por vários postos em terra na RAF até decidir alistar-se no serviço de inteligência. Sua decisão foi deplorada por seus superiores que o transferiram para o serviço de carcereiro na prisão de Salisbury. Alguns meses depois desta punição, foi enviado para África do Sul e depois para Suez, no Egito, onde passou a trabalhar como oficial de inteligência aérea. Foi comissionado como oficial piloto e designado como oficial de inteligência para o Esquadrão 260 da RAF, participando da campanha contra o Afrika Corps nazista do general Romell. Durante o auge desta campanha, o 260 executava cinco missões por dia. Terminada a campanha africana, o 260 participou da invasão da Sicília.

Depois da Sicília veio a Itália. Lee foi transferido para a Oitava Divisão de Infantaria Indiana, os Gurkas, com os quais participou da batalha para a tomada de Monte Cassino como oficial de ligação com a força aérea. Em 1944, estava presente na libertação de Roma, onde foi tirada a foto que acompanha esta matéria. Foi promovido então, a tenente e enviado para o Quartel General da Força Aérea, participando lá do restante da guerra. Lee dominava fluentemente o francês e o alemão. Quando a guerra terminou, foi transferido para o Registro Central de Criminosos de Guerra com a função de localizar criminosos de guerra nazistas. Em sua biografia ele nos conta:

"Nos deram dossiês do que eles fizeram e nos mandaram encontrá-los, interrogá-los o quanto fosse possível e depois entregá-los às autoridades competentes... Nós vimos aqueles campos de concentração. Alguns tinham sido limpos e arrumados. Outros não." Deu baixa na RAF apenas em 1946 com a patente de tenente aviador.

O grande personagem Drácula, viria apenas em 1958. Foi uma escolha estranha, pois um ano antes Christopher Lee tinha se lançado no cinema como o monstro Frankenstein, com seu parceiro de vários filmes, Peter Cushing, como o barão.

© 2015 José Roitberg - jornalista e pesquisador

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Sociedade Israelita de Educação de Madureira - Uma escola que nunca existiu?

CAMPANHA-PARA-LEVANTAMENTO-DE-FUNDOS-PARA-A-CONSTRUÇÃO-DA-SÉDE-SOCIAL-DA-SOCIEDADE-ISR

O Rio Judeu Que o Povo Esqueceu

Na foto, vc vê um fragmento de uma rifa de levantamento de fundos para a construção desta escola judaica, cujo projeto avançado está desenhado. O valor era de 50 cruzeiros. Não há data neste pedaço de documento. O cruzeiro foi adotado em 1942. Sabemos que em Olaria, a escola Mendele Mocher Sforim era ligada ao Centro Israelita Leopoldinense.

Se alguém tiver qualquer informação sobre esta iniciativa em Madureira, por favor complemente nos comentários. Não há nenhuma referência à Sociedade Israelita de Educação de Madureira em qualquer trabalho histórico sobre os judeus do Rio de Janeiro.

É curioso ver Madureira escrito em hebraico na última linha, com dois 'iud...'

© 2015 José Roitberg - jornalista e pesquisador

domingo, 7 de junho de 2015

Tomorrowland

tomorrowland_athena

Assisti Tomorrowland da Disney apenas para ver como eles estão na ficção-científica, uma antecipação ao Star Wars. Estão bem. Entre mesmices de viagens no tempo e mundos paralelos desengavetaram um roteiro para lá de original com um encerramento da história digno de novela da Globo. Vai ver que é isso que o povão gosta, mas para mim isso deixou a história no ar, não encerrada.

O visual futurista chega a ser chocante e inusitado. A ligação do futuro com a Feira Mundial de 1965 é linda. Temos bons cenários de 1965, bons cenários atuais, bons cenários futuristas e bons cenários steampunk. Todas as vertentes foram contempladas.

Mas apesar do efeito visual, acaba sendo um filme de artistas, um filme de trabalho de representação em cena. Lamentavelmente é divulgado, inclusive nos cartazes com a participação de George Clooney o mocinho, esquecendo-se os divulgadores de apontar Hugh Laurie (o House) como um excelente vilão. O público soltou um "iihhh", quando ele apareceu em cena pela primeira vez. Todo mundo já imagina ao que veio. Se há um personagem principal é o da adorável Britt Robertson, com 25 anos, destra vez loira, parecendo uma menina de 16. A moça começou na tela aos 10 anos de idade e já acumula 40 créditos. Personagem impecável e convincente. Faz o que um ator deve fazer: cria empatia com o público e deixa as pessoas emocionadas.

Só que a Disney é especialista em lançar meninas prodígio que depois se acabam pela vida. Vamos torcer para desta vez ser diferente. Se você gosta de fato do cinema e da história do cinema, você tem um motivo muito forte para assistir Tomorrowland. É conhecer Raffey Cassidy, lindíssima, com 13 anos, dois anos depois de ter sido a Branca de Neve menina, em Branca de Neve e o Caçador. Raffey sequestra o filme inteiro. Show! (na foto)

Os trailers divulgados não fazem jus ao filme ou à história.